Romantismo versus Modernismo: a dicotomia da expressão
 
Romantismo versus Modernismo: a dicotomia da expressão
 


ROMANTISMO VERSUS MODERNISMO: A DICOTOMIA DA EXPRESSÃO
Ana Christina de Sousa Damasceno1
RESUMO: A linguagem é uma constante, ela se transforma ao longo e durante a evolução da História. Com os textos e escolas literárias não é diferente. Mudam-se os tempos, as formas, os estilos e os autores e suas concepções. No presente artigo aponta-se o índio romântico brasileiro, idealizado nos moldes europeus, com características distorcidas das reais e descrito com uma linguagem lírica, rebuscada e estilizada sendo confrontado com o índio moderno que de imediato lança mão das características europeias sendo mostrado como realmente se comporta com todas as artimanhas e espertezas, quebrando assim qualquer idealização feita anteriormente pelos escritores românticos. A linguagem utilizada no Modernismo brasileiro é a falada cotidianamente, o índio Macunaíma de Mário de Andrade, é um relato claro da forma de expressão utilizada no século XX, com palavras na língua da tribo Tapanhumas entre outros regionalismos, no entanto Juca Pirama de Gonçalves Dias é um poema épico que traz em sua linguagem lírica traços europeus, que mesmo com característica nacionalista indianista, pela linguagem nota-se um índio brasileiro a moldes europeus. As mudanças contidas dentro desses dois autores em relação às grandes obras da literatura brasileira serão analisadas profundamente nas seguintes páginas.

PALAVRAS-CHAVES: Romantismo. Modernismo. Linguagem.

ABSTRACT: The language is a Constant, she changes along the History. With the texts and literary school it is not different. He/she moves the times, the forms, the style and the authors. Show the romantic Indian, idealized in the European molds, with, distorted characteristics of the real and described with a language lyrical, affected and stylized being confronted with the modern Indian that immediately throws hand of the European characteristics being shown he/she really behaves with all their tricks and smartness braking any idealização done previously by the romantic writers, the language used in the Modernism is her spoken daily. Macunaíma of Mário de Andrade is a clear report in the expressions way used in the century XIX, with words in the language of the tribe Tapanhumas and Juca Pirama of in an epic poem that brings in her language lyrical European lines, that even with the characteristic of nationalist indianista for the language an Indian Brazilian europeizado is noticed. The changes contained in the language inside of those two authors in relationship the great works of the Brazilian literature will be analyzed deeply in this article.

WORD-KEY: Romanticism. Modernism. Language.
1 Acadêmica do VI Bloco de Letras Português da UESPI e Pedagoga pela FAP.

INTRODUÇÃO:

