Os Delegados Hilton Vieira e Gross:

Dia 03.10.07, às nove horas e trinta e sete  minutos iniciamos nossa viagem, tendo como motorista o Investigador “Zico”, ladeado por  Marilisa. No banco de trás estavam eu e a Escrivã Ariane. No trecho que se seguiu em direção ao Bairro Vila Nova (Rodovia do Arroz), no sentido Guaramirim, “Zico” comentou que o Delegado Hilton Vieira estava em Joaçaba fazendo investigações. Como já tinha conhecimento do assunto, apenas ouvi atentamente o relato de “Zico” que dizia que o Delegado Hilton estaria correndo sérios riscos, pois o Delegado Regional de Joaçaba (Gross) possuía muita força política (era apadrinhado do Deputado Herneus de Nadal) e poderia reverter politicamente tudo que o Delegado Hilton estaria   investigando. Me restringi apenas a ouvir e “Zico” comentou  que as investigações estavam a todo vapor em Joaçaba e Tangará. Aproveitei para comentar:

- “O Hilton conversou comigo. A minha preocupação com o Hilton é que ele corre para os fóruns na sanha de conversar com Promotores de Justiça, lembra até o Lipinski. Eu acho que se quer investigar que investigue os colegas, agora ir atrás de Promotores que sabidamente  numa hora dessas querem ver o circo pegar fogo contra Delegados, policiais, dá licença,  não é?”

O destemido Delegado Hilton Vieira:

“Zico” concordou que Hilton Vieira corria demais atrás de Promotores, como foi no caso do Delegado Marcucci. Aproveitei para comentar:

- “A gente sabe que na verdade o Hilton faz isso não por que quer moralizar a instituição, não por que quer corrigir, mas faz isso principalmente pensando nele, porque gosta de emoções fortes, será que ele gosta de se sentir um ‘caçador’ de colegas, ‘exterminador’ de policiais, isso seria uma fonte de consumo de energia para ele, seria puro entretenimento em nome da consciência tranqüila? A gente vê como isso mexe com ele, saber que está investigando policiais, a gente vê quando ele fala em prender colegas, requerer prisão preventiva, prisão temporária, ele muda até de cor, não é que isso lhe dê prazer, não seria uma  dependência química? É por isso que ele não quer saber de se aposentar, aliás, falar  em aposentadoria para ele é como se fosse um castigo. Quando é que em casa ele vai ter essas emoções? Agora, sinceramente, a gente vê que ele teve aquela doença, então deveria aproveitar o momento e  ir para casa, mas acho que não vai não! Não adianta, é loucura. Mas o triste  uma instituição que permite que esses fantasmas continuem trabalhando, em vez de dar espaço para outros mais novos subirem, profissionais dotados de projetos para prevenir, orientar, controlar,...”.

“Zico” pareceu concordar e lembrou alguns nomes de Delegados Especiais:

- “Doutor, o senhor imagina, o Lourival Mattos, Wilmar Domingues, Optemar... o que esse pessoal está fazendo ainda na ativa? Me desculpa, gosto muito deles, mas já deu, vão embora!”

Interrompi:

- “Sim, a Lúcia Stefanovich, o Natal, meu amigo. Agora retornou o Ivo Otto Kleine lá em Itajaí, ele estava aposentado e conseguiu voltar, imagina?”

“Zico” me cortou novamente:

- “Doutor, tinha que ter uma lei que dissesse que o Delegado quando promovido a ‘Especial’ vai permanecer no máximo dois anos, depois tem que se aposentar na compulsória, o senhor não acha?”

Respondi:

- “Zico, na PM o Coronel fica no máximo cinco anos, depois vai embora. Imagina, ‘Zico’, eu estou há onze anos como Delegado Especial. São onze anos, não dá, né, estou tirando a vaga de outro que já poderia ter sido promovido”.

“Zico” argumentou:

- “Doutor, o senhor trabalha, o senhor é diferente. A gente vê que o senhor chega cedo, trabalha até tarde, mas os outros não! Eu me lembro do doutor Wilmar Domingues quando trabalhava na Corregedoria. Ele chegava de manhã lá, levantava a mão cumprimentava todo mundo e em seguida ele saia, levantando a mão e se despedindo, dizendo: ‘até amanhã’ para o pessoal, não dá, né doutor?” 

Sim, eram os fantasmas que nós criamos na instituição e aproveitei comentar:

- “Isso tem uma lado bom, ‘Zico’,  os Delegados Especiais não se aposentam e os de baixo não vão subir, daqui a pouco vai haver uma pressão muito grande e sabe o que vai acontecer? Eles vão ter que fazer uma legislação para reformular tudo, esse é o lado bom”.

Shakeaspere invocado:

“Zico” não concordou com minha lógica, até porque não deveria entender muito bem como é que as coisas funcionavam no andar de cima da corporação.  Fomos interrompidos com a  música de Patrícia Marx que tocava no “CD”, com aquela voz suave. Era um CD que Ariane trouxe consigo para ouvirmos durante a viagem. Marilisa havia passado para o banco de trás quis saber como era o nome da cantora e repassei para ela o material. Momentos antes havia pedido para Marilisa anotar no seu caderninho virtual uma máxima Sheakesperiana, que dizia que “o senhor das trevas também sabia ser cavalheiro”. Estávamos falando sobre a instituição, as ingerências políticas no preenchimento dos cargos e ao controle sobre os Delegados por parte dos dirigentes da instituição. Foi engraçado, porque no final desse bloco perguntei para Marilisa:

- “Como é mesmo aquela máxima que tu anotasses no teu caderninho?”

Ele deixou escapar um sorriso de quem voltou à tona, uma voz bem angelical e gostosa, ao mesmo tempo que comentava:

- “Ah, sei, a máxima ‘Sheakesperiana’ que o cavalheirismo é como o senhor nas trevas”. Acabei achando graça, e insisti, olha bem o que eu mandei tu anotares... (risos).