A questão das crenças  em O Sétimo Juramento: Entre o  Cristianismo e a Tradição Moçambicana

                                                                                   Merciana Alberto Uamba                                                                                                                  

1. Contextualização 

A religião tem, desde tempos remotos, suscitado vários debates e até guerras. Actualmente, ela tem sido ainda mais debatida devido ao surgimento desordenado de igrejas, aos problemas sociais, bem como a crise de identidade causada pela globalização.

Conforme o Dicionário de Língua Portuguesa, Religião é a crença na existência de um poder sobrenatural e superior. Podendo ser entendida, também, como um conjunto de preceitos, práticas e rituais pelos quais manifesta-se a crença.

 

   1.1.A religiosidade africana

A religião tradicional africana esteve sempre ligada à cultura africana. Segundo Opuku (2011), ela estava baseada em uma visão particular do mundo, abrangendo a percepção do sobrenatural, bem como a compreensão da natureza dos seres humanos e do seu lugar no mundo e, sobretudo, a compreensão da natureza de Deus.

Nesta religião africana, Deus é essencialmente espírito, Deus não possui imagens nem representações físicas. Deus era o criador e o pilar do mundo. O poder, a justiça, a benevolência e a eternidade eram atributos dele e, como fonte de todo o poder, governava a vida e a morte. Deus recompensava os homens, mas também castigava quando agissem mal. Nestas concepções, em volta da entidade sobrenatural, era Deus que  permitia a convivência harmoniosa no seio das sociedades. Opuku (2011) diz ainda que apesar de Deus ser autoridade, um ser superior a todos os seres humanos é, ao mesmo tempo, uma entidade envolvida nos negócios dos homens, controlando sempre a ordem moral.

Havia uma hierarquia no sistema de crença tradicional africano, onde abaixo de Deus estavam os espíritos dos ancestrais. Estes eram tratados com reverência e temor. Depois vinham os outros deuses, com poder de recompensar ou castigar  os  humanos através da má sorte, doenças e até a morte. As divindades tinham seus altares, bem como seus sacerdotes. Além das entidades sobrenaturais, havia outros espíritos ou poderes místicos, conhecidos pela capacidade de ajudar ou prejudicar os seres humanos. Pertenciam a essa esfera, todos os agentes da feitiçaria, da magia e da bruxaria.

A vida era concebida como um ciclo de nascimento, casamento, procriação, morte e vida pós-morte. A religião tradicional africana não era apenas omnipresente, mas também unia os homens aos poderes invisíveis, ajudando-os a estabelecer relações justas com os seus antepassados. A religião dava solidez, estabilidade e coesão às sociedades humanas, bem como subsídios para se libertar de dúvidas, angústias e sentimentos. (Domingos, 2011)

Na perspectiva de Paradisco (2015), no mundo religioso africano, os homens tornam-se deuses e vice-versa. Os objectos são vivos, os humanos  viram animais e as fontes que contêm todas estas concepções estão nos mais variados mitos, contos, lendas, rezas e oraturas das populações negras africanas. Por isso, para se entender a cultura africana, no geral, e a moçambicana, em particular, é necessário que se recorra aos materiais acima citados,este fenómeno ocorre porque o povo africano é de natureza oral e não de tradição escrita.

    1.3. O Cristianismo em África 

No que diz respeito ao Cristianismo, a imposição do domínio colonial em África, a partir de 1885, introduziu a difusão da influência europeia até o âmago do continente, enquanto antes ela concentrava-se ao longo da costa. Toda a intervenção europeia, durante o período colonial, fundamenta-se no postulado de que para a implantação do progresso, era preciso transformar ou mesmo destruir a cultura africana. Estas tentativas de transformar o africano, podem ser vistas na literatura produzida pelos primeiros assimilados. A cultura africana estava intimamente ligada à religião, é fácil perceber que a política colonial europeia podia chocar-se violentamente com os princípios da religiosidade africana  que constituam bases desta sociedade. (Opuku, 2010)   

Os aspectos acima foram visíveis em Moçambique. Portugal, ao colonizar efectivamente os seus territórios, o contacto entre as duas culturas era inevitável. Uma das estratégias, citada por Manusse (1988), era a Educação, foi a política de assimilação que funcionou como um suporte ideológico para a transmissão de cultura e de civilização aos povos colonizados. A assimilação seria a forma pela qual se transformaria o colonizado num português, levando-o a abandonar os seus valores culturais de origem.

 

Desde o início, a religião tradicional viu-se submetida ao desafio da sobrevivência e da necessidade de se fortalecer. Ainda no período de cristianizar os africanos, havia ainda africanos que rejeitavam a mensagem cristã e mantinham-se fieis às tradições religiosas e culturais de seus antepassados, encontrando nelas mais significado do que nas pregações dos missionários. Os africanos convertidos, muitas vezes, realizavam sacrifícios e práticas destinadas a manter a harmonia ente os seres humanas e as forças espirituais. Era entre estas linhas que se encontravam os chefes religiosos e culturais, assim como curandeiros. Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela preservação dos valores africanos e a eles devem-se os conhecimentos sobre a cultura africana tradicional. 

    1.4. Controversas entre as duas religiões

Com a colonização e a ideologia de civilizar a África, o europeu implantou no nativo africano a ideia de que toda a sua crença era diabólica. O africano, nesta dualidade entre o cristianismo e a religião tradicional africana, entra em constante crise de  identidade. Como refere Opoku (2011), os missionários europeus consideravam um ‘dever divino’ o acto de conduzir os povos africanos ao domínio da graça e da salvação. Imbuídos da convicção de serem donos da única verdade, condenavam tudo que fosse pagão. Pregavam contra todas as formas de práticas tradicionais, negavam a existência dos deuses, dos feiticeiros e de outras entidades sobrenaturais em que os africanos acreditavam. Tornar-se cristão implicava deixar de ser africano e tomar  a cultura europeia como ponto de referência. Os africanos, apesar de apresentarem  um sistema de crença lógico, foram obrigados a abandoná-lo, ou melhor, a renegá-lo.

 Com esta situação de dupla crença, muitos africanos recorrem aos serviços da religião tradicional em privado, provavelmente pelo facto dos membros destas tradições passarem por estigmatização no meio da sociedade aparentemente cristã. Há uma grande ambiguidade no comportamento de certos grupos da sociedade pois, por um lado, recusam seguir as crenças e tradições religiosas locais mas, por outro lado, beneficiam-se, por exemplo, das curas oferecidas pelos especialistas das religiões locais.( Mahumane, 2008)

 

     2. A obra “O Sétimo Juramento” 

Muitos africanos, com base no enquadramento arrolado, vivem situações de dupla crença. O mundo cristão e o tradicional africano coabitam. Há um dissimular ser cristão ao olho de todos e, em contrapartida, uma evocação aos espíritos dos antepassados quando se deparam com problemas. É nesta realidade que, em cerca de 266 páginas, Paulina Chiziane debruça-se no seu livro O Sétimo Juramento.

A historia de África foi, desde os primórdios da colonização, relatada pelo colonizador, o europeu. É nesta senda que alguns escritores do pós-colonial assumiram o papel de neo-historiadores , ou seja, porta-vozes de suas etnias, nações e do próprio continente. Os escritores expressam que nem sempre os olhares e conceitos trazidos pelo estrangeiro colonizador exprimiam a realidade do colonizado. Estes escritores vieram denunciar que desde a colonização, os valores tradicionais africanos foram vilipendeados, demonizados e, lexicalmente, deturpados. 

