A TRANSIÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL PARA O 1º ANO: DESAFIOS EMOCIONAIS E PEDAGÓGICOS NA MUDANÇA DE ROTINA
Por Carolina Pessoa Varanda Leite | 03/09/2026 | EducaçãoA TRANSIÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL PARA O 1º ANO: DESAFIOS EMOCIONAIS E PEDAGÓGICOS NA MUDANÇA DE ROTINA
A entrada no 1º ano do Ensino Fundamental representa um dos momentos mais significativos da trajetória escolar da criança. Trata-se de uma mudança que ultrapassa a simples alteração de etapa educacional, pois envolve novas experiências, relações, espaços, tempos, responsabilidades e expectativas. Para muitas crianças, o ingresso no Ensino Fundamental é acompanhado pela sensação de que estão iniciando uma fase considerada “mais séria” da escolarização, na qual passam a existir maiores exigências relacionadas à leitura, à escrita, à matemática, à realização de atividades registradas e à permanência em determinados espaços e posições durante períodos mais prolongados.
A Educação Infantil, por sua vez, possui uma organização pedagógica própria, na qual as interações e as brincadeiras constituem eixos estruturantes das práticas educativas. A criança é compreendida como sujeito histórico e de direitos, capaz de participar ativamente das experiências, construir conhecimentos, expressar sentimentos, brincar, imaginar, investigar e produzir cultura. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reafirma essa concepção e estabelece seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.
Quando a passagem para o 1º ano ocorre de maneira abrupta, sem diálogo entre as etapas, a criança pode vivenciar uma ruptura significativa em seu cotidiano. A alteração da rotina, dos espaços, dos materiais, das relações com os adultos e das expectativas sobre seu comportamento pode produzir insegurança e dificuldades de adaptação. Estudos sobre a transição entre Educação Infantil e Ensino Fundamental apontam justamente para a existência de tensões entre as práticas desenvolvidas nas duas etapas, especialmente quando o brincar, que ocupa lugar central na Educação Infantil, passa a ser reduzido no Ensino Fundamental.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que a Educação Infantil tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, enquanto o Ensino Fundamental, iniciado aos seis anos de idade, objetiva, entre outros aspectos, o desenvolvimento da capacidade de aprender e o domínio progressivo da leitura, da escrita e do cálculo. Entretanto, a existência de finalidades específicas para cada etapa não significa que deva existir uma ruptura entre elas.
Nesse sentido, a própria BNCC destaca que a transição entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental requer atenção para garantir equilíbrio entre as mudanças introduzidas, a continuidade das aprendizagens e o acolhimento afetivo. O documento recomenda que a nova etapa seja construída considerando aquilo que a criança já sabe e é capaz de fazer.
A Resolução CNE/CEB nº 5/2009, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, também determina que a proposta pedagógica deve prever formas de garantir a continuidade do processo de aprendizagem e desenvolvimento na transição para o Ensino Fundamental, respeitando as especificidades etárias e evitando a antecipação de conteúdos próprios da etapa seguinte.
Dessa forma, discutir a transição para o 1º ano significa compreender que a criança não deixa de ser criança ao completar seis anos. Ela continua necessitando de vínculos afetivos, movimento, brincadeiras, exploração, imaginação, interação e segurança emocional, ainda que passe a vivenciar novas experiências relacionadas à sistematização do conhecimento.
O objetivo deste artigo é analisar os desafios emocionais e pedagógicos presentes na transição da Educação Infantil para o 1º ano do Ensino Fundamental, enfatizando especialmente as mudanças de rotina e suas repercussões no comportamento, na aprendizagem e na adaptação das crianças. Busca-se também discutir estratégias que possam contribuir para uma transição mais humanizada, respeitosa e pedagogicamente significativa.
2 METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória. A pesquisa bibliográfica possibilita reunir, analisar e discutir contribuições teóricas e documentais relacionadas ao objeto de estudo, permitindo uma compreensão mais ampla dos fenômenos educacionais.
Foram considerados documentos oficiais que orientam a Educação Infantil e o Ensino Fundamental no Brasil, especialmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e documentos relacionados à organização do Ensino Fundamental de nove anos.
Também foram considerados estudos acadêmicos que investigam a passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, especialmente aqueles relacionados à infância, ao brincar, ao letramento, à alfabetização, à organização do tempo e do espaço escolar e às relações entre desenvolvimento e aprendizagem.
