Exercitar o pensamento sobre a vida que levamos pode resultar em algumas conclusões de que talvez nos surpreendamos com nossas próprias atitudes e com nosso estilo de vida, especialmente se construirmos diferentes hipóteses onde o foco seja o bem estar pessoal ou o bem estar da sociedade em que vivemos. Aqui vão alguns exemplos:

  • Imagine que você mora num pequeno vilarejo numa casa confortável, com um belo jardim de flores e numa bela e agradável rua com ótima vizinhança. Você é um homem digno, trabalhador, teve uma boa educação de seus pais e soube aproveitar as oportunidades de estudo que lhe foram dadas, tendo então se tornado um profissional liberal bem sucedido.
  • Certo dia você observa pela sua janela, durante seu café da manhã com a família, que um homem mal vestido e com a aparência suspeita, ronda a sua casa, bem próximo à sua cerca do jardim.
  • De repente sua tranqüilidade se viu ameaçada por esta figura estranha que ronda sua casa, bem no momento em que você planeja sair para o trabalho e receia deixar sua família sem segurança.
  • Você então decide puxar o telefone e ligar para a autoridade local para que sejam tomadas as devidas providências.

 

  • RESPOSTA 1:
    • O atendente da autoridade local lhe sugere abrir a porta e se dirigir até a cerca do jardim para indagar ao indivíduo o que este deseja por ali.
    • HIPÓTESE 1.1:
      • Ao sair de sua casa e se aproximar da cerca do jardim você é abordado pelo indivíduo com uma arma que lhe ameaça a vida e pede que lhe abra a porta para um assalto à sua residência, deixando toda sua família em estado de pânico até que o mesmo se retire carregando bens e dinheiro da residência;
    • HIPÓTESE 1.2:
      • Ao sair de casa e se aproximar da cerca o indivíduo se afasta e pede desculpas, pois achara que não havia problema em colher algumas frutas que estavam caídas pelo lado de fora da cerca. Você então sorri e lhe diz que não há problema algum que ele recolha as frutas caídas e então se despede.
  • RESPOSTA 2:
    • O atendente da autoridade local lhe informa que enviará uma viatura para verificação.
    • HIPÓTESE 2.1:
      • Na chegada da viatura o condutor e agente se aproxima do indivíduo e lhe questiona o que estava fazendo no local. O agente então lhe pede documentos, e ao verificar que não havia irregularidade alguma responde que ele não deveria ter se aproximado tanto da cerca de uma residência particular e sugere que o mesmo prossiga em sua caminhada. Em seguida o agente lhe acena de lá de fora indicando que a situação constrangedora estava resolvida.
    • HIPÓTESE 2.2:
      • Na chegada da viatura o condutor e agente se aproxima do indivíduo e lhe questiona o que estava fazendo no local. O agente então lhe pede documentos, e ao verificar algumas irregularidades pede que o mesmo entre na viatura e o acompanhe até a delegacia. Em seguida este mesmo agente lhe acena de lá de fora indicando que a situação constrangedora estava resolvida.
    • HIPÓTESE 2.3:
      • Na chegada da viatura o condutor e agente se aproxima do indivíduo e lhe questiona o que estava fazendo no local. Imediatamente o indivíduo saca de uma arma e atira na direção do agente que reage também armado e imobiliza o cidadão conduzindo-o à delegacia na viatura. Em seguida este mesmo agente lhe acena de lá de fora indicando que a situação constrangedora estava resolvida.
  • RESPOSTA 3:
    • O atendente da autoridade local lhe informa que não há uma viatura disponível para verificação e lhe sugere que se utilize de sua própria arma caso a possua em sua residência.
    • HIPÓTESE 3.1:
      • Ao sair de casa com sua arma em punho você se aproxima do indivíduo e lhe questiona o que estava fazendo no local. O indivíduo se assusta com a arma, se afasta da cerca e lhe responde que achara que não havia problema em colher algumas frutas que estavam caídas pelo lado de fora da cerca. Você então sorri, pede desculpas, e lhe diz que não há problema algum que ele recolha as frutas caídas e então se despede. O indivíduo, entretanto, prefere se retirar imediatamente deixando as frutas de lado.
    • HIPÓTESE 3.2:
      • Ao sair de casa com sua arma em punho você se aproxima do indivíduo e lhe questiona o que estava fazendo no local. O indivíduo se assusta com a arma e sai correndo em disparada para evitar ser alvejado. Você volta para dentro de casa, mas ainda sem saber das reais intenções do indivíduo que poderia ser um assaltante. Neste caso você se orgulha de ter uma arma consigo, apesar de não se sentir seguro de que o possível assaltante não possa retornar também armado ou num horário em que você não esteja em casa ou esteja dormindo.
    • HIPÓTESE 3.3:
      • Ao sair de casa com sua arma em punho você se aproxima do indivíduo e este, ao perceber sua aproximação, saca de uma arma e atira em sua direção. Você então saca de sua arma mais rapidamente e alveja o indivíduo que cai ensangüentado. Você então volta a telefonar para a autoridade local e informa o ocorrido, tendo que aguardar então que uma viatura especial venha à sua residência para recolher o cidadão e lhe prestar socorro médico, caso o mesmo ainda esteja com vida. Na chegada da viatura, o agente e a equipe médica recolhem o cidadão e colhem seu depoimento. Na saída lhe acenam de lá de fora indicando que a situação constrangedora estava resolvida.
    • HIPÓTESE 3.4:
      • Ao sair de casa com sua arma em punho você se aproxima do indivíduo e este, ao perceber sua aproximação, saca de uma arma e atira em sua direção. Você então saca de sua arma, porém, o indivíduo é mais rápido lhe alvejando e você cai ensangüentado no jardim de sua casa. O indivíduo então se aproveita da situação e assalta sua residência levando bens e dinheiro, deixando-o agonizando sem atendimento médico. Sua vida, nesta hipótese, depende apenas de sorte e do tempo para que outra pessoa ou uma viatura policial chegue a tempo e lhe socorra.

