Do “Fritz”:

No dia 26.10.07, por volta das dezessete horas e quinze minutos, estava retornando para Florianópolis e pedi que o policial “Zico” (nosso motorista) desse uma parada no “Café Colonial” do tradicional "Fritz" em Itapema (em frente ao posto da PRF). Quando já estava acomadado numa mesa resolvi ligar para Marilisa que me atendeu prontamente e comentou que estava reunida com suas policiais na Delegacia da Mulher. Reiterei que ela tratasse o assunto do “pacote do Delegado-Geral Maurício Eskudlark” com sigilo absoluto e, também, que não tinha repassado o documento para mais ninguém, inclusive, que o objetivo era ela tomar conhecimento e se fosse o caso, fizesse o que fosse possível para mobilizar os policiais da região norte do Estado para que os parlamentares e políticos nos ajudassem. Marilisa citou os Deputados Darci de Matos e Kennedy Nunes. Perguntei se ela já tinha dado uma olhada no “projeto” e a resposta veio negativamente, pois não teve tempo, deixando o documento no interior do seu carro. Argumentei que aquilo não era cobrança e que entendia suas limitações... Marilisa perguntou o que havia achado da sua proposta e eu tentei responder:

- “O quê?”

Ela insistiu:

- “Da minha proposta?”

Arrisquei:

- “Ah, sei...”.

Ela interrompeu:

- “Não!”

Insisti meio perdido, meio as garfadas na torta presente em meu prato:

- “Ah, já sei, de morar em Canoinhas?”

Marilisa com um riso contido esclareceu:

- “Não é isso também. É de colocar no projeto não só a questão do efetivo, mas também a questão salarial, não achas uma boa?”

Fiquei sem reação e perguntei se tinha recebido o meu “torpedo” e ela respondeu com um sorriso:

“Ah, recebi, gostei...”.

Interrompi:

- “Eu estou te perguntando isso porque o meu celular às vezes dá problema e já visses, poderias não ter recebido...”.

Em seguida argumentei:

- “Ah, vê se advinha onde eu estou?”

Marilisa arriscou uma tentativa, mas eu a interrompi:

- “Estou aqui comendo um pedaço de torta de requeijão”.

Marilisa interrompeu:

- “Sei, mas onde é que tu estais?”

Continuei:

- “Ah, advinha, eu estou de frente para o mar, num lugar que tu já conheces...”.

Marilisa:

- “Ah, não acredito, já estais indo embora, estais aí naquele local...”.

Interrompi:

- “Sim, estou aqui, bem naquele lugar que nós já estivemos, estou comendo aquela torta...”.

Marilisa:

- “Que coisa boa, puxa!”

Interrompi:

- “Bom, estou comendo a torta aqui e fica isso como uma homenagem, pelo teu carinho...”.

Marilisa ficou contente com minha oferenda e nesse clima nos despedimos, ela recomendando que eu ficasse com Deus e, eu, idem. Depois daquele contato, sentindo o sabor das tortas do “Fritz” fiquei imaginando se haveria clima para motivações e mobilizações  a partir dos ventos do norte  ou seria mais uma decepção?

Delegado Eduardo Hahn também vai à Brasília:

No dia 29.10.07, por volta das dez horas e trinta minutos, estava na Corregedoria da Polícia Civil e me ligou o Delegado Eduardo Hahn, dizendo que tinha um interrogatório previsto para o dia seguinte  às dez horas, no entanto, foi justificando a impossibilidade de comparecimento:

- “A doutora Sonêa me convocou para ir com ela até Brasília e eu embarco amanhã de manhã. É que aquela nossa ‘PEC’ parece que está tendo problemas na tramitação, segundo soube houve um problema com ela numa comissão lá. A Sonêa pediu que eu fosse com ela até Brasília porque sabe que eu sou muito amigo do Deputado Zonta...”.

Interrompi:

- “Bom, vamos por parte. Com relação a essa ‘PEC’ lá em Brasília, sinceramente, eu acho que isso é assunto secundário. Em primeiro lugar estão os nossos interesses aqui no Estado, bem onde está todo o governo responsável pelo nosso destino mais imediato. Esse negócio de desviar o foco, bom, tu sabes que o negócio é desviar  o ‘focus’...”.

Eduardo Hahn pareceu esboçar uma meio “anuência” em razão da minha reação e eu não dei trégua:

- “Tudo bem, tudo bem, eu não estou dizendo que as questões nacionais não deixam de ser também importantes. Eu quero dizer é que a nossa ‘Presidente’ deveria saber que noventa por cento de nossas lutas são aqui no Estado, os outros dez por cento devem ser em nível nacional. Ela sabe que essas questões nacionais devem ficar mais a cargo da Polícia Federal, da Polícia Civil do Distrito Federal, das Polícias dos Estados mais próximos e fortes... Eu defendo que aqui no Estado nós deveríamos sair urgente da Segurança Pública...”.

Eduardo Hahn me interrompeu:

- “Ah, sim, se depender aqui do Estado nós estamos mortos, nós só temos uma salvação que é essa ‘PEC’, porque deste governo nós não poderemos esperar nada...”.

Interrompi:

- “Ah, sim, mas acontece que nós temos que ver que o Vice-Governador ‘Pavan’ vai assumir o governo em dois mil e nove e essa será a nossa grande chance de aprovar uma ‘emenda constitucional’. Nós só vamos ter essa chance lá, porque em dois mil e dez assume o novo governo e se conseguirmos aí nós poderemos lutar por melhores salários”.

Eduardo Hahn comentou  que o nosso salário era um dos piores do país, que estávamos atrás de todo mundo. Citou que no Rio Grande do Norte o salário de um Delegado de Polícia estava em dezessete mil reais.  Retomei a palavra:

- “Bom, nós só temos uma saída neste governo, isto é, quando o ‘Pavan’ assumir, aí poderemos aprovar uma ‘emenda constitucional’. Para isso, temos que gerar desde já uma ‘onda’, temos que ‘cristalizar’ isso como uma bandeira de luta dos ‘Delegados’,  sair fora da Segurança Pública. Eu sei que a ‘Sonêa’ quer focar ‘Brasília’ ou até ‘Roma’, mas as nossas lutas estão bem aqui no Estado. Eu também sei que é possível que a aspiração do marido dela seja assumir a Segurança Pública, no momento em que o Ronaldo Benedet deixar o cargo para ser candidato à reeleição, tudo bem, eu sei que mobilizar a classe poderá trazer problemas nessa pretensão, mas o fato é que não o interesse individual não pode estar acima do  coletivo, do institucional. O que não podemos aceitar é a vontade de alguns poucos preponderar sobre a vontade de muitos, sobre nossas aspirações históricas. Mas tudo bem, pode até ser que eles queiram mostrar para o governador que a Polícia Civil, especialmente os Delegados, estão trabalhando ordeiramente para depois exigir o prêmio que seria assumir a Pasta da Segurança Pública, mas isso só para constar do currículo? Sinceramente Eduardo, não dá, por favor...”.

Eduardo interrompeu:

- “Eu concordo. Tens razão...”. 

Pensei: “Sim, concorda, me dá razão, como a Delegada Karla, mas o negócio é que vão para Brasília numa empreitada que mais parece ‘messianismo introjetado e disfarçado’, num propósito que mais parecia “castelos de areias” e para justificar o quê?” Sim, nesse aspecto os Delegados mais parecem tolos, fáceis de manobrar, iludir...,  bastaria só acenar com uma proposta grandiosa que facialmente eram cooptados a uma causa impossível”. Eduardo revelou que os Oficiais da Polícia Militar apresentaram uma emenda se incluindo na tal “PEC” e que isso acabou prejudicando a tramitação da matéria. Argumentei que para os Oficiais da PM era melhor que os Delegados de Polícia deixassem a Segurança Pública, que alçassem finalmente independência institucional. Procurei ilustrar citando a época do governo Kleinubing, quando foi revogada a isonomia salarial com o Ministério Público para acertar os salários dos Oficiais da PM. Depois, no governo Paulo Afonso, na época da Secretária Hebe Nogara, quando foi resgatada uma isonomia “meia-sola”  entre Delegados e Procuradores do Estado... Depois, veio a LC 254/03, quando novamente os Oficiais tiveram equiparação com os salários dos Delegados de Polícia. Em razão disso, argumentei:

- “Bom, o que a gente vê é que o pessoal assume esses cargos de líderes classistas, e depois que chegam lá, acabam desviando o ‘foco’, fogem do problema quando estão com a ‘batata quente’ nas mãos, elegem suas prioridades. Assim  com o Maurício Noronha, lembra, no caso das horas extras? Foi durante o mandato dele que surgiu essa ‘bananada’ que resultou a lei dois cinco quatro e hoje, depois de tudo, circula por aí e sabe o mal que foi feito. A Sonêa vai no mesmo caminho, se ela não se cuidar, lançou essa da ‘PEC’ em Brasília e o que estamos vendo é um desvio de ‘foco’ para Brasília, e com isso o governo do Estado seria poupado... e nós teremos que novamente que pagar o preço, a fatura vai ficar por nossa conta, tudo em nome de interesses pessoais, é justo isso?”

Ao final, Eduardo comentou que concordava com minhas opiniões e,  a seguir,  acertei o seu interrogatório para a próxima segunda-feira, quando seria assistido pelo advogado Dr.  Ademar Rezende (delegado aposentado e a serviço da Adpesc).