AVALIACÃO DA APRENDIZAGEM: UMA VISÃO DA PROPOSTA DO ESTADO DE MINAS GERAIS

CLEA MÁRCIA PEREIRA CAMARA -  UNIMONTES-

 

INTRODUÇÃO

                       

          Entre os muitos problemas que a educação vem enfrentando encontra-se o da avaliação. As muitas discussões vão desde sua necessidade e importância até sua prática no dia - a - dia em sala de aula.

Esta pesquisa teve como tema: A avaliação da aprendizagem: Uma visão da proposta de Minas Gerais, cujo objetivo foi estudar a proposta de avaliação do Estado de Minas Gerais, identificando suas concepções e significados, buscando entendê-la em suas especificidades  e considerá-la como sendo ou não adequada a um modelo educativo capaz de formar de fato cidadãos politizados, isto é, conscientes e participantes da realidade na qual estão inseridos.

          Para a realização da pesquisa, utilizou-se a metodologia da pesquisa bibliográfica, de caráter qualitativo, para entender melhor a concepção de avaliação e seus significados no processo de ensino e aprendizagem, na visão de diversos autores sobre o tema pesquisado.

          A forma como se aborda a avaliação das aprendizagens escolares, está relacionada com as concepções do ensino aprendizagem. Estas concepções e as práticas, que elas resultam no âmbito da avaliação, aparecem freqüentemente marcadas pela influência da realidade social e cultural do indivíduo.

 Assim o presente trabalho é uma proposta de reflexão a cerca da avaliação escolar como parte fundamental do processo educativo.

Partindo do pressuposto de que a sociedade brasileira está ingressando cada vez mais num sistema democrático, e que a sobrevivência deste modelo político depende de que esta sociedade seja composta por cidadãos autônomos, críticos, criativos e participativos faz-se o seguinte questionamento: a avaliação escolar, tal como vem sendo proposta no Estado de Minas Gerais, pode ser considerada como adequada a um modelo educativo, capaz de formar de fato cidadãos politizados, isto é, conscientes da realidade, na qual estão inseridos?

Este estudo justifica-se no sentido que busca entender como acontece a avaliação em Minas Gerais. Para tanto buscou-se na literatura especializada sobre o tema e estudos da legislação vigente, confrontando-os. 

            Este estudo originou-se da preocupação com o assunto, como profissional da área de educação, conseqüente de  situações onde a ansiedade de professores em  ter que reprovar alunos e não saber o que fazer para evitar a situação.

           

1 A  AVALIAÇÃO ESCOLAR: CONCEITOS E CONCEPÇÕES 

Avaliar é um ato extremamente complexo, cuja responsabilidade não é competência única do professor, mas sim de todos os elementos integrantes do processo educacional (alunos, pais, e administradores).  Essa centralização no professor apenas consolida o modelo econômico mundial e suas relações de poder, plenamente exercida nas escolas.

 

Para estudar seus aspectos técnicos e metodológicos, é legítimo tratar a avaliação como uma” medida “. Trata-se exatamente de uma operação intelectual que tenta situar um indivíduo em um universo de atributos quantitativos ou qualitativos. Por essa razão, ela diz respeito à epistemologia e à metodologia da medida. Isso não deveria nos fazer esquecer que a avaliação é sempre muito mais que uma medida. É uma representação, construída por alguém, do valor escolar, ou intelectual de outro indivíduo. Inscreve-se, pois, em uma relação social específica, que une um avaliador e um avaliado. (Perrenoud 1999, pág. 57).

  

Uma reflexão sobre avaliação conduz muitos a interpretarem a nova teoria, que combatia a valorização excessiva atribuída aos conteúdos no ensino tradicional, como a negação da necessidade dos conteúdos serem trabalhados, nas escolas com exceção daqueles em relação aos quais os alunos demonstrassem maior interesse.

 Ao que tudo indica, o mesmo erro aconteceu então, em relação aos conteúdos, está acontecendo atualmente com a avaliação no processo de ensino e aprendizado. Quando se enfatiza a necessidade de mudanças na forma como as avaliações vêm sendo feitas, tal significa para muitos, que é necessário eliminá-las das escolas. Isto se constata, por exemplo, pelo fato de ser comum encontrarem-se professores preocupados porque necessitam atribuir uma notaao desempenho de seu aluno como se o aspecto mais importante da avaliação fosse a expressão de resultados. Este é mais um indício que a maioria dos professores não tem uma percepção clara com relação a questões básicas como: o que é avaliar? E por que avaliar? Considerando - se que os indivíduos constroem seus conhecimentos na dinâmica das relações dialógicas que são permeadas por contradições, argumentações, trocas e buscas solidárias, a avaliação do processo de ensino e aprendizagem é essencial, tanto para o aluno como para o professor.

 

1.1 A Avaliação e o Aluno

Para o aluno, é importante conhecer os resultados de seu empenho e esforço, não só pela satisfação da aprendizagem, mas também, em especial, mas também, em especial, pelo significado que tem o conhecimento de suas capacidades para aprendizagens futuras.

A atividade avaliativa contribui para o desenvolvimento intelectual, social, e moral dos alunos. Estes momentos, muitas vezes, são de grande importância para o aluno, pois ao enfrentamento com os desafios de ter que resolver determinados problemas sozinhos e verificar que não consegue, ele sente a necessidade de saber buscar soluções. Isto proporciona crescimento em níveis diversos.

 A discussão sobre os resultados propicia um bom relacionamento entre professor e aluno e entre os colegas onde favorece o desenvolvimento a sociabilidade, da autoconfiança, do respeito mútuo entre todos os participantes do processo.

Em relação a isso, SAUL (1988, p 61) diz: “O compromisso principal da avaliação é o de fazer com que as pessoas direta ou indiretamente envolvidas em uma ação educacional escrevam a sua própria história e gerem suas próprias alternativas de ação”. Assim, a avaliação serve para o aluno como um instrumento de diagnóstico de sua situação, tendo em vista a definição de encaminhamentos adequados para sua aprendizagem.  

 

1.2 A Avaliação  e o  Professor

Também para o professor a avaliação é importante, pois os resultados dos seus alunos poderão contribuir para uma análise reflexiva, no sentido de avaliar a eficácia de seu desempenho. A partir desses resultados, o professor tem a possibilidade de melhorar sua compreensão das formas de aprendizagem dos alunos e do processo de ensino e aprendizagem. 

As informações que o professor vai acumulando no decorrer do processo auxiliam-no a modificar gradativamente seu parecer sobre o aluno, em relação às  suas potencialidades  e suas limitações, sem esquecer que em cada estágio de desenvolvimento e de conhecimento dos indivíduos é provisório.  Com base na análise dessas informações e da conduta do aluno, é possível ao professor formular hipóteses sobre o processo de ensino e aprendizagem e sobre etapas de desenvolvimento de cada um dos alunos. 

 Deve-se ressaltar que a questão essencial não consiste em saber se o aluno deve receber esta ou aquela nota, mas sim em desafiá-lo a encontrar respostas corretas para aos problemas em questão. É importante avaliar, por exemplo, um texto do aluno, para conhecer a etapa de conhecimento lingüístico em que ele se encontra e planejar as atividades que o induza a avanços na produção de seu conhecimento. Por sua vez, as atividades avaliativas auxiliarão o professor a identificar não só se o aluno não sabe, mas, principalmente, o porquê do mesmo não saber quais são as suas dificuldades.

 

1.3 A Avaliação da Aprendizagem no Processo Escolar

 

Ao contrário do que prevalece em boa parte da literatura educacional, a avaliação da aprendizagem não é um problema em si. Na verdade, é reveladora dos principais problemas estruturais do sistema brasileiro, entre eles a questão de uma educação orientada pelos interesses de uma elite social decorre daí das práticas selecionadoras e classificatórias predominantes na avaliação escolar, tanto no âmbito das escolas públicas quanto no das particulares.  Percorrer a literatura especializada em avaliação escolar faz-nos confrontar com uma terminologia constituída por expressões que traduzem duas posições essenciais relacionadas com a avaliação escolar. A primeira delas questionam a própria avaliação. A Segunda apresenta a idéia de que é necessário mudar a avaliação.

No que se pode questionar a existência da avaliação, pois avaliar é um fenômeno humano. A palavra homem significa “aquele que avalia2”. Isso é facilmente compreensível uma vez que somente o homem tem a capacidade teológica que lhe permite prever o produto de suas ações e traçar os objetivos do que deseja ou do que é necessário. Ao fazê-lo, ele está em processo de avaliação.

Em relação ao pensamento de que é preciso mudar a avaliação, não podemos questionar a necessidade da mudança, mas também não podemos imaginar que ela se constitui num processo autônomo. Em essência, não se muda a avaliação sem uma transformação estrutural nas posturas docentes, nos currículos escolares, nas práticas pedagógicas e nas formas didáticas de mediação das aprendizagens.

 

2 A AVALIAÇÃO E SUA IMPORTÂNCIA 

 

Diante de mais de vinte e cinco anos no exercício efetivo na docência nos níveis ensino fundamental, médio e superior, observei vários professores utilizando ações como testar, observar, medir, ou atribuir nota como se isso fosse avaliar, pode-se entender o porquê dos questionamentos feitos por outros professores sobre a necessidade e importância da avaliação.  Avaliação só com essa concepção não é necessária, ela não deve ser vista como uma caça aos insucessos, mas como busca de aprendizado pela organização escolar como um todo, como nos adverte Luckesi (2005).

Aplicar uma prova ou fazer uma observação são técnicas que podem ser usadas pelo professor para colher informações sobre o atual estágio de desenvolvimento dos alunos. Atribuir nota é, apenas, expressar resultado e não avaliar. A avaliação necessária é muito mais do que aplicar um teste, fazer uma observação ou atribuir uma nota. A escola exige um resultado e ele passa a preocupar-se com a avaliação apenas com função de controle.

            O professor que não se preocupa em fazer registros dos desempenhos de seus alunos, durante o processo, não terá condições de ser justo na emissão de um resultado para cada aluno. Assim avaliação desvinculada do processo, além de não cumprir suas funções didático-pedagógicas e de diagnósticos, ainda pode cometer injustiças, atribuindo resultados que não correspondem ao desempenho dos alunos.

            Na elaboração dos objetivos, faz-se necessário pensar em formas avaliativas correspondentes às expectativas que o professor tem em relação do aluno. Esse elo entre o objetivo e a avaliação é que determina o tipo de procedimento que deve ter o professor na proposta de atividades que fará o aluno.

           

2.1 A Avaliação  e o  Processo de Construção de Conhecimento

 

Embora seja avaliação fundamental no processo de ensino e aprendizagem, constitui apenas um dos elementos desse processo. E por isso, não se pode falar na ação avaliativa sem uma referência ao processo de ensino e aprendizagem no qual ela está inserida. A avaliação é um dos elementos do Sistema constituído por esse processo. Sendo, portanto, uma parte do todo, que recebe influência e é influenciada pelos demais elementos de forma dinâmica e interativa.

            A avaliação é um elemento que perpassa todo o processo, fazendo uma interligação entre os diferentes momentos da ação pedagógica. Para que o professor possa estabelecer seus objetivos e metas, ele tem de conhecer as condições de seu aluno, necessitando, portanto, de informações anteriores ao processo, que servirão de subsídios para fazer um diagnóstico da real situação do grupo.

Segundo LUCKESI (1982, p.2 ), o exercício avaliativo  não pode estar desvinculado do planejamento. O planejamento também não pode estar desvinculado da avaliação, pois ele sempre deve iniciar fundamentado num diagnóstico da situação e ser sempre reformulado sempre que os resultados não forem satisfatórios.

             Parece que um dos grandes problemas da avaliação é que ela é feita desvinculada aos demais elementos do processo. O professor desenvolve suas atividades pedagógicas sem se preocupar com a avaliação.  No entanto, a escola e o sistema, exigem um resultado e ele passa a preocupar-se com a avaliação apenas com a função de controle. Assim, a finalidade da avaliação fica descaracterizada.  Avalia-se para atribuir um resultado e o aluno estuda para obter uma nota.  A conseqüência deste ciclo é o temor que os estudantes, em geral, têm de avaliações e, especialmente, de testes escolares. Pois quando a avaliação é feita apenas com função de controle, são considerados somente os momentos avaliativos, representados por um teste, trabalhos em grupos ou individuais.  Ou o que é ainda pior: o professor atribui-lhe um valor qualquer sem uma  fundamentação, sem que o aluno tenha a mínima idéia de como foi avaliado.