A análise foi organizada a partir de quatro eixos principais: a) características da transição escolar; b) desafios emocionais e sociais; c) desafios pedagógicos e mudanças na rotina; e d) estratégias para uma transição mais acolhedora.
A EDUCAÇÃO INFANTIL E O 1º ANO: DUAS ETAPAS, UM CONTÍNUO EDUCATIVO
A Educação Infantil e o Ensino Fundamental possuem características, objetivos e formas de organização próprias. Entretanto, ambas integram a Educação Básica e participam de um mesmo processo de formação humana. Por essa razão, é necessário compreender a passagem entre essas etapas como uma continuidade, e não como uma ruptura.
A Educação Infantil constitui a primeira etapa da Educação Básica e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança. Essa concepção amplia a compreensão de aprendizagem, ultrapassando uma visão centrada exclusivamente na aquisição de conteúdos. Na Educação Infantil, aprender envolve experimentar, movimentar-se, brincar, interagir, observar, perguntar, imaginar, comunicar-se e construir significados sobre o mundo.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil reconhecem a criança como sujeito histórico e de direitos, que produz cultura nas relações que estabelece com outras crianças, com os adultos e com o ambiente. A brincadeira e as interações ocupam, portanto, posição central no processo educativo.
O Ensino Fundamental, por sua vez, introduz uma maior sistematização das aprendizagens. A criança passa a ter contato mais intenso com conhecimentos organizados em diferentes componentes curriculares, com destaque para o processo de alfabetização nos primeiros anos. Isso não significa, contudo, que as práticas pedagógicas devam abandonar características fundamentais da infância.
A própria BNCC afirma que, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, devem ser valorizadas situações lúdicas de aprendizagem e que é necessária uma articulação com as experiências vivenciadas anteriormente na Educação Infantil.
Essa orientação é especialmente importante porque muitas crianças chegam ao 1º ano trazendo experiências diversificadas. Algumas já reconhecem letras, escrevem o próprio nome, demonstram interesse por livros e produzem hipóteses sobre a escrita. Outras apresentam conhecimentos diferentes, ainda em construção. Há também diferenças relacionadas à autonomia, à linguagem, à socialização, à motricidade e à capacidade de permanecer envolvidas em determinadas atividades.
Por isso, o ingresso no 1º ano não deve ser compreendido como um momento em que todas as crianças precisam apresentar exatamente os mesmos conhecimentos. O professor precisa conhecer o percurso individual de cada estudante e utilizar essas informações para planejar intervenções adequadas.
A transição, portanto, deve permitir que aquilo que foi construído na Educação Infantil seja valorizado e ampliado. Relatórios, portfólios, registros, produções infantis e observações realizadas pelos professores podem contribuir para que o docente do 1º ano conheça melhor seus novos alunos.
A BNCC destaca justamente a importância da troca de informações entre professores e instituições, incluindo conversas, visitas e compartilhamento de registros, como estratégias que favorecem a inserção da criança na nova etapa.
A MUDANÇA DE ROTINA E SEUS IMPACTOS NA VIDA DA CRIANÇA
A rotina escolar exerce papel fundamental na organização da vida infantil. Por meio dela, a criança aprende a antecipar acontecimentos, compreender sequências temporais, reconhecer momentos de alimentação, brincadeira, atividades, descanso, higiene e interação.
Uma rotina previsível contribui para que a criança desenvolva segurança e autonomia. Quando sabe o que acontecerá em seguida, consegue organizar melhor suas ações e emoções. Por esse motivo, mudanças muito bruscas podem provocar insegurança, especialmente quando a criança ainda não possui recursos suficientes para compreender e administrar todas as transformações.
Ao ingressar no 1º ano, a criança pode encontrar uma rotina diferente daquela vivenciada na Educação Infantil. O tempo destinado às brincadeiras pode ser reduzido; as atividades podem apresentar maior duração; há maior frequência de registros escritos; as carteiras podem ser organizadas de maneira diferente; os momentos de movimento podem ser mais restritos; e as expectativas de comportamento podem aumentar.
Para uma criança que estava acostumada a aprender por meio de experiências concretas, brincadeiras e interações, uma mudança repentina para uma rotina excessivamente centrada em fichas, cópias, exercícios e permanência sentada pode representar uma ruptura difícil.
