Rosangela de Cassia Camarinho**

Márcia Schimidt Néglia Armenini (Orientadora)***

RESUMO:

Neste artigo tenho por objetivos conhecer, analisar e refletir sobre as idéias de autores como Piaget, Wallon, Vygostsky, entre outros que discorrem sobre afetividade na relação ensino / aprendizagem para alunos com deficiência intelectual, como sendo instrumento de fortalecimento da criança enquanto sujeito, e servindo como ferramenta para todas as áreas de estudo voltadas para a organização afetiva, motora, social e intelectual do aluno. Hoje quando pensamos em educação de qualidade, a preocupação com a maneira como transmitimos o conhecimento, passa a ser tão importante quanto o próprio conteúdo a ser ensinado. Podemos entender a afetividade como sendo o conhecimento construído através da vivência, não apenas ao contato físico, mas à interação que se estabelece entre as partes envolvidas, que afetam as relações e, conseqüentemente, o processo de aprendizagem.

PALAVRAS-CHAVE: Afetividade; Aprendizagem: Deficiência Intelectual;

*Artigo apresentado para conclusão do curso de pós-graduação Lato Sensu em Educação Especial Com Ênfase em Deficiência Intelectual pela Faculdade de Educação São Luís.

**Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia  pela Universidade Norte do Paraná. Atuo como Professora de Educação Básica na Rede Municipal de São Carlos/SP. Email rocamarin2010@hotmail.com

*** Márcia Schimidt Néglia Armenini, Docente nos cursos de Licenciatura da Faculdade de Educação

 São Luís e Supervisora da Tutoria dos Cursos de Pós-Graduação da Faculdade de Educação São Luís.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por objetivo apresentar algumas informações e conhecimentos sobre a Importância da Afetividade na Relação Ensino / Aprendizagem do Deficiente Intelectual.

A princípio conheceremos a definição do termo deficiência intelectual, as causas e algumas dificuldades que os alunos com deficiência intelectual podem apresentar.

Compreender o aluno como um ser intelectual e afetivo, que raciocina e sente ao mesmo tempo, e reconhecer que a afetividade é parte complementar do processo de construção do conhecimento, nos indica um outro olhar sobre a nossa prática pedagógica, não restringindo o processo ensino-aprendizagem apenas à dimensão cognitiva.

Grandes estudiosos, como Jean Piaget (1896-1980) e Lev Vygotsky (1896-1934), já atribuíam importância à afetividade no processo evolutivo, mas foi o educador francês Henri Wallon (1879-1962) que se aprofundou na questão. Ao estudar a criança, ele não coloca a inteligência como o principal componente do desenvolvimento, mas defende que a vida psíquica é formada por três dimensões - motora, afetiva e cognitiva-, que coexistem e atuam de forma integrada.

O QUE É DEFICIÊNCIA INTELECTUAL?

A Convenção da Guatemala, internalizada à Constituição Brasileira pelo Decreto 3956/2001, no seu artigo 1º define deficiência como [...] “uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social”.

A Deficiência Intelectual, segundo a Associação Americana sobre Deficiência Intelectual do Desenvolvimento AAIDD, caracteriza-se por um funcionamento intelectual inferior à média (QI), associado a limitações adaptativas em pelo menos duas áreas de habilidades (comunicação, autocuidado, vida no lar, adaptação social, saúde e segurança, uso de recursos da comunidade, determinação, funções acadêmicas, lazer e trabalho), que ocorrem antes dos 18 anos de idade.

Geralmente, a família procura por um diagnóstico quando identifica que sua criança tem algumas características diferentes das outras: demora em firmar a cabeça, sentar, andar, falar; não compreende as ordens que lhe são dadas; ou tem dificuldade para aprender alguma atividade, principalmente na escola.

No dia a dia, isso significa que a pessoa com Deficiência Intelectual tem dificuldade para aprender, entender e realizar atividades comuns para as outras pessoas. É natural que enfrentem dificuldades na escola. No entanto aprenderão, mas necessitarão de mais tempo. É possível que algumas crianças não consigam aprender algumas coisas como qualquer pessoa que também não consegue aprender tudo (ALMEIDA, 2013).

A Deficiência Intelectual é resultado, quase sempre, de uma alteração no desempenho cerebral, provocada por fatores genéticos, distúrbios na gestação, problemas no parto ou na vida após o nascimento. Um dos maiores desafios enfrentados pelos pesquisadores da área é que em grande parte dos casos estudados essa alteração não tem uma causa conhecida ou identificada.

No entanto, esse diagnóstico é um processo minucioso, que envolve a compreensão de diversos fatores, como os genéticos, sociais e ambientais.

A Deficiência Intelectual não é uma doença, e sim uma limitação. A pessoa com Deficiência Intelectual deve receber acompanhamento médico e estímulos, através de trabalhos terapêuticos com psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. As limitações podem ser superadas por meio da estimulação sistemática do desenvolvimento, adequações em situações pessoais, escolares, profissionais e sociais, além de oportunidades de inclusão social.

Instituições como a APAE realizam trabalhos eficientes no sentido de promover o diagnóstico, a prevenção e a inclusão da pessoa com Deficiência Intelectual.

Assim, todos os profissionais envolvidos com o aluno que apresenta uma deficiência precisam dialogar entre si, pois todos fazem parte do grupo, para que ocorra o melhor desenvolvimento do aluno em sua totalidade e de forma plena.