Diante do cenário e das hipóteses acima, qual delas você acharia mais adequada? Certamente que a hipótese 1.2 é a que apresenta a solução mais tranqüila e definitiva, porém, sua ocorrência dependeu de uma primeira atitude sua de coragem e de confiança na bondade humana que resultou no esclarecimento de que o cidadão não estava mal intencionado e você até ganhou uma oportunidade de conquistar mais um amigo na vizinhança.  Tomar esta atitude exigiu de você coragem e confiança na sociedade, quando você se coloca na posição do outro onde poderia estar fazendo o mesmo ao se aproximar da cerca de outra casa durante uma caminhada matinal. Fica aí, uma diferença adicional que se relaciona à aparência do indivíduo que se aproxima da cerca. Em se tratando de você, é bastante provável que o morador imediatamente percebesse que não se tratava de um assalto, pois você costuma se vestir bem para suas caminhadas e se considera um cidadão de boa aparência e confiável.

Mas a hipótese 2.1 é, por certo, a solução que lhe ofereceu menor ameaça à sua integridade física e patrimonial. Assim sendo, apesar de não ter depositado confiança no cidadão que se aproximava de sua casa, você preferiu não correr risco algum e deixar que as autoridades locais solucionassem a situação. Cabe, entretanto, observar que esta hipótese depende de uma total disponibilidade das autoridades de atenderem ao seu chamado e enviarem um agente ao local num intervalo de tempo suficiente para que o indivíduo suspeito não tenha chance de concluir um potencial assalto. Em condições normais de uma cidade real, mesmo que pouco populosa, o tempo necessário para a chegada de uma autoridade à sua residência pareceria uma eternidade na mente de uma pessoa que desconfia da sociedade e prefere não se arriscar a um possível assalto. Assim sendo, independente da resposta 2 ou 3, você talvez prefira estar armado dentro de casa, de forma que sua reação possa ser imediata contra esta potencial ameaça à sua segurança. Repare, entretanto, que uma vez adotada a decisão de sair de casa armado, todas as hipóteses seguintes não levam a uma harmonia entre os cidadãos residente e transeunte, deixando sempre uma seqüela e uma preocupação adicional com o futuro ou com um possível desfecho trágico com um ferimento ou morte de um dos dois interlocutores. Desconfiar da sociedade visando preservar sua própria segurança não me parece, portanto, uma solução de longo prazo para uma vida tranqüila e harmônica. Afinal, sua vida sempre será rodeada de pessoas em quem você precisa confiar e se entregar de corpo e alma para conquistar amigos e não viver na solidão, trancado numa fortaleza e pensando que terá uma vida feliz desta forma.