De Deus para o mundo: uma Eclesiologia (3)- Ação de graças-Eucaristia

O que alimenta a vida da Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus?

Pode-se responder que a base desse cardápio é o amor. Destacando que esse amor manifesta-se de várias formas: esforço eclesial para a superação da maldade humana; a celebração da eucaristia; ouvir a palavra inspirada; comprometimento com a justiça e a verdade...

Mas também podemos falar de uma relação dialogal, ou seja, de uma constante relação de diálogo entre Deus e os seres humanos. Notando que se trata de um diálogo em que Deus sempre oferece algo de bom e o ser humano nem sempre retribui amorosamente. Pelo contrário, em diferentes momentos da história a postura humana foi de rebeldia e afastamento. O ser humano se recusa ao diálogo.

Deus inicia o diálogo com a criação, disponibilizando à espécie humana as condições e os recursos necessários ao desenvolvimento. Fez o ser humano capaz de usar, racional, criativa e inventivamente, todos os recursos da natureza. Mesmo capaz disso a resposta humana nem sempre foi de amorosa retribuição. Pelo contrário, na maioria das vezes, sua resposta foi de infidelidade, desagradando ao Criador. E, muitas vezes, a resposta humana ocorre de forma evasiva, como na narrativa da queda original, conforme se lê em Gn 3,9-13.

Ao longo das páginas da bíblia podemos acompanhar esse diálogo pelo qual Deus, pai bondoso, oferece seguidas oportunidades para que o ser humano responda amorosamente. Claro que a palavra de Deus é uma espécie de metáfora dessa relação de Deus com a humanidade. Mas nela podemos observar concretamente os seguidos gestos divinos e a desastrada resposta humana. O mito da criação, no Gênesis é um exemplo disso. A palavra dos profetas nos recorda o amor divino chamando a atenção a respeito da deslealdade humana. Os escritos sapienciais oferecem pistas para uma vida de acordo com o plano divino. E tudo isso é oferecido por Deus justamente para evidenciar a infidelidade humana e sua dificuldade em manter o diálogo.

Chega um ponto em que o gesto de amor se junta com a proposta dialógica. E Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Com o gesto de encarnação, o Pai, em sintonia com o Espírito de Amor, envia o Filho com a missão de ensinar as pessoas a trilhar o caminho do amor dialogal. Diz a Carta aos Hebreus (Hb 1,1-2) que de muitas formas Deus havia falado, até que enviou seu Filho a fim de revigorar e eternizar o diálogo. Como um canal de diálogo, “a Igreja nasce da ação evangelizadora de Jesus e dos doze”, nos ensinou o papa Paulo VI, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (EN15).

Isso, entretanto não ocorreu por merecimento humano, mas, pelo contrário, a encarnação ocorreu como definitiva proposta de um diálogo amoroso. Como modelo dialógico, a comunidade trinitária se faz modelo eclesial a fim de que Jesus pudesse permanecer como sinal sacramental, ensinando à humanidade o caminho do amor. Selando a “nova aliança” com seu sangue (Lc. 21,20).

Entretanto, sabendo da incapacidade humana em se manter e manter o diálogo, Jesus desenvolveu um meio único de permanecer junto aos seus: assim nasceu a Igreja, assembleia dos seguidores de Jesus; na Igreja que Jesus Cristo permanece de forma perene na eucarística, como ensina o apóstolo Paulo (1Cor 11,23ss) “De fato, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: Na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em minha memória’. De fato, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha.” (ver também: Mc 14, 22ss; Mt, 26,26ss; Lc 21,19s).

Dois elementos podem ser destacados desta afirmação paulina (e também evangélica): Em primeiro lugar o pão e o vinho são o corpo e sangue do Senhor: “isto é meu corpo”, “isto é meu sangue”. Não se trata de uma representação mas de uma afirmação essencial. Não foi dito “isto parece” ou “isto representa”, mas “isto É”. deve-se notar que o verbo utilizado afirma a atualidade do gesto: tempo presente. E também afirma a essencialidade da doação.

Em segundo lugar há um elemento que indica uma característica não só da atualidade como do processo permanência do gesto: o pão e o vinho, corpo e sangue do Senhor, são dados em “memória”. A memória é preservada não como recordação mas como ação eclesial. A comunidade dos seguidores de Jesus – a Igreja – repete cotidianamente a doação de Jesus e com isso mantém vivo o canal do diálogo. E assim Jesus mesmo tendo retardando ao pai, permanece na Igreja, como o afirmou Paulo VI (EN 15): “nascida da missão, pois, a Igreja é por sua vez enviada por Jesus, a Igreja fica no mundo quando o Senhor da glória volta para o Pai. Ela fica aí como um sinal, a um tempo opaco e luminoso, de uma nova presença de Jesus, sacramento da sua partida e da sua permanência, Ela prolonga-o e continua-o.”

Um detalhe, entretanto, não pode ser esquecido: celebrar a Eucaristia, além de ser um meio pelo qual o ser humano agradece (eucaristia=ação de graças) o dom do diálogo, exige compromisso com o outro. Primeiro porque sem os irmãos não há Igreja (só há Igreja quando existe uma comunidade). Depois porque a Eucaristia que é ponto e sinal de união dialogal com Deus, pode ser canal de perdição eterna: “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor.” (1 Cor 11,29).

Em que consiste o comer e beber indignamente?

Há que se ler o conjunto de 1 Cor 11 e em particular a repreensão expressa em 11,21: “pois cada um se apressa a comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro se embriaga.” Nesta afirmação Paulo lança uma indagação: como pode haver comunhão na Igreja se um tem fartura e outro passa fome? A observação paulina repercute a afirmação do próprio Jesus (Mt 25,31ss): tive fome e sede e não me deste de comer e beber.

Além disso, Jesus só se dá a conhecer no partir do pão em sintonia com a comunidade. Com ocorreu na caminhada para Emaús. Na caminhada os corações ardiam, mas o reconhecimento só se deu na hospitaleira partilha: os caminhantes partilharam o teto e Jesus partilhou o pão. E eles o reconheceram ao pronunciar a benção (eucaristia) e no partir do pão (Lc 24, 29-31). As escrituras indicam o caminho, mas somente a partilha indica Jesus.

Mas, possivelmente, o centro de toda a discussão está na nova versão dos mandamentos divinos resumidos no mandamento do amor: amar a Deus e amar aos irmãos. Nisso está a lei e os profetas disse Jesus. “‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’ Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22, 36-40).

Pensando em seguir os passos do Mestre, cotidianamente a Igreja atualiza a memória, do corpo e sangue do Senhor, mantendo o diálogo de Deus com a humanidade. Esse diálogo é, ao mesmo tempo, um convite para superar as divisões, ambições, egoísmos e todas as situações que afastam o ser humano de Deus; um modelo de partilha pelo qual o ser humano pode medir o que ainda lhe falta crescer, superado o mundo corrompido onde o anti Reino ainda está presente; e uma promessa das alegrias futuras, quando o Reino se instalar.

Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Rolim de Moura – RO – neri.pcar@gmail.com