            O professor que não se preocupa em fazer registro dos desempenhos (e / ou dificuldades) de seus alunos, durante o processo, não terá condições de ser justo na emissão de um resultado para cada aluno.  Assim, a avaliação realizada desvinculada do processo, além de não cumprir suas funções didático-pedagógicas e de diagnóstico, ainda pode cometer injustiças, atribuindo resultados que não correspondem ao desempenho dos alunos.

           

2.2 A Avaliação como parte  de um Projeto Pedagógico

 

A preocupação maior dos professores, ao desenvolver sua ação pedagógica, não deve ser com um ou outro elemento do processo de ensino e aprendizagem, mas com questões mais amplas sobre a proposta pedagógica a que ele está vinculado. Essa proposta deve ser fruto das discussões da comunidade escolar como um todo, respondendo em conjunto a questões como: Que escola temos? Que escola queremos? São necessárias mudanças? Em que direção?

GUARESCHI (1990, p. 77) diz, Tentar uma prática alternativa de avaliação virá, conseqüentemente, questionar todo o modo de pensar e de agir, nossa consciência, nossa prática pedagógica e social, virá questionar a sociedade como um todo.

Através da avaliação, deve acontecer uma interação: primeiro, entre avaliando e avaliador, para repensar o papel de cada um e os passos seguintes da caminhada; depois, entre a comunidade escolar como um todo, numa discussão que vai despertar a consciência crítica, dentro de um compromisso com a práxis dialética, em um projeto histórico de transformação. Propiciar a discussão com toda a comunidade não é um a decisão simples, mas indispensável que seja concretizada, pois não se concebe uma ação pedagógica individualista e descontextualizada.

Nesse sentido, Ott et all,  ( apud KRAHE,1990, p. 20) afirma que,

O processo de avaliação é uma etapa de um processo mais amplo que se inicia na sociedade, define o sistema educacional, se institucionaliza na escola e acontece em sala de aula. Neste sentido a avaliação da aprendizagem deve ser a avaliação do processo de ensino e aprendizagem, que por sua vez, têm que ser contextualizados na escola - entendidos como professor, aluno, direção, comunidade - e na sociedade, que é o contexto mais global que se inclui. (KRAHE, 1990, p. 20).

 

 

Além do mais, não basta mudar apenas os métodos e as técnicas ou instrumentos de avaliação. Requerem-se alterações mais profundas, no sentido de uma volta às raízes dos problemas e da busca das questões de fundo, tanto na avaliação como no processo de ensino e aprendizagem como um todo.

Se o professor realizar a avaliação sob forma de acompanhamento da construção do conhecimento do aluno, ele terá que desenvolver a ação pedagógica de maneira diferente, pois deverá propor atividades alternativas e diversificadas sempre que constatar que alguma etapa não foi vencida por outro aluno. Sendo assim, as alterações no processo de avaliação poderão conduzir a uma transformação no processo de ensino.

 

 

3 AVALIAÇÃO NO ESTADO DE MINAS GERAIS: A IMPLANTAÇÃO DE  UMA NOVA CONCEPÇÃO

             

 A avaliação da aprendizagem se insere no processo de ensino que se organiza com base em um modelo pedagógico cujos princípios se sustentam na resposta a duas questões: Que homem se deve formar? Para qual sociedade? A avaliação capta e subsume os mesmos valores sociais e escolares que orientam o currículo escolar e direcionam o processo de ensino. Por isso mudar a avaliação requer mudar a escola.

             No projeto Escola-Referência, a avaliação da aprendizagem sintoniza-se com a filosofia das propostas e ações dos principais programas que estão sendo implementados visando uma escola mais eficaz e de melhor padrão de qualidade. Está intimamente relacionada aos propósitos do Currículo Base Comum (CBC) e tem como objetivo fornecer dados sobre o desenvolvimento do aluno que permitam às escolas e aos professores a tomada de decisões de natureza pedagógica orientando-se nos planejamentos, e desenvolvimento de  intervenções didáticas.

