Standart franciscano:

Data: 10.09.08. Horário: 09:56h. Resolvi ligar para Marilisa que estava na Delegacia da Mulher em Joinville. Logo de início fui perguntando:

- “Oi, vais estar aí até o final da manhã?”

Marilisa respondeu que sim, perguntando se estava tudo bem comigo e eu continuei:

- “Podes me receber até o final da manhã, é que preciso de um favor teu...”.

Marilisa com elegância e tranquilidade respondeu que não teria problema algum e que ficaria me aguardando.

Por volta das onze horas e dez minutos cheguei na Delegacia da Mulher (Joinville) e fui acessando direto o andar superior, em cujo local ficava o gabinete de Marilisa. De passagem encontrei a também queridíssima Escrivã Ivonete, só que deixei de cumprimenta-la porque não a reconheci. Por certo, também pretendia ser ao máximo invisível naquela minha “invasão territorial”. Mas marcou bastante o olhar de Ivonete, curiosa e, também, não menos invisível. Como a porta do gabinete de Marilisa estava entre aberta, sem delongas, enquanto ela permanecia de través, no canto da mesa, parece que digitando alguma coisa, ladeada por bilhetes, boletins de ocorrências, documentos, procedimentos, papéis... Quando me viu elasticamente se levantou e ficou arcada sobre a mesa para encontrar meu cumprimento de mão e beijos na face, com direito a mimos e sorrisos típicos de velhos amigos. Naquela surpresa flagrei Marilisa “standart”, ou seja, despreparada, sem maquiagem. Ela estava vestida à franciscana, sem aqueles seus enfeites, balangandãs, adornos, pinturas, maquiagens... Pude observar que seu rosto estava com olheiras salientes e embaixo do seu olho direito havia um “franzido” na pele, o que dava um visual não muito legal... Era uma Marilisa mais real... e votei à realidade quando ela disse:

- “Não estou muito bem, depois que tu me desses aquela notícia não fiquei legal. Eu tenho me esforçado para fazer aquilo tudo que tu me ensinasses, mas é difícil. Eu tenho procurado me distanciar dos problemas, tenho tentado criar filtros para que as coisas não me afetem tanto, mas é difícil, não consigo, se bem que eu melhorei bastante. Antigamente eu recebia uma notícia dessas e ficava quinze dias de cama, agora é só dois ou três dias, então melhorei, tá difícil encontrar um marido...Bom, agora comecei a brigar com meu ex-marido, era só que me faltava...”.

Achei graça e resolvi não comentar o assunto porque sabia que ela talvez estivesse querendo encontrar um “gerentão” para dividir seus problemas, além do mais as brigas com seu ex-marido deveriam dizer respeito a problemas financeiros, em especial, numa época de vacas-magras, divisão de bens, pensão dos filhos... Diante dessas circunstâncias argumentei que achava aquilo um grande avanço, mas que ela tinha que prosseguir, criando outros filtros. Marilisa que indagou sobre a acusação contra ela, o que tinha haver com o tal de “Investigador Ronaldão”. Procurei fazer um relato sumário, forçando a mente para tentar lembrar dos fatos pormenorizadamente:

- “...Bom, o Zulmar era o Titular da Delegacia de Polícia e o Ronaldo trabalhava com ele. O Zulmar encaminhou para ti a documentação contra o Ronaldo e tu que eras a Delegada Regional ao invés de encaminhar para a Corregedoria ou instaurar sindicância não fizesses nada...”.

Marilisa abraçou as maçãs do seu rosto com as duas mãos e foi questionando:

- “Sim, mas tu tens certeza que eu não fiz nada? Meu Deus, será mesmo que eu não comuniquei...?”

Continuei:

- “Bom, é isso que a sindicância vai buscar, é isso que vai apurar, o que ocorreu, se tu adotasse alguma providência...”.

Marilisa interrompeu:

- “Mas não é possível. Quer dizer que o Zulmar mandou para mim, tu tens certeza?”

Respondi:

- “Sim, tem a ‘CI’ tua recebendo o material, e agora o Ministério Público que saber por que não foi feito nada...”.

Marilisa interrompeu:

- “Não é possível, essa Delegacia Regional tem me incomodado, eu não aguento mais. Hoje o meu objetivo é ganhar na ‘megasena’ para poder pagar as minhas contas e sabe mais o quê? Sabes?”

Respondi que não imaginava e ela respondeu:

- “Para pagar a minha previdência antecipada e cair fora, me aposentar, é só isso que eu quero, só me faltam cinco anos e eu pagaria tudo antecipado só para ir embora”.

