A URSS: Uma Mescla de Ateísmo e Religião
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 19/05/2026 | HistóriaAs controvérsias fazem parte da história humana. Acirram debates, definem políticas, movem economias e criam guerras. Mas, de todas as controvérsias relevantes, a que mais gera contradições é a mescla entre religião e ideologia. E era isso o que ocorria na URSS.
Durante as duas revoluções socialistas russas de 1917, e bem depois da criação da própria URSS, milhares de igrejas ortodoxas haviam sido derrubadas pelos bolcheviques, numa sucessão de crimes contra a religião (e, portanto, contra a história) que pôs abaixo cerca de 40 mil templos, deixando a restar pouquíssimos. Não levavam em consideração, nem mesmo, que Moscou sempre intentou ser reconhecida como a "Terceira Roma" (depois da própria e Bizâncio): o que importava era impor um Estado ateu.
Mas não foi isso que obtiveram. A dureza, a fome e a semiescravidão decorrentes do modo coletivista, mantido sob censura brutal e sem que houvesse a possibilidade de recurso a alguma entidade metafísica, poderiam provocar uma grande rebelião contra o próprio Estado soviético, de modo tão ou mais feroz quanto a anterior derrubada do Czar Nikolau Romanov.
Isso fez que o Partido tomasse uma decisão inesperada. Quando o líder revolucionário Vladimir Lênin morreu, seu sucessor Josef Stálin determinou que o corpo fosse embalsamado e exposto num mausoléu na Praça Vermelha. Ali, poderia haver a peregrinação do povo a cultuar o novo e único "deus" então permitido, em substituição ao deus ortodoxo dos tempos czaristas: Lênin passou a ser o depositário da fé do povo, constantemente visito junto ao seu corpo no mausoléu, convertido num templo religioso de facto.
O mausoléu fica, como dito, na Praça Vermelha. É onde se encontra, também, a espetacular Catedral de São Basílio, construída séculos antes sob as ordens do Czar Ivan IV, “O Terrível” (há um conto que diz ter ele, depois de pronta, mandado furar os olhos do arquiteto que a ergueu, para que nunca mais repetisse algo tão belo e maravilhoso). A Catedral, por sua história e localização, transformada foi de local de culto a símbolo do Estado soviético, já que defronte ao mausoléu. Era o lembrete de que, não obstante o "deus" ali próximo exposto, a grandeza do Estado ateu ainda pairava sobre aquela ágora. Vejamos, por exemplo, que os desfiles militares da URSS (e hoje, da Rússia) lá ocorriam e ocorrem, com um simbolismo perpétuo de caráter militarista.
E as tropas desfilantes são regularmente observadas pelos "semideuses" (os antigos Secretários-Gerais do PCUS, sucessores de Lênin - Stálin, Kruschev, Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachev, e, após a fragmentação da URSS, Iéltsin, Medvedev e Putin). "Semideuses" que se declaravam (alguns) e dizem seguir o ateísmo, mas certas práticas observadas evidenciaram que, mesmo neles, há um resquício de religiosidade ou misticismo.
Por exemplo, em dado momento, Leonid Brejnev, que governou a URSS de 1964 a 1982 (tendo iniciado a Guerra Soviético-Afegã), consultou-se com a vidente búlgara Vangelia Pandeva Gushterova, mais conhecida como "Baba Vanga" (ou "Nostradamus dos Balcãs"), que teria previsto os atentados de 11 de Setembro de 2001, a Pandemia de Covid-19 e a Terceira Guerra Mundial, dentre outros acontecimentos.
Eis, então, a prova da humana falsidade que representava, e representa, a intervenção estatal na vida privada das pessoas, especialmente a religiosa. Brejnev era um ser humano. Um ser humano desprezível, é verdade. Mas tão humano que rejeitou Lênin, e preferiu Vangelia Pandeva Gushterova.