Os legados dos Delegados Fogaça e Luiz Darci: 

Data: 18.06.08, horário: 10:30h.  Estava na  Delegacia Regional de Balneário Camboriú e fui direto para a sala de audiência, em cujo local  encontrei   Lauro Ignácio (pai da Delegada Magali) que funcionaria como advogado de defesa do Delegado Gilberto Cervi e Silva e dos policiais Célio Sebold e Pedro (ambos Comissários de  Polícia). Lauro Ignácio fez alguns elogios a minha pessoa, muito embora não levei muito a sério, a bem  da verdade ele externou que os Delegados Manoel Fogaça e Luiz Darci da Rocha (o primeiro já falecido e o segundo advogado militante), juntamente comigo, eram  as pessoas mais expressivas na história da Polícia Civil. Interrompi, tentando reduzir suas adjetivações, citando o nome do ex-Delegado Jucélio Costa, já falecido, e suas realizações tão negligenciadas, como por exemplo as inovações relacionadas ao surgimento  da Academia da Polícia Civil (antiga “Escola de Políca), a carreira de Delegado de Polícia, a Diretoria da Polícia Civil (1964) e da Superintendência da Polícia Civil (1971). Quanto ao Delegado Fogaça argumentei que seu legado foi ter deixado um “estilo”, uma “filosofia”, uma “doutrina” de polícia para nortear a conduta dos Delegados de Polícia dentro de uma visão jurídica, técnica e científica. Argumentei que na verdade “Fogaça” foi elevado a categoria de mito no meio policial, especialmente, por parte de seus ex-alunos. Já Luiz Darci da Rocha (Delegado aposentado) deixou uma  história dentro de outra perspectiva, considerando  que sua experiência profissional e inteligência contribuíram para que se diferenciasse de seus pares, bem  superior a grande maioria. Fogaça e Luiz Darci tinham em comum o foto de terem servido a governos e ocupado cargos comissionados durante todo o tempo em que permaneceram na ativa, conseguintemente, puderam contribuir de forma positiva para que vários projetos de interesse institucional viessem a se transformar em realidade. Além disso, outro fator que os identificava foi a vinculação com a Academia da Polícia Civil, quer como professores quer como diretores daquele órgão. De resto, a contribuição que deixaram em termos de obras é quase que inexistente, apenas na lembrança daqueles que ainda estão vivos (como Lauro Ignácio).

Delegado Hilton Vieira:

A seguir, acabamos enveredando assuntos relacionados à Corregedoria da Polícia Civil e Lauro Ignácio aproveitou para fazer  algumas considerações:

- “O único Delegado que passou pela Corregedoria e que eu nunca engoli foi, como é mesmo o nome dele, acho que é Nilton, sim Nilton. Não tem lá um Delegado com o nome de Nilton?”

Fiquei  em dúvida porque não acreditava que ele estava falando do Delegado Nilton Andrade...e Lauro Ignácio  fez um relato:

- “Uma vez eu tive uma audiência com ele aqui em Itajaí e no dia seguinte a audiência era lá em Fraiburgo. Ele viaja  com a mulher... Ele trouxe a mulher porque achava que eu não viajaria até Fraiburgo, então ele trouxe a mulher junto para designá-la defensora. Ela era bacharel em Direito, acho que trabalhava com ele... Eu acho que é Nilton o nome dele. Ele foi Corregedor lá há uns tempos atrás. Bom, quando eu cheguei em Fraiburgo ele já tinha iniciado a audiência e quando me viu ficou meio sem jeito. Ele olhou para mim e disse: ‘Ué, doutor, então o senhor veio mesmo...!”’

Interrompi:

- “Ah, Lauro, tu só podes estar falando do Delegado Hilton Vieira, claro, do Hilton...”.

A policial Patrícia Angélica que estava digitando interrompeu:

- “Ele já está aposentado”.

Lauro insistiu:

- “Bom esse era o único Corregedor lá que eu não me dava...”.

Um enígma ou um flagra? 

Acabei fazendo um relato que envolvia o Delegado Lipinski que naquele momento  estava  atuando na comarca de Brusque. Lauro Ignácio fez uma cara feia e soltou outra:

- “Nem fala nesse homem. Agora ele está lá com uma menina nova...”.