Procurei não aprofundar a questão, apenas ponderei que isso que ela pretendia não era possível e que a tendência era o governo aumentar o tempo para se alçar o interstício de aposentadoria. Marilisa ficou imóvel e pôs as duas mãos no rosto escondendo os olhos e começou a chorar. Estava acostumado a uma Marilisa charmosa, vaidosa, orgulhosa, só que naquele momento era outra pessoa, totalmente diferente, mais para invisível, frágil...  Ela continuava derramando lágrimas “torrentes”, não conseguia segurar e eu tive que manter a calma, dizendo:

- “Não adianta, não adianta, eu não vou chorar, não vou gritar, não vou me apavorar. Tu sabes que eu sou guerreiro, então pode chorar à vontade na minha presença. Mas Marilisa eu te conheço, sei quem tu és, fica tranquila, vou apurar o que ocorreu, mas te conheço, sei que tu és uma profissional séria, honesta, então é bobagem tu ficares assim, a não ser que tu achas melhor eu deixar a presidência desse procedimento, é isso que tu queres? Se for isso, eu peço para sair, mas se tu queres que eu continue confia em mim. Eu estou presidindo duas sindicâncias contra a Delegada Jurema de Jaraguá do Sul, imagina, a Jurema, e ela continua lá firme, forte, durona. Também, tenho duas sindicância contra a Delegada Rosi Serafim, então, para né Marilisa, uma sindicância não pode fazer um estragos desses numa mulher como você. Eu queria é te ver candidata à prefeita de Joinville”.

Marilisa foi até o banheiro lavar o rosto e, em seguida, retornou já mais refeita, pedindo desculpas por sua fraqueza. Eu argumentei que gostei do seu extravaso e que ela poderia continuar chorando a vontade, que não tinha problema, só que eu preferia que ela fosse uma guerreira. Comuniquei Marilisa que a sua sindicância muito provavelmente seria arquivada, até porque os fatos ocorreram há quase dez anos atrás e não tinha lógica se apurar faltas daquela natureza (negligência funcional). Depois conversamos sobre a situação do Delegado Peixoto e eu fiz um relato da conversa que tive no dia anterior com o Delegado Corregedor Nilton Andrade que me disse que o Diretor do Deic ( Delegado Ilson Silva) e, também, Dirceu Silveira queriam que ele requeresse a prisão preventiva. Marilisa, com aquele seu jeito de anjo, vaticinou:

- “Eu não conhecia direito o Peixoto, só de cumprimentar, era ‘oi, tudo bem’, só isso, não tinha amizade nenhuma com ele, mas impossível, acho que ele errou, mas deve ter feito muita coisa boa, não é?”

Concordei, relatando que essa também era a minha opinião e a do Nilton Andrade. Argumentei que o sofrimento de Peixoto já era muito grande e que perigava ele até fazer uma besteira... Lembrei Marilisa que no ano passado estávamos em “Cidad Del Leste” (Paraguai) e encontramos Peixoto fazendo compras no “Shopping Americanas”. Marilisa acabou rindo, mostrando que já havia superado o estado anterior e perguntei:

- “Então, será que ele já não estava metido nesse caso do Cônsul de Marrocos? O que ele estava fazendo lá no Paraguai? Era só compras? Sinceramente, porque a coisa teve desdobramentos em Foz do Iguaçu”.

Relatei para Marilisa que na época em que Dirceu Silveira era Delegado-Geral Peixoto era unha-e-carne com ele, os dois viviam juntos, chegavam a ir a festas numa ilha em Florianópolis... Mas depois que Dirceu Silveira caiu no episódio da “Marlene Rica” e o seu sucessor (Delegado-Geral “R.T”) se transformou no todo-poderoso da vez, Peixoto abandonou Dirceu Silveira e passou a ser fiel ao novo Chefe de Polícia. Argumentei que também houveram perseguições a Dirceu Silveira e isso deve ter pesado muito para agora ele pedir para que Nilton Andrade representasse por sua prisão preventiva. Lembrei que no dia anterior havia conversado com Dirceu Silveira e não tinha observado qualquer resquício que denotasse rancor... Mas um detalhe havia me chamado a atenção, ou seja, quando comentei que houve a compra de “n.” para a Polícia Civil e alguém teria visto a “namorada” de Peixoto (irmã da policial Cibeli, esposa do Delegado aposentado Hilton Vieira) na posse de um dos “n.”, ninguém soube dizer se depois que os fatos vazaram se o “n.” foi devolvido ou se ficou na posse da mesma... Mas o que me chamou a atenção foi que Dirceu Silveira (talvez espertamente falando) durante nossa conversa ouviu meu relato, ficou pensando, e rapidamente pulou de assunto, evitando fazer qualquer comentário... 

No final da conversa, pedi um favor pessoal para Marilisa, ou seja, que ela indicasse uma advogada para fazer uma obra de caridade, ou seja, que patrocinasse uma medida judicial para uma pessoa carente da cidade de São Francisco do Sul. Marilisa imediatamente e já refeita, se prontificou a ajudar.