Segundo Arenas (2011), citado por Paradiso (2015), apesar de quase todos os romancistas africanos estarem inseridos numa tradição do romance “eurocidental”, na vertente forma, um dos elementos constituintes e caracterizadores da estética africana é a ficção histórica e o realismo animista. Neste romance de Chiziane são evidentes estes traços apontados por Arena.

O romance, segundo Aguiar e Silva (2006), é a forma literária que fornece ao autor possibilidades expressivas de difusão e influência ao público leitor. Em O Sétimo Juramento, a autora faz, com mestria, a expressividade mencionada por Aguiar e Silva. Segundo a classificação tipológica do romance apontada por estes escritores, a obra em análise parece enquadrar-se no Romance de acção ou de acontecimento, caracterizado por uma intriga concentrada e fortemente desenhada, com princípio, meio e fim. A sucessão e o encadeamento das situações e dos episódios ocupam o primeiro plano, relegando para o lugar secundário a análise psicológica das personagens e a descrição do espaço. E é deste modo que se desenrola a estória de David e Vera. O drama é datado no período pós-colonial, onde os ditos assimilados, os que renegam a sua cultura, eram a elite e proprietários de grandes fábricas. As greves de operários eram comuns, o tirano branco fora substituído pelo negro. A personagem David era este tirano. David era um homem bem-sucedido, deixara para traz todos os aspectos que o caracterizavam como africano. Era um cristão, assim como toda a sua família. Tal como muitas famílias africanas, David ao ver-se em problemas, a greve dos operários, busca por soluções, eis que as mesmas não são encontradas no Deus cristão, mas sim no mundo africano.

Como explica Mahumane (2008), esta dualidade religiosa, em que alguns africanos encontram-se, obriga a que estes se passem por cristãos aos olhos de todos, mesmo com a crença nos hábitos de seus antepassados. David, com seu desejo insaciável do poder , recorre a curandeiros, passando a ter um altar pessoal para cultos, passa também por diversas cerimónias e tratamentos. Vera, sua esposa, também acaba recorrendo  ao mesmo plano em busca de cura das possessões do filho Clemente e os problemas familiares enfrentados. O aspecto que sobressai nesta obra é que embora o mundo mágico proporcione poderes e riquezas, em caso de desobediências, este mundo pune. Assim, David acaba morrendo por ter desobedecido o grande Makulu Mamba. Outro aspecto curioso é a profissão que um antigo cristão tomou a partir de um chamamento. Refere-se ao Clemente, que se tornou curandeiro seguindo o seu destino. 

    3. A dupla crença entre as personagens

É em torno das reflexões sobre a dupla crença, a tradicional africana e a cristã,  que se fará a análise das atitudes das personagens de O Sétimo Juramento. O que ocorre nesta obra é uma busca interminável por soluções e respostas dos aspectos que o mundo cristão não proporciona. A greve dos operários, a traição por parte dos sócios, a decadência do casamento e a doença do Clemente aparecem como pretexto para a busca da forças do sobrenatural.  Entretanto, não se precisa ser especialista para perceber que é isto que acontece com os que se dizem cristãos, na primeira dificuldade recorrem às forças do além. É o que ocorre com a personagem Vera, a esposa de David. O seu filho encontrava-se possuido por espíritos, Clemente vivia momentos de crise, a sogra da Vera sempre alertava para a possibilidade de ser algo dos antepassados, vinganças e juramentos não cumpridos, mas Vera, sendo cristã, não acreditava:

                “ -Não enche a cabeça do menino com essas fantasias , avó. Não vê que ele está transtornado?

                  -Deixe-me revelar-te alguns segredos da vida, minha Vera.

    - Agora não, avó, estou muito cansada. Fica para outro dia.” (Chiziane,2000:29)

 

O diálogo acima mostra a descrença da personagem Vera no seu próprio mundo. Sendo a Vera africana, não era suposto que ela reconhecesse a sua essência? Esta realidade vai se prolongando nestas sociedades modernas, onde os conhecimentos dos mais velhos são banalizados. É nesta senda que se vai degradando a comunicação entre os mais jovens e os mais velhos. Os jovens chegam a dizer que as ideias dos velhos não passam de fábulas, mitos e cantigas.

As sociedades modernas tendem a ser incomunicáveis e as pessoas afastam-se cada vez mais das suas origens. Se já se assumiu que a cultura africana é essencialmente transmitida de geração em geração. Com estas atitudes não se estará a caminhar para um total desconhecimento do verdadeiro ser africano? 

O outro exemplo é o do David que ao deparar-se com problemas, clama não por Deus, por ser um cristão, mas recorre a outras forças para vencer. Ainda se podia culpar o Lourenço pela  ida de David ao mundo mágico, visto que foi ele que apresentou as vantagens deste outro plano ao David. Mas não seria uma injustiça se assim se pensasse? Afinal, David ao se ver atormentado pela greve dos operários e pela traição dos sócios disse:

“...Nos mortos está a minha esperança. No feitiço está a minha segurança. Preciso resgatar a minha sombra  perdida para me defender da fúria dos operários. Os meus crimes foram descobertos, não tenho protecção na igreja, nem  na lei, nem na sociedade, nem na família. Os brancos foram feitos para o céu, para as nuvens e deuses celestes, mas os negros foram feitos para os defuntos, para as raízes e deuses terrestres. A magia negra é o único caminho que me resta.” ( Chiziane, 2000:74)

Esta passagem não so mostra a vontade própria de David de entrar na magia negra, como também o facto de se recorrer a este mundo sempre que se o cristão julgar-se insuficiente. A magia negra renegada no olhar comum da sociedade, mas  funciona como a única “válvula de escape” quando se buscam soluções. Como refere Mahumane (2008), há um fingimento por parte dos cristãos, isto por temerem represália da sociedade, devido ao estigma que as pessoas que recorrem ao mundo tradicional sofrem. Surge desta realidade uma questão: por que estigmatizar o africano por recorrer às formas africanas de resolver seus conflitos? Não é assim que os europeus também fazem?

As consequência do contacto entre estas duas crenças são evidentes modo conturbado de ver o mundo que as sociedades urbanas apresentam. Neste  caso, tal como o assimilado não era totalmente europeu e nem africano, este último, ao seguir as doutrinas de Cristo, também encontra-se dividido, continuando com o culto aos antepassados.  Tal como nas sociedades actuais, a personagem  David recorre ao mundo religioso africano com intuito de suprir as lacunas do mundo cristão. Veja-se:

“ O cristianismo fala da vida no céu e eu estou a sofrer aqui na terra os tormentos da vida. Há gente que vai ao  curandeiro e resolve os os seus problemas. Também quero tentar.” (Chiziane, 200:184) 

A tradição é o refúgio para as adversidades que o mundo cristão não responde. O que se observa nesta obra de Chiziane é o constante diálogo entre dois mundos. As tentativas de tornar cristão todos os africanos, fazendo com que eles abandonem  por completo as suas tradições, parece cada vez mais distante. Como se ve no livro em análise, apesar de se assumir o mundo cristão, os africanos ainda recorrem às suas crenças originais como forma de suprir as lacA questão das crenças  em O Sétimo Juramento: Entre o  Cristianismo e a Tradição Moçambicana

                                                                                                                                          Merciana Alberto Uamba                                                                                                                         

 

1. Contextualização 

A religião tem, desde tempos remotos, suscitado vários debates e até guerras. Actualmente, ela tem sido ainda mais debatida devido ao surgimento desordenado de igrejas, aos problemas sociais, bem como a crise de identidade causada pela globalização.

