As Causas das Quedas de Grandes Impérios
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 18/07/2026 | HistóriaNo universo, nada se perpetua. É ingenuidade pensar que a pessoa, situação, evento ou entidade política pode, para sempre, subsistir. Ocorre, da relevante existência, a reverberação e alteração da sequência temporal de acontecimentos até determinada época. Mas o referido existir, em si e enquanto objetivamente real, termina quando a situação fática que o sustentava se rompe, ocasionando o colapso. E assim foi, também, com grandes impérios, outrora gloriosos diante da humanidade.
Aqui, analiso as causas da queda de três grandes sociedades humanas: o duplo Império Romano (dividido em Império Romano do Ocidente e Império Romano do Oriente) e a URSS.
Até pouco antes do início da Era Cristã, a República Romana tinha sua economia interna vinculada ao binômio expansão-pilhagem. O expansionismo republicano visava contrair recursos para o seu próprio sustento, mas com a cautela de evitar que, por meio de sua própria ampliação, surgissem passivos econômicos (que, dessa forma, o tornassem financeiramente inviável). Por isso, além da conquista material dos recursos alienígenas, os romanos tomavam os cidadãos das sociedades subjugadas como escravos e, assim, trabalhadores sem remuneração, de modo a nulificar eventuais dívidas decorrentes de suas ofensivas. Em 27 a.C. a República se tornou Império e, por pouco tempo na escala temporal, manteve a dita política.
Após várias décadas, o Império adotou uma postura militar diversa da expansão. Houve um estado de contenção, em que os romanos passaram a, apenas, manter os territórios já conquistados. Isso ocasionou a não renovação demográfica do número absoluto de escravos a servir o sistema, sem renovação geracional e trazendo, portanto, passivos econômicos e uma séria crise que se intensificaria a partir do século III. Desta forma, antevendo o que se aproximaria, e com a finalidade de induzir a uma melhor administração financeira que evitasse a possível extinção, em 395 d.C. houve a divisão do Império em Ocidente (com capital em Roma) e Oriente (cuja capital era a antiga colônia grega de Bizâncio, após cognominada de "Constantinopla"). Mas tal ato chegou tarde a salvar o lado ocidental: as débeis defesas do oeste permitiram processos de invasões bárbaras e consequente descentralização, com a fragmentação política do território, formalmente extinto após o assassinato do último Imperador Romano, Rômulo Augusto, em 476.d.C. Foi o fim do Império Romano do Ocidente.
Mas a parte oriental subsistiu e prosperou. O governo de Constantinopla passou a dominar as rotas de comércio entre a Europa, dominada por sociedades feudais sob as ordens do Papado, e a África e Ásia. Tal logística incluía o próprio Estado Bizantino como árbitro final, numa economia altamente intervencionista e dependente, na escala progressiva, de grandes conquistas militares obtentoras de territórios que pagassem tributos, como o Egito e a Síria, enquanto estivessem sob seu domínio. Essa simbiose seria insustentável no longo prazo, eis que a perda geopolítica daqueles rincões fez com que as faltantes despesas necessárias ao sustento das classes dirigentes e do próprio Imperador, no seu Cesaropapismo (vez que era a autoridade máxima em questões religiosas, similar ao Papa e suplantando o próprio Patriarcado Ecumênico) ocasionassem insatisfação e uma consequente repressão a garantir o status quo, viabilizando, destarte, o caminho para a tomada da capital pelos turcos otomanos, em 1453. Foi a fundação do Império Otomano, que existiria até 1923, após o final da Primeira Guerra Mundial (que findou-se em 1918).
Já no século XX, pouco antes da Queda Otomana, havia sido fundada a que, naquele centênio, seria a grande potência antagonista do Ocidente: a URSS. República multinacional, multiétnica e de economia socialista, seria a primeira experiência, no mundo, praticar os ensinamentos do filósofo economicista germânico Karl Marx. Inobstante, logo no início revelou suas fragilidades ao impor-se políticas econômicas de cunho capitalista, como a NEP (Nova Política Econômica), a fim de maximizar a produção, o que, curiosamente, não teve continuidade. O bloqueio estatal a iniciativas privadas e as coletivizações forçadas, especialmente na Ucrânia, derrubaram os níveis produtivos, ainda que com a imposição dos planos quinquenais pelo governo stalinista, que foi obrigado, pela Segunda Guerra Mundial, a investir pesadamente na indústria bélica e, deste modo, igualou-se aos EUA, na esfera nuclear, em fins da década de 1940, quando foi detonada a sua primeira bomba. Desde então, os soviéticos investiram cerca de 70% de seu orçamento em armas e exploração espacial, tornando-se uma potência mundial nessas vertentes. Paralelamente, o consumo privado era precarizado pelos parcos direcionamentos estatais, combinados à não permitida iniciativa econômica privada. Mesmo com a reformas de Gorbachev, o centralismo estatal não resistiu e o país fragmentou-se em 1991.
Por fim, conclui-se que o desparecimento de sociedades que moldaram o futuro imediatamente posterior ou, mesmo, enormes lapsos temporais pós-quedas, pode ter diversas causas secundárias, como a alteração de políticas militares (no caso do Império Romano do Ocidente), a busca pela estabilização no meio do caos, decorrente do colapso econômico bizantino (aliado ao seu próprio absolutismo religioso) e, até mesmo, o simples desejo de igualar o consumo pessoal aos padrões dos adversários ocidentais (que ocorreu na finada URSS). Diversas causas secundárias, determinadas por uma única razão primária: alguém que, com a detenção do poder de alteração política de facto, idealizou uma imediatidade, realizada ou não, que a si satisfizesse. E que mudou os destinos de milhões.