Fiquei surpreso porque no ano retrasado avistei  Lipinski andando de mãos dadas com sua esposa durante o verão caminhando na praia de Jurerê Internacional e logo intuí que Lauro Ignácio poderia estar  “trocando as bolas”, como fez no caso de Hilton Vieira, afinal de contas sempre soube que Lipinski era um profissional sério, fiel e comprometido com sua família, também, muito ligado a sua esposa que sabia se tratar de uma pessoa valorosa e encantadora...  Mas Lauro Ignácio continuou:

- “Não, ele já está separado. Olha, eu não sei como esse homem conseguiu chegar a ser Delegado. Depois eu tomei conhecimento que ele estava  lá como Delegado-Geral. Eu vou contar uma para ti, Felipe. Eu e o Lipinski trabalhávamos juntos lá em Itajaí. Ele era Comissário e nós tirávamos plantão na mesma equipe na Delegacia. Eu não vou entrar em detalhes, mas uma noite eu dei um flagra nele, olha, peguei a minha arma apontei para ele e disse: ‘Lipinski, não faça isso, não faça isso, não faça, se você fizer eu te meto bala agora...’”.

Fiquei surpreso e curioso com aquele relato e insisti:

- “Mas conta para nós o que é que tu flagrasses?”

Lauro Ignácio se manteve irredutível..., porém, ostentando uma cara de surpreso, talvez por saber da minha  condição de interessado em registrar histórias..., fez algumas considerações:

- “Vocês não acreditam. Eu coloquei aquela arma na cabeça dele e disse: ‘se tu fizeres isso tu morres’. Depois, ele passou para Delegado e acabou ainda como Chefe de Polícia. Eu não sei como é que um homem como ele conseguiu chegar onde chegou. Eu não consigo entender como um homem com o passado dele conseguiu punir um monte de gente..., quando eu dei um flagra nele eu quase que atirei...”.

Lauro Ignácio comentou que se eu quisesse descobrir o que realmente havia ocorrido durante aquele plantão nos primeiros anos da década de setenta era para consultar o livro de relatório da repartição, onde ele fez constar numa frase em código o que tinha ocorrido. Lauro Ignácio chegou a citar uma frase que parecia em latim ou escrita de trás para frente, mas não consegui decodificar e, tampouco, registrá-la.

O “Iprev”:

Durante o curso das audiências acabei relatando minhas impressões a respeito do “Iprev” e do “Fundo de Previdência dos Servidores Públicos”, aprovado no dia anterior  na Assembléia Legislativa. O Delegado Wilson Masson e a policial Patrícia Angélica se faziam presentes na sala de audiência e testemunharam essa nossa conversa, muito embora talvez não tivessem dado a devida importância ao que foi relatado... Lamentei que enquanto o governo aprovava o “Iprev” na Assembléia Legislativa, as nossas lideranças estavam todas omissas, distantes... Aproveitei para fazer comentários sobre a  “fórmula” das três vias de poder na  instituição policial civil e que caberia a elas  se contraporem à proposta do governo. Relatei que a cúpula, representada pelo Delegado Maurício Eskudlark e outros, simplesmente fizeram  de conta que não tinham  nada haver com o que estava acontecendo... Já os Delegados Regionais eram   uns verdadeiros autistas e citei os exemplos dos Delegados Regionais  Dirceu Silveira  (Joinville), este com acesso ao Governador Luiz Henrique da Silveira, Ademir Serafim (Balneário Camboriú) e outros. Lamentei que Ademir Serafim que tinha  tanta influência junto ao Delegado-Geral não queria saber de nada e que chegou a dar entrevista à “Revista Momento Policial (último número), havia comentado   que a Polícia Civil estava indo  muito bem e que o governo do PMDB estava sendo o máximo.

A gargalhada do Delegado Ademir Serafim:

A certa altura ouvimos uma gargalhada vindo do corredor da Delegacia Regional e logo intuí que só poderia ser do Delegado Regional Ademir Serafim, o que me fez argumentar:

- “Puxa, é o Ademir parece que está  feliz mesmo, só não sei com o quê? O momento é só de tristeza, imagina, ontem foi a pá de cal que faltava, é o nosso empobrecimento, é o futuro dos nossos policiais com restrição de direitos, menos  dinheiro para comprar remédios, ter um final de vida digno depois de anos de trabalho... É,  o Ademir está muito contente, isso lembra aquela máxima de Sheakespeare: ‘o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente’... Tem outra também dele que diz que ‘o senhor das trevas também é cavalheiro’... Bom, tem uma de Voltaire que diz que ‘de barriga cheia em penso de um jeito, já de barriga vazia...’, e ta aí o  Ademir Serafim gargalhando, parece que ta bom o negócio aí...!”

 

Em duas oportunidades a Delegada Magali veio até a sala de audiências nos cumprimentar, mas dava para perceber que ela andava meio ressabiada comigo, ou com a consciência pesada, pois deveria estar andando de “barriga bem cheia”, apesar de que usado pelos de “barriga cheíssima”.