Uma encruzilhada para Shirley Gutowski:

Dia 23.10.2007, por volta das dezoito horas estava deixando a  Delegacia Regional de Canoinhas e a Delegada Shirley veio ver se estava tudo bem (tinha ido até seu gabinete, mas como ela estava ocupada não pude me despedir). Conversamos mais um pouco e perguntei se ela residia em hotel ou apartamento. Shirley meio que sem jeito (mas sem esconder a verdade) relatou que continuava residindo com seus pais em Porto União. Pensei: “Uma outra região policial, e ela com duas Delegacias sob sua responsabilidade, como é que pode ser, mas é resultado do nosso caos circundante?” Shirley tratou de esclarecer que estava alugando um apartamento pequeno para residir na cidade e que brevemente iria se mudar. Fiquei pensando: “Bom, se ela não fizer isso, vai ficar difícil fazer alguma coisa, resistir, lutar por algum ideal, pois do contrário cortarão seu pescoço, mandarão que vá para uma comarca lá no extremo oeste... Lamentei em silêncio.

Um sinal de vida:

Às vinte uma horas e trinta minutos mandei um torpedo para Marilisa com o seguinte conteúdo: “Estou em SF. Amanhã e sexta na DRP de Jville. Só quis dar um oi. Bjs”. Marilisa respondeu: “Estou de plantão. Amanhã te ligo.Bjs”.

Seriam negociações  dos “Silveiras”:

Dia 25.10.07, por volta das nove horas, cheguei na Delegacia Regional de Joinville para ouvir testemunhas em mais um procedimento disciplinar. Antes, porém, resolvi dar uma passada no gabinete do Delegado Dirceu Silveira. Não deu outra, conversamos sobre a realidade da Polícia Civil. Argumentei sobre a importância dos Delegados terem uma agenda e um planejamento estratégico. Lamentamos o discurso da Delegada Sonêa (Presidente da Associação dos Delegados-SC) sobre a tal “Pec 549”. Dirceu Silveira lembrou que muitos Delegados acreditavam nesse discurso e lembrei que o Delegado-Geral Maurício Eskudlark estava com um projeto pronto para incrementar o aumentou do efetivo da Polícia Civil. Dirceu confidenciou que num encontro que teve com seu padrinho de casamento, Governador Luiz Henrique, em cuja ocasião propôs que se criassem várias diretorias para comandar regiões policiais civis, a fim de dar idéia de expansão da instituição e mais visibilidade a partir de mais comandos. Procurei me controlar e argumentei  que a proposta de Maurício Eskudlark era aumentar apenas o efetivo da Polícia Civil. Dirceu Silveira se mostrou surpreso dizendo que  queria saber mais, pois numa outra reunião em Joinville o governador teria se dirigido a ele em público dizendo que aquela sua idéia de criar Diretorias no Norte, Sul, Oeste e etc. já estaria aprovada e que conversou com Maurício Eskudlark sobre o assunto há duas semanas atrás e o mesmo havia se comprometido a colocar isso no projeto. A seguir, como estava com  a Delegada Ana Cláudia Pires me aguardando, procurei abreviar nossa conversa e dosse qie era para Dirceu Silveira  reservar aquele assunto que mais tarde eu retomaria.

O beijinho doce da Ana Cláudia:

Por volta das nove horas e trinta minutos comecei a ouvir a Delegada Ana Cláudia, Chefe da Divisão de Entorpecentes da CPP/Joinville. Depois que encerrei a audiência, a Delegada como fazia reiteradamente me invocou pelo tratamento de “Delegado”. Interrompi, pedindo que ela me tratasse apenas pelo nome, nada mais. Ana Cláudia disse que gostava muito de tratar os colegas de “Delegado”, que achava bonito. Interrompi para dizer  que eu preferia que apenas me chamasse pelo nome. Ana Cláudia insistiu dizendo que uns preferem chamar de “doutor”, mas ela não gostava e perguntou se queria que eu fosse chamado de “corregedor”. Disse que isso também estava descartado.  Ana Cláudia fez uma colocação em tom de brincadeira dizendo que alguém quando a chama de “anjo” é porque quer pedir alguma coisa. Depois, Ana Cláudia relatou que no plantão da CPP, sob responsabilidade da Delegada Marilisa, isso na noite passada, foram registrados seis autos de prisão em flagrante e que ela estaria tirando os cabelos e as unhas de tão nervosa, desgastada... Ouvi em silêncio e fiquei preocupado como minha amiga, conhecendo um pouca já suas vulnerabilidades.  No final, quando Ana Cláudia já estava de saída, veio ao meu encontro dizendo:

- “Bom, agora que nós já somos amigos, então vou dar um beijinho de despedida...”.

Fui ao seu encontro e nos abraçamos e demos um beijo de despedida, podendo perceber toda a sua doçura, pureza e sinceridade, acreditando que poderia depositar esperanças no futuro daquela profissional. Ana Cláudia, apesar de uma leve deficiência física, dava a nítida impressão de uma profissional comprometida com  a instituição, em quem valeria a pena se investir porque certamente muito poderia fazer pelo nosso futuro. Ela passava segurança e certeza do que queria. Lembrei que ela tinha confidenciado que seu marido também pretendia ser policial e estaria estudando para isso. Também, noutra ocasião descobri que seu irmão que era dentista havia desistido da profissão para ser “Escrivão de Polícia” em Joinville e que ambos eram filhos do “antigão” Comissário de Polícia Procópio (já falecido). Se dependesse de mim ambos já estariam nos reinos dos céus.

O melhor do Delegado Dirceu Silveira:

Por volta de meio dia, depois de encerrar todos os trabalhos correcionais, retornei ao gabinete do Delegado Dirceu Silveira, onde permanecei até próximo das treze horas. Tivemos uma das melhores conversas desde os tempos idos. Fiz uma exposição das três vias de poder na Polícia Civil (cúpula, Delegados Regionais e lideranças classistas) e comentei que se as mesmas se unissem, se as lideranças classistas fizessem um trabalho de pressão sobre os Delegados Regionais e sobre a cúpula  muita coisa poderia ser mudada. Dirceu argumentou que a nossa situação era muito difícil e que todos os nossos projetos eram boicotados por um tal de Coronel Botelho e pelo Capitão Renato que trabalhavam com o governador Luiz Henrique, a ponto de chegarem a mandar no governador. Dirceu Silveira disse que o Capitão Renato chegava a dar ordens para o governador. Ouvi o relato de Dirceu Silveira meio que num misto de incredulidade e lamentação. Dirceu Silveira também lembrou da Polícia Federal e a forma como estavam trabalhando em nível nacional, marcando muitos pontos junto à opinião pública. Preferi não comentar o assunto, pois havia anos que os “Federais” se mantinham longe das cobranças sociais e das polícias estaduais, salvo alguns casos contados nos dedos. Dirceu Silveira estava querendo dizer que ultimamente a Polícia Federal só estava  ocupado espaços na mídia e que conseguiu dar a volta por cima. Eu contestei que  não era bem assim, pois a Polícia Federal sempre esteve quase que blindada, já as polícias estaduais eram bastante vulneráveis especialmente em razão das ingerências políticas e de relações diretas com outras instituições. Perguntei para Dirceu Silveira o que ele achava do projeto de “Maurício Eskudlark” cujo projeto pretendia aumentar o efetivo da Polícia Civil, de cujo projeto  pedirmos que constasse outras reivindicações, como por exemplo a fixação de um  piso salarial mínimo para os policiais civis. Dirceu Silveira deixou externar que não concordava, balançando a cabeça negativamente o que me fez insistir que então que constasse como gordura porque era muito importante. Dirceu Silveira argumentou que então ele concordava, pois tinha que se pedir várias coisas para se levar pelos menos uma parte. Como Dirceu Silveira se mostrava resistente a idéia do piso salarial procurei argumentar que como gordura seria um item importante, até mesmo porque numa outra oportunidade seria reiterado. Acabei relembrando a idéia da proposta de emenda constitucional, tratando da criação da “Procuradoria-Geral de Polícia”, do segundo grau na carreira. Dirceu Silveira deu a impressão que concordava, muito embora não poderia negligenciar suas habilidades no trato amigável. Acabei relatando um pouco da minha luta pelas causas policiais civis, desde a criação da Federação Catarinense dos Policiais Civis (depois Sintrasp...), da lei das entrâncias para Delegado, da vintenária, do adicional permanência, da lei de promoções, dos trabalho na constituinte estadual, garantindo os serviços administrativos de transito para a Policia Civil, escalonamento vertical de salários... e lembrei que ele possuía história na instituição e que tínhamos um compromisso com as futuras gerações de policiais civis. Nesse aspecto procurei ser contundente nos meus argumentos e Dirceu Silveira pareceu que entendeu meu recado (tínhamos que fazer algo para garantir as futuras gerações a partir de projetos, ações...). No meu caso, em particular, argumentei que me sentia responsável e que tinha que fazer alguma coisa em razão da minha história de lutas classistas e de cunho institucional. Foi incrível porque quando eu disse que ele tinha que Dirceu Silveira também tinha que honrar a sua trajetória histórica ele fez um sinal de mico, de que não se sentia nada disso, como se fosse tudo mentira, que aquilo não lhe tocava, se tratava mais de uma “apelação” emocional de minha parte...  Procurei então reforçar meus argumentos procurando instigar seu ego, o seu moral... Dirceu Silveira relembrou que quando foi Delegado-Geral criou um grupo pensante para que fomentassem propostas para a Polícia Civil, citando a Polícia Militar que tinha o seu grupo de Coronéis que ficavam planejando estratégias, como foi o caso dos termos circunstanciados.  Abri os braços em cima da mesa do dileto “DRP” e fui dizendo:

- ”Bom, nós temos dois caminhos a seguir: ou competimos com a Polícia Militar ou vamos nos enveredar para o lado do Judiciário e Ministério Público na condição de carreira jurídica. Eu defendo a tese que devemos buscar o caminho jurídico e não o policial militar...”.

Dirceu Silveira, com sua habilidade tipo “careta” para a ocasião, como senhor das suas idéias, balançou a cabeça e procurou se amoldar, dizendo que concordava, muito embora seu discurso fosse direcionado à Policia Militar. Era complicado conversar com Dirceu Silveira porque como já dizia o velho ditado “quem já foi rei nunca perde a majestade”. De qualquer maneira Dirceu Silveira procurava conversar comigo dando uma certa importância ao nosso encontro e nisso ele sabia ser grandioso..., porém, tinha as minhas reservas em razão de suas habilidades e estratégias. Quando Dirceu Silveira mencionou a criação do “grupo pensante” eu interrompi:

- “Espera aí, Dirceu. Eu participei daquele grupo e o Delegado-Geral nunca participou de qualquer reunião nossa, desconheço que tenha se interessado por alguma proposta que apresentamos, acatou algum projeto..., nada vezes nada”.

Dirceu Silveira, sem se surpreender e demonstrando vivacidade aparente, sem se abalar com minha instigação, dava a impressão que tinha saída para tudo e relatou que foi ele que criou o “grupo pensante”, que se não funcionou bem, o importante foi a idéia que havia semeado. Preferi evitar aprofundar possíveis críticas até porque era assunto do passado e ele tinha a razão, foi pioneiro, porém, lembrei de uma máxima:

- “É, mas tem aquele ditado que diz que quando um dirigente não quer que aconteça nada cria uma comissão, não é?”

 Dirceu Silveira concordou.