Estrelas cadentes:

Dia 30.11.07, por volta das nove horas e quarenta e cinco minutos, durante um intervalo de uma série de audiências, enquanto aguardávamos a chegada da testemunha Sérgio Silva (ex-Deputado Estadual), abri um arquivo no meu notebook com fotos do Coronel Caminha que datavam da época gloriosa em que estava à frente do Comandante-Geral da PM, depois, quando houve o episódio da Boate “Marlene Rica” em Joinville e os lances seguintes, quando ele aparecia já como um humilde civil, olhar que parecia triste..., outra foto na companhia do advogado Gastão Filho... e, por último, uma foto do Coronel Edson Morelli assumindo o posto de Comandante-Geral, com direito ao mesmo cerimonial anteriormente dispensado a favor do excelente Coronel “Caminha”. Pedi que Marilisa desse uma olhada nas fotos e que fizesse sua avaliação. Marilisa passou os olhos e em algumas das fotos reconheceu o militar, mas quando estava em trajes civis, envelhecido, já não o reconheceu mais e me perguntou... Fiz os esclarecimentos e Marilisa incrédula se negava a acreditar que se tratava das mesmas pessoas, então, pedi que ela desse uma olhada no simbolismo das fotos, desde a roupa, o olhar, os gestos, a cor da pele e completei:

- “Bom, tu vê como o papel da mídia é triste. Ela primeiro cria o ‘mito’ e, depois, ela mesma é que se incumbe de destruí-lo. É assim que eles fazem...”.

Marilisa e o advogado Jalmo que estava sentado ao seu lado concordaram, olhando de longe a “widescreem .17” aberta. Mostrei outras fotos, e quando cheguei na imagem do ex-Delegado Acioni Souza Filho, Marilisa comentou:

- “Ah, esse morreu infartado lá na Central de Polícia de Florianópolis. Tá vendo, eu não quero acabar que nem ele...”.

Interrompi:

- “Ah, espera aí, o Acioni não morreu. A instituição é que matou ele...”.

Marilisa deixou escapar uma “meia gargalhada”  e comentou:

- “Tá vendo, eu não quero acabar que nem ele. Eu não quero que a instituição me mate. Eu também estou trabalhando na Central de Polícia de Joinville e daqui a pouco é que vou também... Não! Não quero ir...”.

Percebi que Marilisa e o advogado Jalmo sentados um do lado do outro e bem próximos, quase que cochichavam de vez enquanto, intuindo que era mais um desabafo... Marilisa sorria suavemente, virando seu rosto, bem próximo de Jalmo e fazendo seus comentários com certa intimidade, deixando transparecer que eram bem próximos. Pude perceber seu jeito meigo e querido de ser, a forma como dava atenção enquanto fazia suas confidências. Acabei me certificando que era o jeito de Marilisa ser e agir, uma forma linear que deixava transparecer seu carinho e sua amizade. Achei uma atitude legal da sua parte, ou seja, externar ternura e ao mesmo tempo transpirar seu lado todo pessoal de mulher e “Delegada”, inconscientemente encapsulando atenções, não só das pessoas próximas, mas do universo a sua volta. Dava para comprovar que Marilisa, apesar dos seus altos e baixos, era um ser cativante, poderia ser qualquer pessoa, sem distinção, ela procurava manter uma relação próxima, a ponto da Escrivã Ana Balestrim, no dia anterior, ter lhe perguntado se ela era muito amiga de Thábata (esposa de Sergio Silva), porque conversaram tão animadamente, como se fossem conhecidas de longa data.

Depois disso, fiquei imaginando as histórias de vidas dessas estrelas cadentes, desde o Coronel Caminha, aos Delegados Marcucci, Acioni..., todos com suas histórias, seus dilemas, suas buscas, frustrações, desafios, sonhos... e ao mesmo tempo tendo que desatar tantos nós durante suas respectivas jornadas existenciais... e como os líderes de  instituições, no seu devido espaço e tempo, idolatravam seus mitos..., depois, viravam as costas, alimentavam sonhos impossíveis, causavam danos irreversíveis, sangravam almas imperecíveis...

O depoimento do ex-Deputado Sérgio Silva:

Por volta das dez horas e trinta minutos estava presidindo a audiência do ex-Deputado Sérgio Silva, na salinha da Corregedoria, na DRP de Joinville e pude perceber que não dava para subestimar a vivacidade daquela testemunha que era detentor apenas do segundo grau, mas que ostentava uma capacidade de articulação, percepção acima do ordinário. Procurei ouvi-lo a caráter, ou seja, tratando-o como fôssemos dois colegas de colégio, com direito a hora do lanche e tudo mais, em razão disso nossa conversa fluiu de forma tranquila. Sérgio Silva fez um desabafo, quase que xingando o governador Luiz Henrique da Silveira, utilizando adjetivos pesados e o culpando por seu ostracismo em Joinville, a seguir, relatou que o próprio ex-Vice-Governador Eduardo Pinho Moreira estava muito decepcionado com Luiz Henrique e que no último encontro que tiveram recomendou ao mesmo muito cuidado, pois a “Presidência da Celesc” era uma enganação.

Uma amizade para o sempre!

Por volta das doze horas, estava deixando a “salinha” da Corregedoria e dei de cara com Marilisa que estava do lado de fora no celular. Lembrei que duas vezes ouvi ela dizer para outras pessoas que queria mesmo era ser “invisível” e pensei: “Puxa, acho que minhas palavras surtiram efeito..., apesar de todo o seu silêncio”. Cheguei próximo dela para me despedir e ela foi me perguntando se eu estava indo para São Francisco ou para Florianópolis. Respondi que estava indo para Floripa e que no domingo retornava, pois na segunda iria para Blumenau, na terça retornaria para São Francisco e, na quarta de manhã a gente viajaria para Lages e, depois, Foz do Iguaçu. Marilisa me perguntou se eu aguentaria toda aquela “puxada” viajando intensivamente... Marilisa parecia preocupada porque na noite anterior, durante o baile de formatura seu filho, o mesmo foi vítima de um furto e veio a perder alguns. Em razão desse fato Marilisa praticamente cancelou todas as chamadas para relatar o ocorrido, procurando dar integral atenção ao seu relato. Naquele momento eu estava cansado e me mantive um pouco fechado, pois não tinha dormido bem na noite anterior, o que pode ter repercutido numa energia tanto pesada para nossa interlocução. Era engraçado, mas já noutros encontros percebi que Marilisa queria ficar um pouco a sós comigo como se fosse para conversarmos, não sei sobre o que, mas parecia que a minha proximidade era algo que tinha substância e peso no seu momento. Aproveitei para me despedir enquanto ela atendia o celular, dando-lhe um beijo e recebendo um abraço como resposta iterativa. Parecia que ela desejava que o abraço fosse bem mais juntinho, a fim de que pudéssemos transferir calor mútuo que pudesse selar nossa amizade para o sempre.

Os sinais poderiam ser uma ponte ascendente?

Era por volta das treze horas e trinta minutos, estava retornando para Florianópolis (de Joinville) e quando cheguei no “Posto Ferretti” em Itajubá (Barra Velha) resolvi mandar um torpedo para Marilisa com a seguinte mensagem: “Ma, não esqueça os sinais... nem olhar a Lua cheia... Obgada p. presen...”. Depois fiquei pensando: “Como é que vai ser o fim da nossa amizade? Tudo na vida tem um começo, meio e fim... Parecia tão fácil, mas isso às vezes não funcionava assim, só nas aparências, nos discursos... A gente acaba se apegando, criando vínculos, muitas vezes profundos... No nosso processo certamente que foi eu quem deu uma dimensão bem maior, justamente por causa do contexto, do histórico... o que me fez sentir plenamente os acontecimentos para poder registrá-los. Já Marilisa deve ter se deixado levar pelo sabor do vento, suas buscas interiores, seu “perdimento”, suas incertezas e o fato de se deixar levar por momentos ou acontecimentos casuais... De qualquer forma, acredito que já foi o bastante, deixei muitas mensagens para reflexão e que poderão tornar sua vida bem melhor, como disse, foram muitos os “sinais”, então que ela faça a sua ‘nação’, mude sua vida, refaça seus sentidos, coloque ordem no seu interior, acredite mais nos seus sentimentos e que tenha a coragem de olhar para dentro de si e escute seu coração, depois, perceba o máximo de tudo lá fora. Sim, se conseguir isso certamente que será a sua ascensão e fortalecimento espiritual.