            Os resultados de programas de avaliação de sistemas educacionais de Minas Gerais, como Proeb / SIMAVE e o SAEB apresentam um perfil de desempenho dos alunos da rede pública estadual de Minas Gerais que evidencia a necessidade de melhorar o padrão de ensino das escolas. Uma análise de valores preservados pela prática escolar possibilitou identificar em que aspectos a escola precisava mudar tendo em vista elevar o padrão de aprendizagem dos alunos. A concepção de que em primeiro lugar, seria preciso acreditar que todos os alunos são capazes e podem aprender. A partir daí, o ensino deveria ser planejado com base nos princípios da educacionabilidade, da pedagogia diferenciada, do atendimento individualizado, da flexibilidade curricular e da produção do conhecimento. Esses são os princípios que as teorias da aprendizagem contemporâneas sustentam como básico para uma pedagogia do sucesso escolar, cujo processo de ensinar é o planejar e organizar contínuo do aluno em processo de desenvolvimento.

            A Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, a partir do ano de 2003, implantou o Projeto Escola Referência. Foram selecionadas escolas que tinham uma representatividade e história em cada uma das cidades do Estado, para a implantação do projeto. Feito o levantamento com a comunidade escolar (alunos, professores, família e sociedade), para identificar as deficiências e os caminhos a seguir, em busca da melhoria do ensino em Minas Gerais. As escolas receberam verbas, que foram investidas em compra de livros, melhoria de suas estruturas físicas e equipamentos em geral. Também foi implantado o programa PDP - Projeto de Desenvolvimento Profissional, visando instrumentalizar os professores para a mudança e a melhoria do ensino no Estado, com grupos de estudos (GDP), onde os professores se reuniam para realizar estudos e planejar os currículos das escolas, observando as características de cada uma delas.  Deste projeto nasceu o CBC, o Currículo Básico Comum,  para as escolas. A partir do ano de 2006, o CBC, começou a ser implantado nas escolas de todo o Estado.

No quinto módulo de estudo do PDP, o tema foi: A avaliação Aprendizagem Escolar, (2005). Os quatros primeiros abordaram respectivamente os temas: ações dos principais implementados pela Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais - SEEMG; planejamento do ensino; organização das condições de ensino; recursos e métodos. A discussão sobre a avaliação se viu num momento oportuno, em que a SEEMG implantava o Programa de Avaliação da Aprendizagem Escolar - PAAE, e convidou as escolas que integravam o projeto Escolas - Referências para a sua aplicação em caráter experimental.    

Minas Gerais criou em 2000, o Sistema Mineiro de Avaliação - SIMAVE, responsável pelo Programa de Avaliação da Rede Pública de Educação Básica (PROEB), modelo em larga escala que tem por objetivo orientar as políticas governamentais de melhoria da educação pública do Estado. Os resultados do primeiro ciclo dessa avaliação, abrangendo os conteúdos de Língua Portuguesa (2000), Física (2001), Química (2001) e Ciências da Natureza (2001) associados ao de Língua Portuguesa (2002) e Matemática (2003) do segundo ciclo evidenciaram um perfil de desempenho em que o nível de  aprendizagem dos alunos pouco evoluiu, fato que suscita duas hipóteses: 1a Ainda não sabemos utilizar os resultados das avaliações como referenciais para o planejamento e desenvolvimento de intervenções pedagógicas diretamente  vinculada aos problemas e dificuldades dos alunos; 2o Os resultados de avaliações sistêmicas, como o PROEB / SIMAVE, são importantes para orientar as grandes políticas estaduais, mas não são suficientes para o diagnóstico no âmbito da escola, da turma e do aluno.

 Segundo Mattos (2005) coordenadora do módulo V, do PDP, Avaliação da aprendizagem do Estado de Minas Gerais,

 

Aplicando, da microsociologia, o princípio de que as grandes transformações se dão nos micro espaços, e temos que reconhecer que os principais níveis em que se operam efetivamente as transformações para a melhoria do padrão de ensino são a sala de aula e a escola. Efetivamente são a sala de aula e a escola o centro de gerar mudanças e alavancar a qualidade do ensino. A educação básica precisa, portanto, de um modelo de avaliação, mais adequado às necessidades pedagógicas no cotidiano escolar.(MATTOS, 2005).  