A pesquisa de Neves, Gouvêa e Castanheira (2011) identificou justamente um hiato entre experiências vivenciadas na Educação Infantil e práticas encontradas no Ensino Fundamental, observando que o brincar passou a ocupar uma posição secundária. As autoras defendem maior integração entre brincar e letramento.
É importante compreender que o problema não está na existência de atividades estruturadas ou na necessidade de sistematização do conhecimento. O desafio está em estabelecer um equilíbrio entre diferentes formas de aprender.
A criança do 1º ano pode aprender a escrever, ler, resolver problemas matemáticos e desenvolver conhecimentos científicos sem deixar de brincar, movimentar-se, conversar, imaginar e explorar.
Uma rotina adequada precisa apresentar organização, mas também flexibilidade. Deve possuir momentos previsíveis, mas oferecer oportunidades para que as crianças façam escolhas, expressem necessidades e participem ativamente.
Nesse sentido, a rotina não deve ser compreendida apenas como uma sequência de horários, mas como uma ferramenta pedagógica que organiza experiências, relações e aprendizagens.
OS DESAFIOS EMOCIONAIS DA TRANSIÇÃO
A dimensão emocional constitui um dos aspectos mais importantes e, muitas vezes, menos valorizados durante a transição para o Ensino Fundamental.
A criança pode experimentar sentimentos variados: entusiasmo por estar crescendo, orgulho por entrar no “primeiro ano”, curiosidade diante da nova escola, medo de não conseguir acompanhar as atividades, saudade da professora anterior, insegurança diante de novos colegas ou ansiedade relacionada às expectativas dos adultos.
É comum que algumas crianças manifestem comportamentos diferentes daqueles observados anteriormente. Podem apresentar maior dependência do adulto, choro, resistência para entrar na escola, dificuldade para permanecer em sala, irritabilidade, cansaço ou recusa diante de determinadas atividades.
Esses comportamentos não devem ser imediatamente interpretados como falta de interesse ou indisciplina. Em muitos casos, constituem formas de comunicação de sentimentos que a criança ainda não consegue expressar verbalmente.
O professor precisa desenvolver um olhar atento para identificar essas manifestações e compreender o que pode estar por trás delas.
A afetividade ocupa papel central nesse processo. A criança aprende melhor quando se sente segura, pertencente e reconhecida. Um ambiente emocionalmente acolhedor não significa ausência de limites. Ao contrário, envolve a construção de regras claras, relações respeitosas e oportunidades para que a criança desenvolva autonomia.
A presença de um adulto de referência também pode contribuir significativamente para a adaptação. No início do ano, estabelecer vínculos, apresentar os espaços, explicar a rotina e demonstrar disponibilidade para ouvir as crianças pode reduzir inseguranças.
A escola precisa transmitir a mensagem de que o 1º ano não representa o fim da infância, mas uma nova etapa de descobertas.
Outro aspecto relevante é a relação entre expectativa e desempenho. Quando a família ou a escola transmite à criança a ideia de que ela precisa “ser grande” e deixar de brincar, errar ou pedir ajuda, pode criar uma pressão desnecessária.
A criança precisa perceber que aprender envolve tentativa, erro, repetição e descoberta.
Assim, uma transição emocionalmente saudável depende da criação de um ambiente no qual seja possível perguntar, errar, pedir ajuda, expressar sentimentos e construir vínculos.
O PAPEL DO BRINCAR NA TRANSIÇÃO PARA O 1º ANO
O brincar constitui uma das principais atividades da infância e não deve ser entendido como um elemento incompatível com o Ensino Fundamental.
Na Educação Infantil, brincar está diretamente relacionado ao desenvolvimento da linguagem, da imaginação, das relações sociais, da autonomia, da criatividade e da capacidade de resolver problemas. Ao brincar, a criança negocia regras, assume papéis, expressa emoções e constrói significados.
A BNCC estabelece o brincar como um dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento da Educação Infantil e reconhece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes das práticas pedagógicas.
A transição para o 1º ano não deve eliminar essas experiências. Pelo contrário, elas podem ser utilizadas como ponte para as novas aprendizagens.
Jogos de palavras, brincadeiras com letras, desafios matemáticos, cantigas, histórias, dramatizações, jogos de memória, atividades corporais e propostas investigativas podem favorecer a aprendizagem de conteúdos escolares de forma significativa.