O presente artigo é uma análise crítica da linguagem e da cultura de duas épocas distintas e díspares da sociedade brasileira. As gerações estudadas, mesmo tendo como foco principal o forte nacionalismo, tratam-no de formas diferentes, concomitantemente seguindo seus moldes, sendo o mesmo nacionalismo abordado em dois momentos mas com visões totalmente divergentes. A presença marcante do índio, enquanto primeiro habitante do Brasil e sua cultura servirão de parâmetro para toda a discussão aqui proposta.
O Romantismo, ainda sem identidade e criticidade, caracteriza seu heroi
nacional, o índio, como o modelo europeu de cavaleiro medieval, dando ao silvícola brasileiro o estereótipo de bravura e força extraordinária, o que distorce a realidade vigente naquela época, sendo a sociedade composta por brancos, índios e negros , estes discriminados e considerados seres sem alma, isso sendo notório no Brasil recém independente, então exaltava-se o índio por não haver mais opções de um povo totalmente brasileiro, visto que com a recente conquista da independência brasileira o povo português não era bem quisto por aqui, o negro ocupava o patamar mais baixo da vida social e sendo escravo não tinha podia ser homenageado, sobraram-lhe o índio, para as exclamações e exortações de um heroi nacional, assim se fez, tornaram o índio brasileiro, selvagem, o centro de suas obras literárias conhecidas além mar.
O Modernismo brasileiro, não pensa assim, seus autores querem mostrar à sociedade de onde veio à nação brasileira e os defeitos existentes nela, com o principal objetivo de escandalizar, queriam levar o povo à reflexão, a ponto de tornar-se consciente de que são produtos de uma miscigenação de cores e culturas. Abordou o índio como ele é em seu cotidiano, um ser esperto e preguiçoso, cheio de malícia. A realidade brasileira do Modernismo é diferente da que se vive no Romantismo, pois se busca uma real identidade nacional, mostrando a face do brasileiro como se apresenta cotidianamente e consequentemente o lado obscuro da sociedade, tornando-se assim um neo-realismo, o indianismo moderno mostra o Brasil em seus vários aspectos, a sociedade moderna encontrava-se em pleno desenvolvimento populacional, econômico e cultural que tendia a crescer vertiginosamente com as influencias do industrialismo e a chegada de novas tecnologias, o que ocasionou a ruptura com o passado e o relacionava-se com as escolas literárias clássicas.
A cultura, a língua e a própria literatura sofreram e sofrem muita influência do cotidiano e das evoluções tecnológicas e linguiticas pelas quais as sociedades passam hodiernamente, tentando, pois assim aprimorar suas técnicas e evolução para acompanhar com igualdade o avanço dos tempos e não ficar retida em um determinado estado de inércia.
É importante ressaltar que o romantismo não tinha a preocupação de reconstituir uma versão histórica e real da sua vida presente, e sim tentava encontrar e impor valores à seu publico leitor. Diante a isso se defronta o modernismo com sua luta social por identidade verdadeiramente nacional, com a cara do brasileiro.
O artigo ora exposto estuda a dicotomia existente entre as duas escolas literárias, o Romantismo do século XVIII, com seu nacionalismo exacerbado e meio equivocado e o Modernismo do século XX, com seu nacionalismo com a face do brasileiro, enquanto nação miscigenada por várias etnias, sendo o foco das duas escolas as obras: I-Juca Pirama de Gonçalves Dias, romântico, e Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter de Mário de Andrade, moderno.

LITERATURA, CULTURA E LINGUAGEM

Ao longo dos séculos ocorreram as evoluções das línguas e as formas de expressão encontram-se cada vez mais variadas. De modo que a literatura sofre influências históricas, linguísticas e culturais no decorrer de sua trajetória, mudanças estas que se refletem nas artes e no modo de pensar e agir de uma geração. Sendo a literatura o resultado das discussões e pensamentos ligados a uma determinada época e cultura. O modo de escrever e a forma de expressar-se de um autor ou uma escola leva emoção, comoção e criticidade ao leitor atento às entrelinhas da obra que embasa sua vivencia social. A emoção nas poesias ou as revoltas na prosa social mudam o pensamento critico do público leitor, bem como seu modo de agir, sendo estes os principais alvos das obras, que muitas vezes mostram ou tentam mostrar a real face da tão sofrida sociedade.
A Literatura possui a características de revolucionar épocas em diversos aspectos, deliberando modificações e avanços na cultura, na linguagem vigente e nas formas de comportamento, tudo dentro de um amplo prisma de pessoas e suas interferências, línguas e culturas, tornam-se um meio de transmissão de ideias e pensamentos.
O Romantismo, escola literária do século XVIII, foi um movimento artístico, político e filosófico, no qual possuía como principais características uma visão de mundo contrária ao racionalismo, marcou o período neoclássico e buscou um nacionalismo exacerbado e utópico na figura do índio. Também marcado por um forte subjetivismo, de modo a influenciar nas artes e na vida o gosto pela morte, a idealização perfeita do amor perfeito, a cordialidade, entre outras características.
O Modernismo do século XX possuía a característica de revolucionar as artes, nas apenas nas escritas como as prosas e as poesias, mas também na escultura, na arquitetura, na pintura e na música. Os modernistas afirmavam que as formas tradicionais destas artes estavam obsoletas e queriam deixá-las para trás, criando-se assim, em cima delas, uma nova cultura, com novas e modernas artes, sem rigores e sem subordinações a cerca dessa arte.
Ambas as escolas citadas possuíam um forte sentimento de nacionalismo, ponto único e fixo que elas se encontram e comungam de sua valorização, mesmo que de formas bastante diferentes, fato este que as aproximam de certo modo e se entrelaçam, ao serem analisadas a cultura escravista no romantismo e a libertadora no modernismo, mudam-se os tempos e as oportunidades que caminham para o desenvolvimento da sociedade.
A linguagem evolui e se transforma, ou melhor, é transformada pelos falantes, que também mudam suas preferências, opiniões, criticas e pensamentos. Não obstante as escolas literárias ressaltarem o nacionalismo e a criação de uma identidade nacional, o que Mao as deixa em um mesmo patamar, os modernistas satirizam a linguagem e a cultura romântica vários textos de sua vasta produção.