Conforme o Dicionário de Língua Portuguesa, Religião é a crença na existência de um poder sobrenatural e superior. Podendo ser entendida, também, como um conjunto de preceitos, práticas e rituais pelos quais manifesta-se a crença.

 

   1.1.A religiosidade africana

A religião tradicional africana esteve sempre ligada à cultura africana. Segundo Opuku (2011), ela estava baseada em uma visão particular do mundo, abrangendo a percepção do sobrenatural, bem como a compreensão da natureza dos seres humanos e do seu lugar no mundo e, sobretudo, a compreensão da natureza de Deus.

Nesta religião africana, Deus é essencialmente espírito, Deus não possui imagens nem representações físicas. Deus era o criador e o pilar do mundo. O poder, a justiça, a benevolência e a eternidade eram atributos dele e, como fonte de todo o poder, governava a vida e a morte. Deus recompensava os homens, mas também castigava quando agissem mal. Nestas concepções, em volta da entidade sobrenatural, era Deus que  permitia a convivência harmoniosa no seio das sociedades. Opuku (2011) diz ainda que apesar de Deus ser autoridade, um ser superior a todos os seres humanos é, ao mesmo tempo, uma entidade envolvida nos negócios dos homens, controlando sempre a ordem moral.

Havia uma hierarquia no sistema de crença tradicional africano, onde abaixo de Deus estavam os espíritos dos ancestrais. Estes eram tratados com reverência e temor. Depois vinham os outros deuses, com poder de recompensar ou castigar  os  humanos através da má sorte, doenças e até a morte. As divindades tinham seus altares, bem como seus sacerdotes. Além das entidades sobrenaturais, havia outros espíritos ou poderes místicos, conhecidos pela capacidade de ajudar ou prejudicar os seres humanos. Pertenciam a essa esfera, todos os agentes da feitiçaria, da magia e da bruxaria.

A vida era concebida como um ciclo de nascimento, casamento, procriação, morte e vida pós-morte. A religião tradicional africana não era apenas omnipresente, mas também unia os homens aos poderes invisíveis, ajudando-os a estabelecer relações justas com os seus antepassados. A religião dava solidez, estabilidade e coesão às sociedades humanas, bem como subsídios para se libertar de dúvidas, angústias e sentimentos. (Domingos, 2011)

Na perspectiva de Paradisco (2015), no mundo religioso africano, os homens tornam-se deuses e vice-versa. Os objectos são vivos, os humanos  viram animais e as fontes que contêm todas estas concepções estão nos mais variados mitos, contos, lendas, rezas e oraturas das populações negras africanas. Por isso, para se entender a cultura africana, no geral, e a moçambicana, em particular, é necessário que se recorra aos materiais acima citados,este fenómeno ocorre porque o povo africano é de natureza oral e não de tradição escrita.

    1.3. O Cristianismo em África 

No que diz respeito ao Cristianismo, a imposição do domínio colonial em África, a partir de 1885, introduziu a difusão da influência europeia até o âmago do continente, enquanto antes ela concentrava-se ao longo da costa. Toda a intervenção europeia, durante o período colonial, fundamenta-se no postulado de que para a implantação do progresso, era preciso transformar ou mesmo destruir a cultura africana. Estas tentativas de transformar o africano, podem ser vistas na literatura produzida pelos primeiros assimilados. A cultura africana estava intimamente ligada à religião, é fácil perceber que a política colonial europeia podia chocar-se violentamente com os princípios da religiosidade africana  que constituam bases desta sociedade. (Opuku, 2010)   

Os aspectos acima foram visíveis em Moçambique. Portugal, ao colonizar efectivamente os seus territórios, o contacto entre as duas culturas era inevitável. Uma das estratégias, citada por Manusse (1988), era a Educação, foi a política de assimilação que funcionou como um suporte ideológico para a transmissão de cultura e de civilização aos povos colonizados. A assimilação seria a forma pela qual se transformaria o colonizado num português, levando-o a abandonar os seus valores culturais de origem.

 

Desde o início, a religião tradicional viu-se submetida ao desafio da sobrevivência e da necessidade de se fortalecer. Ainda no período de cristianizar os africanos, havia ainda africanos que rejeitavam a mensagem cristã e mantinham-se fieis às tradições religiosas e culturais de seus antepassados, encontrando nelas mais significado do que nas pregações dos missionários. Os africanos convertidos, muitas vezes, realizavam sacrifícios e práticas destinadas a manter a harmonia ente os seres humanas e as forças espirituais. Era entre estas linhas que se encontravam os chefes religiosos e culturais, assim como curandeiros. Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela preservação dos valores africanos e a eles devem-se os conhecimentos sobre a cultura africana tradicional. 

    1.4. Controversas entre as duas religiões

Com a colonização e a ideologia de civilizar a África, o europeu implantou no nativo africano a ideia de que toda a sua crença era diabólica. O africano, nesta dualidade entre o cristianismo e a religião tradicional africana, entra em constante crise de  identidade. Como refere Opoku (2011), os missionários europeus consideravam um ‘dever divino’ o acto de conduzir os povos africanos ao domínio da graça e da salvação. Imbuídos da convicção de serem donos da única verdade, condenavam tudo que fosse pagão. Pregavam contra todas as formas de práticas tradicionais, negavam a existência dos deuses, dos feiticeiros e de outras entidades sobrenaturais em que os africanos acreditavam. Tornar-se cristão implicava deixar de ser africano e tomar  a cultura europeia como ponto de referência. Os africanos, apesar de apresentarem  um sistema de crença lógico, foram obrigados a abandoná-lo, ou melhor, a renegá-lo.

 Com esta situação de dupla crença, muitos africanos recorrem aos serviços da religião tradicional em privado, provavelmente pelo facto dos membros destas tradições passarem por estigmatização no meio da sociedade aparentemente cristã. Há uma grande ambiguidade no comportamento de certos grupos da sociedade pois, por um lado, recusam seguir as crenças e tradições religiosas locais mas, por outro lado, beneficiam-se, por exemplo, das curas oferecidas pelos especialistas das religiões locais.( Mahumane, 2008)

 

     2. A obra “O Sétimo Juramento” 

Muitos africanos, com base no enquadramento arrolado, vivem situações de dupla crença. O mundo cristão e o tradicional africano coabitam. Há um dissimular ser cristão ao olho de todos e, em contrapartida, uma evocação aos espíritos dos antepassados quando se deparam com problemas. É nesta realidade que, em cerca de 266 páginas, Paulina Chiziane debruça-se no seu livro O Sétimo Juramento.

A historia de África foi, desde os primórdios da colonização, relatada pelo colonizador, o europeu. É nesta senda que alguns escritores do pós-colonial assumiram o papel de neo-historiadores , ou seja, porta-vozes de suas etnias, nações e do próprio continente. Os escritores expressam que nem sempre os olhares e conceitos trazidos pelo estrangeiro colonizador exprimiam a realidade do colonizado. Estes escritores vieram denunciar que desde a colonização, os valores tradicionais africanos foram vilipendeados, demonizados e, lexicalmente, deturpados. 

Segundo Arenas (2011), citado por Paradiso (2015), apesar de quase todos os romancistas africanos estarem inseridos numa tradição do romance “eurocidental”, na vertente forma, um dos elementos constituintes e caracterizadores da estética africana é a ficção histórica e o realismo animista. Neste romance de Chiziane são evidentes estes traços apontados por Arena.

