Como se dá o pensamento feminista negroe o populismo de direita no século XXI?

                           Francisco Hermes Batista Alencar, Maria Cilene Gomes Vieira[1]

O mundo passou por tremendas transformações, sejam as dessegregação, descolonização, direitos das mulheres, direitos das pessoas LGBTQ, ou seja, todos os tipos de mudanças, ou não? Percepção da socióloga americana Patricia Hill Collins; e ainda afirma que seria ingênuo da nossa parte supor que não haveria uma reação a essas mudanças. Pensamos que o que temos nos EUA são duas visões sobre o que deve ser a democracia. Por um lado, temos a democracia participativa na qual os EUA vêm fazendo um movimento de mais de 200 anos por mais inclusão. E quando observamos o fato de que os afro-americanos desembarcaram no país como não-pessoas, como gado mesmo. E que hoje os afro-americanos são considerados pessoas, mas ainda há muito racismo, nós percebemos o quanto demora para que uma democracia construa nela mesma a verdadeira participação. Incluir as mulheres no sufrágio, quando esse grupo ganha direito de voto, ou quando aquele grupo passa a poder morar em determinado bairro. Este não é um novo conjunto de ideias. ;observamos que nos EUA há essa noção de que a democracia havia sido atingida, pois: é tudo democrático, afinal as leis estão aí.

Palavras-chave: Crises. Educação Ambiental Necrosante. Feminismo populista.

A)Estaria tudo uma maravilha quando Obama era presidente?

Mas o que mais poderíamos desejar? Olhemos essas evidências. Esta seria uma visão da democracia americana. Na verdade, há outra visão que é exclusionária, que basicamente afirma que ‘precisamos de um punho firme’ para tocar este país!Ou precisamos de uma versão de democracia que seja, a moldura em uma família forte.[2]

E essa família seria do tipo patriarcal, esta encabeçada por um pai forte, sempre ao lado de uma mãe apoiadora. Essa é a família nuclear heterossexual. E essa família contaria com crianças, que sabem que deve obedecer aos seus pais. Segundo a socióloga Patrícia Hill Collins que faz uma análise interseccional da ascensão do populismo de direita no século XXI, representado por figuras como Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro.

Pois, para Collins (2019), é fundamental darmos um passo atrás e entender esse fenômeno no interior de um quadro histórico mais amplo de disputa pela democracia.  Já destacando os paralelos e as lições, a serem extraídas da experiência do Fascismo doa anos de 1930, Collins ainda insiste em enxergarmos o presente como aquele momento das oportunidades.

E todas as pessoas nesta família se assemelharão a ela. E seria homogênea em termos de etnia, raça ou religião. E aquele que não se encaixassem neste perfil seriam considerados ‘como da família’. Mas seriam ‘outsiders internas’ daquela família. E esta visão da democracia americana, baseia-se na cidadania desigual, pois, é oque temos hoje nos EUA.

Seria isto que temos hoje nos EUA, mas não cremos que estejamos a discutir nenhuma novidade. Por que o que estamos defendendo é que de um lado há uma visão participativa de democracia para a qual é preciso se livrar da cidadania desigual, e é preciso continuar a ampliar a equidade. Não se trata de um modelo no qual os de cima decidem tudo. Mas trata-se de um modelo verdadeiramente democrático e participativo, sempre fundamentado de baixo para cima.

Mas o outro modelo diz que há tantos problemas sociais no mundo que precisamos de um punho firme, para consertá-lo. Este é o modelo do homem forte. Este modelo familiar está por trás daquela visão de nacional. E esta percepção particular que acabo de apresentar – que aliás, é interseccional – nos ajuda a explicar certos resultados eleitorais e, ela nunca realmente irá embora.[3]

Segundo a concepção da socióloga americana Patrícia Hill Colins:

Para nós, estas duas visões da democracia são contraditórias, pois, ambas podem ser ‘democracia’, pois os dois podem se dizerem um tanto ‘democráticos’. Mas um é de cima para baixo e, o outro é de baixo para cima. Pois, ambos podem parecer serem democráticos. Mas eles estão em disputa – como sempre estiveram. (COLLINS, 2019)

Se nós olharmos a história dos EUA temos períodos históricos em que um lado está vencendo, e outro está perdendo. E outros em que o inverso vale também. Mas trata-se de uma luta constante. Ela nunca se acaba, nunca é definitivamente vencida. Este momento que vivemos nos EUA caracteriza-se pelas esperanças daqueles que confundiram o sonho – o ‘americandream’ é de democracia participativa. Cremos que aqui há um termo semelhante de ‘democracia racial’.

Enfim, o ‘sonho americano’ de oportunidades iguais – é por isso que os EUA recebem tantos imigrantes: Estes acreditam neste ideal, e é um ideal muito digno, mas estou falando aqui sobre a realidade da cidadania desigual. O que irá custar para levar adiante este ideal. Pois, é assim que nós enquadraríamos a análise deste momento histórico particular. Este argumento não vale somente para os EUA, pois, há momentos semelhantes na história nos quais os homens fortes assumem o poder.

Quando observamos os anos de 1930, na Europa, e também quando olhamos para a Alemanha, a Áustria, e a Itália. Quando nos debruçamos sobre a história do fascismo, e como ele surge imediatamente após um período de enorme mudança no mundo, o rescaldo da Primeira Guerra Mundial.

B) Como darmos sentido a nós mesmos depois da Guerra?

