Contradições

 

Me matarei!

É que já não dá mais para suportar tantas contradições... doloridas.

Me matarei! Até por isso... Os gramáticos e a minha professora do primário (que já foi primeiro grau e hoje é ensino fundamental!) – me proíbem de escrever do jeito que quero: tenho que submeter-me as leis da gramática – e, talvez por isso existam tão poucos escritores...

E eles me ensinam que eu não posso começar um parágrafo (por que está errado) com um pronome pessoal do caso oblíquo.

Se eu estiver com vontade de morrer terei que comunicá-la assim: matar-me-ei; com uma assustadora mesóclise. E se eu não estiver predisposto ao suicídio estarei, certamente, falando metaforicamente.

Mas não estou disposto a discutir – gramática. Pois o que é proibido ao menino que inicia seus estudos gramaticais é permitido ao literato, poeta. É permitido ao autor famoso. O que é errado para o menino (que ainda nada sabe da gramática) é correto para o homem de letras (que já sabe das regras da gramática!). É contraditório: o que sabe tem permissão para errar, mas o que não sabe não pode errar.

Se um menino, numa prova, escreve – “me matarei”, ganhará a recompensa de um zero (o redondo que na geometria é expressão de perfeição, na prova do menino significara uma redonda imperfeição).

Mas se um autor da literatura escrever “me matarei”, isso será chamado de arte.

Mas não estou disposto a discutir a gramática contraditória. Não quero saber por que o que é errado para o menino é correto para o erudito. Não quero saber por que o que é motivo de zero para uns, é motivo de aplauso para outro.

Se um menino, em desespero pede: “me dê um tiro na cabeça”, ninguém o atenderá! Pois está errado gramaticalmente.

Mas se Jorge Amado, o Fernando Sabino, o Mario Quintana, o insensível Drummond... Se um desses ou outros, escreve “me dê um tiro na cabeça” não está errado, pois será chamada de linguagem colonial, linguagem adaptada ao meio, será estilo popular, licença poética... Será chamado de qualquer coisa. Mas não será como o erro do menino que está aprendendo a escrever.

Mas não estou disposto a discutir o absurdo da gramática (afinal de contas alguém precisa preservar a beleza e correção de nossa gramática). Não quero entender a gramática. Eu só queria saber por que o que é proibido é permitido e o que permitido é proibido.

Não entendo as contradições da vida. Alguém pode me explicar??

Me matarei? Não sei se vale a pena, por tão pouco. A loucura, talvez seja mais interessante.

A moral condena o suicídio. Mas se um louco se mata seu ato será considerado de extrema loucura... ou desespero (se for analisado pela psicologia vai se constatar que possivelmente era uma pessoa depressiva).

E a vida convive com suicídios sem contas... a vida convive com a morte... a morte está presente na vida. E o que é permitido, proíbe-se. O que é proibido... Permite-se.

Me é proibido avançar, com o carro ao sinal vermelho. Mas com jeitinho posso fazê-lo. Me é proibido conversar com o motorista do ônibus, mas diariamente vejo alguém em altos papos com tal. Me é proibido comprar remédio sem a devida receita médica. Mas toda farmácia que se preze vende o remédio que desejo, na maior felicidade. Me é proibido... tantas coisas que posso fazer sem sansões...

Mas não estou disposto a discutir as proibições absurdas. Quero falar do que é permitido.

Me é permitido comunicar-me por carta, telefone... Mas as tarifas me proíbem. Me é permitido ler qualquer tipo de livro, revista, jornal... (acabou a censura?)... mas os preços estão ai me censurando, me proibindo. Me é permitido ir ao medico, ao dentista, ter saúde... Mas a burocracia me proíbe (isso quando eu não morro na fila de espera!). Me é permitido tirar férias, viajar... (Vivemos num país democrático, livre; o direito de ir e vir está assegurado pela constituição)... Mas o salário me proíbe. Me é permitido... um montão de coisas que me são inacessíveis... proibidas.

Mas não estou disposto a discutir o absurdo das proibições permitidas e nem das permissões proibidas. Quero apenas é viver, pois a situação é proibitiva. Quero apenas que me permitam respirar poluição.

Quero é viver... e protestar...

Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Rolim de Moura – RO