O romance, segundo Aguiar e Silva (2006), é a forma literária que fornece ao autor possibilidades expressivas de difusão e influência ao público leitor. Em O Sétimo Juramento, a autora faz, com mestria, a expressividade mencionada por Aguiar e Silva. Segundo a classificação tipológica do romance apontada por estes escritores, a obra em análise parece enquadrar-se no Romance de acção ou de acontecimento, caracterizado por uma intriga concentrada e fortemente desenhada, com princípio, meio e fim. A sucessão e o encadeamento das situações e dos episódios ocupam o primeiro plano, relegando para o lugar secundário a análise psicológica das personagens e a descrição do espaço. E é deste modo que se desenrola a estória de David e Vera. O drama é datado no período pós-colonial, onde os ditos assimilados, os que renegam a sua cultura, eram a elite e proprietários de grandes fábricas. As greves de operários eram comuns, o tirano branco fora substituído pelo negro. A personagem David era este tirano. David era um homem bem-sucedido, deixara para traz todos os aspectos que o caracterizavam como africano. Era um cristão, assim como toda a sua família. Tal como muitas famílias africanas, David ao ver-se em problemas, a greve dos operários, busca por soluções, eis que as mesmas não são encontradas no Deus cristão, mas sim no mundo africano.

Como explica Mahumane (2008), esta dualidade religiosa, em que alguns africanos encontram-se, obriga a que estes se passem por cristãos aos olhos de todos, mesmo com a crença nos hábitos de seus antepassados. David, com seu desejo insaciável do poder , recorre a curandeiros, passando a ter um altar pessoal para cultos, passa também por diversas cerimónias e tratamentos. Vera, sua esposa, também acaba recorrendo  ao mesmo plano em busca de cura das possessões do filho Clemente e os problemas familiares enfrentados. O aspecto que sobressai nesta obra é que embora o mundo mágico proporcione poderes e riquezas, em caso de desobediências, este mundo pune. Assim, David acaba morrendo por ter desobedecido o grande Makulu Mamba. Outro aspecto curioso é a profissão que um antigo cristão tomou a partir de um chamamento. Refere-se ao Clemente, que se tornou curandeiro seguindo o seu destino. 

    3. A dupla crença entre as personagens

É em torno das reflexões sobre a dupla crença, a tradicional africana e a cristã,  que se fará a análise das atitudes das personagens de O Sétimo Juramento. O que ocorre nesta obra é uma busca interminável por soluções e respostas dos aspectos que o mundo cristão não proporciona. A greve dos operários, a traição por parte dos sócios, a decadência do casamento e a doença do Clemente aparecem como pretexto para a busca da forças do sobrenatural.  Entretanto, não se precisa ser especialista para perceber que é isto que acontece com os que se dizem cristãos, na primeira dificuldade recorrem às forças do além. É o que ocorre com a personagem Vera, a esposa de David. O seu filho encontrava-se possuido por espíritos, Clemente vivia momentos de crise, a sogra da Vera sempre alertava para a possibilidade de ser algo dos antepassados, vinganças e juramentos não cumpridos, mas Vera, sendo cristã, não acreditava:

                “ -Não enche a cabeça do menino com essas fantasias , avó. Não vê que ele está transtornado?

                  -Deixe-me revelar-te alguns segredos da vida, minha Vera.

    - Agora não, avó, estou muito cansada. Fica para outro dia.” (Chiziane,2000:29)

 

O diálogo acima mostra a descrença da personagem Vera no seu próprio mundo. Sendo a Vera africana, não era suposto que ela reconhecesse a sua essência? Esta realidade vai se prolongando nestas sociedades modernas, onde os conhecimentos dos mais velhos são banalizados. É nesta senda que se vai degradando a comunicação entre os mais jovens e os mais velhos. Os jovens chegam a dizer que as ideias dos velhos não passam de fábulas, mitos e cantigas.

As sociedades modernas tendem a ser incomunicáveis e as pessoas afastam-se cada vez mais das suas origens. Se já se assumiu que a cultura africana é essencialmente transmitida de geração em geração. Com estas atitudes não se estará a caminhar para um total desconhecimento do verdadeiro ser africano? 

O outro exemplo é o do David que ao deparar-se com problemas, clama não por Deus, por ser um cristão, mas recorre a outras forças para vencer. Ainda se podia culpar o Lourenço pela  ida de David ao mundo mágico, visto que foi ele que apresentou as vantagens deste outro plano ao David. Mas não seria uma injustiça se assim se pensasse? Afinal, David ao se ver atormentado pela greve dos operários e pela traição dos sócios disse:

“...Nos mortos está a minha esperança. No feitiço está a minha segurança. Preciso resgatar a minha sombra  perdida para me defender da fúria dos operários. Os meus crimes foram descobertos, não tenho protecção na igreja, nem  na lei, nem na sociedade, nem na família. Os brancos foram feitos para o céu, para as nuvens e deuses celestes, mas os negros foram feitos para os defuntos, para as raízes e deuses terrestres. A magia negra é o único caminho que me resta.” ( Chiziane, 2000:74)

Esta passagem não so mostra a vontade própria de David de entrar na magia negra, como também o facto de se recorrer a este mundo sempre que se o cristão julgar-se insuficiente. A magia negra renegada no olhar comum da sociedade, mas  funciona como a única “válvula de escape” quando se buscam soluções. Como refere Mahumane (2008), há um fingimento por parte dos cristãos, isto por temerem represália da sociedade, devido ao estigma que as pessoas que recorrem ao mundo tradicional sofrem. Surge desta realidade uma questão: por que estigmatizar o africano por recorrer às formas africanas de resolver seus conflitos? Não é assim que os europeus também fazem?

As consequência do contacto entre estas duas crenças são evidentes modo conturbado de ver o mundo que as sociedades urbanas apresentam. Neste  caso, tal como o assimilado não era totalmente europeu e nem africano, este último, ao seguir as doutrinas de Cristo, também encontra-se dividido, continuando com o culto aos antepassados.  Tal como nas sociedades actuais, a personagem  David recorre ao mundo religioso africano com intuito de suprir as lacunas do mundo cristão. Veja-se:

“ O cristianismo fala da vida no céu e eu estou a sofrer aqui na terra os tormentos da vida. Há gente que vai ao  curandeiro e resolve os os seus problemas. Também quero tentar.” (Chiziane, 200:184) 

A tradição é o refúgio para as adversidades que o mundo cristão não responde. O que se observa nesta obra de Chiziane é o constante diálogo entre dois mundos. As tentativas de tornar cristão todos os africanos, fazendo com que eles abandonem  por completo as suas tradições, parece cada vez mais distante. Como se ve no livro em análise, apesar de se assumir o mundo cristão, os africanos ainda recorrem às suas crenças originais como forma de suprir as lacA questão das crenças  em O Sétimo Juramento: Entre o  Cristianismo e a Tradição Moçambicana

                                                                                                                                          Merciana Alberto Uamba                                                                                                                         

 

1. Contextualização 

A religião tem, desde tempos remotos, suscitado vários debates e até guerras. Actualmente, ela tem sido ainda mais debatida devido ao surgimento desordenado de igrejas, aos problemas sociais, bem como a crise de identidade causada pela globalização.

Conforme o Dicionário de Língua Portuguesa, Religião é a crença na existência de um poder sobrenatural e superior. Podendo ser entendida, também, como um conjunto de preceitos, práticas e rituais pelos quais manifesta-se a crença. 

 

   1.1.A religiosidade africana

A religião tradicional africana esteve sempre ligada à cultura africana. Segundo Opuku (2011), ela estava baseada em uma visão particular do mundo, abrangendo a percepção do sobrenatural, bem como a compreensão da natureza dos seres humanos e do seu lugar no mundo e, sobretudo, a compreensão da natureza de Deus.

