A carta escrita por Pero Vaz de Caminha, redigida em 01 de maio de 1500, ao rei Dom Manuel, é considerada o primeiro documento histórico- literário do Brasil. Nela, Caminha relata ao rei, a descoberta de uma nova terra, Terra de Vera Cruz, e os primeiros contatos com os nativos.

Caminha, escrivão responsável por descrever as primeiras impressões do Brasil, inicia seus relatos descrevendo o nativo em seus aspectos físicos e culturais, atentando à cor da sua pele, a sua nudez e à pintura sobre o corpo. Nas primeiras páginas de sua carta, Caminha escreve como o português vê o nativo: “Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. (...) mancebos de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas (...)”.

Quando dois índios são trazidos por Afonso Lopes, integrante da frota, à presença de Caminha, vestido de rei para impressionar, esse não vê somente o aspecto físico e cultural daquele povo, nota também outros detalhes, seus aspectos psicológicos, conforme escreve.

“A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço (...)”.

Diante da beleza selvagem da mulher nativa, Caminha descreve (...) “bem novinhas e gentis, com cabelo muito preto e comprido pela costa; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós olharmos, não se envergonham (...). E uma daquelas novas era toda tingida de baixo para cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda que as muitas mulheres de nossa terra, vendo – lhes tais feições envergonharia, por não terem as suas como ela”.

O que significaria essa inocência dos índios, mencionada por Caminha? Os portugueses poderiam, em algum momento, tirar proveito dessa situação?

Quanto à descrição da terra, Caminha observa:

"Traz nela ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas e outras brancas, e a terra (...) e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta é toda praia...muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos- terra que nos parecia muito extensa. (...) as aves? Não tinham visto tão bonitas; há também uma grande fartura, pois pescam camarões tão gordos que nunca tinham visto nada igual".

A partir dos fragmentos apresentados com a descrição do homem e da nova terra, percebemos que Caminha faz o retrato de um paraíso, com homens bem feitos de corpos e com belas e formosas mulheres de tez dourada pelo sol, exalando sensualidade no corpo todo tingido e nos cabelos negros e longos, num cenário de igual beleza.

Esse homem apresenta-se muito bem integrado à natureza e ser um grande conhecedor da fauna e riquezas de sua terra, pois, nas páginas seguintes, Caminha relata: “Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados”.

Diante da demonstração dos portugueses, os índios provaram ter conhecimento dos animais existentes na terra. Tal constatação, portanto, desperta maiores interesses no português, explorar outras possibilidades que a terra pode lhe oferecer. Vejamos os relatos apresentados.

"E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera".

O gesto do índio, ao reconhecer em um colar e em um castiçal, o ouro e a prata existentes em suas terras, desperta cada vez mais o interesse e o desejo do português, traços emocionais, que o faz avançar na exploração. Vejamos, então, como o português consegue iniciar as trocas de presentes apoiado na fascinação do índio pelos objetos desconhecidos.

"Quando um índio viu umas contas de rosário, branca, fez sinal que lhas descem, e que daria qualquer coisa em troca do objeto, acenando para a terra. (...) Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam nos aqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar".

Nesse fragmento deparamo-nos com a “cordialidade” e a “amizade” do português agindo sobre a ingenuidade do índio, que começa a ser conquistado e amansado pelos portugueses e o motivo é simples: comunicar-se com o índio para saber da existência de riquezas naquelas terras.

"Um trecho da carta mostra-nos como de fato isso aconteceu: (...) mas ninguém o entedia, nem ele a nós, por mais coisa que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra".

Logo, podemos entender a razão de tamanho interesse:

"Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza".

Quando o capitão fez este velho índio tirar a pedra verde que fechava o buraco que havia abaixo de sua boca a fim de trocá-la por um sombreiro, qual seria sua  intenção? Seriam seus atos frutos de uma cordialidade para com os nativos? ele realmente acreditava que a pedra verde tinha pouco valor? ou começava ali o processo de exploração de um  povo e das riquezas de sua terra?

Mas adiante, Caminha percebe que o povo já não está tão arredio, o que torna fácil uma aproximação maior. Por fim, conseguem a confiança deles, é o que nos mostra um trecho da carta: "E tanto que desembarcarmos, alguns dos nossos passaram logo o rio e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo era de maneira que todos andavam misturados (...) Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas (...) e resgatavam nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos e setas e contas".

Pelo relato de Caminha, percebemos que os portugueses conseguem a confiança e a amizade do índio, já que estes ignoram, e nem se apercebem da real intencionalidade e da malícia dos portugueses, mascarada sob a forma de virtude e boa vontade. Assim, cautelosamente invadem o território indígena brasileiro a procura de riquezas. Tudo se encaminhava como os portugueses esperavam.

Ao final da carta, Caminha escreve que não puderam saber se havia ouro ou prata nessa terra e que nem lhas viram, todavia, tinham conquistado o povo. Fato importante, para posteriormente, invadirem o território indígena brasileiro a procura de riquezas. Como diz o ditado, prepararam muito bem a cama para depois deitar e rolar sobre o povo indígena e explorá-los.

 

Referência Bibliografica

A Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: http://docente.Ifrn.edu.br/paulomartins/livros-classicos-de-literatura/a-carta-de-pero-vaz-de-caminha-em-pdf.