O jogo também pode ajudar a criança a compreender novas regras e ampliar gradualmente sua capacidade de concentração.
A literatura especializada demonstra que o brincar continua sendo relevante no Ensino Fundamental. Estudos apontam que o lúdico pode contribuir para a formação de capacidades necessárias à atividade de estudo.
É preciso, portanto, superar a oposição entre “brincar” e “aprender”. A criança pode aprender brincando e brincar aprendendo.
O desafio pedagógico consiste em transformar o brincar em uma experiência intencionalmente planejada, sem retirar sua característica de prazer, criatividade e participação.
No processo de alfabetização, por exemplo, jogos com letras móveis, caça-palavras adaptados, bingo de letras, formação de palavras, parlendas, cantigas e literatura infantil podem promover aprendizagens importantes.
Da mesma maneira, a Matemática pode ser trabalhada por meio de jogos de percurso, contagens, desafios, brincadeiras com dados, agrupamentos e situações-problema contextualizadas.
Assim, preservar o lúdico no 1º ano não significa manter exatamente a mesma organização da Educação Infantil, mas estabelecer uma continuidade na forma como a criança se relaciona com o conhecimento.
OS DESAFIOS PEDAGÓGICOS NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO
Entre os principais desafios do 1º ano encontra-se o processo de alfabetização. A entrada no Ensino Fundamental costuma estar associada a expectativas intensas em relação à leitura e à escrita.
É importante destacar, entretanto, que alfabetizar não significa simplesmente fazer com que a criança memorize letras, sílabas e palavras. A alfabetização envolve a compreensão do sistema de escrita e sua utilização em situações significativas de comunicação.
As crianças chegam ao 1º ano com diferentes conhecimentos sobre a linguagem escrita. Algumas reconhecem o próprio nome, outras identificam letras, algumas já realizam tentativas de escrita e outras ainda estão construindo hipóteses iniciais.
Essas diferenças precisam ser consideradas pelo professor.
A pressão para que todas as crianças apresentem o mesmo desempenho em um determinado período pode gerar ansiedade tanto nos estudantes quanto nos profissionais e familiares.
O professor precisa estabelecer objetivos claros, mas compreender que o desenvolvimento não acontece de maneira uniforme.
A LDB estabelece entre os objetivos do Ensino Fundamental o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o domínio da leitura, da escrita e do cálculo. Contudo, o cumprimento dessa finalidade deve estar articulado a uma concepção de criança como sujeito em desenvolvimento.
Nesse sentido, as práticas de alfabetização devem considerar os conhecimentos prévios, o contexto sociocultural, a oralidade, a literatura, as interações e as diferentes linguagens.
A criança precisa perceber que ler e escrever possuem uma função social. Ler histórias, listas, bilhetes, receitas, placas, nomes, convites e outros textos permite que a alfabetização esteja relacionada a situações concretas.
O trabalho pedagógico também precisa incluir momentos de exploração, investigação e produção.
Uma criança que está começando a escrever precisa ter oportunidades para experimentar diferentes formas de registro e refletir sobre suas hipóteses.
O erro, nesse contexto, não deve ser visto apenas como falha, mas como parte do processo de construção do conhecimento.
A AUTONOMIA E AS NOVAS EXPECTATIVAS DE COMPORTAMENTO
Outra mudança importante durante a transição diz respeito à autonomia.
No 1º ano, espera-se que a criança desenvolva gradualmente maior independência para organizar seus materiais, guardar objetos, cuidar dos pertences, acompanhar a rotina, realizar atividades e solicitar ajuda quando necessário.
Entretanto, autonomia não deve ser confundida com fazer tudo sozinho imediatamente.
A autonomia é construída progressivamente por meio de oportunidades, orientações e experiências.
Quando uma criança chega ao 1º ano e ainda precisa de ajuda para determinadas tarefas, isso não significa necessariamente que não esteja preparada para a etapa. Significa que o processo de desenvolvimento continua acontecendo.
O professor precisa ensinar explicitamente os procedimentos que espera que os alunos realizem.
Por exemplo, não basta dizer “organize o material”. É necessário mostrar como organizar, estabelecer uma sequência e repetir o procedimento até que ele se torne familiar.
