A DOUTRINA CONFUCIONISTA E SUAS POSSÍVEIS REFLEXÕES NO AMBIENTE ESCOLAR BRASILEIRO

Ruan David Santos Almeida

INTRODUÇÃO

Sabe-se que no mundo existem grandes quantidades de riquezas, quando se atribui essa ideia no cenário educacional, percebemos uma grande diversidade de maneiras de gerir o ensino-aprendizado, não obstante, fica claro que um maior conhecimento das mais variadas formas de se ensinar tornaria o aprendizado algo mais amplo e consequentemente de maior eficácia. Todavia mesmo com essa constatação ainda se ver uma grande falta de conhecimento com relação aos ensinamentos providos por civilizações de grande importância no mundo, dentre elas as sociedades orientais.

O pensamento oriental nos possibilita uma nova forma de ver e analisar o ambiente escolar, então por que não estudar a doutrinas implementadas por eles? Diante desse questionamento entramos em um novo debate com a constante queda da ideologia eurocêntrica no âmbito escolar abre espaço para diversas outras possibilidades de análise histórica e consequentemente de cunho pedagógico.

Já é notada uma mudança significativa dos estudos de história e cultura afro-brasileira a partir da promulgação da lei 10639/2003que torna obrigatório o ensino relacionado aos povos africanos. Essa movimentação é bem contundente quando se tocam na questão do ensino de história e cultura indígena estabelecido pela lei 11645/2008 que foram ambas as atribuições jurídicas que tiveram grande repercussão na maneira de se pesquisar e repassar os conteúdos direcionados a esses dois povos que tiveram e ainda tem grande importância na formação da sociedade brasileira. Entretanto a busca nesses escritos esta embasado na possibilidade de se aprender com o que foi disseminado pelos orientais no contexto social, compreendendo que eles são grandes exemplos de organização social e educacional, partindo desse princípio será averiguada a contundência de uma doutrina perpetuada na China que provocou uma série de modificações na vida do seu povo.

REFLETINDO A PARTIR DA IDEOLOGIA CONFUCIONISTA

Todavia, o presente trabalho tem como objetivo trazer informações relacionadas às contribuições deixadas na sociedade chinesa pelo filosofoConfúcio que, por conseguinte, podem ser de grande valia para estruturação de um ensino melhor no âmbito escolar e educacional brasileiro, já que evidencia uma característica bem significativa no povo oriental guiado pela forte disciplina e foco no meio escolar. A partir desse pressuposto torna-se importante antes de estruturar sua ideologia conhecer sua história de vida, que acaba condizendo bastante a respeito do próprio, nesse entendimento que com relação a issose descreve que:

K’ungCh’iu ou K’ungChung-ni [Kong Fuzi], comumente conhecido no Ocidente como Confúcio, ou Confucius, nasceu em 552 ou 551 a.C. e ficou órfão muito cedo. Da sua juventude pouco se sabe, exceto que era pobre e que gostava de estudar. Ele disse: “Eu era de origem humilde quando jovem. É por isso que tenho várias habilidades manuais”. (CONFÚCIO, 1997,p.5).

É possível se confundir bastante relação à importância concreta de um pensador, no ocidente tende-se a estudar exclusivamente a tradição greco-romana de pensamento quando se procura pensadores da antiguidade, todavia existe uma grande quantidade de reflexões de pensadores de outras origens tão influentes quanto os ocidentais. Porém não se pretende neste trabalhoformular a ideia de que vale mais estudar uns em detrimento de outros, contudo busca-se refletir a respeito da contundência concreta de um idealizador que reestruturou a China a partir de uma doutrina posteriormente denominada confucionismo. 

Mesmo sabendo-se pouco a respeito da origem e infância de Confúcio, consegue-se compreender que seus ideais com relação à educação já vinham sendo galgados nos primeiros anos de vida, dentro dessa postura com relação ao ensino constata-se a constante busca por uma moral benevolente e um espirito cavalheiresco descrito como sendo bases para a formação de um homem de caráter mais humanizado. Contudo para alcançar-se tal postura a pessoa deveria ser ensinada a partir de preceitos de retidão, sendo assim, comtempla-se uma formação humanística diferenciada das demais, que acaba por culminar em um ser humano dotado de valores subjugados por ele como os mais adequados a serem seguidos.

Dentro de sua formação enquanto ser humano esse pensador procurou intensamente compreender a história de seu povo, e consequentemente entender em que os governos e dinastia precedentes há seu tempoteriaobtido êxito ou falhado. O próprio examinava essas questões por perceber uma profunda instabilidade no campo político chinês durante esse tempo, isso acabava instigando-o a respeito de informações com relação a essa estrutura. 

Diante desse segmento ideológico de Confúcio podemos refletir a respeito da formulação de ensino brasileiro, já que se contempla em sua grande maioria a história educacional sendo regida por padrões totalmente em contraponto ao que o chinês buscava, visto que a postura social atual gerenciada por preceitos capitalistas e preconceituosa acaba em sua essência mais grotesca colocando as pessoas umas contra as outras e acaba indicando que a acumulação de capitais tem mais valor do que a conduta moral do cidadão honrado, e nesse sentido acaba afetando de forma direta as instituições escolares que também tem dificuldades nesse gerenciamento do ensino.

