A Arte Sacra Ortodoxa e Seu Triunfo Final

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 15/09/2026 | História

É fértil a historiografia a nos informar sobre a queda de unidades geopolíticas. Não óbvia, porém, se torna a afirmação de que mudanças religiosas nem sempre acompanham os câmbios governamentais. E é isso o que podemos assinalar a respeito do Império Romano do Oriente (ou seja, "Império Bizantino") e suas religiões oficiais.

O Império Romano, antes unificado sob a Religião Católica Apostólica Romana, teve, em razão da iminente derrocada do seu conjunto, ocasionada pela crise econômica da supressão da mão de obra escrava estrangeira, até então oriunda dos territórios sob sua ocupação, a administração dividida em 395 d.C. O Império Romano do Ocidente viria a cair em 476 d.C. e sua substituição se daria, na Europa, por reinos bárbaros e regimes feudais, aspirantes à confissão Católica Romana. Já o Império Romano do Oriente permaneceu politicamente estável, mas também seguidor do Papado.

Se, na soma da totalidade territorial, o ramo cristão da religião se manteve o mesmo, a arte sacra pouco diferia. Numa das variações, de cunho eminentemente estético, nas Igrejas ocidentais dos reinos bárbaros e feudos mais frequente era a existência, acima dos altares, de imagens esculpidas de Cristo, pendurado numa cruz retalhada de madeira. Era, e ainda é, literalmente o sacrifício do Cordeiro. Já nas Igrejas orientais mais comum se tornou a imagem bidimensional de Cristo, pintada sobre uma parede ou gerada em vitrais (às vezes, até mesmo em mosaicos sobre o chão), em que Ele é retratado não no ato de sacrifício, mas em pinturas mais sóbrias e impessoais, com os cabelos escurecidos, olhos grandes e uma das mãos com o indicador e o polegar se tocando, enquanto os demais três dedos se erguiam, significando a Santíssima Trindade.

Em relação aos crucifixos de uso pessoal, os da Igreja ocidental continham apenas duas madeiras, uma horizontal e outra vertical, sobre as quais era preso Seu corpo. Quanto aos da Igreja oriental, trata-se de uma cruz formada por três madeiras pregadas horizontalmente (sendo uma propositalmente inclinada) e outra vertical, também formando o calvário do Nazareno.

Ocorre que um dos pontos coincidentes das geograficamente distantes artes sacras era o culto e adoração a imagens sagradas. Por volta da década de 720 d.C. houve, no Império Romano do Oriente, um evento de destruição de ícones do Catolicismo Romano, pela historiografia chamado de "Crise da Iconoclastia". Tendo como pano de fundo a insatisfação da população bizantina com suas condições sociais, aliada ao luxo em que viviam os monges, as imagens eram severamente danificadas, em atos de revolta (a isso pode-se acrescentar, também, a influência decorrente do contato com as religiões judaica e muçulmana, também ali presentes mas sem os status de oficiais, e cujas doutrinas proibiam o culto e adoração a imagens)

Assim, para evitar uma crise maior que pudesse ocasionar sua Queda, no final daquela década o Imperador Romano do Oriente (ou seja, Bizantino), Leão III, proíbe o respectivo culto e adoração, sendo fortemente apoiado pelo Movimento Iconoclasta.

Mas, até dois séculos após, num dos concílios da Igreja Católica Apostólica Romana, foi decidido pelo retorno das imagens aos locais de culto e adoração, com a livre veneração: por volta de 843 d.C. passou a ser comemorada, e ainda mais fortalecida, após o Grande Cisma de 1054 (que dividiu a Igreja Cristã em duas, a Católica Apostólica Romana e a Católica Apostólica Ortodoxa, esta oficial do Império Bizantino), nos territórios que faziam parte do Império Romano do Oriente, o "Triunfo da Ortodoxia", com a celebração de suas Igrejas, da arte sacra, da doutrina e da liturgia, num orgulho multinacional, ainda hoje, festejado nos países antes parte do Leste, como Sérvia, Albânia, Macedônia do Norte, Bulgária, partes da Croácia, Hungria e Ucrânia. E, também, da própria Turquia. E, uma curiosidade: o símbolo, no canto superior esquerdo do pavilhão nacional grego, é a Cruz da Ortodoxia.

Que histórias de liberdade religiosa, como esta, tenham o mesmo fim. num mundo tão negativamente marcado por narrativas de perseguição e xenofobia.