O mesmo ocorre com a rotina. No início do ano, é importante explicar:
· onde guardar a mochila;
· onde colocar os materiais;
· como solicitar ajuda;
· como organizar o caderno;
· quando beber água;
· como utilizar os espaços da escola;
· como formar filas;
· como participar das atividades;
· como cuidar dos próprios objetos;
· como interagir respeitosamente com os colegas.
Essas ações fazem parte do processo educativo.
A previsibilidade também contribui para a autonomia. Cartazes com a rotina diária, imagens, símbolos e registros visuais podem ajudar as crianças a compreender a sequência dos acontecimentos.
Ao longo do tempo, o professor pode retirar gradualmente esses apoios, permitindo que os alunos desenvolvam maior independência.
A RELAÇÃO ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA
A participação da família é outro elemento fundamental para uma transição bem-sucedida.
A criança não vivencia a mudança apenas dentro da escola. A família também participa da construção de expectativas em relação ao 1º ano.
Comentários como “agora você ficou grande”, “no primeiro ano você terá muita tarefa” ou “agora não é mais hora de brincar” podem produzir ansiedade e uma visão equivocada da nova etapa.
É importante que a família compreenda que o Ensino Fundamental traz novas responsabilidades, mas continua sendo um espaço destinado à infância.
A comunicação entre escola e família deve ocorrer de maneira clara e acolhedora.
Reuniões, encontros, bilhetes, conversas individuais e atividades de integração podem ajudar os responsáveis a compreender os objetivos da etapa e as características do processo de alfabetização.
A família também pode contribuir oferecendo experiências de leitura em casa, conversando sobre a escola, organizando horários, estabelecendo uma rotina de sono e alimentação e demonstrando interesse pelas descobertas da criança.
Não se trata de transformar a família em responsável pelo ensino formal, mas de construir uma parceria.
Quando escola e família apresentam mensagens contraditórias, a criança pode sentir-se insegura. Por isso, é importante que ambas compreendam a transição como um processo gradual.
A família precisa confiar no trabalho pedagógico, enquanto a escola precisa respeitar os conhecimentos e experiências familiares.
A IMPORTÂNCIA DA ARTICULAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL
Uma das estratégias mais importantes para reduzir as dificuldades de transição consiste na construção de diálogo entre os profissionais das duas etapas.
Não é suficiente que a criança simplesmente seja matriculada no 1º ano. É necessário que exista uma continuidade pedagógica.
A BNCC recomenda a troca de informações entre professores, incluindo registros, relatórios, portfólios, conversas e visitas.
A legislação educacional também aponta para a necessidade de articulação entre as etapas. Normas mais recentes do Conselho Nacional de Educação reforçam que os sistemas de ensino e instituições devem desenvolver ações e programas destinados à transição e à organicidade do percurso da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, incluindo compartilhamento de experiências e registros da aprendizagem e desenvolvimento.
Essa articulação pode ocorrer por meio de diferentes ações:
a) Visitas à escola: crianças da Educação Infantil podem conhecer os espaços onde estudarão posteriormente.
b) Encontros com professores: possibilitam que as crianças conheçam os profissionais que poderão acompanhá-las.
c) Atividades compartilhadas: projetos de leitura, jogos, apresentações e momentos culturais podem aproximar as duas etapas.
d) Compartilhamento de registros: relatórios, portfólios e produções permitem conhecer a trajetória da criança.
e) Conversas entre professores: possibilitam discutir características da turma e necessidades específicas.
f) Projetos de preparação para a transição: podem abordar sentimentos, expectativas, mudanças e descobertas.
Essas ações contribuem para que a nova escola deixe de ser desconhecida e passe a ser compreendida como um espaço familiar.
ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA UMA TRANSIÇÃO MAIS ACOLHEDORA
A construção de uma transição positiva exige planejamento. Não se trata apenas de receber as crianças no primeiro dia de aula, mas de pensar todo o início do ano como um período de adaptação e construção de vínculos.
Uma primeira estratégia consiste em manter elementos conhecidos da Educação Infantil. Histórias, músicas, brincadeiras, rodas de conversa e atividades corporais podem fazer parte das primeiras semanas.
Outra possibilidade é utilizar rotinas visuais, permitindo que as crianças acompanhem o que acontecerá durante o dia.
Também é importante estabelecer momentos de escuta. Perguntar às crianças o que estão sentindo, o que esperavam encontrar, do que gostaram e o que consideram difícil pode fornecer informações importantes para o professor.