Nesta religião africana, Deus é essencialmente espírito, Deus não possui imagens nem representações físicas. Deus era o criador e o pilar do mundo. O poder, a justiça, a benevolência e a eternidade eram atributos dele e, como fonte de todo o poder, governava a vida e a morte. Deus recompensava os homens, mas também castigava quando agissem mal. Nestas concepções, em volta da entidade sobrenatural, era Deus que  permitia a convivência harmoniosa no seio das sociedades. Opuku (2011) diz ainda que apesar de Deus ser autoridade, um ser superior a todos os seres humanos é, ao mesmo tempo, uma entidade envolvida nos negócios dos homens, controlando sempre a ordem moral.

Havia uma hierarquia no sistema de crença tradicional africano, onde abaixo de Deus estavam os espíritos dos ancestrais. Estes eram tratados com reverência e temor. Depois vinham os outros deuses, com poder de recompensar ou castigar  os  humanos através da má sorte, doenças e até a morte. As divindades tinham seus altares, bem como seus sacerdotes. Além das entidades sobrenaturais, havia outros espíritos ou poderes místicos, conhecidos pela capacidade de ajudar ou prejudicar os seres humanos. Pertenciam a essa esfera, todos os agentes da feitiçaria, da magia e da bruxaria.

A vida era concebida como um ciclo de nascimento, casamento, procriação, morte e vida pós-morte. A religião tradicional africana não era apenas omnipresente, mas também unia os homens aos poderes invisíveis, ajudando-os a estabelecer relações justas com os seus antepassados. A religião dava solidez, estabilidade e coesão às sociedades humanas, bem como subsídios para se libertar de dúvidas, angústias e sentimentos. (Domingos, 2011)

Na perspectiva de Paradisco (2015), no mundo religioso africano, os homens tornam-se deuses e vice-versa. Os objectos são vivos, os humanos  viram animais e as fontes que contêm todas estas concepções estão nos mais variados mitos, contos, lendas, rezas e oraturas das populações negras africanas. Por isso, para se entender a cultura africana, no geral, e a moçambicana, em particular, é necessário que se recorra aos materiais acima citados,este fenómeno ocorre porque o povo africano é de natureza oral e não de tradição escrita.

    1.3. O Cristianismo em África 

No que diz respeito ao Cristianismo, a imposição do domínio colonial em África, a partir de 1885, introduziu a difusão da influência europeia até o âmago do continente, enquanto antes ela concentrava-se ao longo da costa. Toda a intervenção europeia, durante o período colonial, fundamenta-se no postulado de que para a implantação do progresso, era preciso transformar ou mesmo destruir a cultura africana. Estas tentativas de transformar o africano, podem ser vistas na literatura produzida pelos primeiros assimilados. A cultura africana estava intimamente ligada à religião, é fácil perceber que a política colonial europeia podia chocar-se violentamente com os princípios da religiosidade africana  que constituam bases desta sociedade. (Opuku, 2010)   

Os aspectos acima foram visíveis em Moçambique. Portugal, ao colonizar efectivamente os seus territórios, o contacto entre as duas culturas era inevitável. Uma das estratégias, citada por Manusse (1988), era a Educação, foi a política de assimilação que funcionou como um suporte ideológico para a transmissão de cultura e de civilização aos povos colonizados. A assimilação seria a forma pela qual se transformaria o colonizado num português, levando-o a abandonar os seus valores culturais de origem.

 

Desde o início, a religião tradicional viu-se submetida ao desafio da sobrevivência e da necessidade de se fortalecer. Ainda no período de cristianizar os africanos, havia ainda africanos que rejeitavam a mensagem cristã e mantinham-se fieis às tradições religiosas e culturais de seus antepassados, encontrando nelas mais significado do que nas pregações dos missionários. Os africanos convertidos, muitas vezes, realizavam sacrifícios e práticas destinadas a manter a harmonia ente os seres humanas e as forças espirituais. Era entre estas linhas que se encontravam os chefes religiosos e culturais, assim como curandeiros. Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela preservação dos valores africanos e a eles devem-se os conhecimentos sobre a cultura africana tradicional.

    1.4. Controversas entre as duas religiões

Com a colonização e a ideologia de civilizar a África, o europeu implantou no nativo africano a ideia de que toda a sua crença era diabólica. O africano, nesta dualidade entre o cristianismo e a religião tradicional africana, entra em constante crise de  identidade. Como refere Opoku (2011), os missionários europeus consideravam um ‘dever divino’ o acto de conduzir os povos africanos ao domínio da graça e da salvação. Imbuídos da convicção de serem donos da única verdade, condenavam tudo que fosse pagão. Pregavam contra todas as formas de práticas tradicionais, negavam a existência dos deuses, dos feiticeiros e de outras entidades sobrenaturais em que os africanos acreditavam. Tornar-se cristão implicava deixar de ser africano e tomar  a cultura europeia como ponto de referência. Os africanos, apesar de apresentarem  um sistema de crença lógico, foram obrigados a abandoná-lo, ou melhor, a renegá-lo.

 Com esta situação de dupla crença, muitos africanos recorrem aos serviços da religião tradicional em privado, provavelmente pelo facto dos membros destas tradições passarem por estigmatização no meio da sociedade aparentemente cristã. Há uma grande ambiguidade no comportamento de certos grupos da sociedade pois, por um lado, recusam seguir as crenças e tradições religiosas locais mas, por outro lado, beneficiam-se, por exemplo, das curas oferecidas pelos especialistas das religiões locais.( Mahumane, 2008)

 

     2. A obra “O Sétimo Juramento” 

Muitos africanos, com base no enquadramento arrolado, vivem situações de dupla crença. O mundo cristão e o tradicional africano coabitam. Há um dissimular ser cristão ao olho de todos e, em contrapartida, uma evocação aos espíritos dos antepassados quando se deparam com problemas. É nesta realidade que, em cerca de 266 páginas, Paulina Chiziane debruça-se no seu livro O Sétimo Juramento.

A historia de África foi, desde os primórdios da colonização, relatada pelo colonizador, o europeu. É nesta senda que alguns escritores do pós-colonial assumiram o papel de neo-historiadores , ou seja, porta-vozes de suas etnias, nações e do próprio continente. Os escritores expressam que nem sempre os olhares e conceitos trazidos pelo estrangeiro colonizador exprimiam a realidade do colonizado. Estes escritores vieram denunciar que desde a colonização, os valores tradicionais africanos foram vilipendeados, demonizados e, lexicalmente, deturpados. 

Segundo Arenas (2011), citado por Paradiso (2015), apesar de quase todos os romancistas africanos estarem inseridos numa tradição do romance “eurocidental”, na vertente forma, um dos elementos constituintes e caracterizadores da estética africana é a ficção histórica e o realismo animista. Neste romance de Chiziane são evidentes estes traços apontados por Arena.

O romance, segundo Aguiar e Silva (2006), é a forma literária que fornece ao autor possibilidades expressivas de difusão e influência ao público leitor. Em O Sétimo Juramento, a autora faz, com mestria, a expressividade mencionada por Aguiar e Silva. Segundo a classificação tipológica do romance apontada por estes escritores, a obra em análise parece enquadrar-se no Romance de acção ou de acontecimento, caracterizado por uma intriga concentrada e fortemente desenhada, com princípio, meio e fim. A sucessão e o encadeamento das situações e dos episódios ocupam o primeiro plano, relegando para o lugar secundário a análise psicológica das personagens e a descrição do espaço. E é deste modo que se desenrola a estória de David e Vera. O drama é datado no período pós-colonial, onde os ditos assimilados, os que renegam a sua cultura, eram a elite e proprietários de grandes fábricas. As greves de operários eram comuns, o tirano branco fora substituído pelo negro. A personagem David era este tirano. David era um homem bem-sucedido, deixara para traz todos os aspectos que o caracterizavam como africano. Era um cristão, assim como toda a sua família. Tal como muitas famílias africanas, David ao ver-se em problemas, a greve dos operários, busca por soluções, eis que as mesmas não são encontradas no Deus cristão, mas sim no mundo africano.

Como explica Mahumane (2008), esta dualidade religiosa, em que alguns africanos encontram-se, obriga a que estes se passem por cristãos aos olhos de todos, mesmo com a crença nos hábitos de seus antepassados. David, com seu desejo insaciável do poder , recorre a curandeiros, passando a ter um altar pessoal para cultos, passa também por diversas cerimónias e tratamentos. Vera, sua esposa, também acaba recorrendo  ao mesmo plano em busca de cura das possessões do filho Clemente e os problemas familiares enfrentados. O aspecto que sobressai nesta obra é que embora o mundo mágico proporcione poderes e riquezas, em caso de desobediências, este mundo pune. Assim, David acaba morrendo por ter desobedecido o grande Makulu Mamba. Outro aspecto curioso é a profissão que um antigo cristão tomou a partir de um chamamento. Refere-se ao Clemente, que se tornou curandeiro seguindo o seu destino. 

    3. A dupla crença entre as personagens

É em torno das reflexões sobre a dupla crença, a tradicional africana e a cristã,  que se fará a análise das atitudes das personagens de O Sétimo Juramento. O que ocorre nesta obra é uma busca interminável por soluções e respostas dos aspectos que o mundo cristão não proporciona. A greve dos operários, a traição por parte dos sócios, a decadência do casamento e a doença do Clemente aparecem como pretexto para a busca da forças do sobrenatural.  Entretanto, não se precisa ser especialista para perceber que é isto que acontece com os que se dizem cristãos, na primeira dificuldade recorrem às forças do além. É o que ocorre com a personagem Vera, a esposa de David. O seu filho encontrava-se possuido por espíritos, Clemente vivia momentos de crise, a sogra da Vera sempre alertava para a possibilidade de ser algo dos antepassados, vinganças e juramentos não cumpridos, mas Vera, sendo cristã, não acreditava:

                “ -Não enche a cabeça do menino com essas fantasias , avó. Não vê que ele está transtornado?

                  -Deixe-me revelar-te alguns segredos da vida, minha Vera.

    - Agora não, avó, estou muito cansada. Fica para outro dia.” (Chiziane,2000:29)

 

O diálogo acima mostra a descrença da personagem Vera no seu próprio mundo. Sendo a Vera africana, não era suposto que ela reconhecesse a sua essência? Esta realidade vai se prolongando nestas sociedades modernas, onde os conhecimentos dos mais velhos são banalizados. É nesta senda que se vai degradando a comunicação entre os mais jovens e os mais velhos. Os jovens chegam a dizer que as ideias dos velhos não passam de fábulas, mitos e cantigas.

As sociedades modernas tendem a ser incomunicáveis e as pessoas afastam-se cada vez mais das suas origens. Se já se assumiu que a cultura africana é essencialmente transmitida de geração em geração. Com estas atitudes não se estará a caminhar para um total desconhecimento do verdadeiro ser africano? 

O outro exemplo é o do David que ao deparar-se com problemas, clama não por Deus, por ser um cristão, mas recorre a outras forças para vencer. Ainda se podia culpar o Lourenço pela  ida de David ao mundo mágico, visto que foi ele que apresentou as vantagens deste outro plano ao David. Mas não seria uma injustiça se assim se pensasse? Afinal, David ao se ver atormentado pela greve dos operários e pela traição dos sócios disse:

“...Nos mortos está a minha esperança. No feitiço está a minha segurança. Preciso resgatar a minha sombra  perdida para me defender da fúria dos operários. Os meus crimes foram descobertos, não tenho protecção na igreja, nem  na lei, nem na sociedade, nem na família. Os brancos foram feitos para o céu, para as nuvens e deuses celestes, mas os negros foram feitos para os defuntos, para as raízes e deuses terrestres. A magia negra é o único caminho que me resta.” ( Chiziane, 2000:74)

Esta passagem não so mostra a vontade própria de David de entrar na magia negra, como também o facto de se recorrer a este mundo sempre que se o cristão julgar-se insuficiente. A magia negra renegada no olhar comum da sociedade, mas  funciona como a única “válvula de escape” quando se buscam soluções. Como refere Mahumane (2008), há um fingimento por parte dos cristãos, isto por temerem represália da sociedade, devido ao estigma que as pessoas que recorrem ao mundo tradicional sofrem. Surge desta realidade uma questão: por que estigmatizar o africano por recorrer às formas africanas de resolver seus conflitos? Não é assim que os europeus também fazem?

As consequência do contacto entre estas duas crenças são evidentes modo conturbado de ver o mundo que as sociedades urbanas apresentam. Neste  caso, tal como o assimilado não era totalmente europeu e nem africano, este último, ao seguir as doutrinas de Cristo, também encontra-se dividido, continuando com o culto aos antepassados.  Tal como nas sociedades actuais, a personagem  David recorre ao mundo religioso africano com intuito de suprir as lacunas do mundo cristão. Veja-se:

“ O cristianismo fala da vida no céu e eu estou a sofrer aqui na terra os tormentos da vida. Há gente que vai ao  curandeiro e resolve os os seus problemas. Também quero tentar.” (Chiziane, 200:184) 

A tradição é o refúgio para as adversidades que o mundo cristão não responde. O que se observa nesta obra de Chiziane é o constante diálogo entre dois mundos. As tentativas de tornar cristão todos os africanos, fazendo com que eles abandonem  por completo as suas tradições, parece cada vez mais distante. Como se ve no livro em análise, apesar de se assumir o mundo cristão, os africanos ainda recorrem às suas crenças originais como forma de suprir as lacA questão das crenças  em O Sétimo Juramento: Entre o  Cristianismo e a Tradição Moçambicana

                                                                                                                                          Merciana Alberto Uamba                                                                                                                         

 

1. Contextualização 

A religião tem, desde tempos remotos, suscitado vários debates e até guerras. Actualmente, ela tem sido ainda mais debatida devido ao surgimento desordenado de igrejas, aos problemas sociais, bem como a crise de identidade causada pela globalização.

Conforme o Dicionário de Língua Portuguesa, Religião é a crença na existência de um poder sobrenatural e superior. Podendo ser entendida, também, como um conjunto de preceitos, práticas e rituais pelos quais manifesta-se a crença. 

 

   1.1.A religiosidade africana

A religião tradicional africana esteve sempre ligada à cultura africana. Segundo Opuku (2011), ela estava baseada em uma visão particular do mundo, abrangendo a percepção do sobrenatural, bem como a compreensão da natureza dos seres humanos e do seu lugar no mundo e, sobretudo, a compreensão da natureza de Deus.

Nesta religião africana, Deus é essencialmente espírito, Deus não possui imagens nem representações físicas. Deus era o criador e o pilar do mundo. O poder, a justiça, a benevolência e a eternidade eram atributos dele e, como fonte de todo o poder, governava a vida e a morte. Deus recompensava os homens, mas também castigava quando agissem mal. Nestas concepções, em volta da entidade sobrenatural, era Deus que  permitia a convivência harmoniosa no seio das sociedades. Opuku (2011) diz ainda que apesar de Deus ser autoridade, um ser superior a todos os seres humanos é, ao mesmo tempo, uma entidade envolvida nos negócios dos homens, controlando sempre a ordem moral.