Sabendo desta constataçãoaverígua-se possibilidades diferentes no modo de ensinar e aprender. Assim consegue-se visualizar um ambiente propício para a atuação do modo educacional descrito por Paulo Freire que proporciona ao docente e o discente a estrutura necessária para o desenvolvimento do ensino e aprendizado qualitativo:

Percebe-se assim, a importância do papel do educador, o mérito da paz com que viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas ensinar os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo. Daí a impossibilidade de vir a tornar-se um professor crítico se, mecanicamente memorizador, é muito mais um repetidor cadenciado de frases e de ideias inertes do que um desafiador.  (FREIRE, 2002,p. 14)

Nesse sentido como sendo base para uma educação transformadora se ensinar a pensar certo, justamente nessa perspectiva avaliam-se os bons ideais de Confúcio como sendo algo de exímio interesse as atitudes desempenhadas no contextopedagógico. Pois dentro de seus pensamentos de maior valorização do ensino comtempla-se uma estrutura que possibilita a boa atuação do professor, trazendo consigo um melhor desempenho do alunato.

Partindo dessa premissa podem-se idealizar pensamentos oriundos de localidades diferentes, porém comungando de preceitos semelhantes. Todavia são direcionamentos importantes, pois com suas implementações possibilitam a formação de um sujeito formulador de ideias e consequentemente atuante no meio social, mas o que se percebe é que esses conhecimentos acabam atingindo a entidade educacional de maneiras diferentes, cada qual em um âmbito especifico. Pois Confúcio teve como direcionamento principal os aspectos humanísticos que refletiam de maneira direta no desempenho escolar, já Paulo Freire idealizava o ensino enquanto um processo que necessitava de todo suporte para ocasionar em uma educação que emancipasse o individuo e nesse caso torna-se o próprio capacitado para atuação em sociedade.

Justamente dentro dessa linha de raciocínio que se constitui um complemento no cenário de valorização do contexto educacional, pois como descreve Confúcio “―Eu transmito os ensinamentos dos antigos e não invento nada de novo. Eu me apego à antiguidade com confiança e afeição; eu me atrevo a comparar-me com o nosso velho P‘ing‖”. (CONFÚCIO, 1997, p. 80). Sabendo dessa intencionalidade e da base utilizada pelo filosofo pode-se perceber que os ensinamentos passados por ele não se baseiam em algo novo e sim se apropria e complementa uma ideologia antiga em termos de educação para alcançar seus objetivos, base essa que possibilitou a China alcançar e se reestruturar diversas vezes, e com isso ir se remodelando no decorrer do tempo.

Quando se estuda essa sociedade no contexto atual evidencia-se ainda mais uma eficácia em seu papel atuante no cenário escolar, porém torna-se importante perceber as raízes oriundas e estruturantes dessa civilização que teve na base filosófica um forte refúgio para suas transformações, acentuado essa relevância descreve Holien Gonçalves dando visibilidade a esses fatos: “A filosofia oriental teve grandes expoentes na China, como Confúcio, Buda, Mêncio, e as invenções chinesas (pólvora, bússola, etc.) marcaram sua presença nos avanços da humanidade” (BEZERRA, 1984, p.7). Com um avanço em grande escala nos mais diversos setores chineses podemos compreender que as posturas idealizadas pelos pensadores geraram uma profunda mudança na conjuntura do país.

Nas questões referentes ao ensino-aprendizado percebe-se a mesma eficiência, fazendo com que se reflita também com relaçãoà importância dos pensamentos filosóficos para um povo que passou durante muito tempo afogado em uma estrutura que não gerava frutos para seu povo, porém que a partir de mudanças ideológicas acabaram por sair da inércia. Entretanto o que se visualiza nesse sentido também são a relação e visão dos povos ocidentais com relação a essas sociedades, nesse quesito que se possibilita compreender que a própria maneira de se entender o termo orientalismo acabava por prejudicar uma aceitação em relação aos moldes de gerir uma sociedade desempenhada por esses orientais, nesse ponto percebe-se que a não aceitação e consequentemente a repulsa com relação a inovações nas estruturas principalmente chinesas, que não eram percebidas como agradáveis aos olhares europeus.