A literatura infantil pode ser uma ferramenta especialmente poderosa. Histórias que abordem crescimento, mudanças, amizade, medo, escola e novas experiências podem favorecer conversas sobre sentimentos.
As atividades de alfabetização podem ser introduzidas progressivamente, partindo dos conhecimentos prévios das crianças.
No início, atividades mais curtas e diversificadas podem ajudar a criança a desenvolver gradualmente resistência e concentração.
O professor também pode alternar:
· momentos de atividade individual;
· propostas em duplas;
· trabalhos em pequenos grupos;
· jogos;
· atividades de movimento;
· leitura;
· desenho;
· escrita;
· música;
· exploração de materiais;
· atividades coletivas.
Essa variedade reduz a monotonia e permite que diferentes formas de participação sejam valorizadas.
Outra estratégia importante é evitar a comparação entre crianças. Cada estudante possui uma trajetória de desenvolvimento e aprendizagem.
A avaliação inicial deve servir para compreender a turma e planejar intervenções, e não para classificar ou rotular os estudantes.
O PAPEL DO PROFESSOR DO 1º ANO
O professor do 1º ano desempenha uma função essencial na construção da ponte entre Educação Infantil e Ensino Fundamental.
Mais do que ensinar conteúdos, cabe a esse profissional organizar um ambiente no qual a criança se sinta pertencente.
O professor precisa observar não apenas o desempenho acadêmico, mas também aspectos relacionados à socialização, comunicação, autonomia, participação, sentimentos e relações.
Uma criança que apresenta dificuldade para realizar determinada atividade pode estar enfrentando um desafio emocional ou uma dificuldade de adaptação.
Por isso, a observação é uma ferramenta pedagógica indispensável.
O professor deve perguntar:
· A criança compreendeu a proposta?
· Ela conhece a rotina?
· Está confortável no espaço?
· Consegue pedir ajuda?
· Está interagindo com os colegas?
· Demonstra interesse?
· Apresenta sinais de cansaço?
· Está conseguindo acompanhar o ritmo?
· Precisa de mais tempo?
· O nível de dificuldade da atividade está adequado?
Essas perguntas ajudam a evitar interpretações precipitadas.
O planejamento também precisa ser flexível. Uma proposta que funciona para determinada turma pode precisar ser modificada em outra.
O professor do 1º ano precisa compreender que a adaptação não acontece necessariamente nos primeiros dias. Para algumas crianças, pode durar semanas ou meses.
Por isso, acolher significa acompanhar continuamente.
DESAFIOS PARA A ESCOLA E PARA A PRÁTICA PEDAGÓGICA
A discussão sobre a transição não pode responsabilizar exclusivamente o professor. Existem desafios institucionais que precisam ser considerados.
A organização dos espaços, o número de alunos por turma, a disponibilidade de materiais, o planejamento coletivo, o diálogo entre profissionais e as condições de trabalho influenciam diretamente a qualidade do processo.
A escola precisa construir uma cultura institucional de acolhimento.
Isso significa pensar:
· como as crianças são recebidas;
· como os espaços são organizados;
· como os horários são estruturados;
· quanto tempo é destinado ao movimento;
· quais materiais estão disponíveis;
· como a família participa;
· como os professores trocam informações;
· como são acompanhadas as crianças que apresentam maiores dificuldades.
A pesquisa recente de Diogo (2026), que analisou 31 artigos publicados entre 2011 e 2023 sobre a transição entre Educação Infantil e Ensino Fundamental, identificou como categorias recorrentes a prática pedagógica, o tempo e o espaço e o corpo da criança. O estudo aponta para uma desarticulação entre as etapas e para a necessidade de considerar o tempo de que as crianças necessitam para compreender a nova situação escolar.
Essa constatação reforça a importância de não acelerar excessivamente o processo de adaptação.
A criança precisa de tempo para conhecer o professor, construir amizades, compreender regras, aprender a utilizar os materiais, reconhecer os espaços e familiarizar-se com a nova rotina.
A TRANSIÇÃO COMO PROCESSO DE CONTINUIDADE E NÃO DE RUPTURA
Pensar a transição como continuidade significa reconhecer que a criança chega ao 1º ano trazendo uma história.
Ela não começa sua trajetória escolar novamente.
