Os “breves”:

No dia 09.10.2007, por volta das doze horas e trinta minutos eu e Marilisa já estávamos no gabinete do Deputado Darci de Matos. Enquanto ficamos sentados na recepção, olhei para Marilisa e fiz uma provocação:

- “Escuta, tu conheces o ‘Carlão’?”

Marilisa me olhou séria parecendo pensativa  e respondeu:

- “O Delegado ‘Carlão’? Claro que conheço, por quê?”

Percebi que ela não tinha entendido minha ‘charada’ razão porque me fiz de desentendido:

- “Sim, o ‘Carlão’!”

Marilisa deu a impressão que refletiu um pouco mais e perguntou:

- “Mas, o que tem o ‘Carlão’? Tu não conheces ele?”

Olhei para Marilisa e me perguntei em silêncio quando é que ela faria as conexões, mas para minha felicidade, antes que eu terminasse ela deixou escapar um sorriso e disse:

- “Ah, claro que tu conheces, claro, ficas aí fazendo onda...”.

Antes que ela terminasse, também sorri e mandei ver:

- “Não, é que eu não sei se utilizo aquele sistema ‘Carlão’, já que o Deputado vai querer almoçar contigo, eu posso...”.

Marilisa imediatamente rebateu:

- “Nada disso. Pára com isso...”.

Depois de aguardarmos alguns minutos fomos recebidos pelo parlamentar. Pude observar que  o Deputado Darci e a Delegada Marilisa se abraçaram afetivamente, numa demonstração de proximidade, afeição e amizade, sem que pudesse definir se isso era no plano pessoal ou político? Procurei me posicionar de forma discreta próximos de ambos e deixei que Marilisa fizesse as colocações preliminares sobre o porquê daquele nosso encontro.  Darci parecia mais “miudinho” do que pelas fotos dos jornais, foi o nosso primeiro encontro. Realmente era pequenino e lembrei da máxima do “ego” napoleônica, ou seja, quanto menor, maior... Mas naquele nosso primeiro contato Darci denotava ser uma pessoa humilde e controlada. Nos segundos seguintes pude notar que o parlamentar tinha um controle sobre si, além de ser bastante observador, intercalando olhares na minha direção enquanto mantinha a conversação. Marilisa foi fazendo as apresentações. Em seguida Darci iniciou uma conversa quase que reservada com Marilisa dizendo que ela terá que ser candidata a vereadora em Joinville, pois estaria bem contada nas pesquisas. Era engraçado, porque a conversa entre os dois era de pé e as estaturas dos dois “batiam”, eram dois pequeninos se comparados a minha estatura. Marilisa, parecendo com os pés no chão, foi falando sobre o que estava pensando quanto a ser ou não ser candidata. Darci insistiu que ela teria que ser candidata e que suas chances eram ótimas. Fiquei apenas observando em silêncio pois não se tratava de uma  “adulação” de Darci, mas um fato concreto já que deveria ter  pesquisas a sua disposição. Até então eu era um simples detalhe, todo o  foco do nosso interlocutor principal estava direcionado para Marilisa e no que ela poderia representar em Joinville, justamente no seu “curral eleitoral”.

A entrega do “pacote” completo e o despertar de um parlamentar?

A conversa fluía bem, mas até então a minha condição era de um simples coadjuvante  expectador.  Já sentados, Darci foi nos convidando para o almoço no reservado da Assembléia, porém, comunicou que tinha um compromisso  às treze horas. Marilisa esboçou  se levantar para irmos ao almoço e quando percebi que o Deputado fazia o mesmo, interrompi:

- “Mas, Marilisa, não é melhor entregar o documento para o Deputado agora?”

Marilisa apenas me fixou seu olhar indefectível, enquanto o deputado encurtou nossas distâncias:

- “Sim, vocês querem me entregar alguma coisa?”

Marilisa fez uma introdução e me colocou no circuito. Retirei do envelope “saco” os documentos e repassei para o parlamentar que leu primeiramente o requerimento da “Reajup” e, em seguida, folheou o anteprojeto de lei e a justificativa. Logo que se defrontou com o anteprojeto se mostrou surpreso porque a “coisa” estava pronta e eu aproveitei para dar algumas explicações sobre nossa  proposta. Darci se mostrou receptivo e traçou de imediato uma estratégia:

- “Deixa que eu vou conversar com o Secretário da Administração, ele é do nosso partido. Vou ver se consigo articular isso lá pelo governo, vocês sabem que essa proposta tem vício de origem, eu sou membro da Comissão de Justiça.. Mas  primeiro vou fazer essa tentativa. Se não der, eu vou propor uma audiência pública e aí vocês vão trazer uns trezentos, quatrocentos, quinhentos policiais aqui para a Assembléia Legislativa, vamos encher o plenário, na audiência pública. Vocês sabem, aqui a coisa só funciona assim, tem que ter público, tem que ter pressão. Se tiver se aprova tudo...”.

Fiz menção de querer falar alguma coisa, mas Marilisa me cortou, e logo em seguida Darci, revelando toda a sua vivacidade perceptiva se dirigiu a mim, perguntando:

- “Mas o que é mesmo que tu querias falar?”

