A Liturgia do Ágape e da Santa Ceia: A relação desses dois modelos de culto cristão primitivo, e seu impacto no seio da igreja primitiva e atual.

Resumo: No início, entrelaçado cultural e socialmente entre si por algumas comunidades cristãs primitivas, o culto ágape e a Santa Ceia juntos, reportavam o que de mais genuíno e social tinha por trás do culto instituído por Jesus. Dizemos genuíno e social porque o culto ágape e a Santa Ceia contrastavam o que estabelecia o judaísmo e sua Lei: “olho por olho, e dente por dente” (Mt. 5. 38-42), caracterizando, inclusive, a igreja como um povo distinto de Israel. Essa forma de culto refletia o ensino de Jesus acerca do amor na prática, algo também demonstrado de início na igreja em Jerusalém (Atos 4. 32) de modo que, por vezes, se tornava difícil definir qual prática cultual estava sendo celebrado em alguns momentos na igreja até meados do século II, aproximadamente.

Palavras Chave: Culto e Liturgia. Ágape. Santa Ceia. Diaconia. Ação Social.

Ágape: Modelo Singular e Genuíno do Culto Cristão Primitivo

Antes que a liturgia do culto cristão assumisse e se delineasse em diferentes etapas e formas, ela sempre buscou praticar a refeição comunitária, fosse em memória do sacrifício do Senhor ou, apenas, em seu aspecto social. Sissi Georg salienta, entretanto, que “... as comunidades cristãs realizavam outras formas de cultos, como o culto batismal e as orações públicas diárias” , e que “1 Co. 11. 17ss assinala a união inicial da refeição que saciava a fome física com referência à ceia de despedida de Jesus”. A esta última característica, destaca-se a função dos ágapes, forma de refeição comunitária eucarística. Segundo Hamman, “no século II, os cristãos abastados tinham o costume de convidar para a ceia em suas casas membros da comunidade, escolhendo de preferência pessoas necessitadas e, também, o bispo ou o diácono. Gregos e africanos davam a esse jantar o belo nome de refeição do amor ou ágape”. Sissi Georg, entretanto, citando Roloff e Goppelt, considera que a prática dos ágapes, pelas suas características, remonta o período apostólico. De fato, as narrativas dos escritos apostólicos, bem como, dos primeiros pais da Igreja, já faziam acenos de sua existência.

Diferente da forte herança litúrgica judaica, o ágape originou-se e desenvolveu-se à partir de uma iniciativa nova dos primeiros cristãos a qual retratava e buscava consolidar a prática do amor fraternal tão bem exposta e recomendada por Jesus durante o anúncio do Reino de Deus (Mt 6.11; Mc 6.37; Mt 25.35; Jo 6.35). Os ágapes eram refeições comunitárias e buscavam priorizar, além dos membros comunitários, pobres, doentes e marginalizados de outros contextos sócio-culturais. Por assim ser, os ágapes rompiam barreiras étnicas, de classe e de gênero, entre outras. Ele retratava com firmeza o papel social da Igreja.

As refeições eram ou deviam ser partilhadas em comum (At 2.42,44-46; I Co 11.20,21,33). O culto de ágape desde sua origem, já denunciava a injustiça social e de gênero. Tinha um caráter todo diaconal. Sua prática se estendia desde o partir do pão até a hospitalidade. A datar do início, esteve vinculado a instituição da Santa Ceia, vindo, posteriormente, a desmembrar-se desse rito. A liturgia do ágape é genuinamente de origem cristã e segue padrões tanto rituais quanto comprometedores com a celebração da Santa Ceia em particular.

Depois que os interesses formais, financeiros e políticos foram aos poucos se inserindo no contexto cristão, de igual forma os cultos de ágape foi perdendo força e seu espaço na Igreja. Segundo pesquisadores, esses cultos eram praticados diariamente, sempre ao entardecer do dia. Ao final do III século, já não era mais comum perceber as celebrações do culto ágape em meio a Igreja.