Uma missão:

Data: 02.07.08. Horário: 19:20h. Estava em Joinville e resolvi ligar para Marilisa e o telefone tocou, tocou, tocou... e nada! Meu intento era contar as novidades, relatar todos os contatos que havia feito, contar sobre as frustrações, expectativas, esperanças... e, também, saber um pouco da sua vida nos últimos dias, tomar conhecimento de novidades, mas nada e pensei: “Provavelmente não vai ligar, nem hoje à noite, tampouco amanhã..., mas melhor assim”. Lembrei que Patrícia Angélica tinha comentado que no dia anterior, quando ela esteve entregando o projeto na Delegacia da mulher, Marilisa havia comentado que já tinha conversado com o Deputado Darci de Matos que havia se comprometido em aprovar o nosso projeto. Patrícia Angélica comentou também que Marilisa havia reclamado de dores nas costas porque tinha participado durante horas de uma reunião no diretório municipal do PPS e o pessoal lhe pressionou que se lançasse candidata à Prefeitura de Joinville, porém, ela foi radical em não aceitar essa “missão”. Em razão disso, pensei: “É, acho que ela deve estar cheia, estressada, sem ânimo e vontade ou desprovida de qualquer interesse de conversar comigo por total “falência de ânimo”, especialmente neste momento..., ficou pequeno falar de projetos coletivos, além do fato dela estar sendo lembrada para ser candidata à Prefeitura Municipal, também, o fato de talvez ser muita pretensão querer uma atenção especial por parte dela, coisa que nunca tive...”.

Os inocentes:

Dia 03.07.08, horário: dez horas da manhã, estava na Delegacia Regional de Balneário Camboriú para uma audiência de interrogatório do Delegado Gilberto Cervi Silva. Depois de cumprimentar o advogado (e Delegado aposentado) Lauro Ignácio fui até o gabinete do Delegado Regional Ademir Serafim tratar do projeto da “indenização aposentatória”. A Escrivã (e secretária Julita) comunicou que Ademir Serafim estava numa reunião e que chegaria mais tarde. Em seguida ouvi do interior do recinto a voz do Delegado Luiz Carlos Half dando sinal de vida (Half substituiu o Delegado Masson na condição de vogal na comissão disciplinar). Fui para um local reservado, no interior do Gabinete de Ademir e lá estava Half navegando na Internet. De imediato fiz um relato sucinto sobre o projeto e acabei entrando no “site” da Assembleia e tirando uma impressão do material, reservando uma cópia para o DRP Ademir e entregando a outra para o Half.

Na sequências iniciei o interrogatório do Delegado Gilberto e tudo transcorreu dentro do previsto. Não dava para esquecer o Delegado Gilberto, a começar o seu passado, desde a época em que eu fazia reuniões em Joinville e ele participava na condição de presidente da Associação Regional dos Policiais, sem que prestasse contas dos recursos que lhe repassava... Quando perguntava para algum policial sobre a aplicação dos recursos ninguém sabia responder nada e até hoje não sei o que ele realmente fez com o dinheiro que deixava, tudo resultado das nossas árduas promoções... Depois, Gilberto Cervi Silva,  na condição de Delegado Regional de Balneário Camboriú, foi concitado a apoiar nosso projeto de apoio para criação do Colégio de Delegados Regionais, discussão da “PEC” de criação da “Procuradoria-Geral de Polícia”..., mas nada de concreto.  Durante as nossas conversas Gilberto Cervi e Silva concordava com tudo, entretanto, depois que eu virava as costas, nada era feito, só sorrisos, o “bem-bom”, o “bem-bolado”, o “bem-tragado”, o “bem-raspado”... Claro que Gilberto queria o melhor, mas na hora de “pedalar”, na hora de suar a camisa, de entrar em choque com o poder instituído... Depois veio o processo disciplinar do “Salmória” lá de Videira, e agora o outro processo disciplinar do “caso do caminhão da Casa do Trigo Ltda de Balneário Camboriú”... e pensei: “Quanto sofrimento para si, para seus familiares..., quanto sangramento impingido à instituição...?”.  

Um homem de confiança e o “Prato ‘PF’ (seriam provações e privações?)”:

Por volta das onze horas e trinta minutos fui avisado pela Escrivã Julita que o DRP Ademir Serafim já estava me aguardando. Logo que acessei o gabinete Ademir veio ao meu encontro, sendo que na sua frente estava (sentado) um Comissário de Polícia daqueles “antigões”, parecia seu homem de confiança. Ademir Serafim estava conversando com esse policial sobre a viagem que faria no início da tarde para a Capital, a fim de participar de uma reunião com o Delegado-Geral. Logo imaginei: “Bom, já que Ademir ocupa dois cargos, tem que se desdobrar em dois lugares ao mesmo tempo, êta mundinho policial terrível”. Ademir Serafim estava trajando um terno preto e discutia com esse policial se conseguiria chegar às quatorze horas na Delegacia-Geral em razão dos engarrafamentos na Ponte Pedro Ivo (Florianópolis). Argumentei que se ele saísse às treze horas chegaria por volta das quatorze ou quatorze e quinze... O Comissário que seria o motorista com um semblante suspeito foi dizendo:

- “Tá vendo, doutor, aí a gente pode almoçar na estrada, naquele restaurante lá que tem um ‘PF’ (prato feito), bem baratinho...”.

Ademir Serafim sorriu olhando  meio que de lado e concordou:

- “Sim, é verdade, tem que ser um ‘PF’ bem baratinho porque ninguém tem dinheiro para gastar”.

Recolhido nos meus pensamentos e fazendo leituras labiais, espirituais, faciais... pensei: “Seria o ‘Recanto da Sereia’ ou próximo, de frente para o mar...? Bom, pela cara deles a coisa é boa, deve ser tudo por conta da viúva, ou melhor, em decorrência do cargo..., mas nunquinha um restaurante de posto de gasolina, um lugar onde só entram motoristas suados, cansados, barbudos, fedendo... e, depois, com direito a afagos no proprietário, gerente, garçons do estabelecimento..., façam as suas apostas!” Mas aquele semblante do Comissário ao se levantar faceiro e vendo o corregedor presente não me saia da mente... hummm, e ainda pensam em me fazer de tolo, acreditando no ‘PF’, como se fossem uns  sofredores...”. 

Em seguida  observei que Ademir Serafim já estava com o “projeto da indenização aposentatória” nas mãos e foi me perguntando o que era para fazer, o que eu queria dele... Com paciência relatei a história do “projeto”, desde o ano passado, quando juntamente com a Delegada Marilisa fomos conversar com o Deputado Darci de Matos lá na Assembleia Legislativa, depois a ajuda do Delegado Zulmar Valverde... Comentei também sobre os contatos que fiz naquela semana com os Delegados Regionais, renovando pedidos de apoio à causa, solicitando que tratassem do assunto com “convicção”, focassem o projeto como um sonho, uma causa superior. Ademir Serafim revelou que havia gostado do projeto e eu acabei justificando que o certo seria as três vias de poder lutarem com sinergia, começando pela cúpula, os Delegados Regionais e as nossas lideranças classistas. Acabei citando que a “Delegada Sonêa não deveria permanecer noventa por cento em Brasília acompanhando a “PEC 549” e dez por cento em Santa Catarina, ou seja, deveria inverter essa ordem temporal... Ademir Serafim me interrompeu:

- “Doutor, desculpe eu discordar, mas a ‘PEC’ é um momento muito importante, o senhor sabe que forças estão lutando para derrubar a matéria, inclusive dentro da própria Polícia Civil. O senhor sabe que aqui em Santa Catarina o sindicato está comandando essa luta contra nós, então nós temos que estar atentos, por isso que ela tem que ficar lá mesmo neste momento...”.

Interrompi:

- “Eu não discuto a importância do acompanhamento da matéria em Brasília, mas ocorre que a Associação dos Delegados Federais está em cima, a Associação dos Delegados do Distrito Federal está acompanhando, também a Adepol do Brasil, as Associações dos Delegados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro..., então, na minha visão devemos focar Santa Catarina que fica muito pequena no contexto nacional. Não dá para aceitar que  Sonêa fique residindo em Brasília e esqueça as nossos lutas aqui no Estado. Pelo amor de Deus, a ‘PEC’ está tramitando lá e tem muita gente acompanhando, mas aqui não tem nada. Tudo bem, nada contra ela ir lá uma vez por mês, ou a cada dois meses lá...”.

Ademir Serafim ouviu atentamente e reiterou:

- “É, mas doutor,  mas nós temos que ficar vigilantes...”.

Fiquei pensando: “Claro, Ademir Serafim está comendo na mesa gorda, respirando o poder, vivendo a plenitude do prazer... e o que mais quer é que tudo continue tranquilo aqui no Estado, sem quaisquer conflitos com o governo, sem embates, sem críticas, tudo parecendo ‘normalíssimo’, ‘gostozíssimo’, ‘boníssimo’, ‘satisfeitíssimo’, ‘convenientíssimo’...”. Olhei no canto do gabinete de Ademir e lá estava ainda um monte daquelas revistas “Momento Policial”, sendo que na capa de uma delas Ademir Serafim aparecia elogiando o governo Luiz Henrique e o Secretário de Segurança Deputado Federal Ronaldo Benedet, dando entrevista e falando sobre as conquistas da Polícia Civil... Mesmo assim, recomendei que Ademir Serafim encaminhasse um documento para os Deputados da região pedindo apoio ao nosso projeto, que conversasse com o Vice-Governador Pavan, que encaminhasse correspondência para o Titular da Secretaria de Segurança Pública... Ademir Serafim me interrompeu dizendo:

- “Felipe, entre a cúpula da Polícia Civil e o Secretário existe uma distância...”.

Ademir Serafim não externou totalmente seu pensamento e aproveitei para interpretar, dizendo:

- “Sei, existe um abismo entre a direção da Polícia Civil e o Secretário, não é?”

Ademir Serafim, de forma comedida, quis negar esse abismo e eu insisti:

- “Ah, sei, é um abismo espiritual”.

Acabamos rindo porque estava claro qual era: “o abismo político” (o Secretário era do PMDB e o Delegado-Geral Maurício Eskudlark do PSDB). Encerrei o assunto falando sobre a “teoria da convicção” e ouvi uma voz poderosa atrás de mim:

- “Estou gostando doutor, pode continuar que eu estava aqui ouvindo. É aquele projeto que o senhor fez no ano passado e me mostrou quando eu estava ainda lá na Corregedoria?” Confirmei lembrando que ela tinha que mobilizar o pessoal, conversar com a Deputada Ada do PMDB. Magali ironizou dizendo:

- “O senhor tem a sua prima lá, lembra?”

Quando estava pronto para deixar o gabinete de Ademir ele deixou escapar uma pérola:

- “É, doutor, tu tens uma história muito bonita na instituição. Eu vou conversar com o Maurício para a gente marcar um encontro com o ‘Pavan’. Se a gente te convidar para estar com a gente para uma conversa tu vais?”

Olhei da porta para Ademir Serafim e vaticinei:

- “Claro que sim. Meu Deus, claro que sim. Vou até o inferno para defender esse nosso projeto. Dou o meu sangue por isso...”.

Ademir Serafim fez um sinal afirmativo e eu pensei: “Como era bom encontra-lo naquele estado de graça, no seu melhor. Espero que esteja sendo muito sincero, apesar de algumas dúvidas, sei que é um fervoroso defensor da instituição a que pertence, ou seria só fachada?”