ROMANTISMO

O romantismo surgiu na Europa, no século XVIII, numa época que a rebeldia dos intelectuais imperava dentro da sociedade e da vida cotidiana, onde caracterizou-se como uma visão contraria ao racionalismo que muito marcou o período neoclássico e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os estados na Europa.
No Brasil as ideias do Romantismo chegaram à plena independência política, em 1822, junto com o Segundo Reinado de D. Pedro II, este que muito apoiou aos intelectuais e artistas brasileiros da época, tornando no Brasil o romantismo um projeto oficial expressando a sua profunda ligação com a política.
O movimento romântico marcou profundamente a literatura brasileira, com suas poesias e romances. José Antônio Saraiva conceitua assim o Romantismo:

"Ora, deixando de lado outras discussões prévias que o assunto implica, pensamos que o romantismo se deve caracterizar em função das relações entre o escritor e o público em dado momento da História da civilização europeia ocidental. Abreviando: o romantismo é a expressão literária da época em que o escritor entra em contato com as massas burguesas em fase de ascensão".
(Saraiva, 1972, p.85)

Onde se esboça para a época o que era o romantismo, uma forma de fuga dos problemas sociais, nos quais se procurava aconchego nas artes, fazendo também uma ligação clara da interação e da influencia que o autor detinha em detrimento ao pensamento e comportamento da sociedade naqueles anos românticos.
As principais características do Romantismo são: o subjetivismo, o pessimismo, um excêntrico gosto pela morte e um forte nacionalismo. Na Europa difundiu-se em uma única fase sendo esta marcada por todas as características acima citadas, detendo um forte teor do chamado mal do século, uma tristeza sem fim e exortação da morte, já no Brasil passou por três fases: a primeira conhecida como nacionalista ? indianista, a segunda chamada ultra-romântica e enfim a terceira denominada Condoreira que tinha por temática a liberdade.
Iremos nos deter em analisar e refletir aqui a cerca da primeira geração romântica que tinha como projeto literário encontrar o heroi nacional brasileiro, por isto a preocupação com o passado. Nesse passado encontra-se o índio, onde é visto como a figura real do heroi nacional.
Antônio Gonçalves Dias é o autor romântico, que tão bem retrata esse nacionalismo na figura do índio, que tinha um espírito nobre, honroso, leal, franco, que em muito se assemelhava ao cavaleiro medieval, sendo assim um reflexo do medievalismo europeu.
O índio figura central dessa fase, possui na obra retratada, uma força física descomunal, muita coragem e sendo moral. Seus incontestáveis atributos eram oriundos da perfeita sintonia homem/natureza muito exaltada na época.
O poema épico indianista, I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, publicado no livro Últimos Cantos, em 1851, é o mais importante poema indianista do autor, composto por dez pequenos cantos, caracterizado pela força da paisagem e a riqueza de ritmos, oferece todos os elementos da geração indianista como as lutas, a honra, a coragem e a força física extraordinária, pois relata a história de um guerreiro tupi com todas as características já mencionadas, sendo assim o exemplo mais forte do índio brasileiro "europeizado", visto que possui sentimentos e comportamentos que não são próprios de sua cultura, o indígena romântico é puro e simplesmente idealizado nos moldes europeus, seguindo a risca a idéia do heroi cavaleiro medieval.
No poema Juca Pirama é descrito como a forma perfeita e ideal de corpo masculino, sendo ele bravo, forte e corajoso, que muito faz por sua tribo, sendo capaz de se oferecer em sacrifício pelo seu povo, sinônimo de liderança e coragem.
Vejamos as estrofes inicias da obra de Gonçalves Dias:

Meu canto de morte,
Guerreiros ouvir:
Dou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante, que agora anda errante
Por fardo inconstante,
Guerreiros nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte
Guerreiros ouvir.
(Gonçalves Dias, 1851)


