Análise da música paisagem na janela de 1972

 

Por Givas Demore[1]

Paisagem na janela 

(Lô Borges / Fernando Brant)

 

Essa canção faz parte do álbum clube da esquina, lançado pela EMI-Odeon em 1972. Brant integrava o clube da esquina, como letrista... Quando essa canção foi lançada ele tinha cerca de 26 anos.  Ela é fruto de uma parceria entre Lô Borges e Fernando Brant.  A melodia é de L. Borges e a letra de F. Brant.

”Da janela lateral do quarto de dormir

Vejo uma igreja, um sinal de glória

Vejo um muro branco e um vôo pássaro

Vejo uma grade, um velho sinal”

 

Fernando Brant, autor da letra,  relembra, segundo a revista folha de São Paulo, 8 de abril 2002: "Compus essa música quando ainda morava na casa dos meus pais, em Belo Horizonte”.

Brant faz uso da metalinguagem para falar de si mesmo dentro da canção.   A canção é reflexo da realidade de Minas Gerais vivida pelo compositor, que era jornalista/repórter da revista “O cruzeiro” (de 1969), aos 22 anos.

Brant revela que esses primeiros versos são resultado de sua observação do quarto de sua casa no bairro dos funcionários em BH. No seu ambiente de descanso e relaxamento, ele vê: uma igreja — que segundos sua afirmação é símbolo cristão, sinal que remete a Deus. Era a igreja de Lourdes —; um muro, pássaros voando, uma grade — que pode ser da janela — e; um velho sinal.

Brant se revela como observador que vê, contempla e descreve a paisagem urbana. Toda a composição é desenvolvida, supostamente, de dentro do seu quarto. A partir de seu quarto ele realiza narrativas e tece predicados, sobre si mesmo, que revelam sua percepção da vidar, do momento e da paisagem.

“Mensageiro natural de coisas naturais

Quando eu falava dessas cores mórbidas

Quando eu falava desses homens sórdidos

Quando eu falava deste temporal”

 

O autor faz uma autorreflexão sobre seu contexto, sobre a sociedade e a realidade da época (1972). Aqui começa a imaginação, a recordação e a narração metafórica.

Brant era repórter da revista “O cruzeiro”.   Uma das mais importantes do Brasil e da América latina. Essa revista lhe propiciou contato com as mais diversas realidades.

Brant se coloca como mensageiro (repórter e letrista) das coisas que acontecem na vida cotidiana. Para ele, ser mensageiro, é algo nato dada sua profissão e seu amor pelo jornalismo, pela poesia e música. Ele é o mensageiro que fala a todos que “escutam” através de suas reportagens e de suas músicas.

Quando ele expressa: “quando eu falava”, é provável que o autor se referisse a sua atividade como jornalista, como letrista. Ele, como jornalista, é o mensageiro dos diversos acontecimentos que rodeavam sua vida: coisas ruins, homens ruis e marginalizados e eventos da natureza estão dentro do contexto do momento. Brant, ao falar de si como mensageiro natural, parece aceitar muito bem sua profissão.

Cores mórbidas e homens sórdidos podem fazer referência aos militares, governantes e ao contexto político de 1972, quando o Brasil vivia o regime militar que era visto pelo clube da esquina como algo terrível. Ressalta-se, assim, que temporais pode fazer referência a situação conflitante ocasionada pela ditadura militar.

“Você não escutou

Você não quer acreditar

mas isto é tão normal

Você não quer acreditar

e eu apenas era”

 

Através destes versos o autor revela sua preocupação social com a humanidade.

Os homens, por estarem tão acostumados à violência, fome e demais atribulações, já cauterizaram sua mente. São indiferentes e despreocupados. Brant, que é mensageiro, já falou e fala, mas não querem acreditar porque ele é um simples mensageiro natural, ao que parece.

“Cavaleiro marginal

lavado em ribeirão

Cavaleiro negro que viveu mistérios

Cavaleiro e senhor de casa e árvores

sem querer descanso nem dominical”

 

Brant ao falar, mesmo que os homens não escutem, é, segundo ele mesmo, apenas um cavaleiro marginal, ou seja, alguém que vive nessa realidade triste, agonizante, mas não faz parte dela. A palavra cavaleiro tem sentido poético, metafórico, e pode significar uma luta para, através das palavras, denunciar as mazelas dessa realidade. 

Lavado em ribeirão denota o banho revigorante do cavaleiro que está em batalha. Brant se vê como um incansável cavaleiro que não descansa nem mesmo aos domingos.  Ao se referir a si mesmo como cavaleiro negro o autor pode estar fazendo alusão ao fato de ter que compor suas músicas tendo que esconder suas convicções políticas devido a censura do regime militar.

Brant assume a ideia de ser um cavaleiro marginal, que vive à margem, negro por ter que se “esconder” e revelar que assim quer e deseja ser. Os mistérios podem ser as coisas que o autor viveu ao realizar seu trabalho como jornalista, sob a censura do regime militar. Pois sabe-se que durante o regime a atividade jornalística sofreu grande represália e pressão por parte dos militares que queriam controlar todo a aparelho midiático.

“Cavaleiro marginal banhado em ribeirão

conheci as torres e os cemitérios

conheci os homens e os seus velórios

quando olhava da janela lateral

do quarto de dormir”

Ele é o cavaleiro que vive dentro dessa realidade de Minas Gerais, mas não faz parte dela, pois se coloca como marginal, revela que ele está imaginando, refletindo. A realidade é cruel. O autor revela que participa de fatos desagradáveis, mas que apesar de tudo se banha “no ribeirão” e não se deixa abater pelas mazelas da vida mineira e realidade do país.  O autor não revela o que seria esse ribeirão que lhe revigora as forças.

Neste último verso Brant revela que, através da janela de seu quarto, ele vê as torres, os prédios, — pois o bairro dos funcionários, no qual ele morava, era um bairro em construção e abrigava os funcionários públicos de Minas — os habitantes. De sua janela era possível ver um cemitério, onde se realizavam velórios, obviamente. Tudo isso enquanto ele olhava da janela do seu quarto, da janela lateral.

“O que nos força a pensar é o signo. O signo é objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; ele é, ao contrário, a única criação verdadeira. A criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento”. Gilles Deleuze
 

Ao citar este texto, por favor, citar o autor.

[1] Músico, cantor e compositor – givas.demore@gmail.com