Traz consigo conhecimentos, experiências, vínculos, medos, preferências, hipóteses, formas de comunicação e maneiras próprias de aprender.
O papel do Ensino Fundamental deve ser ampliar esse percurso.
Isso significa que a alfabetização não precisa ser iniciada ignorando tudo aquilo que a criança já sabe. Pelo contrário, deve partir de suas experiências.
Da mesma forma, a Matemática pode partir das situações de contagem e resolução de problemas já vivenciadas pelas crianças.
A Arte pode continuar sendo uma linguagem de expressão.
A literatura pode permanecer como fonte de imaginação.
O movimento pode continuar ocupando espaço na rotina.
A brincadeira pode ser utilizada como estratégia de aprendizagem.
Dessa maneira, o 1º ano pode ser simultaneamente um espaço de sistematização e de infância.
O desafio está em equilibrar essas duas dimensões.
A pesquisa de Neves, Gouvêa e Castanheira (2011) demonstra que quando existe um afastamento excessivo entre as práticas da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, podem surgir desencontros entre aquilo que interessa às crianças e aquilo que a escola passa a exigir delas.
Por isso, é necessário construir uma transição gradual.
A criança precisa compreender que novas aprendizagens serão apresentadas, mas que seu modo de ser criança continua sendo respeitado.
15 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A transição da Educação Infantil para o 1º ano do Ensino Fundamental representa um momento de profundas transformações na trajetória escolar da criança. Embora seja parte natural do percurso educacional, não deve ser tratada como um acontecimento simples ou automático.
A mudança de etapa envolve alterações na rotina, nos espaços, nos tempos, nas relações, nas responsabilidades e nas expectativas pedagógicas. Essas mudanças podem provocar diferentes reações emocionais, especialmente quando ocorrem de forma brusca e sem planejamento.
A análise realizada demonstra que os desafios emocionais e pedagógicos estão diretamente relacionados. Uma criança insegura, ansiosa ou pouco pertencente ao ambiente escolar pode apresentar dificuldades de aprendizagem e participação. Da mesma forma, práticas pedagógicas excessivamente rígidas podem aumentar o desconforto emocional.
Por isso, a dimensão afetiva não deve ser separada da dimensão pedagógica.
Acolher também é ensinar.
Brincar também é aprender.
Escutar também é uma forma de ensinar.
Respeitar o tempo da criança também é uma escolha pedagógica.
Nesse processo, o professor assume papel fundamental, mas não pode atuar sozinho. A construção de uma transição positiva depende da participação da equipe escolar, dos professores da Educação Infantil, dos professores do Ensino Fundamental e das famílias.
É necessário estabelecer mecanismos de diálogo entre as etapas, compartilhar informações sobre as crianças e planejar ações que favoreçam a continuidade dos processos de aprendizagem e desenvolvimento.
A BNCC apresenta uma orientação especialmente importante ao afirmar que a transição deve equilibrar mudanças, continuidade e acolhimento, construindo a nova etapa com base naquilo que a criança já sabe e é capaz de fazer.
Nesse sentido, o ingresso no 1º ano não deve significar o abandono das experiências próprias da infância. A criança pode aprender a ler, escrever, contar, resolver problemas e desenvolver novos conhecimentos sem perder o direito de brincar, imaginar, movimentar-se, interagir e expressar seus sentimentos.
Uma escola comprometida com uma transição humanizada reconhece que cada criança possui um ritmo e uma história. Por isso, evita comparações, respeita diferenças, oferece apoio e constrói oportunidades para que todos possam participar.
Mais do que preparar a criança para o Ensino Fundamental, é necessário preparar o Ensino Fundamental para receber a criança.
Essa mudança de perspectiva é essencial.
A transição bem-sucedida não é aquela em que a criança rapidamente abandona os modos de aprender da Educação Infantil para assumir comportamentos considerados “mais maduros”. É aquela em que a criança consegue avançar para novas formas de aprendizagem sem perder a segurança, a curiosidade, a criatividade e o prazer de aprender.
Portanto, a passagem para o 1º ano deve ser entendida como uma ponte. Uma ponte que conecta experiências anteriores a novas descobertas, permitindo que a criança avance sem que sua história seja interrompida.
Construir essa ponte é responsabilidade de toda a comunidade escolar.
REFERÊNCIAS
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