Barentsburg: A Fortaleza de Espionagem Civil no Ártico

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 25/09/2026 | História

Relembro, mais de trinta anos após, que um professor de Teoria Geral do Estado perguntou à turma se todo o território é propriedade do Estado. Levantei meu braço e disse que não, pois existia e existe a propriedade privada. Ele concordou e, complementando a certeira resposta, disse que não é todo o território propriedade do Estado, mas suas Leis nacionais valem, sim, para cada palmo de mão sob seu domínio.

Digo isso porque, no mundo atual, vive-se uma situação geopolítica inusitada, que ocorre no remotíssimo Arquipélago de Svalbard, pertencente à Noruega. Quase localizado no Oceano Glacial Ártico, sua capital, Longyearbyen, é o mais setentrional local habitado em todo o planeta. Svalbard é riquíssimo em carvão e, em razão disso, foi firmado, em 1920 e com várias outras nações, o Tratado de Svalbard, de acordo com o qual os respectivos países interessados poderiam extrair carvão de seu território.

Na década de 1920 e anos posteriores, a URSS stalinista ali instalou assentamentos com centenas de seus nacionais trabalhadores. Eram quatro, dentre eles Barentsburg. O produto da mineração carvoeira era mandado diretamente ao governo soviético. Só que os anos se passaram, houve a Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, com a criação da OTAN, fez com que a Noruega aderisse à Aliança, criada para repelir qualquer ataque soviético. Mas Barentsburg e os outros assentamentos não foram, por isso, encerrados.

Os demais três assentamentos foram esvaindo-se por questões logísticas e comerciais, nunca por ordem do Estado Norueguês. Que sabia, muito bem, que os assentamentos eram propriedade do governo soviético (embora este, por razões óbvias, renegasse a propriedade privada de meios de produção aos seus cidadãos), embora estivessem sujeitos às leis da Noruega.

Mais tempo se passou, a URSS se extinguiu e sua sucessora legal, a Rússia, retornou ao sistema capitalista e, por algumas décadas, se passou por aliada do Ocidente. Se a Noruega, durante a bipolaridade, não hostilizou Barentsburg, não havia razão de então fazê-lo. Mas, nos últimos anos, a animosidade entre a OTAN e a Rússia novamente recrudesceu, a Barentsburg lá permanece, em plano território da OTAN.

E os russos residentes agem como se estivessem no seu território. Seguem seus próprios ritos, e não as leis da Noruega. Por exemplo, a cada ano, nas celebrações comemorativas do final da Segunda Guerra Mundial, grupos paramilitares com uniformes soviéticos desfilam marcialmente, como se fossem uma regular tropa militar. Acompanhando as tradições, aviões civis cruzam os céus sem qualquer autorização da Noruega, dando (e não se pode negar) shows de pirotecnia. Tacitamente, a comunidade segue o que mandam as leis da Rússia, sem qualquer obediência ao próprio Tratado da Svalbard, que mantém a soberania norueguesa. E, isso, em plena era de novas hostilidades entre antigos e velhos inimigos, do que se depreende que haja bastante repasse de informações, logísticas e de terreno, ao atual governo russo, bastante sedento do domínio total de pontos estratégicos, geograficamente mais próximos do coração do Ocidente.

O local deve ser, turisticamente, bastante interessante. Quando se entra no assentamento, verifica-se um dos bustos de Lênin mais ao norte de todo o mundo, arquitetura clássica da Era soviética e um estilo de vida que remonta aos tempos do socialismo. E, ao contrário da Berlim dividida, é livre o trânsito de qualquer pessoa entre a área do assentamento e o território público norueguês, permitindo a qualquer turista (inclusive durante as marchas paramilitares e shows ilegais de aviação) conhecer abertamente os dois lados da Nova Guerra Fria.