A AFETIVIDADE E A APRENDIZAGEM DO ALUNO DEFICIENTE INTELECTUAL

Rosseto, Iacono e Zanetti (2006), esclarecem que:

 

As pessoas com deficiência, assim como as demais pessoas, devido a sua trajetória social, podem apresentar dificuldades para realizar algumas atividades, embora possa apresentar extrema habilidade para outras. Portanto, ao se relacionar com uma pessoa com deficiência, respeite a sua diferença sem acentuá-la. Não fique lamentando sua deficiência, afirmando que sua vida é muito difícil, pois para uma boa parte delas, o defeito não converteu em obstáculo instransponível. (p. 107)

 

É muito importante enfatizar neste estudo que a afetividade, por sua vez, tem uma compreensão vasta e complexa, que envolvem uma gama de manifestações e sentimentos de origem psicológica e biológica.

Ao se pensar o trabalho com alunos com deficiência intelectual é necessário conhecer quais são as barreiras individuais e identificar as capacidades e aptidões que cada criança tem. Algumas apresentam problemas pontuais, que podem ser ultrapassadas mais facilmente, outras têm a necessidade de um acompanhamento mais preciso e constante.

A aprendizagem significativa implica sempre alguma ousadia: diante do problema posto, o aluno precisa elaborar hipótese e experimentá-las, fatores e processos afetivos, motivacionais e relacionais são importantes nesse momento. (PCN, 2001).

Wallon (2003) divide o desenvolvimento humano em cinco etapas: impulsivo-emocional; sensório-motor e projetivo; personalismo; categorial; puberdade e adolescência. O autor coloca a afetividade como um dos aspectos centrais do desenvolvimento humano, defendendo que a vida psíquica é formada por três dimensões – motora, afetiva e cognitiva que se influenciam mutuamente.

Para Vygotsky (2003, p.78), “relação professor/aluno não deve ser uma relação de imposição, mas, sim de cooperação, de respeito e de crescimento”. O aluno interage e age durante o seu processo de aprendizagem.  O professor como mediador terá papel fundamental nesse processo. Tais mediações não envolvem só os campos cognitivo-intelectuais, mas, ao mesmo tempo, estimulam respostas internas e subjetivas nos sujeitos, de natureza basicamente afetiva e motivacional.

Há uma relação intensa entre o afeto que os alunos têm pela matéria e/ou pelo professor e a vontade de aprender o que é lecionado. Assim, para que ocorra uma aprendizagem significativa, o aluno deve ter uma necessidade, um compromisso ou interesse. Portanto, quando a mediação do professor ajuda o aluno a aprender o conteúdo ensinado, ele estabelece um vinculo afetivo positivo com a aprendizagem. Em qualquer tipo de atividade é a criança na sua totalidade que se vê envolvida – emoção e cognição são vividas conjuntamente nas suas experiências, internalizadas e fundidas na construção de sua identidade.

CONCLUSÃO

Através da pesquisa e leitura de diferentes autores e materiais podemos perceber que a afetividade desempenha um papel fundamental na constituição do ser e que resultam num sentimento, uma recordação que podemos compartilhar, favorecendo a troca de experiências e dando a eles novos significados o que enriquece nossos conhecimentos.

Um professor/mediador comprometido que busque saber quais são as potencialidades e interesses do aluno com deficiência intelectual e concentre todos os seus esforços no seu desenvolvimento pode fazer uma enorme diferença na vida de um aluno com deficiência ou sem deficiência.

É imprescindível enfatizar que a afetividade não está atrelada ao contato físico, mas em conservar um olhar atento ao aluno com necessidades especiais, apropriar às atividades  as possibilidades do educando, fornecendo meios, estratégias para que ele realize suas atividades acreditando no seu potencial de aprender, intervindo e mediando junto a ele.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Marina da Silveira Rodrigues. O que é Deficiência Intelectual ou atraso cognitivo? Publicado em : 28/10/2007  

FREIRE, P. Professora SIM tia NÃO – Cartas a quem ousa ensinar. São Paulo, ed. Olho d’ Água, 1993.

PIAGET, VYGOTSKY. Teoria psicogênica em discussão/Yves de La Taille; Marta Kolhl de Oliveira; Heloysa Dantas. São Paulo: Summus, 1992.
 

ROSSETO, E.: IACONO, J. P.; ZANETTI, P. SILVA. Pessoa com deficiência: Caracterização e formas de relacionamento - PEE (org). Pessoa com deficiência: Aspectos teóricos e práticos.Cascavel: EDUNIOESTE, 2006. p. 105 – 140.

VIGOTSKY, L. Ciclo da Aprendizagem: Revista Escola, ed. 160, Fundação Victor Civita, São Paulo, 2003.

WALLON, H. Ciclo da Aprendizagem: Revista Escola, ed. 160, Fundação Victor Civita, São Paulo, 2003.

VYGOTSKY, L. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1992

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

WALLON, Henry. Do ato ao pensamento: Ensaio de psicologia comparada. Trad.de J. Seabra Dinis, Lisboa: Moraes editora, 1979.

https://www.vittude.com/blog/deficiencia-intelectual-caracteristicas-sintomas

https://novaescola.org.br/conteudo/264/0-conceito-de-afetividade-de-henri-wallon

https://www.portaleducacao.com.br › Home › Artigos › Educação e Pedagogia

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2001/D3956.htm - Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência – Decreto nº 3956/2001

http://www.cielo.org.br/deficiencia-intelectual

MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais - Adaptaçóes Curriculares: Estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais.Brasília: MEC, 1999.

http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf