Pessoa com depressão

Você sabe o quão valioso e inesquecível é fazer uma viagem para fora do Brasil. Feito todo o planejamento, escolhida a agência, preparadas as malas e colocado o passaporte na bolsa, não tem como errar nessa que pode ser uma das experiências mais incríveis da vida de qualquer pessoa. Às vezes, contudo, a experiência é tão divertida e única – as pessoas que você conheceu, o estilo de vida do país, a autonomia e a independência de morar sozinho, os aprendizados que você teve... – que o problema é justamente readaptar-se ao Brasil e voltar para a terra natal.

Não importa qual tenha sido o intercâmbio – se foi um curso de inglês no exterior, uma faculdade, um mestrado ou apenas um intercâmbio cultural –, qualquer um pode ser vítima de um problema que até é campo de estudo na psiquiatria. Trata-se da síndrome pós-intercâmbio ou síndrome do regresso. Esse transtorno, cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa em 2011, aflige muitas pessoas na volta ao Brasil porque, ao contrário do que muitos pensam, retornar ao lar não é apenas colocar as malas, tirar os tênis e deitar no sofá. Não, não é um processo meramente físico e espacial, mas também cultural e psicológico.

Segundo Nakagawa, isso acontece porque o retorno não deixa de ser uma nova imigração. Você já se acostumou ao país novo para o qual viajou, distanciando-se dos modos de vida e dos hábitos brasileiros. Logo, você está pisando no Brasil pela primeira vez depois de todo um processo de “desbrasilização”, entrando em choque com uma cultura que, embora conhecida, já não é a mais a sua. Não à toa, o processo de readaptação ao Brasil pode durar dois anos, conforme apontam as pesquisas de Nakagawa – um ano e meio a mais inclusive que a adaptação no intercâmbio.

Só que dá para acelerar todo esse processo? Dois anos é muito tempo! Claro, cada caso é um caso, mas a seguir você confere dicas para combater a depressão pós-intercâmbio, facilitando a readaptação e reinserindo-se de forma mais rápida na rotina e no dia a dia de seu país.

Peça ajuda

Primeiramente, não seja orgulhoso. Não vá pensando que as pessoas vão entender suas angústias se você não se abrir para elas. Realmente, alguns podem até não entender (“como assim você está se sentindo um estranho em seu próprio país?”), mas é fundamental que você peça ajuda para sua família e seus amigos para que vocês, juntos, enfrentem esse problema de perto.

Muitas vezes, as pessoas estão tão animadas com a sua volta que mal se dão conta de que o retorno é toda essa coisa nova e, com isso, acabam angustiando ainda mais o ex-intercambista. Assim, se você conversar com as pessoas, elas vão te reintroduzir ao dia a dia e à vida no Brasil de forma mais calma e serena, sem grandes malabarismos que podem estragar a readaptação. Eles podem ir te passando informações aos poucos, te levar para lugares que você gostava e tentar estimular a memória afetiva, de modo a criar um processo de transição mais fácil e menos doloroso.

Além disso, trocar experiências é muito bom, sabia? Afinal de contas, você, ao transmitir os acontecimentos do intercâmbio para as outras pessoas, poderá guardar melhor essa vivência tão especial na mente e entenderá melhor que isso é passado, tal como um ciclo que se encerrou. Claro, intercâmbios novos poderão vir, mas é importante ter em mente no momento que agora o foco é a readaptação no Brasil.

Ocupe-se!

Sabe aquele ditado de que “cabeça vazia é oficina do diabo”? Nesse caso ele é a mais pura verdade! Conversou com os seus amigos e parentes? Então aproveite o processo de transição para evitar ficar pensando muito nas coisas e fazer sua cabeça trabalhar sozinha, quase no automático. Com isso, você vai se adaptar e nem vai perceber!

A dica é trabalhar, estudar, ir numa academia, ler bastante e preencher cada minuto de ócio com o máximo de tarefas e atividades. O legal é pegar coisas bem “brasileiras” para entrar mesmo no clima, então evite livros ou filmes, pelo menos num primeiro momento, que te remetam ao intercâmbio e foque em coisas da sua própria cultura, para acelerar a readaptação.

Explore sua cidade

Ora, se o intercambista que voltar ao Brasil está se sentindo um “imigrante” na própria terra, uma dica é fazer o que os imigrantes também fazem: conhecer os pontos turísticos da cidade. Redescubra as igrejas, os mercados, as praças, os monumentos e tudo aquilo que é característico de sua cidade para você sentir que realmente voltou. No caso de São Paulo, ande pela Avenida Paulista e vá até o Mercadão, por exemplo.

Tem uma exposição legal rolando em algum museu? Ótimo! É um pretexto para você poder não só se sentir “por dentro” da sua cidade, como ainda para você se apaixonar ainda mais por sua terra natal. Mesmo que o intercâmbio seja excelente, nada se compara ao seu lar, à cidade onde você nasceu e cresceu e aos lugares que marcaram a sua vida, não é mesmo?

Procure orientação profissional

Ainda assim, caso a síndrome do retorno não seja desacelerada com todas essas dicas e caso seu quadro seja evidentemente grave, é importante não deixar o tempo passar. Ela pode levar a problemas ainda maiores, como depressão e transtornos que, num futuro inclusive não muito distante, podem causar efeitos colaterais prejudiciais.

Logo, procure o apoio de algum psicólogo ou psiquiatra especializado no tema. A UNIFESP, por exemplo, tem um núcleo intercultural especializado em atender a esse tipo de situação, oferecendo atendimento gratuito. Não tenha medo de expor seus traumas e medos e converse abertamente com esses profissionais, que estão preparados para te ajudarem a extinguir essa síndrome tão comum e, ao mesmo tempo, tão ruim para qualquer intercambista.