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Naquele dia o senhor Emanuel Messias Salvador estava de bom humor. Coisa rara, pois quem o conhecia, sabia de seus chiliques e outras tantas manias de um velhote solitário, aposentado e possuidor de um capital intelectual bastante desenvolvido, o que lhe assegurava uma tremenda capacidade de fazer comentários ao mesmo tempo irônicos e bem humorados. Mas sempre mostrando alguma incoerência ou absurdo da linguagem coloquial.

Todos sabiam que o senhor Emanuel não era muito chegado às modernidades. Nem em relação aos aparelhos muito menos em relação à linguagem.

Mas, naquele dia estava de bom humor.

E foi com bom humor que ele olhou para seu aparelho de telefone celular, sobre a mesa. E lembrou-se que havia ficado quase o dia inteiro fora de casa e que não havia levado o aparelho.

Foi com esse espírito: de bom humor e de um pequeno ar de culpa, que pegou o aparelho.

O sentimento de culpa era por não ter atendido a alguma possível ligação da filha, que fazia faculdade e, por esse motivo, estava morando em outra cidade e que, quase sempre no horário do almoço fazia alguma ligação para o pai, a fim de tirar alguma dúvida em relação a um assunto qualquer.

Na verdade o senhor Emanuel sabia que a filha ligava apenas para conversarem, pois ela idolatrava o pai e sentia-se solitária no mundo dos estudantes…A academia é uma chatice, dizia regularmente!

O fato é que o senhor Emanuel pegou o aparelho. Pressionou o botão lateral para ativar o aparelho. Correu os olhos sobre os ícones dos aplicativos que apareceram na tela. Notou que o ícone do WhatsApp indicava que havia várias mensagens para serem acessadas.

Meio sem jeito, meio a contragosto, meio aborrecido, pressionou o ícone. Abriu o aplicativo. Viu a lista de mensagens de seus vários contatos. Notou que não havia mensagem da filha. Notou que havia uma mensagem de um número desconhecido.

Mas, principalmente, o senhor Emanuel notou que a foto da pessoa do número desconhecido mostrava um belo rosto de uma jovem sorridente. Pele morena, cabelos soltos, lábios vermelhos. Blusa verde degotada, a curva superior dos seios bem visíveis, denunciando jovialidade… notou tudo isso, mesmo sem ser um homem observador. E notou que esse número desconhecido, que ostentava um belo rosto, tinha apenas uma mensagem.

Meio por instinto, meio por curiosidade, meio por obrigação… pressionou a tela para abrir a mensagem. Num lance de olhos leu o que estava escrito: “Olá, boa tarde! Neste contato consigo falar com o senhor Emanuel Messias Salvador”.

Sorriu e, imediatamente, respondeu: “Neste contato não. Talvez pessoalmente ou por telefone”

……………………………!

………………….……………!!

…………………………………..!!!

E o senhor Emanuel, balançou a cabeça, negativamente.

– Não sei porque me acham chato. Mas quem é que consegue falar em um contato? Bem esta, pelo menos inovou. Os outros querem falar “neste número”

……………..!

– O que é que andam fazendo com nossa língua?

E olhou novamente para o rostinho bonito. Olhou para a pracinha, do outro lado da rua. E continuou falando para seus próprios pensamentos:

– Se pelo menos me convidasse pra falar comigo ali na praça. Numa lanchonete...Mas quer falar comigo num contato. Se tivesse perguntado se usando este número de telefone poderia entrar em contato comigo… E ela nem estava falando. Estava escrevendo. Estava escrevendo e queria falar em um contato...

– Realmente, a linguagem é uma fonte de mal entendidos, como disse a raposa…

Deixou o aparelho sobre a mesa e nem se deu ao trabalho de ler as outras mensagens…

 

Neri de Paula Carneiro

Rolim de Moura – RO

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