Juca Pirama, o heroi do poema épico de Gonçalves Dias, é um guerreiro da tribo Tupi, que enfrenta a morte em sacrifício a liberdade de seu pai, que foi aprisionado pela tribo Timbira. Percebe-se no poema o lirismo presente nas rimas e a profunda exaltação da coragem do índio, este que representava a figura nacional, é elevado à categoria de heroi. Dando forte impulso a uma visão da cultura indígena, o índio seria posto num patamar acima do europeu, visto que ainda não se contaminara com a civilização. O poema possui uma concepção épico-dramática, com rimas e linguagem rebuscada e com forte teor lírico, de acordo com o poema segue-se um modelo de poesia digna da mais contundente obra de Gonçalves Dias, que também teve destaque nas poesias românticas.
Dias traça as trajetórias do índio que vive em plena comunhão com a natureza, possuindo fortes valores medievais. Pretende, assim, com seu personagem compor um retrato de uma nova nação, porém centraliza no índio brasileiro características distintas da sua, dando-lhe traços físicos, psicológicos e culturais dos europeus, o que ocasiona na desfiguração da imagem do primitivo brasileiro, visto que este ainda estava em pleno contato com a natureza e não possuía tão perfeito porte e muito pouco aparentava tantos atitudes nobres e requintadas, sendo na maioria das vezes um ser da mata, que vivia dela e para ela
Toda a linguagem romântica é baseada no lirismo e a cultura na época, mesmo em terras brasileiras era a exemplo do medievalismo, o que torna a sociedade e a produção romântica muito próximas dos moldes clássicos, dando-lhes conotação de utopia e quimera, o índio romântico jamais seria verdadeiro e sua cultura não se aproximava em nada da europeia, pois o índio era livre, vivia como predestinava-se na sua tribo, ambas as culturas e línguas eram distintas e quase incomparáveis, tornando o romântico apenas num idealizador de realidades utópicas, sendo que o espírito revolucionário romântico não saiu das prosas e poesias.

MODERNISMO

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil estava no caminho da modernidade, o país passava por sérias transformações, São Paulo encontrava-se em crescente desenvolvimento industrial, os imigrantes estrangeiros chegavam à grande metrópole trazendo mão-de-obra barata e qualificada, o que gerou a aceleração na urbanização e na modernização, mesmo que em muitos pontos precárias, tornando-a um ícone de progresso brasileiro. Profundas modificações aconteceram na sociedade, na política e na economia acarretaram numa grande mudança nas artes e na cultura dos jovens artistas da época. De um lado a oligarquia, do outro a camada marginalizada e sem poder, essa desigualdade fazia surgir greves e revoluções.
Diante a essas revoluções nas mais distintas esferas sociais, Mário de Andrade, o papa do modernismo brasileiro, conceitua esse movimento em seu discurso que muito revolucionou a sociedade vigente na época, na conferência " O Movimento Modernista", em 1942:

"Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática europeia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil uma outras causas internacionais, os progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de um espírito de irreverência e remodelação da inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o bravo coletivo principal".
(Mário de Andrade, 1942)


