Menestréis do mau agouro (I)?

No dia 12.11.07, por volta das oito horas da manhã tinha acabado de chegar na Corregedoria da Polícia Civil (Florianópolis) e encontrei o Investigador Policial “Zico”  e, em seguida também a policial Patrícia Angélica. Estávamos prestes a iniciar uma viagem pelo norte do Estado, com passagem por Curitiba (PR). Conversei com Patrícia Angélica que me repassou dois cheques de diárias, em cuja ocasião pude perceber que especialmente ela estava preocupada porque alguém tinha lhe avisado que se depositasse seu cheque o mesmo somente seria compensado quarenta e oito horas depois, razão porque queria saber se eu poderia lhe emprestar uma parte do dinheiro. Argumentei que se ela depositasse na agência do Besc onde possuía conta o dinheiro entraria no mesmo dia. Patrícia Angélica comentou que se fosse assim depositaria o cheque e não precisaria os valores. Argumentei que logo em seguida, antes da viagem, passaríamos no Besc e depositaríamos nossos cheques de pagamento para garantir o recebimento das nossas diárias. Em seguida, desci até a recepção e comuniquei “Zico” que passaríamos pelo banco e logo que fiz isso ele  imediatamente rebateu:

- “Doutor, não adianta, se os cheques de vocês forem depositados com envelope só vão compensar depois de quarenta e oito horas...”.

Interrompi:

- “Não ‘Zico’, se depositarmos na agência onde a gente tem conta entra no mesmo dia”.

“Zico” não teve dúvidas e em tom mais replicante, ponderou:

- “Não adianta, doutor, não entra, eu tenho certeza. Depois, para chegar no Besc tem que se dar uma volta na cidade, é melhor ela ir a pé, eu não vou!”

Procurei conter minha indignação com a replicância do menestrel do mal agouro e resolvi ir  a pé até a agência bancária (“Besc” localizado na rua Tenente Silveira, esquina com Jerônimo Coelho) e de lá liguei para a telefonista Ieda avisando que era para o “Zico” e a Patrícia Angélica me encontrarem naquele local. Passados uns quinze minutos os dois Investigadores chegaram e ela depositou seu cheque que foi transformado em pecúnia no mesmo ato. Embarquei na viatura e perguntei para Patrícia Angélica se estava tudo certo e ela respondeu que depositou seu cheque e que conversou com alguém do banco que informou que o cheque seria compensado uma hora depois... “Zico” rapidamente se explicou:

- “Ah, sim, é porque vocês têm conta, aí sim compensa...”.

Olhei para “Zico” e engoli em seco, era realmente um exercício mental ter que aguentar uma pessoa tão pessimista...

Exatamente às nove horas e vinte minutos (aproximadamente), já estávamos viajando, isso depois de trocar o óleo da viatura (Renault Cénic). “Zico” tentou se explicar dizendo que no final de semana lavou o carro e verificou a água. Fiquei quieto porque aquele poderia ser mais um pretexto para ter ficado com a viatura no final de semana em sua casa...  A conversa fluía e pude observar que “Zico” estava dirigindo a cento e quarenta por hora..., o que me obrigou a ter que lhe chamar a atenção como em outras oportunidades, advertindo que a velocidade máxima era cento quilômetros... “Zico” ponderou:

- “Doutor, a pista aqui é dupla, então eu posso dirigir a centro e quarenta...”.

Interrompi, já quase como uma repreensão:

- “Não ‘Zico’, se você quiser dirigir a cento e quarenta, cento e sessenta por hora que faça sozinho, mas não comigo. Você é o motorista e responsável pelas nossas vidas...”.

“Zico” não se mostrou nenhum pouco repreendido e, com ares de senhor da causa chegou ainda argumentar:

- “Este carro está com problemas de geometria e balanceamento, está puxando para a direita...”.

Pude notar que em alguns momentos “Zico” dava umas guinadas no volante fazendo manobras radicais com o carro, dando a impressão que talvez quisesse me testar ou que quisesse medir minha capacidade de suportar pressões de subalternos, ver se eu sentia algum temor diante de seus desatinos velozes... Procurei permanecer em silêncio e o deixei à vontade, prometendo para mim mesmo que seria a nossa última viagem... A seguir, a impressão foi que meu silêncio lhe fez repensar seus atos e não passados mais do que dez minutos ele começou a dirigir mais comedidamente... Procurei encarar seu comportamento com  “classe espartana”, porque ele estaria selando seu destino, apesar de saber que estava com sérios problemas pessoais, enquanto eu perdia a confiança, o que já vinha de algum tempo, tudo muito lamentável, passando para o plano do insuportável, apesar da falta de policiais, o que me obrigaria a ter que passar a dirigir durante as nossas viagens.  

Mais Torpedinhos?

Às doze horas e trinta minutos, estávamos passando por Joinville (em direção à Itaiópolis/SC) e resolvi mandar um “torpedinho” para Marilisa, como forma de provocação e para matar a saudade, com o seguinte teor: “Tudo benzinho c/ vc? Estou perto e lembrei de te falar das flores, da nossa presença...bjs”.

Menestréis do mau agouro (II):

Por volta das quinze horas chegamos ao nosso destino (Delegacia da Comarca de Itaiópolis), com a finalidade de prosseguir com os trabalhos de apuração de um acidente de trânsito envolvendo o Delegado Lauro Langer. Logo que adentrei a repartição fui direto para o gabinete de Lauro e pude observar que apresentava um estilo meio desleixado na forma de se trajar e se apresentar, isto é, calça jeans desbotada, uma camiseta aparentando estar bastante gasta, a barba por fazer e os cabelos bastante desalinhados...o que me fez intuir que tivesse passado a madrugada em diligências...: “Pronto, estaria ali mais um menestrel?” Logo que me viu entrar Lauro foi logo desabafando que aquela sindicância era uma perseguição do Delegado-Geral Maurício Eskudlark, pois noutro dia que ele esteve na cidade acabou chamando sua atenção para a situação da Polícia Civil local. Fiquei sabendo que nenhum dos policiais que atuavam na Delegacia residiam  naquele município... Aliás, pasmem, alguns deles residiam no interior do Estado do Paraná. Lauro pegou pesado ao se queixar do Maurício, chegando a afirmar que era Presidente do PDT local e que se desentendeu com um Escrevente Policial da Delegacia que era Vereadora pelo PSDB, ou seja, do mesmo partido que o Delegado-Geral... Em silêncio pensei: “Meu Deus, esse pessoal parece louco, leva tudo para a política partidária, e a polícia...”. Para finalizar nossa conversa, argumentei:

- “Bom, o meu partido é a ‘PC’”.

Lauro deu a impressão que se deu conta e arrematou:

- “Ah, sim, o meu partido também é a Polícia Civil”.

A seguir Lauro sentenciou:

- “Bom, eu te disse na outra audiência que o que Maurício quer é ainda me obrigar a pagar a viatura, eu só quero ver...”.

Por volta das dezessete horas e quinze minutos deixamos a Delegacia de Itaiópolis e no trajeto até Canoinhas comentei com “Zico” e Patrícia Angélica que havia feito um “projeto” para o Delegado-Geral, sendo que uma das minhas propostas era que o pessoal da “Corregedoria da Polícia Civil” não tivesse mais limitações de horas extras. Relatei a conversa que tive com o Delegado/Corregedor Nilton Andrade, quando argumentei que tínhamos que fazer alguma coisa pela Corregedoria...  “Zico”  parece que tomou uma dose de ânimo e foi dizendo:

- “Doutor, só o senhor mesmo. Não adianta, eles temem é o seu conhecimento. O senhor tinha que estar lá fazendo projetos, mas eles não querem, esse Maurício...  Eles não querem uma pessoa como o senhor lá em cima, eles sabem da sua capacidade...”.

O reencontro com a DRP Shirley Gutowski:

Às dezoito horas e quarenta minutos, cheguei na Delegacia Regional (e de Comarca) de Canoinhas e encontrei a dileta Delegada Shirley Gutowski sentada conversando com uma policial civil. Logo que entrei no local Imediatamente passamos a conversar e mais uma vez pude notar seu estilo todo pessoal que externava fragilidade, timidez, pureza, sinceridade... e, ao mesmo tempo, ser uma pessoa que lutava pela vida, por sobreviver numa selva de pedra, de ter que se superar e transpor desafios tão complicados... Lembrei que ela era descendente de poloneses, parecia ser diferente de outros que encontrei pelo caminho, parecia verdadeira nos seus sentimentos..., mas com um “tique” esquisito: eu tinha chamado sua atenção para ter cuidados com as suas expressões enquanto falava, pois sua pele era muito branca, sua genética talvez não ajudasse... Seu rosto já apresentava marcas salientes na testa, junto aos lábios superiores..., e repetidamente procurava fazer “biquinhos” dando a impressão que não era para franzir tanto seus lábios e assim evitar o surgimento das “preguinhas”... Perguntei se ela tinha lido os documentos que havia deixado da outra vez (emenda constitucional, parecer...) e ela comentou positivamente, argumentando que tinham entrado com uma “adin” a respeito do decreto do Governador Luiz Henrique sobre “Termos Circunstanciados”.  Conversamos mais um pouco e me despedi naquele clima de hospitalidade e receptividade.