Aguiar, Vaz e Viseu: Histórias desde o Medievo
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 05/03/2026 | HistóriaA investigação, individual ou coletiva, a respeito de um sobrenome pode revelar orgulho e surpresa que, após a ciência dada pelo procedimento, os membros de determinada família podem, de fato, sentir. Noutro artigo publicado, sob o título "A Idade Média e os Vasconcelos", expus as origens de um dos apelidos que carrego, fincadas no Medievo. Agora, publico os resultados colhidos sobre minha ascendência inicial com o outro sobrenome (Aguiar), e que levou-me a diversa conclusão.
Nossos mais imediatos ancestrais, portadores do sobrenome Aguiar e nascidos do Nordeste do Brasil, foram Leôncio de Aguiar Vasconcellos (meu pai, cearense de Tianguá, cuja biografia, política e jurídica, se encontra por mim publicada na Wikipedia) e minha avó, Francisca Francinete de Aguiar Vasconcelos, filha de Leôncio Licurgo Aguiar (meu bisavô) e neta do Coronel Manoel Francisco de Aguiar (meu trisavô, nascido em Coreaú, Ceará).
Manoel Francisco de Aguiar foi uma das figuras mais proeminentes do Nordeste, inicialmente imperial e depois republicano, tendo sido militar da Guarda Nacional e político de renome. Tinha muita influência, tanto que foi o fundador de Tianguá, terra de meu pai (e, provavelmente, de Maria Francinete e Leôncio Licurgo, embora eu não tenha a confirmação). Em Tianguá, também foi o prefeito que, além de fundador, moldou para sempre a identidade da cidade. Um de seus filhos, Monsenhor Agesilau de Aguiar (meu tio-bisavô), foi sacerdote católico ordenado em Roma no início do século XX. Era conhecedor de vários idiomas, e, felizmente, depois da ordenação optou por retornar a Tianguá, para lá levar luz elétrica e reformar a catedral, além de prestar inúmeros outros serviços.
Manoel Francisco era filho de Luiz Antônio de Aguiar, neto de Antônio Vaz de Aguiar e bisneto de Nicácio de Aguiar Silva (pode-se perceber serem todos meus ancestrais diretos na linha reta varonil). Faço aqui uma pausa porque verifiquei que o pai de Nicácio não era portador do sobrenome Aguiar, revelando-se, assim, que na mesma linha (como nas outras, até agora, por mim aferidas), nossa família passou a adotar o sobrenome Aguiar com Nicácio, cujo pai era Manoel Vaz Carrasco e Silva, filho de Francisco Vaz Carrasco e neto de Manuel Vaz Viseu.
Manuel Vaz Viseu era português. Foi, portanto, colono e o primeiro da discutida linhagem a pisar em terras brasileiras, fixando-se em Pernambuco. Um detalhe: ele era um Cavaleiro de Cristo, cujo contexto passo a discutir dois parágrafos adiante.
Em relação aos dois sobrenomes que utilizava, Viseu é um apelido denotador do local de origem da recente linhagem, vez que nasceu no século XVII no Distrito do Viseu, em Portugal. Quanto ao provável surgimento de Vaz, significa "filho de Vasco" (como seria Vásques, com o sufixo português, ou Vásquez na língua espanhola). É interessante notar que, no outro artigo publicado sobre meu principal sobrenome (Vasconcelos), relacionei-o ao País Basco, na atual Espanha, eis que significa "pequenos bascos", ao passo que "filho de Vasco" pode ser, também, "filho de Basco".
CONTEXTO EM QUE SE SE INSERE UM CAVALEIRO DE CRISTO
A Ordem dos Cavaleiros Templários foi criada em 1118-1119, e era constituída de monges militares, que tinham dentre seus votos os de castidade e pobreza, e autoproclamavam dever obediência somente ao papa. De início, prestavam serviços de escolta e proteção aos peregrinos cristãos que se dirigiam a Jerusalém.
Ocorre que, sendo, nas suas próprias palavras, hierarquicamente inferiores só ao Sumo Pontífice, passaram a, por este, ser recrutados a lutar na Cruzadas, então em curso quando de sua original instituição, e cujo objetivo era expulsar os muçulmanos da Cidade Sagrada (não só os Templários eram convocados, mas todos os membros da Cristandade Ocidental, incluindo senhores feudais e vassalos, e, em especial, as vítimas do próprio sistema feudal, que nada tinham a perder, como servos e escravos, fugidos ou não, e hereges ávidos por perdão, de modo lhes era prometida, como recompensa, a salvação eterna).
As Cruzadas duraram cerca de duzentos anos. Por volta de seu ocaso, em 1312, o Rei Feudal da França, Felipe IV, determinou a dissolução da Ordem e o confisco de todas as suas propriedades e riquezas, acusando-a de heresia e corrupção. Pressionou o Papa Clemente V a ratificar seus atos, e este o fez numa sexta-feira treze (22 de março).
Ocorre que, em Portugal, a instituição não foi totalmente extinta, mas sucedida pela Ordem dos Cavaleiros de Cristo, então nova ordem militar religiosa portuguesa, sediada no Mosteiro de Tomar. Um dos principais feitos dos Cavaleiros de Cristo foi o financiamento às grandes navegações portuguesas, que ostentavam, se não todas, na sua maioria a Cruz da Cristandade, emblemática nos Descobrimentos do Caminho Marítimo para as Índias por Vasco da Gama, em 1498, e do Brasil por Pedro Álvares Cabral, em 1500. E é nesse contexto que se insere Vaz Viseu, ainda que muitas décadas adiante, eis que a Ordem só foi laicizada por Portugal em 1834, sendo hoje uma alta condecoração do Estado português (no Brasil, o Imperador D. Pedro I instituiu, em 1822-1823, a Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo D. Pedro II retirado seu caráter religioso em 1843, mas, nos dois casos, os imperadores foram os seus grãos-mestres).
Uma última observação é que a origem do sobrenome Aguiar remete ao medieval Senhorio de Trás-os-Montes, em Portugal, que seria um "local para criar águias". Foi, na sua maior quantidade, trazido ao Brasil, especialmente para o Nordeste, por judeus sefarditas.