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   A UTILIDADE DA FILOSOFIA EM ANGOLA

                                                                                              Autor: António Paulo José[1]

 

RESUMO

O presente artigo tem por objectivo “reflectir acerca da utilidade da filosofia em Angola”. A filosofia em Angola é vista como um saber que contradiz todos os outros saberes e que a sua utilidade é quase nula. Tem seu trajecto histórico desde os tempos mais remotos e continua nos currículos escolares actuais. Tem servido como um veículo para a transformação das mentes, ajudando as pessoas a pensar além do óbvio ou comum e a possuir um pensamento próprio. Ela ajuda a relacionar-se da melhor forma com os outros numa determinada sociedade. Ajuda ainda a analisar com fineza os diversos aspectos antes de emitir qualquer opinião. Ainda não se reconhece como tal a sua utilidade, pois, a modernidade considera útil apenas aquilo que tem uma finalidade prática.

Palavras-chave: Utilidade, Filosofia, Angola.

 

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

É bastante desafiador abordar o presente problema numa sociedade que quase desconhece a filosofia e os que a conhecem a questionam severamente por considerarem-na inútil e sem qualquer vantagem para a vida e para a sociedade. Falar da utilidade da filosofia em Angola parece uma miragem, numa fase em que ela ainda é vista simplesmente como a mãe de todas as ciências.

A filosofia ou o filósofo em Angola, depara-se com uma dúplice tarefa: incialmente, precisa desconstruir a imagem de filosofia existente na consciência geral (ou da maioria) das pessoas, imagens que apresentam o filósofo como o mais complicado da sociedade, como aquele que desacredita e contraria tudo, aquele que não acredita na Divindade, etc.; seguidamente, deve-se apresentar a real imagem do filósofo. O filósofo como aquele que faz brotar luz no escuro, aquele que traz um farol, aquele que faz um orifício no fundo do túnel e que faz sair da caverna. Quando se solidificar esta imagem de filosofia e do filósofo em Angola, se poderá valorizar a Filosofia e o filósofo. Desde este momento, todos poderão reconhecer a utilidade que ela tem em Angola.

 

ACERCA DO PROBLEMA

Nas escolas, os alunos dizem que a filosofia é uma disciplina chata, incompreensível e fazem apenas as atividades (tarefas) por razões de notas, por isso, as seguintes questões são frequentes: vale nota? Quanto vale, professor? Este facto, pode dar-se, talvez, porque muitos professores de Filosofia, em Angola, não são sequer formados em Filosofia, o que torna mais complexa e difusa a transmissão e aquisição dos conteúdos.

É mister encetar a nossa abordagem com algum dado histórico: o ensino da filosofia em Angola começou no contexto da I República, mas o processo foi interrompido depois de 1992. Em Angola, a filosofia esteve sempre voltada à escolástica e ao marxismo, pois servia para a formação sacerdotal e para membros do partido poderem aliar seus apoiantes durante o sistema marxista existente na época. Podemos dizer que ela não era feita por filósofos; talvez aproveitassem apenas aplicá-la na vertente aplicada pelos sofistas na Grécia Antiga, tendo o sentido persuasivo, pois, a filosofia é bastante útil no que a argumentação diz respeito.

Actualmente ela não é mais vista como útil assim como antes. E mesmo naquela altura, ela não era permitida a qualquer, porque sabemos que a filosofia desestabiliza toda a banalidade e futilidade de determinada sociedade. Ela questiona as diferentes práticas vistas como comuns para o senso comum ou para a maioria, e esta atitude leva-nos à finalidade máxima da filosofia: o conhecimento da verdade.

A filosofia é a «decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os factos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido» (Chauí, 2000, p. 9). Nota-se claramente que a falta de conhecimento sólido leva-nos à atitude do camelo, o que arquiva o desenvolvimento humano e social.

Agora mais do que nunca precisamos erguer a cabeça e olhar para o horizonte. Afirmar a existência e a utilidade da filosofia em Angola, tendo uma especificidade angolana, fazendo com que cada filósofo seja livre e aliar-se a qualquer sistema filosófico, mas não alienar-se a outras práticas ou possuir um instinto gregário.

 

É, A FILOSOFIA, ÚTIL OU NÃO?

Considera-se útil, actualmente, algo que tem uma finalidade prática e que a sua utilidade é imediata. Por essa razão, questiona-se sempre: qual é a utilidade da filosofia em angola? Que ganhos há com a filosofia? Não ouço ninguém a questionar: qual é a utilidade da Matemática? Qual é a utilidade da Física? Qual é a utilidade da Biologia e da química em Angola? Etc.

Como sabemos, «o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a filosofia não serve para nada» (Chauí, 2000, p. 11).

Convém referir que se algo é questionado e questionável, então, existe (ou, pelo menos, é imaginável). Deste modo, podemos afirmar a existência da Filosofia em Angola e nos currículos escolares desde a 11ª classe _ nos cursos de Ciências Económicas e Jurídicas, Físicas e Biológicas e Ciências humanas como disciplina obrigatória. E a UNESCO manifesta o desejo de implementá-la em todos os cursos do ensino médio e até mesmo na educação primária, como podemos ler:

(...) a UNESCO tem vindo a solicitar a todos os Estados a introdução ou alargamento da formação filosófica a toda a educação primária, considerando substantivo o vínculo entre Filosofia e Democracia, entre Filosofia e Cidadania.

Esta aproximação entre Filosofia e a manutenção e consolidação da vida democrática tem a ver com o reconhecimento do valor da aprendizagem desta disciplina, não apenas no processo do saber de si, de cada um, como também no aperfeiçoamento do seu discernimento cognitivo e ético, contribuindo, assim, diretamente para a formação de cada jovem para o juízo crítico e para a participação na vida da comunidade.

Este apelo à inserção sistemática da Filosofia no Ensino Primário releva uma concepção desta disciplina de que decorrem três funções essenciais:

  1. Permitir a cada um aperfeiçoar a análise das convicções pessoais;
  2. Aperceber-se da diversidade dos argumentos e das problemáticas dos outros;
  3. Aperceber-se do carácter limitado dos nossos saberes, mesmo dos mais assegurados (Departamento do Ensino Geral, 2012, p. 5).

Não é por mero acaso também que o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação apresenta intenções de implementá-la em todos os cursos de nível superior, pois, notou-se que muitos estudantes após terminarem os seus cursos de licenciatura não desenvolvem um pensamento coerente, lógico e crítico perante a realidade.

 Fica patente aqui que a Filosofia não é e nem deve ser ensinada com «finalidade profissional, como quando se quer aprender um ofício, mas apenas para fins educativos como convém a um jovem particular e livre» (Platão, 2002, p. 53). É por esta razão que tenho defendido sempre que, se alguém quer ser filósofo não pode filiar-se a algum partido político para que não seja alienado. Um filósofo filado a um sistema político não pensa por si mesmo. O filósofo deve ser “particular”, autónomo, pois «fazer filosofia significa ser capaz de se elevar acima das paixões e dos interesses individuais (...) » (Morra, 2001, p. 89).

Ora, por que tantas intenções e preocupações para um saber inútil?

Stephen Hawking considerou que a filosofia estava morta e John Lennox o refutou usando a filosofia. Como pode algo morto ter alguma voz? São várias as pretensões de eliminar este saber que hoje é considerado como inútil, porém, um dado fica assente: «(...) se se deve filosofar, se deve filosofar, e se não se deve filosofar, se deve igualmente filosofar; em todo caso, portanto, se deve filosofar. Se com efeito, a filosofia existe, de todos os modos somos levados a filosofar, dado que ela existe. Se, ao contrário, ele (sic) não existe, também neste caso somos levados a investigar como a filosofia não existe; mas, investigando, filosofamos, pois o investigar é a causa da filosofia» (Aristóteles, pp. 46-47 citado por Morra, 2001, p. 106).

É bastante notória a complexidade existente para eliminar a filosofia e considerá-la inútil. A utilidade da filosofia deve buscar-se nela mesma e não fora. Ela ajuda a pensar no melhor modo de vida entre os seres humanos. A filosofia é importante na vida, não como aspecto material ou financeiro, mas enquanto ser humano; e ajuda na formação do carácter da pessoa, pois, em Angola, precisa-se aprender a viver bem, precisa-se modelar o carácter das pessoas.

«A filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver» (Chauí, 2000, p. 11), caso não a desdenhássemos ou tivéssemos dela algum receio.

É verdade que, como angolanos, precisamos aprender a pôr limites nos nossos desejos e paixões; aprender a viver em sociedade e a pensar nos outros. Estamos numa sociedade em que as autoridades culturais e políticas apelam tanto para o resgate dos valores num momento em que se quer eliminar a filosofia e o filósofo. Notamos o desejo de certos governantes a desejarem tudo para si. Aqui pouco se pensa no “outro” ou no cidadão, essencialmente àqueles que não usam “camisolas com cores”. Enquanto uns aplaudem e elogiam tudo por exagero (até o errado) para a manutenção da sua existência ou de um grupo restrito, os chamados bajuladores, pois bajulador é «aquele que se excede no louvor, indo além do que é conveniente (Aristóteles, 2015, p. 77); outros criticam tudo (até mesmo o certo) pela mesma razão acima referenciada _ estes são os hostis, rudes, pois estes louvam menos do que convém (Aristóteles, 2015, p. 77).

Precisamos aprender a ir além dos interesses individuas (ou de pequenos grupos) que nos aprisionam. Não é por acaso que o estagirita alerta que «el hombre sin la práctica filosófica se aliena» [o homem sem a prática filosófica se aliena (nossa tradução e itálico) ] (Aristóteles, 1992, p. 47). É por essa razão ainda que a «utilidade da filosofia fica clara em seu carácter de saber formativo, ou seja, de um saber sintético e unitário, desinteressado e crítico (...)» (Morra, 2008, p. 89). Se assim consideramos, então cai por terra a firmação que tem vindo a ganhar espaço: «‘a filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual’. Ou seja, a filosofia não serve para nada» (Chauí, 2000, p. 10).

