Dia dos namorados e o imbróglio das flores:

Dia 04.06.08, horário: dezenove horas, recebi uma ligação de Marilisa que disse que ainda estava na 6ª DP/Joinville, porém, prestes de ir para casa. Argumentei que estava feliz com a sua ligação e ela foi direta ao assunto afirmando  que no dia seguinte  o encontro com o Deputado Darci de Matos seria  às quatorze horas, num comitê localizado ao lado do Hotel Tanenphoff, no centro de Joinville. Interrompi  e perguntei se ela tinha visto a manchete daquele  dia no Diário Catarinense. Marilisa  respondeu que sim, mostrando que estava longe, então argumentei  que sua mãe tinha falado que o Consul Honorário da Espanha em Joinville havia sido preso naquela data pela   Polícia Federal. Argumentei  que não era nada daquilo  e que a manchete tratava de uma “Delegada que foi preso por furto de flores”. Marilisa soltou  um suspiro de lamentação e censura enquanto  procurei consertar a informação:

- “Não. Não está certo. É a imprensa novamente com seu sensacionalista barato. Foi a Sandra Andreata...”.

Relatei para Marilisa que foi tudo um mal entendido e que ela me procurou na Corregedoria dias atrás e me fez um relato do que tinha ocorrido. Sandra Andreata havia saído dias atrás de um jantar com seu marido/companheiro e que os fatos ocorreram próximo do  “Clube 6 de janeiro”,  Bairro Estreito, na Capital. Era mais ou menos uma hora da madrugada e  que era dia dos namorados. No trajeto de volta para casa seu namorado havia parado  o carro num determinado lugar e deixou o interior do mesmo dizendo que iria fazer uma surpresa e que era para ela aguardar no interior do veículo. Passados alguns instantes, seu marido voltou, abriu o porta-malas e colocou alguma coisa, a seguir, quando estava entrando no veículo para iniciar o retorno para casa foi surpreendido por um policial civil com arma em punho dando voz de prisão porque havia flagrado  que se tratava de um furto de  duas plantas da frente de uma clínica ou residência. Bom, o policial era novinho e não quis dar ouvidos as considerações de Sandra Andreatta que se viu numa saia justa e acabaram na CPP/Capital. Depois do relato combinei com Marilisa que no dia seguinte,  às quatorze horas, estaria  no comitê do deputado Darci de Matos para me encontrar com ela e Zulmar Valverde. Cheguei a perguntar para Marilisa se minha presença era importante e ela disse que sim.

O encontro com o Deputado Darci de Matos:

Dia 05.06.08, horário: nove horas da manhã, percebi que havia uma ligação de Marilisa no meu celular. Tinha acabado de sair da “Confeitaria Brothehaus” (Rua Max Colim, em Joinville). Retornei a ligação e  Marilisa disse  que não poderia se fazer presente na audiência de ouvida de testemunhas no processo disciplinar da Investigadora Elizete Quirino. Respondi que não tinha problema e comentei  que meu dia estava começando melhor depois de ouvi-la. Marilisa sorriu e  disse o mesmo. Ficamos acertados sobre o encontro com o Deputado Darci de Matos naquele dia à tarde como já havíamos combinado anteriormente.

Exatamente às  quatorze horas, cheguei a pé no comitê do deputado Darci de Matos  e acessei o seu interior  do pátio  de estacionamento e aguardei um pouco, a seguir, Marilisa apareceu num Ford Fiesta prata como caroneira. Aguardei que desembarcasse e fomos para o interior da “casa”. Percebi que   havia pessoas na porta da entrada frontal enquanto observava  o caminhar de Marilisa que dava a impressão que havia encarnado a figura de uma política bem à vontade. Na medida em que avançávamos pelo imenso estacionamento minha dileta amiga caminhava com desenvoltura, cumprimentava  as pessoas de um jeito formal e ao mesmo tempo ostentava sorrisos, dando a impressão que estava tudo  ensaiado. As pessoas respondiam  ao cumprimento deixando externar um ar de respeito o que me chamou a atenção. Procurei me posicionar sempre logo atrás dela  para  não perder os detalhes e quando me dei conta estávamos  numa salinha de reunião onde havia uma mesa e ficamos aguardando até que o Deputado Darci de Matos retornasse de um almoço com “Pastores” de igreja. Passados não mais do que quinze minutos apareceram o parlamentar acompanhado  do Secretário de Administração do Estado Antonio Gavazzoni. Fiquei surpreso porque não esperava que Gavozzoni também estivesse presente no encontro que seria  para tratar apenas do projeto do nosso “fundo de garantia para os policiais”. Darci de Matos parecia  bem à vontade dentro de um traje esportivo, dava a impressão que  estava bastante motivado com o almoço com os pastores. Já Gavazzoni, vestido a caráter, com um  terno preto e  falando ao celular, parecia estar ali a convite e para se inteirar de nossa pleito. Logo que desligou o telefone Gavazzoni e Darci de Matos comentaram que havia sido excelente o almoço político. Darci de Matos deixou escapar uma pérola para o momento ao afirmar:

- “Acho que isso significa mais uns quinze mil votos...”.

Pensei em censurar o Deputado Darci de Matos, mas achei melhor não me atrever, nem por brincadeira e pensei: “Seria ingenuidade de Darci acreditar que o almoço vai lhe render milhares de votos? Bom, deixa a coisa rolar, mesmo porque não tenho essa liberdade e não dá para subestimar o poder de fogo desse pessoal...”. Gavazzoni praticamente monopolizou a palavra, falando do  “Iprev”, passando a defender  o projeto do governo. Procurei me colocar numa posição secundária até para deixar o estimulado  Gavazzoni monopolizar as atenções, enquanto Darci de Matos, altamente perceptivo, escutava atentamente e tentava perceber os sinais. Já Gavazzoni, dando demonstrações de empreendedorismo e estadismo, relatou que se os servidores iriam  perder alguma coisa e que isso seria  culpa do Governo Lula  que havia editado  em 2003 uma Emenda Constitucional sobre previdência com reflexos no serviço público e restringindo direitos ... Como ele queria a nossa impressão sobre o “pacote” estadual, argumentei:

- “O problema é o artigo setenta...”.

Gavazzoni, curioso com a minha incursão e dando a  nítida impressão que queria me testar, perguntou:

- “Sim, o que diz o artigo setenta?”

Diante daquela provocação, fui direto:

- “Ele estabelece o teto de oitenta por cento...”.

Gavazzoni com rapidez se contrapôs:

- “Mas isso é coisa do Governo Lula. Nós cumprimos exatamente a reforma de dois mil e três. O nosso projeto é uma cópia da Emenda Constitucional do Governo Lula. Então, se vocês vão perder alguma coisa a culpa não é nossa. Nós estamos cumprindo a reforma, temos até dia trinta e um de julho para aprovar isso, porque depois dessa data os Estados vão enfrentar uma série de problemas, vai ser terrível...”.

 “Faniquitos Marilisianos”?

Marilisa interrompeu, dando um tipo de “faniquito” diante das controvérsias, dando a impressão que mudou sua postura e passou a falar dando peso emocional e arte cênica as suas palavras e gestos:

- “Olha, eu trabalhei uma vida toda, não admito depois de trabalhar tanto perder direitos. Se eu perder eu vou para a rua denunciar. Então o negócio vai ser a gente trabalhar menos, já que vamos ganhar menos, não é? Eu ganho cinco mil reais por mês...”

Permaneci na condição de ouvinte, até porque Darci de Matos e Gavazzoni pareciam magnetizados com a incursão de Marilisa falante  até porque tinha o seu peso naquelas circunstâncias. Depois de mais alguns instantes  coube a Darci de Mattos interromper com um ar de satisfação que não consegui decodificar integralmente...:

- “A mulher é braba, e é minha ‘caba’ eleitoral...”.

Marilisa se acendeu mais ainda e foi advertindo que se os policiais viessem a perder  direitos com a reforma iria  armar o maior barraco. Achei engraçado o comportamento de Marilisa e vi ela concluir seu “faniquito”:

- “Vocês não me conhecem, quando eu fico braba sai da frente...!”

Nesse momento Marilisa simulou uma espécie de “brabeza” que chegava a ser cômico e eu tive que me conter para não levar na brincadeira, já que Gavazzoni e Darci de Matos ‘pareciam’ impactados suas “categorias” na arte de se manifestar politicamente. Interrompi para fazer algumas considerações, dentre elas as seguintes:

- “O pessoal do Judiciário e do Ministério Público vão ter tratamento diferenciados...”.

Gavazzoni  argumentou  que com o “Iprev” haveria mudanças, isto é, até agora eles faziam  as coisas nas suas instituições sem o conhecimento do Estado e que isso iria  mudar quando fosse criado o novo órgão. Interrompi  para dizer  que não era verdade, pois o projeto apenas dispunha  que “eles” iriam  continuar fazendo as coisas distante do Executivo, podendo apenas apresentar “relatórios” quando isso fosse solicitado pelo governo, Assembléia Legislativa e Tribunal de Contas e lancei uma pergunta sobre quem  afinal  iria afrontar esses órgão depois que todo o pacote fosse aprovado? Gavazzoni - se mostrando bastante preparado para rebater meus  questionamentos ou de que qualquer um que se atravessasse no seu caminho - tentou argumentar que não iria  ser assim... Novamente  fiz uma outra consideração:

- “A diferença também é que eles têm irredutibilidade de vencimentos, então sabem que não vão poder tirar nada deles. Eles têm vinculação salarial com Ministros do Supremo, é o tal efeito cascata, todo mundo sabe disso. Já os servidores públicos que se encontram na ‘vala comum’ vão passar por um  processo de empobrecimento, continuarão na vala comum...”.

Gavazzoni resolveu   perguntar o que nós achávamos do “fundo”... Fixei o olhar em  Mariliza e percebi que ela preferiu não argumentar nada, talvez em razão do encaminhamento das nossas conversações, o que me forçou a retomar a palavra:

- “Bom, eu prefiro que o Estado continue pagando nossas aposentadorias...”.

Gavazzoni novamente veio a se contrapor:

- “Mas vocês preferem um fundo que garanta as aposentadorias de vocês ou um governo como o do Paulo Afonso que atrasou os salários, heim...?”

Repliquei:

- “Da licença Secretário. Isso não é argumento. O governo Paulo Afonso foi uma exceção. A gente que conhece a história do Estado sabe que o único governador que atrasou os salários dos servidores públicos foi o Paulo Afonso, então não podemos dizer que os governos sempre atrasaram os salários dos servidores, aquilo foi uma excepcionalidade...”.

Gavazzoni – mostrando que era mesmo  rápido e ágil na mudança de discurso  mudou de assunto e comentou  que possuía muitos conhecidos que eram  Delegados, tendo sido aluno na faculdade de Direito do  Delegado Eduardo Pianalto de Chapecó. Argumentei que só mais tarde é que poderíamos  fazer um julgamento a respeito do “Iprev” e isso que o governo estava fazendo iria  causar prejuízos irreparáveis aos servidores públicos. Gavazzoni me observou rapidamente deixando escapar num flash um ar de preocupação com o peso de minhas palavras, ou seja, de que o tempo iria  mostrar se estavam  falando a verdade, ou seja, de que o servidor não iria  sofrer prejuízos. Gavazzoni lembrou que o governador Luiz Henrique não queria  saber de causar prejuízos aos servidores públicos, pois seria  candidato ao Senado... Conseguimos virar a página e falar sobre o nosso projeto que tratava sobre a indenização para fins de aposentadoria dos policiais civis, nos mesmos moldes que foi aprovada para a Polícia Militar no ano de 2007. Gavazzoni no início se fez de desentendido, ou seja, que desconhecia a legislação aprovada em abril de 2007. Ficou convencionado  que Darci de Matos e Gavazzoni acertariam com o Deputado Gelson Merísio, líder dos Democratas na Assembléia Legislativa para  tramitação do nosso projeto. O engraçado que o Deputado Darci de Matos desconhecia a tramitação do projeto que havia subscrito, o que nos levou a deduzir que foi o seu chefe de gabinete que fez a coisa andar, isso a pedido do Delegado Zulmar Valverde. Gavazzoni comentou que o projeto tem vício de origem e que certamente na comissão de justiça vão vetar a proposta. Assim, Gavazzoni se comprometeu a buscar o projeto e reapresentá-lo como proposta do governo. Ficou acertado que Gavazzoni conversaria com o Governador Luiz Henrique, mas que seria importante que fizéssemos um contato com o Secretário Sérgio Alves da Fazenda. Gavazzoni foi enfático:

- “Vocês podem ficar tranqüilos porque o meu voto vocês já tem. Agora falta o do Sérgio Alves...”.   