Todo esse contexto de aceleração da modernidade, com ideias provindas da Europa e dos Estados Unidos, a proliferação dos pensamentos do surrealismo, do dadaísmo e do cubismo, tidos como arte em forma de manifesto, jovens artistas em contato com as mudanças nas artes estrangeiras coadunam com o sentimento de ruptura com todo o pretérito das artes no Brasil, surge assim o Modernismo brasileiro, que tem seu estopim a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, onde reuniu os artistas e as várias atividades propostas por eles, como leitura de poemas, exposição de artes plásticas e danças. O evento foi significativo, pois além de marcar um possível ?novo? rumo às artes, tinha em meio seus idealizadores artistas talentosos e ansiosos por renovações.
O modernismo brasileiro é dividido em três fases: a primeira que se caracteriza como a mais radical e completamente contrária a tudo que foi anterior, era irreverente e escandalosa, a segunda foi mais aprazível, formada por grandes poetas e romancistas e enfim a terceira que também fora chamada de pós-moderna, posto sua posição de discordância da agressividade das ideias da primeira geração.
A fase que mais caracteriza o modernismo e seus ideais de ruptura é a primeira, esta veio para chocar a todos, dando uma nova força motriz e uma nova face à poesia e a prosa brasileiras. Havia uma incansável busca por tudo que era original, moderno e que escandalizasse, declara a ruptura de pensamentos com o tradicionalismo cultural ligado as escolas literárias anteriores.
A fase heróica tem em Mário de Andrade, o retrato da revolução principalmente na sua prosa, suas obras causam desvario na cabeça de seus leitores, escandaliza o burguês e persegue seus antecessores. Lutava por uma literatura brasileira enfocando a cultura e a linguagem vivenciada no Brasil, bradava o anti-romantismo.
Dentre as obras de Mário de Andrade, a que mais aponta o sentimento de engrandecimento da cultura e do povo brasileiros com seus defeitos, devaneios, malícia e preguiça, é Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter, livro publicado em 1928, é resultado de uma pesquisa do autor a cerca das mais inúmeras e fantasiadas lendas amazônicas. Segundo as lendas, Macunaíma é um deus indígena, seu nome significa ?o grande mau?, e a característica desse deus é de reunir em si o bem e o mal. Macunaíma é um anti-heroi da literatura brasileira, o que cabe desobedecer ele faz da maneira que ele julga melhor, ou seja, o que for melhor para si.

"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, heroi de nossa gente. Era preto retinto e folho do medo da noite. Houve um momento em que o silencio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar, exclamava: - Ai! Que preguiça!..(...)".

Vê-se no fragmento acima da obra Macunaíma, a total face desordeira e preguiçosa do novo heroi nacional e também a utilização de palavras da cultura indígena e do cotidiano, como sarapantar que significa hoje espantar. Macunaíma é antagônico a todas as características do índio brasileiro, que na verdade não ver no índio a sua identidade nacional. O povo brasileiro é resultado de uma grande miscigenação nacional, que acarretou a não-formação dessa identidade, não sabendo até hoje quem é o povo brasileiro. A obra de Andrade representa o lado preguiçoso e esperto da sociedade vigente no Brasil na época em que se propagaram as ideias modernistas.
É uma obra bem aos moldes modernistas que assusta e quebra qualquer ligação com o tradicionalismo erudito do passado. É uma analise e resumo de culturas que se mesclam em uma só personagem, Macunaíma, a história se mistura com lendas, tradições e, o heroi Macunaíma é o resultado dessa mistura do índio com o branco e com o negro, tem o domínio da magia e é muito sensual. A linguagem utilizada por Mário é a mesma usada na tribo de Macunaíma, assim como vocábulos usados no dia a dia brasileiro.
A cultura tenta se aproximar com as tribos, apresentado o índio um ser que se caracteriza pela preguiça e malicia, a língua na obra é mesclada, usando-se vocábulos indígenas e coloquiais, que de certa forma, enaltecem a cultura e a língua brasileiras.