 

Porque precisamos desenvolver projetos de ensino específico e monitorar o seu desenvolvimento. Tais projetos precisam de informações sobre os alunos como subsídios para organizar atividades didáticas são informações sobre quem são e como reagem, em qual estágio de aprendizagem se encontram, que dificuldades apresentam e que potenciais podem ser explorados positivamente. Avaliamos que precisamos constantemente de renovar as informações sobre os alunos, suas reações em relação ao que a escola lhes oferece e sua aprendizagem. Avaliamos para fazer diagnósticos construtivos que informam sobre as estratégias que propiciam desenvolvimento escolar.

 

3.1 Quem dá o tom da avaliação?

 

O modelo de avaliação em uma escola pode se revestir de características diferentes mesmo que haja regulamentos para a avaliação no âmbito do sistema de ensino, como é o da rede estadual de Minas Gerais. Ainda, na mesma escola, pode haver uma grande variação entre as práticas avaliativas dos professores.

Os sistemas são organizativos e buscam implantar modelos de avaliação coerentes com os princípios e valores que orientam sua proposta de ensino. Também as unidades escolares que integram o sistema definem o seu projeto pedagógico qual é o modelo de ensino e de avaliação que propõem. Entretanto, na realidade da sala de aula, é o professor quem dá o tom da avaliação, desenvolvendo processos sintonizados com suas crenças e posturas.

De forma geral, a mesma lógica que organiza o processo de ensino, organiza também o processo de avaliação – “assim como o professor ensina, assim ele avalia”.  As teorias da aprendizagem influenciam tem todos os aspectos o processo de ensino: demarcam a metodologia, orientam a composição da estrutura curricular estimulam ou não o uso de  tecnologias e, principalmente, orientam a relação pedagógica segundo o protagonismo flutuante entre os professores e alunos. A avaliação também se organiza sob estas mesmas influências.

Cada teoria atribui à avaliação um papel diferente: o Condutismo avalia para comprovar o processo e o domínio final dos conhecimentos transmitidos de forma rigorosa e objetiva, já o Cognitivismo avalia o domínio dos processos, procedimentos e estratégias intelectuais e as habilidades de aprender a aprender; o Humanismo vê a avaliação como uma contribuição para diagnosticar e auto-diagnosticar o crescimento total da pessoa; na teoria genética da avaliação centra nas idéias novas e nos conhecimentos que se formam, novas estruturas de conhecimentos e nas competências que foram construídas a partir delas, porém sempre com base no diagnóstico das idéias e concepções prévias do sujeito; a teoria sócio-cultural utiliza a função diagnóstica da avaliação para determinar o nível de desenvolvimento atual  e o potencial da pessoa –avaliar é um processo dinâmico que reflete o desenvolvimento, o progresso, a potencialidade do sujeito, sua capacidade de aprendizagem e mostra os caminhos didáticos e escolares que devem ser seguidos com o objetivo de promover o desenvolvimento do aluno.

 

3.2 Como a avaliação contribui para a melhoria do ensino?

 

Sendo um componente sistêmico do processo de ensino, a avaliação contribui para a melhoria do ensino e da aprendizagem desde que a escola saiba utilizá-la em suas diferentes funções:

  1. Função pedagógica: a avaliação produz três efeitos importantes e inter-relacionados – o efeito instrutivo, o educativo e o de ressonância - , por isso, a função pedagógica é essencialmente organizativa e diretora do processo.
  2. Função inovadora: Proporcionam reflexões e interrogações constantes, instigam a busca de novas respostas, estimulam o pensamento crítico. A função inovadora se evidencia quando são oferecidas oportunidades para que o aluno encontre lógicas alternativas, pontos de vistas diferenciados, outras soluções para um mesmo problema.
  3. Função controle: o controle existe na avaliação e é, antes de tudo, a função que permite planificar, recepcionar, ordenar e classificar a informação  de forma a dar visibilidade às transformações que ocorrem no desenvolvimento do educando tanto em processo como nos resultados.
  4. Um processo funcional de avaliação é, sobretudo, orientador do ensino , porém é o ensino que orienta a avaliação e seu formato. Da relação dinâmica entre ensino e avaliação participam todos os que interagem na vida escolar.

 

3.3 Mudar a avaliação, mudar a escola

 

            Um dilema sempre presente no planejamento do ensino e da avaliação consiste em definir habilidades e selecionar conteúdos – os principais componentes curriculares. Perrenoud (1999) propõe que esse desafio seja resolvido a partir de reflexões sobre a seguinte questão: “Cabeças bem cheias ou cabeças bem feitas?”.  