Logo que terminou a nossa audiência  deixamos o comitê e fomos pegar meu carro no Shopping Muller. No caminho Marilisa me censurou dizendo:

- “Tu quase não falasses nada...”.

Interrompi Marilisa para argumentar  que  o assunto do “Iprev” já estava decidido e que não adiantaria  se contrapor porque a fase era de “feedback” por parte do governo, o pacote já estava pronto e seria aprovado  de qualquer maneira. Como percebi nas palavras de Marilisa uma certa desaprovação  a minha  conduta, talvez  porque não me transformei e dei  um “faniquito”...,  ou em razão de não ter me comportado como  um “salvador da pátria”,  um excelso orador..., direcionado a digladiar  com o Deputado Darci de Matos e com o Secretário Gavazzoni... Arrisquei  um argumento sutil:

- “Imagina Marilisa se nesta altura do campeonato nós dois mudaríamos um projeto de governo que já está tramitando na Assembléia? Imagina Marilisa...?”

Estávamos atravessando uma rua lateral ao Shopping Muller e completei:

- “Quem poderia fazer alguma coisa eram as entidades de classe, mas eu e você? Não vamos alterar nada, já está tudo pronto. O nosso negócio era discutir o nosso projeto do fundo de aposentadoria, não o ‘Iprev’...”.  

Argumentei ainda que o Delegado Dirceu Silveira era muito amigo do Secretário da Fazenda Sérgio Alves... Marilisa interrompeu dizendo que Dirceu Silveira não era  capaz de pedir nada para ninguém, em especial para políticos. Quando entramos no Shopping fomos direto para meu carro e Marilisa chamou a atenção  que ele  era muito grande e que eu teria que arranjar uma namorada bem grande. Achei engraçado aquela sua observação e quase disse que não precisava arranjar namorada alguma, mas resolvi deixar passar batido, justamente porque já tinha  namorada, mulher...

Por volta das  dezessete horas, estava na Delegacia Regional de Joinville e fui até o gabinete do Delegado Dirceu Silveira  e comentei  o  encontro que eu e Marilisa tivemos no início daquela tarde com os políticos... Como provocação, argumentei:

- “Olha, vê se faz alguma coisa, já que hoje à noite tu vais jogar futebol com o Darci, vê se fala com ele. A Marilisa disse que tu não és de pedir nada a ninguém, se for depender de ti para pedir alguma coisa para político, podemos morrer...”.

Dirceu Silveira, com aquele seu jeito esperto e sempre parecendo na  retranca quando era cobrado, foi dizendo:

- “Ela disse isso? Não é bem assim, eu não peço quando é assunto pessoal, mas quando é institucional é claro que eu peço”.

Acreditei nas palavras de Dirceu Silveira, muito embora nosso pleito fosse mais que institucional, tratava-se de uma luta por um direito que deveria beneficiar a todos os policiais... Procurei não polemizar, mas achei  esquisita argumentação  de Dirceu Silveira, em especial quando se tratava de  fazer comentários sobre  certas mulheres policiais... Lembrei que noutra ocasião, isso em duas oportunidades, quando estava ali naquele mesmo local,  tinha flagrado Dirceu Silveira recebendo ligação de uma “mulher” que no celular falava meio que esbaforida sobre assuntos internos... e era a voz  de Marilisa. Dirceu atendeu as ligações na minha presença fazendo questão de manter a pessoa no anonimato, mas eu reconheci  a voz e parte da conversa... Numa delas, o Dirceu Silveira chegou a pedir que Marilisa baixasse o volume da voz, que se acalmasse... Marilisa estava relatando a situação da Investigadora Kéthelin da Delegacia da Mulher que estaria  faltando o serviço e apresentava  sérios problemas psicológicos... Dirceu Silveira aconselhou Marilisa a conversar com a policial e a aconselhasse a se submeter  a tratamento... Procurei provocar Dirceu Silveira para ver se ele confirmava se era Marilisa, mas como da outra vez que estávamos indo almoçar, ele se manteve enigmático, como se não quisesse se denunciar... Pensei: “Nada haver, certamente que eles são super amigos, muito embora às vezes não queiram deixar transparecer essa ligação  até porque vivem mundos distintos...”.