A Arte Medieval Catalã: Um Patrimônio Material em Frequente Leitura Política

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 18/07/2026 | História

A contemplação da arte nos revela um dos maiores dons do gênio humano, o da expressão de sentimentos não pela linguagem vocal ou corporal, cravando, muitas vezes, o momento por que a passa a sociedade em que o artista vive. Dessa tendência não escaparam as sociedades medievais. Para que se entenda melhor, aqueles que puderem deveriam visitar o Museu Nacional de Arte da Catalunha, em Barcelona, na Espanha. Por se situar nos limites entre os antigos Reino Visigótico e Sacro Império Romano-Germânico, pôde bem captar a emoção artística de quem viveu sob os regimes feudal e senhorial, muito embora as obras de expoentes dos dois lados estejam divididas em românicas (até o século XI) e gótica (do século XI ao XV).

A Idade Média tem, nas suas obras, uma temática obrigatoriamente religiosa, sendo a arte românica a que deu identidade à chamada Alta Idade Média: um período em que as sociedades feudais e senhoriais estavam se formando e, portanto, havia a esperança de o Messias salvador cristão trouxesse luz, bem como o fim da fome e das pestes aos que se convertiam, voluntariamente ou à força, e procuravam nas grandes propriedades (embriões dos futuros feudos, no que seria o Sacro Império, ou propriedades senhoriais, se estivermos a falar da Península Ibérica) a sonhada estabilidade, diante da imensa descentralização e consequente ruralização do que foi um dos maiores impérios do mundo. Os voluntariamente convertidos, em cristãos e como artistas, utilizavam tonalidades escuras e pouco definidoras a retratar, constantemente, castelos e cavaleiros medievais, religiosos, senhores feudais e líderes senhoriais, o Papa e até mesmo Cristo. Enquanto a esperança não se restaurasse, de forma a debelar a incerteza da fome e das pestes, mais a arte relativa ao compulsório cristianismo serviria como um catalisador que permitia expor as angústias de quem vivia na submissão à teocracia continental, então instalada numa violentíssima realidade de interesses (inevitavelmente retratada pelos artistas do estilo românico, eivados de uma desesperança que fez de suas pinturas registros óbvios da combinação da tristeza coletiva, por meio de imagens e personagens em contextos sombrios, não apenas nas cores das tintas, mas indefinição dos protagonistas, por vezes pouco nítidos, retratando-os como  quaisquer escravos ou servos cuja instabilidade alimentar e salutar era proporcional à lealdade devida aos brutais caprichos dos sistemas em que sobreviviam).

Mas é consenso entre os historiadores que no ano 1000 d.C. já havia sido atingido o que hoje denominamos de Baixa Idade Média, com a consolidação dos sistemas feudal (no Sacro Império) e senhorial (na Península Ibérica, além de parte desta última estar ocupada pelo árabe Califado Abássida). A religião, tanto numa região quanto n'outra, consolidada estava, reduzindo (mas não eliminando, haja vista a história das décadas e séculos posteriores) a existência de guerras interreligiosas feudais, ou restringindo-as ao combate sobre os árabes. Juntamente a um moderado aumento na produção de alimentos, a opressão dos sistemas feudal e senhorial não parecia tão evidente (embora extremamente violenta permanecesse), eis que os inimigos de plantão eram os invasores muçulmanos da Ibéria, também ocupantes de uma Jerusalém que sitiada viria a ser pelas Cruzadas.

Assim, o padrão artístico dos realizadores de então alterou-se, para o que, na atualidade, percebe-se como "arte gótica". Os controladores das terras (senhores feudais e senhorios), junto à Igreja Católica Romana, financiavam, nos locais de maior concentração populacional, grandes catedrais cujas torres alcançassem as maiores e possíveis altitudes, maximizando eventual contato com o Altíssimo, de idêntica forma que, nos seus flancos mais baixos, eram presenteados vitrais coloridos que refletiam uma iluminação multicolor, denotando o conforto e a presença de Deus. Os quadros, reprodutores dos mesmos temas religiosos que a estética românica e com contextos a mais de heroísmo, passaram a utilizar tintas mais leves e claras, respaldando a geral crença da iminente salvação da Cristandade.

Tudo, diga-se, dentro de uma realidade política objetivamente opressiva, respaldada que era nas totalitárias e impositoras crenças teocráticas, e nem sempre visível, mas, por vezes, inconscientemente assimilada por meio das supra e belas táticas de manipulação psicológica, que utilizava a arte como "pão e circo" em detrimento das eventuais lutas por libertação contra um modo de vida empiricamente submisso. E tanto assim era que, em 1231, houve condições políticas para a instalação da Inquisição, com a inauguração do maior período de fanatismo estatal já registrado na história do Ocidente.