A linguística aplicada no Brasil

Nadson Cardoso de Jesus

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O início da Linguística Aplicada no país, se dá nos anos 60 e 70, onde foi marcado por questões relativas ao ensino de línguas estrangeiras, principalmente o inglês. Moita Lopes (1999) atesta que naquela época, as dissertações de mestrado na área refletiam o pensamento de aplicação de teorias da Linguística para melhorias de técnicas de ensino em sala de aula . Segundo Cavalcanti (2004), uma das ênfases de trabalhos de investigação na área neste início eram as sugestões para produção e avaliação de materiais. 

Para Moita Lopes (2006, p.16) hoje, é possível dizer que a LA é um campo  relativamente bem estabelecido em nosso país e o que comprova este feito são os muitos programas de pós-graduação na área, através do apoio das agências de fomento à pesquisa e pela criação, em 1990, da Associação de Linguística Aplicada no Brasil – ALAB. A página da web da ALAB indica como o objetivo da associação:

(re) construir um lócus acadêmico-científico e reflexivo, fomentado, por sua vez, estudos e reflexões da área de LA, não concebida mais como aplicação de teorias linguísticas, mas como um campo de investigação indisciplinar, transgressiva e híbrida. (ALAB, 2018).

A LA se tornou uma disciplina híbrida ou mestiça, onde a interdisciplinaridade, que ainda é vivida timidamente, é cada vez mais um caminho a ser seguido. Isto é, a LA deve dialogar com outras áreas como ciências sociais, a antropologia, a sociologia, etc, pois, como afirma Moita Lopes (2006, p.96) Se quisermos saber sobre linguagem e vida social nos dias de hoje, é preciso sair do campo de linguagem propriamente dito: ler sociologia, geografia, história, antropologia, psicologia cultural e social etc.” Pois, parece indispensável que LA se aproxime das áreas com enfoque social, político e história, alias, essa é a condição para que a LA possa responder às demandas da vida contemporânea.

Esse novo modo de compreender a LA permite entender melhor os paradigmas que existem nos dias atuais, visto que em meados da década de 1980 até a de 1990 as pesquisas realizadas dentro desta área começam a ser sobre outros contextos sociais que não lidam com o ensino, passando a ser entendida, inclusive, como indisciplinar, ou seja que não pode mais ser constituída como disciplina. Isso ocorre pelo fato de que a LA deseja ousar pensar de maneira diferente ao da linguística, isto é, a LA deseja ir além dos paradigmas  consolidados, prontos, acabados.

Com esse ampliamento das áreas de pesquisa da LA o Brasil tem atuado em contextos educacionais, outros contextos profissionais, em ambientes diversos de pesquisas científicas e tecnológicas, situações forenses, nos estudos lexicográficos, no tratamento de linguagem artificial com as novas tecnologias da comunicação e informação, refletindo uma tendência internacional da área (a respeito disso, ver ATKINSON, 1999;MCGROARTY, 2002;DAVIES, 1999; COOK, 2003). Isso mostra que a área vem assumindo e reafirmando cada vez mais seu caráter interdisciplinar.

Na visão de Matos:

A LA contemporânea deixou de ser associada quase que exclusivamente ao ensino/aprendizagem de língua estrangeira e dependente do embasamento teórico proveniente da linguística, considerada, a sua ciência-mãe. A LA não ignora visões importantes de outras áreas do conhecimento e as novas perspectivas têm tratado as práticas a serem  investigadas de forma contextualizada, encarando os indivíduos de pesquisa heterogêneos e sujeitos ao contexto sociocultural em que estão inseridos, ou seja, os indivíduos são concebidos socialmente. (MATOS, 2013, p. 6).

 

REFERÊNCIAS

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CAVALCANTI, Marilda Couto. Applied Linguistics – Brazilian Perspectives. The Annual Review of Applied Linguistics, 17, 2004, p. 23-30. 

COSTA, Hilda Rodrigues da. O discurso historiográfico da Linguística Aplicada brasileira [manuscrito]. 2011. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Letras, Goiânia. 

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MATOS, Doris Cristina Vicente da Silva. A linguística aplicada no Brasil e as pesquisas em língua espanhola. INVENTÁRIO (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA ONLINE), v.1, p. 1-11, 2013. 

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MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Fotografias da Lingüística Aplicada no campo das Línguas Estrangeiras no Brasil. D.E.L.T.A., v. 15, n. especial. São Paulo: PUC-SP, 1999, p. 419-435. 

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