Apocalipse no Antigo Testamento

Neri de Paula Carneiro

As raízes da apocalíptica são antigas e estão plantadas no Antigo Testamento, a partir da dominação persa e durante o domínio helênico. Nesse período a Palestina era agitada pela presença de invasores estrangeiros e, consequentemente, o povo, sua cultura e sua fé estavam ameaçados entre outros elementos pela penetração do helenismo. A partir de fim do cativeiro a Palestina foi dominada, sucessivamente pelos Persas (538-333 aC); pelo helenismo (333-63 aC) e pelos romanos, a partir de 63 aC.

Como forma de resistência e substituindo a atuação dos profetas, surgem novas formas de literatura: as novelas populares e os escritos sapienciais como Rute, Ester, Judite, Jó, Cântico dos Cânticos, mostrando a importância de manter a fidelidade à pureza da fé. Estes escrito já são uma espécie de literatura de resistência, pois exaltam a pureza de alguns personagens agredido ou ameaçados pelos invasores e/ou pelos valores de outras nações. E a forma de incentivar a resistência era mostrar como Deus mantinha sua fidelidade a quem se mantinha fiel. Basta ver como Deus fala, orgulhoso, de seu filho Jó: “homem íntegro e reto  que teme a Deus e se afasta do mal” (Jó, 1,8), em oposição aos demais que são infiéis.

A partir do século II aC se intensificou a literatura de resistência, da qual o gênero apocalipse é um dos principais representantes. A situação era trágica para o povo: seus lideres políticos submissos ao invasor, que cobravam altos impostos; seus lideres religiosos, os sacerdotes que ocupavam o espaço dos profetas para ajudar a interpretar os escritos sagrados, eram corruptos (2Mac 4,7-9). Para resistir a tudo isso surgem alguns movimentos de resistência. “As idéias apocalípticas se espalham entre as camadas mais pobres e oprimidas do povo. Como reação aos desvios da elite, surge o movimento dos hassidin, os piedosos (cf 1Mc 2,42; 7,13; 2Mc 14,6). Como reação contra a nomeação de Jônatas para sumo sacerdote, surge o movimento dos essênios, que fogem para o deserto de Qunran. Na mesma época surge o movimento dos fariseus em reação contra o relaxamento na prática da lei” (Cebi, 2000, p. 69). Podemos acrescentar o movimentos dos irmãos Macabeus, como reação à exploração do povo e aniquilamento de sua cultura.

Durante a dominação helenista solidificou-se a tradição apocalíptica e durante a dominação romana essa tradição oral se estruturou na forma de textos. Um dos exemplos dessa literatura é o livro de Daniel que parece ter sido compilado durante o período dos Macabeus.

São vários os textos apocalípticos. Podemos mencionar alguns: os “Segredos de Henoc”; o “livro dos Jubileus”; o “3º livro de Esdras” (estes mais ou menos contemporâneos ao livro de Daniel). No período da dominação romana – a partir de 63 aC – surgem, entre outros: “Testamento dos 12 patriarcas”; “4º livro de Esdras”; “Apocalipse de Baruc”; “Testamento de Jó”; “apocalipse de Elias”; “apocalipse de Pedro”; apocalipse de Paulo” e o Apocalipse de João. De toda essa lista apenas os livros de Daniel e Apocalipse de João entraram para o Cânon bíblico. Os demais fazem parte da literatura apócrifa.

Da mesma forma que no período do Antigo testamento existem vários textos apocalípticos, no cânon do novo testamente existem vários fragmentos apocalípticos, como no capitulo 24 de Mateus, no capitulo 13 de Marcos, no capítulo 21 de Lucas. “O evangelho de Marcos traz um pequeno roteiro no discurso apocalíptico (Mc 13,5-27). Paulo traz elementos de algum roteiro apocalíptico na segunda carta aos tessalonicenses (2Ts, 2,1-12)” (Cebi, 2000, p. 76)

Como podemos ver, a apocalíptica estava presente no antigo testamento e permaneceu no período do novo testamento. O que nos leva à conclusão de que os tempos de dificuldades não se esgotaram, da mesma forma que permaneceu viva a esperança.

 

Neri de Paula Carneiro: Mestre em Educação pela UFMS.  Especialista em Educação; Especialista em Didática do Ensino Superior; Especialista em Teologia; Professor de História e Filosofia na rede estadual, em Rolim de Moura – RO. Filósofo; Teólogo; Historiador; Professor de Filosofia e Ética na Faculdade de Pimenta Bueno (FAP). Jornalista e produtor e apresentador de programa radiofônico.

Referências

BÍBLIA de Jerusalém, São Paulo: Paulinas, 1989

CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), Evangelho de João e Apocalipse. São Paulo: Cebi/Paulus, 2000.

CHARPENTIER, Etiene et al. Uma leitura do apocalipse. São Paulo: Paulinas, 1983.

GORGULHO, G.S.; ANDERSON, Ana Flora. Não tenham medo: apocalipse. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 1981.

MESTERS, Carlos; OUROFINO, Francisco. Apocalipse de João, Esperança, Coragem e Alegria. 2 ed. São Paulo: Cebi/Paulus, 2002

SILVA, Airton José da. Apocalíptica: Busca de um tempo sem fronteiras.  disponível em:  <http://www.airtonjo.com/apocaliptica.htm> acessado em 20/07/2008