A  CONDESSA NEGRA

Jackson Pedro Leal            

Eliaquim subiu por uma velha escada de madeira velha e visivelmente  já um tanto desgastada pelo tempo até o sótão de sua casa, onde naturalmente todos da casa guardavam suas quinquilharias, antiquários e utensílios domésticos fora de uso, mas foi justamente ao lado de um antigo abajur que ficava bem no meio entre uma velha cômoda e um porta chapéu, que ele encontrou o que fortuitamente não premeditara achar “ama relíquia literária guardada há perdidos anos à fio numa caixa tipo baú antiquíssima de madeira colonial forrada com veludo verde e grafada logo na tampa pelo lado externo em um tom dourado aonde decifrava-se claramente o seguinte dizer: “Os Macanjubas” e bem abaixo o codinome “ABIGAHIL AMBUNDO” era um manuscrito - uma verdadeira relíquia deixada pelos seus ancestrais. Ele, segundo o que relatara o seu bisavô nesse papiro, era uma espécie de homem de confiança, seu melhor amigo e confidente ainda quando moravam em um povoado bem próximo de uma pequena cidade ao norte de uma região promissora e muito antiga de um continente esquecido há muitos e muitos anos. Lá, como podemos assim comparar com outros continentes, mas que até imaginar ser bem parecido com as terras que nos lembram o Congo africano, onde se concentrava uma expressiva gama e clãs de escravos com seus descendentes ocupando cargos importantes no clero e no seio da dinastia real, e, mais ainda, representando até mesmo consulados e embaixadas...  Seu bisavô continuou relatando que havia inevitavelmente verdadeiras batalhas travadas por esses povos que de certa forma encontravam um propósito maior mas de contra partida não esperavam pela tamanha resistência para que se aceitasse entre eles o cristianismo tanto pelos reis como por gerações e gerações de povos nativos daquelas regiões. Mas Eliaquim prosseguiu curioso em sua  atrativa leitura do diário e percebeu logo de cara que o trecho mais intrigante e que chamava mais a sua atenção era tão necessariamente o fato da existência de uma remanescente clã de família nobre em que era liderada por uma mulher guerreira que se auto intitulava com destaque e galhardia como  “A Condessa Negra” etiologicamente oriunda dos mais ecléticos sangues nobliárquicos do que restou da resistente monarquia lá daquelas bandas – Os Macanjubas.  Apoderando-se do poder da curiosidade de ter, ao seu ver, descoberto aquela verdadeira relíquia sobre os seus mais longínquos antepassados, não hesitou um instante sequer levar aquelelivro curiosamente misterioso e que o encantara tanto, para que seus professores pudessem lhe ajudar a decifrar muitas coisas que a partir dali seriam muito importantes que fossem levadas à público uma história de cunho surreal dentro de sua árvore genealógica e, nesse ínterim, uma de suas professoras tomada por uma notória sensibilidade literária passou logo a propor que aqueles achados deveriam ser,sem mais qualquer perda de tempo, incluídos como interessantes para dramatização pelo Departamento de Belas Artes do colégio e assim torná-los conhecidos e famosos nos acervos históricos daquela entidade escolar tradicional da época.── E agora que fui inventar isso, é óbvio que o papel do Conde será meu ── disse o jovem Eliaquim.Logo, começou esse assunto se tornar a novidade e o motivo principal de tantos comentários e sussurros pelos corredores do colégio...── Eu quero ser o rei da corte ── antecipou-se de imediato o pequeno Isack.── E eu, o secretário geral ── completou o espertinho do Baltazar.E, ao mesmo tempo, a Margarida, por sua vez, queria o papel principal da condessa negra, mas quando tomou conhecimento que não iria receber nenhuma fala para declinar nas cenas teatrais que estariam por vir logo no início da peça, então desestimulou-se e tão somente não focou mais a ideia do papel pretendido inicialmente.── E quem era de fato essa tal de Condessa negra? ── perguntavam-se sem resposta imediata uns aos outros. Então, vendo a todos e ouvindo as perguntas sem respostas ali naquele pátio do colégio, a professora,Estelita, pediu que os próprios alunos levassem as falas para casa e que procurassem com muita inspiração arrumar uma bela  auto biografia para a condessa negra.── Vejam só, o que já encontramos no computador a respeito dessa tal condessa negra, hein! Se encantavam os meninos e meninas ali reunidos em volta de um computador na sala de artes do colégio.E dito isso com espanto de todos, logo apareceu na tela daquele monitor telepático a imagem colorida de uma região até então desconhecida no mapa de um continente que parecia ser da África, que todos julgavam ser o local de origem das ilustres personagens daquela fábula real...  Vejam! Vejam! Aqui fala que essa condessa negra realmente viveu com seus contemporâneos e descendentes fidalgos nesse tal continente talvez do oriente da África, lá pelo século XVII e que a pessoa mais destacável entre eles – era, de fato, a verdadeira líder dos - Ambundos-Macanjubas - que se localizavam em regiões daquelas bandas orientais e que eram mesmo liderados por ela – a condessa negra, que começou a comandar e a reinar esses povos a partir de meados desse século, quando ascendeu ao trono logo após, é claro, de uma exaustiva disputa com o seu irmão condescendente, o príncipe de Ambundo, isso a contar desde a morte de seus pais donos e patriarcas da dinastia real.  Nessa época, dava-se conta de que aquelas regiões teriam sido muito cobiçadas por expedições exploradoras representadas por povos mais interessados nas riquezas acumuladas por essas verdadeiras clãs de nobres e fidalgos reais da época e que atraíam tanto os estrangeiros a quererem à todo custo invadir essas regiões promissoras e por demais férteis. Mas o que nessa época chamou mesmo a atenção dos estrangeiros por lá foram as desumanas e históricas comercializações de especiarias, porcelanas, antiquários, jazidas e, principalmente, o surgimento do tráfico de escravos negros, os quais eram vendidos como mercadorias para outros continentes, infelizmente.  A condessa negra realmente descendia categoricamente de um povo pré existente das bandas do oriente do continente até então indecifrável com precisão, isso pela parte materna, e do povo da parte paterna surgiram – os Macanjubas, da qual ela era genuinamente descendente. O que se sabe é que esses povos se davam ao bel prazer de cultuarem seus ancestrais. As tradições e mitos eram de fato os legítimos resquícios da forte influência política das clãs existentes na época por lá. Já os da parte materna, eram mais destacáveis como guerreiros que se agrupavam em povoados circunvizinhos e assim monopolizavam e ditavam tais comércios de escravos dando origem aos verdadeiros quilombos. E entre tais tradições não poderia deixar de destacar os ferrenhos e permanentes exercícios rotineiros de lutas e encenações de verdadeiras batalhas...  A condessa negra tentava organizar e até mesmo conciliar os costumes e tradições entre os dois lados para amenizar um pouco as cruéis e desumanas transações comerciais em torno disso por aquelas bandas. Mesmo assim, na tentativa incessante de querer controlar tudo por ali, ela percebeu que essa mistura dos dois grupos lhe custou tão somente a cunha do hibridismo nos costumes daqueles povos influenciados pelas levas de estrangeiros apoderados na região e que pouco a pouco tudo isso foi provocando uma mudança radical na cultura em geral daqueles povos originariamente pertencentes até agora aos povos de um continente enigmático. No entanto, mister se faz ressaltar que esse hibridismo incrustante trazido pelos invasores expedicionários, trouxe de certa forma uma determinada estabilidade e zona de conforto para a permanência dela no poder na condição de condessa, mas, por outro lado, existia uma ala desses grupos étnicos que não concebiam de jeito nenhum a mínima chance de serem governados por uma mulher no trono. E assim sucederam diversas batalhas entre os dois grupos beligerantes... Tudo isso não serviu senão para impor um comportamento nunca introduzido antes mas que a partir desse ponto iria tão somente estimular ainda mais as hostilidades e difamações por toda a região.Mas apesar da resistência, a condessa negra foi se tornando um marco histórico porque de qualquer forma era a primeira vez que uma mulher subia ao trono e, mais ainda, se consolidava mesmo para governar toda a região e isso majestosamente inspirou uma leva de sucessões femininas facilmente aceitas. E durante os dissipados séculos seguintes depois da morte da precursora e histórica – condessa negra – o governo coube tão somente às mulheres. Esse fato histórico por si só trouxe além do reconhecimento incondicional da sua liderança e talento hegemônico para a política, como também foi o estopim para que começassem a surgir, de verdade, os primeiros indícios da certeza do seu vantajoso apogeu no seu desempenho como praticamente não somente uma condessa mas sim uma verdadeira rainha e deusa do pedaço, isso ainda quando o seu irmão reinava. A condessa negra era venerada e adorada por todos, tendo causado certamente um impacto tremendo a sua alta capacidade de se articular politicamente. Ela era por demais exigente quando determinava que os estrangeiros tratassem os povos do seu reino com mais humanidade e condescendência com relação principalmente no trato com os tributos nas comercializações internas e a existência de habituais verdadeiras batalhas no processo já quase sufocado,à época, para a escravização do seu povo, como também na conciliação entre as incessantes hostilidades dos parceiros comerciais predominantes.A condessa negra teve a sua hegemonia por muitos e muitos longos anos, mas acabou depois de exaustivamente lutar e resistir à implantação de uma tendência reli giosa puxada para o cristianismo por aceitar que o forte traço do catolicismo fosse essencialmente bem aceito no seu governo e assim foi que se originou como tradição no seu reino os originais ritos do batismo sendo realizado sempre mediante uma grande solenidade. Então, ela foi a primeira a ser batizada e recebera o nome de Justine.  Tudo isso teria feito ela ficar fascinada, apesar de toda sua resistência logo no início, por muitas coisas que os estrangeiros deixaram como herança para o seu governo, especialmente as especiarias e o luxo das mercadorias trazidas pelos comerciantes exploradores, inclusive tecidos finos, especiarias e joias da Índia, pérolas da China. Em fim, ela estava de fato convencida de que toda essa transformação e adesão ao cristianismo lhe traria, sem dúvida, muita riqueza e poder para o seu povo.Essa história não só foi de vitória e conquistas não, tá? Teve também a sua parte amarga, de resistência aos ideais da condessa e porque não dizer a algo muito mais intrigante e contagiável do que o fato dela ter consideravelmente aderido aos preceitos doutrinários do cristianismo, mas também ter se dado conta de que fazendo isso estaria tampouco induzindo a todos abandonarem suas antigas tradições e costumes e renegando a todo povo do seu demorado governo a se esquecerem desses princípios étnicos de sua gente, foi ai então que ela teve que enfrentar a ira e resistência iminente de todo o clero de sacerdotes cristãos e opressores estrangeiros como propósito de garantir especialmente alguns nobres rituais da tradição local como os ritos funerais, por exemplo,e, por conta disso, ela foi perseguida pela igreja católica sendo acusada frontalmente de feiticeira e bruxa, forçando assim ela se retirar estrategicamente para a sua sede do governo.  Ela, revoltada pela falta de consideração do clero sacerdócio e tudo mais resolveu instintivamente desconsiderar toda a oficialidade dos rituais de batismo recebido, mas inspirou o hábito de se vestir à moda europeia, comprando no comércio de mercadorias e artigos trazidos pelos estrangeiros para a sua região e isso era muito mais facilitado na ocasião em que recebia autoridades diplomáticas e missionários, pois costumava se apresentar coberta de joias de ouro e prata, anéis de pérolas, diamantes e zafiras... Todavia, continuava a governar de acordo com as tradições culturais do seu povo e por esta razão era vista e considerada como uma verdadeira rainha poderosa. A representatividade militar do seu exército era forte demais e importava em medo para quem tentasse enfrentar esses princípios dos dois lados aqui em foco, enquanto que por tudo isso exerceu fortíssima pressão também sobre os líderes locais sufocando assim certos pontos de comercialização escravista, chegando até mesmo a fechar irrevogavelmente em alguns pontos. Esse tipo de comércio escravista começou a despontar indiscriminadamente provocando na visão da condessa um grande prejuízo para todo seu povo e nação, em virtude de ter por muito tempo a escassez da massa de trabalho exercida essencialmente por essa camada de trabalhadores locais principalmente na agricultura onde se ressentia acima de tudo. Então todo o reino passou a resistir o avanço ambicioso e nocivo dos estrangeiros e procurou com punho de aço manter a sua linha de pensamento político no caminho do desenvolvimento e para isso tinha que expressivamente diminuir o tráfico de escravos. Em muitas das ocasiões para justificar todas essas medidas repressivas do injusto comércio humano local, teve