            Ao responder essa questão – desafio, escolhemos um ensino enciclopédico ( cabeças bem cheias) ou um ensino funcional (cabeças bem feitas). Considerando a tradição educacional brasileira, predominou a lógica enciclopedista nos currículos escolares vem como predominou uma prática didática de “transmissão” desse conhecimento e de uma avaliação seletiva e classificatória, justificada pela idéia de mérito do aluno. Essa tradição, chamada por Paulo Freire de educação bancária, foi muito criticada nas últimas décadas, porém ainda é bem visível na atuação de alguns professores.

            Se observarmos o cotidiano escolar e confrontarmos o discurso com a prática docente, verificamos que habitualmente os professores transitam entre as duas lógicas, da transmissão e construção do conhecimento. Tal realidade é fator pouco perceptível individualmente, a não ser que o professor faça uma auto-análise sustentada  por reflexões com base nos elementos da lógica de cada paradigma.

            A avaliação pode ser a mola propulsora de uma mudança que vise elevar o padrão de qualidade do ensino na escola. Mudamos a avaliação, mudamos também: a organização das turmas e individualização do ensino; as relações entre as famílias e a escola; as satisfações pessoais e profissionais; o sistema de seleção e orientação ao aluno; os planos de estudos, os objetivos e as exigências; a política institucional; o contrato didático, a relação pedagógica e o ofício do aluno; a didática e os métodos de ensino.

         Sendo assim, percebe-se que em Minas, a partir dos novos projetos e novas propostas, propõe-se uma avaliação que deve ser assumida pela escola e realizada pelos professores de forma autônoma, com resultados que propiciem uma visão do nível de desenvolvimento dos alunos e da performance dos professores e da escola.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A avaliação sendo um tema muito atual e importante, não é naturalmente a questão principal da educação. As convicções do professor, o modelo pedagógico que ele efetivamente põe em prática, isso sim é decisivo. Num processo de educação construtiva, a avaliação é um elemento indispensável para a orientação dos desvios ocorridos durante o processo e para geral novos desafios ao aprendiz. A avaliação necessária é aquela feita de forma eficaz. Ela deve ser realizada individualmente, cada um fazendo sua própria reflexão e, em conjunto por professor, aluno e demais envolvidos no processo, com a finalidade de avaliar as hipóteses levantadas e de decidir sobre as providências necessárias.      

 A avaliação deve ser resultado de uma discussão de forma honesta e transparente, entre todos os elementos envolvidos no processo.  Nessa questão, a postura do professor é fundamental. O aluno deve se considerar, bem como perceber no professor, um dos elementos co-responsáveis pelos resultados obtidos no processo de ensino e aprendizagem.  A avaliação vai contribuir para a melhoria da aprendizagem se for realizada com base num projeto pedagógico amplo e de acordo com as normas técnicas exigidas pela cientificidade da ação.

            O presente estudo observou que a avaliação em Minas Gerais, passa por uma reformulação de significados onde a análise dos valores preservados pela prática escolar possibilitou identificar aspectos em que a escola precisa mudar tendo em vista elevar o padrão de aprendizagem dos alunos, numa perspectiva de que é preciso acreditar que todos os alunos são capazes de aprender e podem aprender. A partir daí o ensino deve ser planejado. Nessa concepção professores, escola, e o Estado, têm investido na busca de uma qualidade de ensino para os seus alunos. 

            As atividades de estudo para a realização individual para os professores das Escolas Referências tiveram a preocupação com a sua aplicabilidade em sala de aula e previu a realização mais próxima possível dos alunos em situações reais de aprendizagem. Algumas foram de caráter reflexivo e seus objetivos foram de sensibilizar para novas posturas em avaliação. As atividades para discussão em grupo possibilitaram uma síntese da proposta de avaliação para a educação básica de Minas Gerais.  Sendo assim a avaliação escolar, tal como vem sendo proposta no estado está passando por um processo de mudança que em breve poderá ser considerada como adequada a um modelo educativo, capaz de formar de fato cidadãos politizados, isto é, conscientes da realidade, na qual estão inseridos.

 

                       

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

 

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