Há, realmente, em Angola pouca aceitação no saber filosófico, embora ela esteja a afirmar-se cada vez mais. Porém, os meios de comunicação ainda continuam a rejeitar ou a não colocar nos seus alinhamentos, pessoas que se dedicam a este saber; talvez de forma propositada, pois, alguns continuam a pensar erroneamente que o filósofo é um louco ou aquele que fala à toa. Nota-se claramente o grau de ignorância que se tem em ralação a este saber, fruto de uma filosofia da suspeita disseminada na primeira fase do ensino da filosofia em Angola e que a mesma visão perdura até hoje. Consequência disso, nas primeiras aulas de filosofia, sempre que pergunto aos alunos o que ouviram ou sabem acerca da filosofia ou dos filósofos, os mesmos dizem que: “sabemos que os filósofos não acreditam em Deus”; “a filosofia é contra Deus e a Bíblia”; “a filosofia engana as pessoas”; “os filósofos são malucos porque contradizem-se entre eles”; “a filosofia é complexa e ninguém a entende”, etc.

Grande parte desta ignorância também é fruto de uma visão materialista a que fomos submetidos. Não se está mais preocupado com a formação integral do homem. E a visão política governamental angolana optou em dar maior primazia aos cursos técnico-profissionais, deixando à deriva a formação que visa o bom comportamento, a boa relação entre as pessoas, a verdade, o bem, as virtudes, etc. Não é recomendável envidar mais esforços a determinados cursos em detrimento de outros. Eles devem existir e conviver juntos para que a sociedade ganhe solidez. Se assim não for, o clamor do resgate dos valores não passará de uma quimera. 

Na verdade, não é um avanço que se pretende dar ao querer formar apenas pessoas para construírem edifícios, máquinas e muito mais. É necessário formar a pessoa na sua dimensão mais humana para que o mesmo consiga lidar com estes avanços tecnológicos. É miragem pensar que o desenvolvimento depende exclusivamente disso. O desenvolvimento depende do nível cultural de uma sociedade, pois «a verdadeira educação é a formação integral do carácter (...)» (Platão citado por Morra, 2001, p. 89). É por isso que a filosofia era usada pelos gregos para a educação (a paideia), formação da pessoa.

Portanto, se abandonar a ignorância do senso comum for útil; se pensar lógica e criticamente for útil; se não se deixar alienar for útil; se analisar os problemas sociais e viver bem com os outros for útil; se a formação integral da pessoa humana for útil; se pensar além do comum e encarar a realidade com verdade for útil; se lutar para o “Bem Comum” for útil; então podemos afirmar que a filosofia é útil em Angola e em todas as sociedades em que a mesma está presente. A filosofia é útil não apenas porque nos ensina a raciocinar bem ou a ter um olhar crítico da realidade, mas porque nos ensina a sermos mais humanos.

 

À GUISA DE CONCLUSÃO

Não é acidental afirmar que a filosofia em Angola é vista com olhos invertidos e que passa despercebida nas lentes intelectuais elitistas. Ela ainda não é tida nem achada como aquele saber que pode e que contribui para a formação do homem e da sua boa convivência; formação de um homem virtuoso e pensante, homem com ideias firmes e que pode emitir seu pensamento sem precisar aprovação de alguém ou preocupar-se com alguma deposição.

O reconhecimento da utilidade da filosofia em Angola está ainda na sua fase embrionária, pois, o próprio filósofo em Angola está na fase de afirmação e aceitação social. Ele é ainda visto como inútil e sem actividades a desenvolver ou sem contributo a prestar para a sociedade, embora muitos se auto afirmam como filósofos ou rotulam individualidades por serem bastante eruditos. Mas é inegável que a filosofia vem ganhando espaço nas instituições de ensino e tem mudado mentes de muitos estudantes. Tem servido realmente como um farol.

É necessário, no entanto, continuar a mostrar a utilidade da filosofia na transformação da pessoa para que a mesma consiga viver da melhor forma em sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Aristóteles. (2015). Ética a Eudemo. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro.

_________. (1992). Protréptico. Trad. Alberto Buela. Buenos Aires: Ed. Cultura et labor.

Chauí, M. (2000). Convite à Filosofia. São Paulo: Ed. Ática.

Departamento do Ensino Geral. (2012). Programa de Filosofia – 11ª Classe. 2ª Edição, Luanda: INIDE.

Morra, G. (2001). Filosofia para Todos. Trad. Maurício Pagotto Marsola. São Paulo: Paulus

Platão. (2002). Protágoras. Trad. Carlos Alberto Nunes. Pará: Editora da Universidade Federal do Pará.

 

[1] Mestrando em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto (FLUAN); Licenciado em Filosofia pelo Instituto Superior Dom Bosco (ISDB) da Universidade Católica de Angola (UCAN). (Julho.2020).

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