A IMPORTÂNCIA DA PSICOLOGIA PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Camila Souza Silva

Daiane Cristina da Silva

Vânia Silveira de Souza

       Devemos pensar de que maneira a psicologia em geral pode auxiliar no processo de inclusão social na escola. Primeiramente necessitamos compreender de forma mais ampla como funciona a mente das crianças e sabendo que ela passa por processos, como trabalhar em cima desses momentos específicos de transformação do modo de pensar e agir. Mas a principio relembraremos um pouco do funcionamento da mente de acordo com Freud.

       Para Freud, a estrutura da personalidade do ser humano é separada em três instancias: o id, o ego e o superego. O id é como uma base onde ego e superego se diferenciam, onde carregamos toda a herança psicológica, de onde também obtivemos os impulsos, é o segmento responsável por reações naturais do corpo, como quando espirramos, por exemplo. O ego é o que fica entre os impulsos de instinto do id e das exigências do superego, é como se ele fosse um meio termo, um filtro para a realidade. É como se entre a razão e a emoção ele fosse a razão, e precisa manipular e regular o id (a emoção) que ignora a realidade, logo, o ego precisa do id para existir, pois extrai a sua força dele. Freud ainda os comparava como um cavaleiro e seu cavalo, pois por mais que o cavalo dê força ao cavaleiro para seguir o caminho, ele precisa ser conduzido na base de rédeas que é a função do cavaleiro. Pensando em como relacionar o Ego com a educação escolar, ele acaba sendo o maior aliado da escola nesse sentido de discernir o desejo (instinto) do que se realmente pode realizar, é algo que a escola necessita trabalhar juntamente com a criança pelo fato de que enquanto ainda pequena, a criança age por impulso e é ai que o ego tem o seu papel, como mediador de o que se deve e o que não se deve fazer.

       O superego se desenvolve desde o inicio da vida da criança, são os ensinamentos que vão passando dos pais para a criança de o que pode e o que não pode ser feito, o que é certo e o que é errado e quais as punições e consequências de quando fazemos algo considerado errado pela sociedade. É também quais as recompensas ganhas por fazer algo denominado certo de acordo com as regras de comportamento daquela família, é como se fosse o que herdamos dos nossos pais, a cultura daquele local em que crescemos. O superego é a moral e a critica da nossa mente e de acordo com que o ele vai se desenvolvendo, deixa de ser medido pela ação de nossos pais e passa a ser medido pelo nosso autoconsciente, nós mesmos aprovamos e desaprovamos nossas atitudes. A relação do superego com a escola é justamente o fato de ele ainda estar em desenvolvimento, logo, a escola pode contribuir nessa evolução juntamente com os pais, ajudando a criança a construir a sua própria identidade de acordo com a cultura daquele local tanto na escola quanto em casa.

       O fato é que a criança passará bastante tempo em ambos os locais, o que acabará fazendo com que não somente os pais, mas também os professores e os colegas de classe sejam para ele uma forma de exemplo de como agir de forma moral e ética, sempre respeitando todos os que estão a sua volta, como mediadores de o que é certo ou errado. Vale ressaltar um trecho escrito por CROCHÍK, para que tenhamos uma compreensão mais ampla das ideias de Freud:

Conforme Freud (1993), a identificação com os outros é fundamental para a constituição de um “eu”, se não incorporamos valores, princípios, expectativas dos modelos das autoridades com as quais vivemos não constituímos referências internas e, por isso, sempre devemos nos dirigir aos outros para saber se agimos ou não corretamente, ou então, tendemos sempre a seguir nossos desejos, só renunciando a eles quando as autoridades estão presentes. (CROCHÍK, 2012, p. 45)

       Por outro lado, a teoria histórico-cultural da Escola de Vygotsky defende que o homem é um ser social, mas que de todo modo não nasce já com aptidões, como se herdassem elas de sua arvore genealógica. Na verdade, o que ocorre é que o homem nasce com a capacidade de aprender, praticar e assim desenvolver características. Nessa teoria, o ser humano apenas reproduz o que lhe é transmitido ou o que é observado, logo, as características são adquiridas de acordo com a cultura local, coisas como a linguagem utilizada, vestes e principalmente valores morais e éticos.

       De fato, a teoria histórico-cultural de Vygotsky nos auxilia para uma maior reflexão da importância da psicologia para a educação inclusiva. Se o ser humano age de acordo com o que lhe é ensinado durante toda a sua vida, basta que trabalhemos com nossas crianças a magnitude de uma boa relação, tendo consciência de que todas as pessoas são diferentes e priorizando o valor que elas devem carregar que é o de respeito a essas diferenças, o respeito acima de qualquer coisa.