que emanar ordens severas para destruírem rotas e mercados comerciais tanto por meio de conflitos armados como por meios diplomáticos também.Durante todos esses acontecimentos no tocante às expedições exploradoras locais, empreendidas de formas afrontosas pelos ousados e impiedosos estrangeiros comerciantes, sobressaiu-se o fato da chegada dos holandeses àquela região. Isso foi de fato um trágico acontecimento para o povo regido pelo domínio da condessa negra que, por sua vez, não queria acreditar que seu governo pudesse entrar em declínio por conta desses últimos invasores europeus que eram considerados exímios exploradores. O exército invencível da condessa aproveitou a situação para atacar os outros comerciantes europeus, que já estavam na região há muito mais tempo e assim conseguindo expulsá-los até mesmo com a ajuda dos terríveis holandeses.Automaticamente, para se ver livre das investidas ambiciosas e desumanas dos estrangeiros comerciantes antes dos recém chegados holandeses, ela teve que firmar acordos de cooperação mútua com esses últimos, mas apenas prevalecia tais acordos no período em que perdurasse a ocupação dos outros invasores europeus os mais antigos na área. A condessa negra completara nessa época já seus 69 anos de idade quando, infelizmente, sem que ela pudesse fazer mais nada para impedir, retornaram agora reforçados as tropas invasoras locais que haviam sido expulsas pelos holandeses, só que dessa vez com mais voracidade chegando a impor sem clemência a derrota da governante suprema.  Já sem todo aquele poder e força política local pelo fato, sobretudo, de sua idade está bem avançada e afastamento dos holandeses, ela ainda tentou retomar os contatos diplomáticos, mas sem sucesso tendo que finalmente aceitar as injustas imposições dos comerciantes europeus, que haviam saído estrategicamente e agora voltando a exigir do povo da horda da condessa o fiel cumprimento às doutrinações do cristianismo, como também admitindo a presença de missionários em seu território. Já quase moribunda no seio do seu povo mas no decrépito fim do seu governo, por fim infame chega a falecer embora tivesse tentado se empenhar na modernização do seu inesquecível reino.  Assim ficou registrado nos anais da história cruel e segregante daquele continente, que a sua conversão final – como rainha e condessa guerreira – que lutou até enquanto pode contra os seus opositores estrangeiros pela modernização e preservação do seus costumes e tradições, portanto ainda hoje, espero, que quando todos vocês ouvirem falar dessa que foi a maior das guerreiras do seu tempo, tenham-na sempre viva em seus corações como um símbolo da resistência opositora estrangeira aos bons costumes do seu povo.Por fim, abrem-se as cortinas do palco teatral da escola...

── Eu por este reino adentro entro com grande valor, sem ter do rei e dos seus ministros pavor ── recita isso em voz alta o Isack.── Entra e sobe nobre fidalgo da corte e vai se ter com vossa majestade o rei ── entra e sobe! Vai ao trono, Vai reverenciar a sua majestade e, se por ventura, ousares insultá-lo serás preso e enforcado imediatamente ── disse o Isack para o Baltazar.

── Meu rei ── meu grande rei ── minha rainha condessa manda te dizer que se não te renderes as tuas tropas serão ceifadas sem piedade!  ── E não terás muito tempo mais no trono que há de ser dela um dia bem próximo! ── completa com veemência o Baltazar.── Te levanta ó infame visitante e me diz tu quem és!  ── quem é tua rainha que te mandou aqui aos meus pés?  ── retruca com voz firme e austera o majestoso e todo poderoso rei – Eliaquim!── Eu sou um vassalo digno da corte da minha rainha – a condessa negra – e aqui estou apenas para servi-la... ── se apresenta magnanimamente o jovem Baltazar.A partir de agora que todos vocês já sabem de fato quem foi a condessa negra, fica bem mais fácil compreender porque ela é sempre relembrada nos acervos históricos imaginários desta ficção como sem exagero de causa a representante maior e digna do seu povo até agora indecifráveis – a grande guerreira – que lutou com unhas e dentes contra os impiedosos invasores estrangeiros em seu solo pátrio para desumanamente comercializarem os trabalhadores negros como escravos, e também como a precursora na conversão dos seus costumes e tradições com o cristianismo sem perder os traços fieis de sua cultura e assim para sempre será lembrada!

DEUS, salve a Condessa!