Havia uma hierarquia no sistema de crença tradicional africano, onde abaixo de Deus estavam os espíritos dos ancestrais. Estes eram tratados com reverência e temor. Depois vinham os outros deuses, com poder de recompensar ou castigar  os  humanos através da má sorte, doenças e até a morte. As divindades tinham seus altares, bem como seus sacerdotes. Além das entidades sobrenaturais, havia outros espíritos ou poderes místicos, conhecidos pela capacidade de ajudar ou prejudicar os seres humanos. Pertenciam a essa esfera, todos os agentes da feitiçaria, da magia e da bruxaria.

A vida era concebida como um ciclo de nascimento, casamento, procriação, morte e vida pós-morte. A religião tradicional africana não era apenas omnipresente, mas também unia os homens aos poderes invisíveis, ajudando-os a estabelecer relações justas com os seus antepassados. A religião dava solidez, estabilidade e coesão às sociedades humanas, bem como subsídios para se libertar de dúvidas, angústias e sentimentos. (Domingos, 2011)

Na perspectiva de Paradisco (2015), no mundo religioso africano, os homens tornam-se deuses e vice-versa. Os objectos são vivos, os humanos  viram animais e as fontes que contêm todas estas concepções estão nos mais variados mitos, contos, lendas, rezas e oraturas das populações negras africanas. Por isso, para se entender a cultura africana, no geral, e a moçambicana, em particular, é necessário que se recorra aos materiais acima citados,este fenómeno ocorre porque o povo africano é de natureza oral e não de tradição escrita.

    1.3. O Cristianismo em África 

No que diz respeito ao Cristianismo, a imposição do domínio colonial em África, a partir de 1885, introduziu a difusão da influência europeia até o âmago do continente, enquanto antes ela concentrava-se ao longo da costa. Toda a intervenção europeia, durante o período colonial, fundamenta-se no postulado de que para a implantação do progresso, era preciso transformar ou mesmo destruir a cultura africana. Estas tentativas de transformar o africano, podem ser vistas na literatura produzida pelos primeiros assimilados. A cultura africana estava intimamente ligada à religião, é fácil perceber que a política colonial europeia podia chocar-se violentamente com os princípios da religiosidade africana  que constituam bases desta sociedade. (Opuku, 2010)   

Os aspectos acima foram visíveis em Moçambique. Portugal, ao colonizar efectivamente os seus territórios, o contacto entre as duas culturas era inevitável. Uma das estratégias, citada por Manusse (1988), era a Educação, foi a política de assimilação que funcionou como um suporte ideológico para a transmissão de cultura e de civilização aos povos colonizados. A assimilação seria a forma pela qual se transformaria o colonizado num português, levando-o a abandonar os seus valores culturais de origem.

 

Desde o início, a religião tradicional viu-se submetida ao desafio da sobrevivência e da necessidade de se fortalecer. Ainda no período de cristianizar os africanos, havia ainda africanos que rejeitavam a mensagem cristã e mantinham-se fieis às tradições religiosas e culturais de seus antepassados, encontrando nelas mais significado do que nas pregações dos missionários. Os africanos convertidos, muitas vezes, realizavam sacrifícios e práticas destinadas a manter a harmonia ente os seres humanas e as forças espirituais. Era entre estas linhas que se encontravam os chefes religiosos e culturais, assim como curandeiros. Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela preservação dos valores africanos e a eles devem-se os conhecimentos sobre a cultura africana tradicional. 

    1.4. Controversas entre as duas religiões

Com a colonização e a ideologia de civilizar a África, o europeu implantou no nativo africano a ideia de que toda a sua crença era diabólica. O africano, nesta dualidade entre o cristianismo e a religião tradicional africana, entra em constante crise de  identidade. Como refere Opoku (2011), os missionários europeus consideravam um ‘dever divino’ o acto de conduzir os povos africanos ao domínio da graça e da salvação. Imbuídos da convicção de serem donos da única verdade, condenavam tudo que fosse pagão. Pregavam contra todas as formas de práticas tradicionais, negavam a existência dos deuses, dos feiticeiros e de outras entidades sobrenaturais em que os africanos acreditavam. Tornar-se cristão implicava deixar de ser africano e tomar  a cultura europeia como ponto de referência. Os africanos, apesar de apresentarem  um sistema de crença lógico, foram obrigados a abandoná-lo, ou melhor, a renegá-lo.

 Com esta situação de dupla crença, muitos africanos recorrem aos serviços da religião tradicional em privado, provavelmente pelo facto dos membros destas tradições passarem por estigmatização no meio da sociedade aparentemente cristã. Há uma grande ambiguidade no comportamento de certos grupos da sociedade pois, por um lado, recusam seguir as crenças e tradições religiosas locais mas, por outro lado, beneficiam-se, por exemplo, das curas oferecidas pelos especialistas das religiões locais.( Mahumane, 2008)

 

     2. A obra “O Sétimo Juramento” 

Muitos africanos, com base no enquadramento arrolado, vivem situações de dupla crença. O mundo cristão e o tradicional africano coabitam. Há um dissimular ser cristão ao olho de todos e, em contrapartida, uma evocação aos espíritos dos antepassados quando se deparam com problemas. É nesta realidade que, em cerca de 266 páginas, Paulina Chiziane debruça-se no seu livro O Sétimo Juramento.

A historia de África foi, desde os primórdios da colonização, relatada pelo colonizador, o europeu. É nesta senda que alguns escritores do pós-colonial assumiram o papel de neo-historiadores , ou seja, porta-vozes de suas etnias, nações e do próprio continente. Os escritores expressam que nem sempre os olhares e conceitos trazidos pelo estrangeiro colonizador exprimiam a realidade do colonizado. Estes escritores vieram denunciar que desde a colonização, os valores tradicionais africanos foram vilipendeados, demonizados e, lexicalmente, deturpados. 

Segundo Arenas (2011), citado por Paradiso (2015), apesar de quase todos os romancistas africanos estarem inseridos numa tradição do romance “eurocidental”, na vertente forma, um dos elementos constituintes e caracterizadores da estética africana é a ficção histórica e o realismo animista. Neste romance de Chiziane são evidentes estes traços apontados por Arena.

O romance, segundo Aguiar e Silva (2006), é a forma literária que fornece ao autor possibilidades expressivas de difusão e influência ao público leitor. Em O Sétimo Juramento, a autora faz, com mestria, a expressividade mencionada por Aguiar e Silva. Segundo a classificação tipológica do romance apontada por estes escritores, a obra em análise parece enquadrar-se no Romance de acção ou de acontecimento, caracterizado por uma intriga concentrada e fortemente desenhada, com princípio, meio e fim. A sucessão e o encadeamento das situações e dos episódios ocupam o primeiro plano, relegando para o lugar secundário a análise psicológica das personagens e a descrição do espaço. E é deste modo que se desenrola a estória de David e Vera. O drama é datado no período pós-colonial, onde os ditos assimilados, os que renegam a sua cultura, eram a elite e proprietários de grandes fábricas. As greves de operários eram comuns, o tirano branco fora substituído pelo negro. A personagem David era este tirano. David era um homem bem-sucedido, deixara para traz todos os aspectos que o caracterizavam como africano. Era um cristão, assim como toda a sua família. Tal como muitas famílias africanas, David ao ver-se em problemas, a greve dos operários, busca por soluções, eis que as mesmas não são encontradas no Deus cristão, mas sim no mundo africano.

