O reconhecimento da criança como ser social, assim como as práticas e estratégias de como educá-las foram processos construídos historicamente e que sofreram influências das transformações políticas e também sociais.

A criança ganhou espaço e importância e aos poucos os profissionais que lidavam com elas precisaram se adaptar e aprender mais e mais para melhorar a qualidade do seu trabalho. Muitos pontos foram observados e experimentou-se até aqui muitos métodos e práticas e aos poucos foi possível perceber que a ludicidade e a interdisciplinaridade são fatores essenciais no ambiente escolar tanto lidando com crianças da Educação Infantil como no Ensino Fundamental.

Hoje muitas escolas utilizam tais ferramentas e também promovem atividades de integração para a transição entre os dois segmentos, afinal para muitos deles a adaptação na escola é um período bastante difícil.

O presente Desafio tem por objetivo refletir sob tais questões para que seja possível compreender a dimensão do trabalho do professor e oferecer a ele também ferramentas para o planejamento de atividades.

Para composição desse Desafio, foram feitas pesquisas em trabalhos acadêmicos, literaturas que discutem práticas pedagógicas e conceitos relativos à área da educação, vídeos e outros materiais pertinentes.

  1. CONCEPÇÕES DE INFÂNCIA AO LONGO DA HISTÓRIA

A concepção moderna de infância moderna foi construída a partir de transformações que a sociedade sofreu ao longo de sua constituição. Inicialmente, na Antiguidade, tal concepção sequer existia. Segundo Áries (1981), a criança era vista como um pequeno adulto ou como uma miniatura de um adulto. Os registros do período medieval, por exemplo, só mencionam as crianças durante a fase em que essas são dependentes de suas mães, à medida que vão conquistando sua independência, a menção sobre elas praticamente desaparece.

Áries fez a afirmativa surpreendente de que o mundo medieval ignorava a infância. O que faltava era qualquer sentimento de I’enfance, ‘qualquer consciência da particularidade infantil’, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. [...] A civilização medieval não percebia um período transitório entre infância e a idade adulta. Seu ponto de partida, então, era uma sociedade que percebia as pessoas de menos idade como adultos em menor escala (ÁRIES, 1981 apud HEYWOOD, 2004, p. 23).

A visão da criança começa a mudar no decorrer dos séculos, em virtude da expansão do cristianismo, da forma como as famílias começam a ser organizadas socialmente e da valorização dos laços sanguíneos. A partir do século XVIII, as relações entre pais e filhos passam a ser mais próximas, pois os laços afetivos se voltam para as crianças, os nascimentos aos poucos passam a ser planejados e a figura da criança ganha força e importância no cenário social.

Com as mudanças transcorridas em virtude das religiões, da política e sociedade ao longo da história, a preocupação com a educação das crianças também ganha foco. Daí o surgimento das instituições escolares, que segundo Costa (2009), tinha como missão moldar as crianças de acordo com os moldes sociais acetáveis de acordo com a moralidade da época.

Atualmente o que vemos é que a criança deixou de ser uma miniatura de ser humano e passou a ser vista como uma fase da vida em que o humano precisa de cuidados e atenções, pois sua formação intelectual bem como seu emocional será determinante para o tipo de adulto que ela se tornará. A concepção de infância deixou de ser algo da mera descrição física para uma consideração muito mais abrangente do ponto de vista comportamental e psicossocial. O espaço que a criança ganhou e vem ganhando em importância é tão evidente, que basta observarmos a quantidade de produtos e serviços que têm surgido em virtude dessa fase da vida. Antes ela não tinha voz, hoje, em alguns casos, sua voz está em evidência e o núcleo familiar funciona em favor dela. De acordo com Aries (1981) há múltiplos os fatores que contribuíram para que essas transformações. Destaca-se, entre eles, o processo de escolarização como principal objetivo, separando as crianças do ambiente a que eram submetidas no convívio com os adultos. O segundo fator é a fabricação de brinquedos específicos para as crianças e, por fim, o mais importante, como já mencionado, o crescimento do sentimento de família.

. No final do século XVII, com a escolarização, a família organizou-se em volta da criança, e então educação e afeição se tornam primordiais. Com a modernidade, a família passa a ter uma função moral e espiritual, e responsabilizou-se a escola pela função de preparar os filhos para a vida adulta, exercendo sobre a criança um poder disciplinar. Enfim, a criança passou a ser vista como um ser a ser educado.

A necessidade de se investir na formação da criança, vem justamente do grau de importância que esta adquiriu na sociedade.  Os avanços dos estudos pautados na Psicologia e na Filosofia também tiveram papel fundamental nas mudanças e adaptações que vêm sido implantadas nas práticas educativas.

Segundo as análises de Kuhlmann (1998), as experiências vividas pelas crianças em diferentes contextos históricos, geográficos e sociais são mais do que representações dos adultos. O autor propõe a ideia de que é preciso saber como ocorreram ou ocorrem as representações de infância, pensar nas crianças, localizá-las na sociedade e reconhecê-las como produtoras da história:

[...] infância tem um significado genérico e, como qualquer outra fase da vida, esse significado é função das transformações sociais: toda sociedade tem seus sistemas de classes de idade e a cada uma delas é associado um sistema de status e de papel (KUHLMANN, 1998, p.16).

Isso leva-nos a pensar que a necessidade de se investir nessas experiências a fim de contribuir para a formação da criança enquanto ser social e produtor de história, também chama a atenção para o fato de que essas mesmas experiências são parte essencial para o desenvolvimento da criança e por isso é preciso levar em consideração, a cada atividade planejada, quais impactos essa pode trazer para processo de aprendizado, qual objetivo, se a metodologia é adequada, se o grupo está preparado etc. [...]