Este período em que as pessoas sentem que perderam algo que nunca tiveram: Uma forma de superioridade que nunca de fato tiveram. Mas surge alguém que diz: ‘Nós podemos voltar a sermos grandes’; e quem está incluído neste ‘nós’?

Mas que fique bem claro: Não estamos falando sobre hoje, estamos falando sobre a Itália e a Alemanha dos anos de 1930. Onde surgiram argumentos semelhantes, e em que, no caso alemão, os nazistas foram eleitos democraticamente, - houve eleições, não foi um golpe palaciano – e rapidamente transformaram aquilo em outra coisa.

Há lições em torno das questões do fascismo. Há uma série de livros que precisamos voltar a estudar, e indicá-los às pessoas. Por que em vez de olhar para o aqui e agora, como aberrações isoladas, precisamos atentar para o quadro geral e, dizermos que há pontos de vista em disputa, sobre o tipo de mundo no qual gostaríamos de viver.

Vejamos que os últimos 50 anos foram o período pós-Segunda Guerra, no qual o mundo passou por intensas transformações: Dessegregação, descolonização, direitos das mulheres, os direitos de pessoas LGBTQ, ou seja, todos os tipos de transformações ocorreram. E seria ingênuo de nossa parte supormos que não haveria reação a essas mudanças.

Portanto, quando olhamos o longo arco da história segundo apresentamos nessa nossa reflexão da leitura, estas contradições estarão sempre em jogo. Estamos em um movimento, e o que fizemos agora, irá definir o que virá em seguida.  E não podemos prever o que estará por vir. Mas vale a pena dar um passo atrás e se perguntar: Como foi que isto ocorreu?

Por que estamos surpresos? Ou será que dormimos no ponto? Ou o que estava ocorrendo? Nos EUA, a discussão tem girado muito em torno de que ninguém imaginava que O presidente Donald Trump seria eleito. E houve um cero estarrecimento: Como isto aconteceu? Dormimos no ponto? Nós imaginamos que tudo estivesse maravilhoso! Para a juventude, em particular, esta foi uma eleição muito difícil. Para os defensores dos direitos LGBT e, de uma série de outras pautas.

Pois, o mundo em que eles achavam que viviam se provou ser outro na realidade. Então, para mim, este é um momento de oportunidades. Esta afirmação poderá soar estranha, mas seria uma oportunidade de tomarmos consciência do que está em jogo nessas visões conflitantes. E para cada um de nós nos perguntarmos: De que lado queremos estar? Ou queremos ficar em cima do muro?

Então, na esperança de que tudo irá dar certo automaticamente. Ou nos colocaremos à prova, ao dirigirmos um olhar franco sobre a nossa própria cultura e sociedade, perguntando-nos: Como isto aconteceu? Ou mesmo: O que isto significa? Mas por que as pessoas estão fazendo estas coisas? Seria a oportunidade para mudarmos de postura. [4]

 

 

[1] Alencar e Vieira são pedagogos pela Uninter e UFPB, mestrandos em Ciências da Educação pelo ISCECAP e FACSU; residem à R. Jailson Resende Ramalho, 199-São Bentinho-CEP: 58865-000; São Bento-PB; fhermes20@gmail.com

[2]Conforme a Nova edição da Margem Esquerda se debruça sobre os rumos do Governo Bolsonaro e conta com artigo da socióloga estadunidense que parte de uma reflexão de Sueli Carneiro para desenvolver uma análise sobre a relação entre conhecimento e empoderamento no feminismo negro.]

[3]Aqui destacamos A socióloga Patricia Hill Collins faz uma análise interseccional da ascensão do populismo de direita no século XXI, representado por figuras como Trump e Bolsonaro. Para ela, é fundamental dar um passo atrás e entender esse fenômeno no interior de um quadro histórico mais amplo de disputa pela democracia. Destacando paralelos e lições a serem extraídas da experiência do fascismo dos anos 1930, ela insiste em enxergarmos o presente como um momento de oportunidade.

[4]Bibliografia:

Abromeit, John, et al. – Transformations of Populism in Europe and the Americas: History and Recent Tendencies. Londres: Bloomsbury, 2016, pp. xv-xix. afp – «Juncker urges eu members to resist “populist” rejection of migrants». 5 de agosto de 2015.

Berlin, Isaiah – «To define populism». 21 de maio de 1967, p. 6. Disponível em: http://berlin.wolf.ox.ac.uk/lists/bibliography/bib111bLSE.pdf.

Canovan, Margaret – «Trust the people! Populism and the two faces of democracy».In Political Studies. 47, 1999, pp. 2-16.

Chwalisz, Claudia – The Populist Signal: Why Politics and Democracy Need to Change. Londres: Policy Network, 2015.

De La Torre, Carlos – «Lastensiones no resueltas entre el populismo y la democracia procedimental». In Recso: Revista de CienciasSociales. Vol. 2, Ano 2, 2011, pp. 63-79.

De La Torre, Carlos – The PromiseandPerilsofPopulism: Global Perspectives. Lexington: University Press of Kentucky, 2015, pp. 189-228.

Freeden, Michael (org.) – Reassessing Political Ideologies: The Durability of Dissent. Londres: Routledge, 2001.

Freeden, Michael, Sargent, Lyman Tower, e Stears, Marc – The Oxford Handbook of Political Ideologies. Nova York: Oxford University Press, 2013