Como explica Mahumane (2008), esta dualidade religiosa, em que alguns africanos encontram-se, obriga a que estes se passem por cristãos aos olhos de todos, mesmo com a crença nos hábitos de seus antepassados. David, com seu desejo insaciável do poder , recorre a curandeiros, passando a ter um altar pessoal para cultos, passa também por diversas cerimónias e tratamentos. Vera, sua esposa, também acaba recorrendo  ao mesmo plano em busca de cura das possessões do filho Clemente e os problemas familiares enfrentados. O aspecto que sobressai nesta obra é que embora o mundo mágico proporcione poderes e riquezas, em caso de desobediências, este mundo pune. Assim, David acaba morrendo por ter desobedecido o grande Makulu Mamba. Outro aspecto curioso é a profissão que um antigo cristão tomou a partir de um chamamento. Refere-se ao Clemente, que se tornou curandeiro seguindo o seu destino. 

    3. A dupla crença entre as personagens

É em torno das reflexões sobre a dupla crença, a tradicional africana e a cristã,  que se fará a análise das atitudes das personagens de O Sétimo Juramento. O que ocorre nesta obra é uma busca interminável por soluções e respostas dos aspectos que o mundo cristão não proporciona. A greve dos operários, a traição por parte dos sócios, a decadência do casamento e a doença do Clemente aparecem como pretexto para a busca da forças do sobrenatural.  Entretanto, não se precisa ser especialista para perceber que é isto que acontece com os que se dizem cristãos, na primeira dificuldade recorrem às forças do além. É o que ocorre com a personagem Vera, a esposa de David. O seu filho encontrava-se possuido por espíritos, Clemente vivia momentos de crise, a sogra da Vera sempre alertava para a possibilidade de ser algo dos antepassados, vinganças e juramentos não cumpridos, mas Vera, sendo cristã, não acreditava:

                “ -Não enche a cabeça do menino com essas fantasias , avó. Não vê que ele está transtornado?

                  -Deixe-me revelar-te alguns segredos da vida, minha Vera.

    - Agora não, avó, estou muito cansada. Fica para outro dia.” (Chiziane,2000:29)

 

O diálogo acima mostra a descrença da personagem Vera no seu próprio mundo. Sendo a Vera africana, não era suposto que ela reconhecesse a sua essência? Esta realidade vai se prolongando nestas sociedades modernas, onde os conhecimentos dos mais velhos são banalizados. É nesta senda que se vai degradando a comunicação entre os mais jovens e os mais velhos. Os jovens chegam a dizer que as ideias dos velhos não passam de fábulas, mitos e cantigas.

As sociedades modernas tendem a ser incomunicáveis e as pessoas afastam-se cada vez mais das suas origens. Se já se assumiu que a cultura africana é essencialmente transmitida de geração em geração. Com estas atitudes não se estará a caminhar para um total desconhecimento do verdadeiro ser africano? 

O outro exemplo é o do David que ao deparar-se com problemas, clama não por Deus, por ser um cristão, mas recorre a outras forças para vencer. Ainda se podia culpar o Lourenço pela  ida de David ao mundo mágico, visto que foi ele que apresentou as vantagens deste outro plano ao David. Mas não seria uma injustiça se assim se pensasse? Afinal, David ao se ver atormentado pela greve dos operários e pela traição dos sócios disse:

“...Nos mortos está a minha esperança. No feitiço está a minha segurança. Preciso resgatar a minha sombra  perdida para me defender da fúria dos operários. Os meus crimes foram descobertos, não tenho protecção na igreja, nem  na lei, nem na sociedade, nem na família. Os brancos foram feitos para o céu, para as nuvens e deuses celestes, mas os negros foram feitos para os defuntos, para as raízes e deuses terrestres. A magia negra é o único caminho que me resta.” ( Chiziane, 2000:74)

Esta passagem não so mostra a vontade própria de David de entrar na magia negra, como também o facto de se recorrer a este mundo sempre que se o cristão julgar-se insuficiente. A magia negra renegada no olhar comum da sociedade, mas  funciona como a única “válvula de escape” quando se buscam soluções. Como refere Mahumane (2008), há um fingimento por parte dos cristãos, isto por temerem represália da sociedade, devido ao estigma que as pessoas que recorrem ao mundo tradicional sofrem. Surge desta realidade uma questão: por que estigmatizar o africano por recorrer às formas africanas de resolver seus conflitos? Não é assim que os europeus também fazem?

As consequência do contacto entre estas duas crenças são evidentes modo conturbado de ver o mundo que as sociedades urbanas apresentam. Neste  caso, tal como o assimilado não era totalmente europeu e nem africano, este último, ao seguir as doutrinas de Cristo, também encontra-se dividido, continuando com o culto aos antepassados.  Tal como nas sociedades actuais, a personagem  David recorre ao mundo religioso africano com intuito de suprir as lacunas do mundo cristão. Veja-se:

“ O cristianismo fala da vida no céu e eu estou a sofrer aqui na terra os tormentos da vida. Há gente que vai ao  curandeiro e resolve os os seus problemas. Também quero tentar.” (Chiziane, 200:184) 

A tradição é o refúgio para as adversidades que o mundo cristão não responde. O que se observa nesta obra de Chiziane é o constante diálogo entre dois mundos. As tentativas de tornar cristão todos os africanos, fazendo com que eles abandonem  por completo as suas tradições, parece cada vez mais distante. Como se ve no livro em análise, apesar de se assumir o mundo cristão, os africanos ainda recorrem às suas crenças originais como forma de suprir as lacunas deixadas pela nova religião.

 

  4. Considerações Finais

Como foi ilustrado com base em passagens textuais, na obra de Chiziane, os cidadãos exercem cultos a estes dois planos, bem como confiam nos dois. Esta realidade aqui descrita reflecte quilo que é o perfil do cidadão africano. As suas aflições, ‘o porto seguro’ dividido entre os dois mundos, os medos de julgamentos e as decisões precipitadas em busca sempre do bem estar próprio, são algumas das abordagem feitas por Chiziane que espelham o cidadão moçambicano.

 Assim sendo, não era justo que se pensasse sobre o estatuto social equilibrado destas duas religiões? E aos jovens, aos quais caberá o futuro  destas nações, qual deve ser a sua postura perante este fenómeno? O que não se pode negar é que esta realidade, apesar de ter sua génese em tempos remotos, continua actual. Aos académicos africanos, tal como alguns escritores já o fazem, resta a tarefa de desenvolver pesquisas e registar este conjunto de fenómenos culturais tanto para que se possam ver as maneiras do seu contorno, bem como para que os outros conheçam a nossa realidade sócio-cultural. 

 

   5.Referências Bibliográficas

Chiziane, P. (2000). O Sétimo Juramento. Maputo: Njira.

Domingos, L. (2011). Visão Africana em Relação a Natureza. In Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá.

Mahumane, J. (2008). Representações e Percepções sobre crenças e tradições religiosas no sul de Moçambique: o caso da igreja Zione. 

Matusse, G. (1988). A Construção da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani. Maputo: Livraria Universitária.

Opoku, k. (2011). A religião na África durante a época colonial. In História geral da África-África sob dominação colonial,1880-1935 (pp. 119-130).

Paradisco, S. (2015). Religiosidade na Literatura africana: A Estética do Realismo Animista. Londrina: Estação Literária.

Silva, A. &. (2006). Teoria da Literatura. Coimbra: Edições Almedina.