“Assim, a medida que aprende a utilizar a cultura, a criança vai acumulando experiências em conjunto com outras pessoas com quem vive e vai criando sua inteligência e sua personalidade” (CARRARA; MONTOYA; SHIRAHIGE; JUSTO; NASCIMENTO; HIGA; MELLO, 2004, p. 138)

       Outro estudioso de grande relevância quando pensamos na relação entre psicologia e educação inclusiva é Jean Piaget. As autoras Roseli Fontana e Maria Nazaré da Cruz, ao falarem sobre o teórico, explicitam os períodos de desenvolvimento cognitivo da criança (como fora denominado por Piaget), separando-os de acordo com o processo de evolução dentre as idades da mesma. Sendo esses: o período sensório-motor (de 0 a 2 anos), período pré-operatório (2 a 7 anos), período de operações concretas (7 a 11 ou 12 anos) e por fim, o período de operações formais (11 ou 12 anos em diante).  Resumidamente, o período sensório-motor é o momento em que a criança passa a conhecer o mundo, lida com seus reflexos, toca em objetos, coloca o pé na boca, tomando conhecimento de partes do seu corpo e de que maneira consegue movimentar-se. Já o período pré-operatório é o momento em que a criança precisa comunicar-se utilizando da linguagem e, sobretudo de sua inteligência que nesse momento é ampliada, a criança passa a dar significado a realidade que está a sua volta (apesar de ainda não conseguir raciocinar a realidade geral, vista de perspectivas amplas e que traria a possibilidade de igualdade entre a criança e com quem ela interage), assim como exemplifica as autoras:

Ao repartir o refrigerante com o irmão, a criança só considera justa se o líquido ficar em altura igual nos dois copos, mesmo que um deles seja visivelmente mais estreito. Ela considera apenas uma dimensão do problema (a altura do líquido no copo), a mais evidente em termos perspectivos. Não é capaz de raciocinar levando em conta as relações entre as várias dimensões envolvidas (a largura e o tamanho do copo), e o tipo de percepção que tem dos objetos determina o tipo de raciocínio que faz sobre eles. (FONTANA; CRUZ, 1998, p. 50)

       O período de operações concretas é o momento em que a criança torna-se capaz de colocar-se no lugar do outro, ou ao menos, de compreender pontos de vista distintos ao seu, a criança passa a raciocinar de forma coerente. Esse é, inclusive, o momento em que sua consciência começa a tomar voz.

        Já o período de operações formais, quando a criança torna-se adolescente e dessa maneira, capaz de reproduzir o pensamento abstrato, ou seja, idealizar em sua mente coisas que podem acontecer futuramente. É o momento em que o adolescente questiona valores que fora ensinado a ele e dessa maneira, cria personalidade própria.

       Os denominados períodos de desenvolvimento, descritos por Piaget, abrem-nos possibilidades. Sabendo que em cada período podemos trabalhar de maneiras distintas, mas sempre com o foco na educação inclusiva, logo que cada criança tem suas particularidades que devem ser analisadas pelo docente de modo que o conhecimento desses períodos o auxilie a exercer sua função com maestria, trazendo para essa criança uma melhor qualidade no processo de ensino-aprendizagem.  Vale lembrar que o tema educação inclusiva abrange não somente crianças com deficiências, mas todas aquelas que necessitam ser assistidas.

“[...] a que a educação inclusiva tem se voltado, sobretudo, para os alunos com deficiência, quando deveria se dirigir a todas as minorias que, por diversos motivos, não estão podendo frequentar a escola ou têm dificuldades de nela permanecer.“ (CROCHÍK, 2012, p. 215).

       Outro fator de grande importância é fazer da educação igualitária, de modo que não haja separação de nenhum modo das crianças em classe. Quando unidas, ambos os lados podem se ajudar e agregar um ao outro, como enfatiza o autor a tratar do assunto:

Os que têm deficiência, por identificação com seus colegas sem deficiência, podem se desenvolver mais, dada a diversidade de modelos, do que quando só estão entre os que têm deficiência. Para os que não têm deficiência, a convivência com os que são diferentes de si podem propiciar o que Adorno (1995) chama de identificação com o mais frágil, o que é um fator importante contra a violência. (CROCHÍK, 2012, p. 41).

       A educação inclusiva no Brasil tem passado por adaptações, mas ainda se vê a necessidade de que mudanças sejam feitas, levando em conta que apesar de existirem inúmeras crianças com necessidades especiais estudando em escolas regulares, estas continuam sendo tratadas com diferença. Sendo assim, há um rompimento do ensino que é proposto para essas crianças se considerado o que é proposto à turma em geral, sem contar a maneira como são postas em sala. A mudança deve começar assim que as crianças ingressam na instituição, logo, se todos propõem uma educação realmente inclusiva e igualitária, assim ela se tornará.