Por muito tempo o que se viu foi uma repulsa negativacom relação às sociedades orientais que era caracterizada pelos ocidentais como uma região não atrativa aos olhares, com uma fisionomia própria era descrita por viajantes europeus como sendo uma localidade que comportava seres exóticos dentre outros adjetivos. Esse tipo de visão estereotipada durante muito tempo barrou qualquer relevância nos estudos direcionados aos povos orientais, para tanto, essa mesma imagem formulada pelos europeus não era homogênea, nesse caso variava em determinadas localidades e com isso tinha-se relações diferentes de acordo com a região do globo, agregado ao fato de que para alguns serem totalmente desconhecido a realidade dos orientais. Justamente nesse relacionamento que fica em destaque a retratação europeia com relação a tais orientais:

O Oriente era quase urna invenção europeia, e fora desde a Antiguidade um lugar de romance de seres exóticos, de memórias e paisagens obsessivas, de experiênciasnotáveis. Estava agora desaparecendo: acontecera; de um certo modo, o seu tempo havia passado. Talvez parecesse irrelevante que os próprios orientais tivessem alguma coisa em jogo nesse processo, que mesmo no tempo de Chateaubriand e Nerval houvesse orientais vivendolá, e que agora erarn eles que estavam sofrendo; o principal, para umvisitante europeu, era urna representaçãoeuropeia do Oriente e da suaruina contemporânea, tanto um como a outra com um significado comum privilegiado para o jornalista e seus leitores franceses. (SAID, 2007, P. 13)

Tendo em vista que os próprios esboçam uma educação de profundo êxito, nesse segmento que Edward Said argumenta a respeito do que foi durante muito tempo disseminado na sociedade com relação às bases e estruturas orientais, fazendo com que se reflita nesse caso com relação ao quanto esses estereótipos acabavam por influenciar na maneira de se encarar essas localidades. Prosseguindo nessa ideologia constata-se que o cenário educacional desenvolvido pelos chineses decorrentes de uma remodelagem em sua estrutura não foi tão apreciado por longos períodos no ocidente, justamente nessa linha de raciocínio que se reflete com relação aos estudos a respeito da sociedade chinesa, que tem padrões de ensino tão desenvolvido, porém não tão vistos pela população brasileira:

É uma pena que a China não entre nos currículos. É uma história que coloca em evidencia as potencialidades do gênio inventivo e filosófico de um povo, assim como as profundas contradições vivenciadas pela sociedade. Um povo que consegue colocar a nu a opressão estrangeira e a dominação interna e parte para uma reorganização completa da sociedade, merece ser conhecido e estudado. (BEZERRA, 1984, p.2)

É presenciado na história chinesa um profundo ato de superação de um povo que durante muito tempo esteve sobre ameaças externas, porém conseguiu se sobressair e desenvolver seu território através de uma postura extremamente honrosa com relação ao seu povo.Partindo desse conceito se avalia a sociedade chinesa dotada de profundo valor, isso guiado por um estilo educacional que pode elevar o patamar de seu povo, e consequentemente refletiu nas demais estruturas do país, gerando um intenso desenvolvimento em uma localidade que durantes parte de sua história presenciou seu povo em extrema miséria.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste presente trabalho foi procurado se fazer reflexões a respeito da estrutura educacional desenvolvida pelo povo oriental, tendo em vista que os próprios presenciam uma entidade escolar de grande êxito, foramidealizadas como foco principal as delimitações instauradas pelos chineses, que provocaram uma extrema modificação em seu país. Dentro dessa mudança na maneira de abordar encontra-se a doutrina denominada confucionismo que provocou uma série de reflexões na maneira de pensar o ensino educacional dentro da China e que acabou por instaurar posturas diferenciadas no contexto social que provaram ser de grande valia para seu povo.

Contudo, entre as aspirações destes escritos estevea busca por uma maior aceitação do que vem deste continente, que como foi referenciado por todo o texto, nesse sentido constata-se a pouca visibilidade de estudos com relação aos orientais no cenário mundial, e no tocante ao conhecimento dos brasileiros com relação à temática observa-se que é ainda mais desconhecido, sendo que os próprios tiveram e tem uma finalidade profícua quando se toca no assunto educação.

Além dessa grande importância da doutrina, foi buscado disseminar o caráter extremamente eficaz de uma população com relação aos moldes de ensino, buscando compreender que a população local foi modificada devido à atuação dos ideais filosóficos de Confúcio. Com isso procurou-se mostrar que o Oriente é um lugar de extremo exemplo para se espelhar o povo brasileiro, haja vista que o cenário educacional do país passa por grandes dificuldades em termos de ensinar e aprender, devido a isso pode tomar como base essa reestruturação promovida na China para conseguir promulgar ações transformadoras nesse campo, portanto com um olhar mais apurado a respeito do que esta sendo desenvolvido pelo mundo pode-se torna os moldes educacionais mais eficientes. Identificando que a postura de outros povos como é o caso dos orientais promovem mudanças em problemáticas como essas observadas no país, e por isso são de grande valia para a atualidade brasileira.

REFERÊNCIAS

Ruan David Santos Almeida é graduando do curso de história, na Universidade Estadual do Maranhão-UEMA, no Centro de Estudos Superiores de Caxias-CESC.E-mail: [email protected]

BEZERRA, Holien Gonçalves. A revolução chinesa. São Paulo: atual editora, 1984.

CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Pensamento, 1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: paz e terra, 1996.

SAID, Edward W. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente.São Paulo: Companhia das Letras, 2007.