Aquilo foi uma surpresa porque para ele notar que eu tinha alguma coisa importante para lhe dizer, isso significava que ele havia se preocupado, reservado, daí aquele seu impulso derradeiro, especialmente, considerando que mal abri a minha boca e isso significava que ele não poderia me subestimar e ele o mesmo, pois demonstrou a todo tempo capacidade de fazer diversas leituras, captar energias das pessoas... Cheguei a pensar naquelas frações de segundos que ele fosse uma espécie de “pastor” ou coisa do gênero. E, finalmente, aproveitei para explicar minha preocupação:

- “Eu tinha pensado o seguinte, com todo o respeito Deputado, a idéia era que fizesse um contato com o Deputado Blasi, já que ele e o Soares foram os responsáveis por negociar  a aprovação da lei que aprovou esse mesmo ‘fundo’ para os policiais militares e já que ele é líder do PMDB...”.

Antes que eu terminasse Darci me interrompeu:

- “Bom, o Blasi só vai permanecer aqui na Casa mais um mês. Ele vai ser Desembargador. Isso já está definido, então eu vou conversar com o Secretário da Administração...”.

Darci acabou reiterando sua estratégia relatada anteriormente. Resolvi não questionar, chegando até a emprestar meu apoio dentro da sua lógica política. Em silêncio fiquei pensando: “Meu Deus, como é que vamos convocar os policiais para vir a Assembléia, ainda mais com essa distância entre Delegados e policiais civis, a falta de diálogo entre ‘Adpesc’ e ‘Sintrasp’?” Darci pediu para que nos dirigíssemos ao restaurante da Assembléia, sendo que no momento em que nos preparávamos para subir, Marilisa fez uma incursão:

- “Olha, Darci, vamos aprovar isso para que eu possa trabalhar para ti”.

Darci do outro lado, comentou:

- “Marilisa, tens que sair candidata à vereadora, vais te eleger bem, a gente já sabe...”.

O cacife do Deputado Júlio Garcia e o fator Delegado “Wanderley Redondo”:

Darci ainda comentou que tínhamos que conversar com o Deputado Julio Garcia, pois ele tinha  muita influência na Assembléia e o governador o respeitava muito. Darci chegou quase que a confidenciar que o governador chegava a ter medo do Deputado Julio Garcia, pois o mesmo tinha muita força entre os Deputados. Darci comentou que jogava futebol com o Deputado Blasi e com Julio Garcia toda semana, à noite e que conversaria com eles... Por último, Darci perguntou se o meu número do telefone constava no documento que entreguei. Respondi que não estava e forneci meus contatos, tendo o parlamentar anotado no rosto da primeira folha que entreguei. Perguntei ainda se ele não gostaria de anotar o número do telefone da Marilisa e ela se antecipou dizendo que ele já possuía todos os números dos seus telefones. Darci confirmou, olhando meio que maneiro e segurando um sorriso, confirmou como se fosse amigo de Marilisa de longa data:

- “Tenho todos os números, não precisa se preocupar”.

Subimos para o restaurante, os dois na frente e eu mais atrás e fiquei pensando: “Será que Marilisa possui outros celulares? Bom, no seu telefone residencial ela nunca me deu, tudo bem..., estou apenas na condição de amigo, talvez para ela seja apenas um número para colegas de profissão, outra para seus familiares e amigos mais próximos..., ainda mais em se tratando de políticos”.  A impressão era que o Deputado Darci era mesmo seu amigo de longa data, vivia na mesma cidade, tudo bem que estivesse familiarizado com sua vida, costumes, família”. No trajeto Darci se esforçava para checar as pessoas que eram encontradas, procurando reconhecê-las e cumprimentá-las. Ouvi Darci reiterar mais uma vez:

- “Marilisa, tens que ser candidata à vereadora lá em Joinville...”. 

Num dos momentos que fiquei próximo de Marilisa, enquanto Darci conversava com alguém, perguntei:

- “Marilisa, queres ficar a sós com o Darci? Qualquer coisa eu te espero, assim vocês podem conversar à vontade...”.

Marilisa, impostou uma voz severa, em baixo som, retesando os lábios, disse:

- “Nada disso, nada disso, não vais me abandonar. Escuta aqui, quem tem ligação com o Julio Garcia é o Wanderley Redondo, não é?”. 

Pronto, aquilo era uma ordem,  e dada as circunstâncias, não havia chance para me tornar “invisível” (acabei rindo em silêncio). Confirmei que o Delegado Redondo conhecia Garcia. Fomos para a fila do almoço, isso no reservado do restaurante e pude notar algumas figuras conhecidas, como os Deputados Motta, Titon e por último apareceu Ana Paula Lima, sozinha. Como não havia mesas vagas, fui sentar com um pessoal desconhecido num outro local, facilitando que Darci e Marilisa ficassem sozinhos noutras posições. Só que quando o Deputado se aproximou de uma mesa um casal que estava sentado e que conhecia o parlamentar resolveu se levantar para que eles sentassem e ficassem bem à vontade. Em razão disso, fui me juntar aos dois. Durante o rápido almoço, perguntei para Darci qual a sua formação profissional e ele respondeu que era “Economista” e, também, foi professor da  uma faculdade em Joinville. Terminamos o almoço e em seguida descemos, na despedida Marilisa reiterou:

- “Olha, Darci, vamos aprovar esse nosso projeto aí que eu quero trabalhar para ti nas eleições...”.

Darci reiterou:

- “Marilisa, tu tens que sair candidata lá em Joinville, pensa bem, não deixa passar essa oportunidade...”.

Antes de me retirar, Darci me olhou politicamente e disse:

- “Vou entrar em contato contido!”

Agradeci.