O NACIONALISMO ROMÂNTICO E MODERNO

O sentimento de nacionalismo presente nas escolas literárias estudadas neste artigo é distinto, pois sua língua e cultura das épocas divergiam entre si e a concepção e exaltação do nacionalismo também se diferenciavam.
Comparando-se os nacionalismos:
O Romântico: "O nacionalismo é o traço que caracteriza a literatura que essa primeira geração romântica realiza, sobretudo o indianismo e a descrição da natureza" (Emília Amaral, 2000) e o Moderno: " o modernismo brasileiro pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do movimento europeu, ao mesmo tempo que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira" (Ernani Terra, 2004). Nota-se nas frases acima a analogia entre ambos nacionalismos, apenas os igualam na retomada de valores passados e na elevação e exortação da cultura brasileira na pessoa do indígena.
No nacionalismo romântico a identidade nacional era pautada no modelo europeu, com lirismo, erudições que nada estavam presentes no linguajar do índio no meio do mato, bem como a hipocrisia da comparação, pois ao comparar a realidade da cultura indígena com a sociedade europeia da época, ou o índio como os inponentes cavaleiros medievais, distorcia-se a realidade, criando assim apenas uma cultura idealizada e utópica. Essa comparação é ilógica, pois língua e cultura, brasileira e europeia, em nada se podem comparar, e ao querer se criar uma cultura com identidade nacional tem-se como modelo o europeu que banalizou e dizimaram as populações indígenas e que nada queriam com a terra conquistada, apenas explorá-la.
A face moderna do indianismo veio para radicalizar a visão distorcida criada para o índio no romantismo, mostrando apenas como era sua vida no mato selvagem e o que sua cultura o fazia realizar. Mário lutou por uma língua que se aproximasse ao máximo a da falada na sociedade brasileira, especificamente na sociedade indígena.
Ambos os movimentos literários tinham por primordial objetivo exaltavam o gosto pelo que se relacionava com o nacional e elevavam, com todos os sons, a forma de expressão brasileira. Visto que mesmo com visões e linguagem divergentes a cerca do índio, buscavam suscitar na população uma real valorização do povo indígena.
Diante o exposto, vê-se que de igual forma o nacionalismo foi exaltado e defendido em distintas épocas e culturas, porém de formas diferentes, considerando a sua legalidade, de modo que com o evoluir da História ocorrem rupturas e mudam-se os pensamentos. No entanto o que se estima é o esforço e a força que possuem esses nacionalismos, tendo em relação à exaltação ao povo, a sua língua e a sua cultura. É de crucial importância o culto ao que de mais importante temos na sociedade, o brasileiro sem suas lutas e conquistas passou por inúmeros conflitos dentro de sua historia para firmar-se como sociedade, o que de algumas formas não faziam dele um povo feliz, o fato de obras literárias exultem a esse tão sofrido povo, dava-lhes, de certa forma, uma elevada auto-estima.

JUCA PIRAMA VERSUS MACUNAÍMA

Os heróis indianistas, não se comparam em nada.
Juca é imponente e perfeito de corpo e de força, mostra-se como o mais valente heroi de sua tribo, é uma típica cópia do cavaleiro medieval, é calmo, prestativo, pensa sempre no bem-estar de seus próximos e não deixa que nada abale sua tribo de forma que é um líder verdadeiro, que se sacrifica a pedido do pai, em honra a sua tribo, para não envergonhar seu povo, põe-se a encargo do pai que lhe pede que se ponha a disposição do inimigo para que seja sacrificado de forma gloriosa, faz-se necessário ressaltar que seu porte físico era impressionante e possuía uma força extraordinária, dando ao índio a língua culta dos brancos, sem nada enfocar a sua própria linguagem.
Macunaíma é preguiçoso e maquiavélico, trama vários planos para se dar bem, não preocupando-se em momento algum com seus companheiros de tribo, sente medo, não possui um belo porte físico e nem uma bela fisionomia, é feio, mesmo sendo caracterizado por exaltar-se como sedutor e invencível, consegue enganar até seus deuses, dando total desprezo pelo trabalho, sua frase mais costumeira é: - ai, que preguiça! Mostrando sua preferência pelo estado de inércia constante. É um misto de romance, epopeia, mitologia, folclore e história, traça um perfil brasileiro, com seus defeitos e virtudes, criando a saga de um heroi sem nenhum caráter.
Ambos são índios e são ressaltados em grandes obras da Literatura brasileira, o que os opõem são as épocas e o modo como se comportam Dante às suas realidades. A coragem e a falta dela, suas forças físicas e morais. Aproximam-se enfim na busca em que os autores realizam de exaltarem o nacionalismo, utilizando a figura do índio, primeiro habitante do Brasil, como heroi e como anti-heroi nacional, não seria realmente esse índio a cara do povo brasileiro? Acredita-se na forte influência desse povo em todas as culturas e linguagem falada no Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do artigo ora exposto, vê-se enaltecida a dicotomia brasileira existente entre os nacionalismos, a mesma designação pela paixão ao país de origem, mas que é vista e sentida de formas diferentes ao longo dos anos, sendo eles o romântico e o moderno, que ao defrontarem seus índios , dão-lhes diferentes comportamentos e pensamentos. Eles sendo representantes maiores de suas tribos, sendo que um preocupa-se com o todo e busca ajudar aos demais, protegendo os seus e respeitando as regras impostas pela hierarquia de sua cultura, o outro mostra a fascinação pelo dinheiro, pela cidade grande e tudo que vai de encontro com os costumes e valores da sociedade.
As obras apontam a sociedade e linguagem diferentes, de forma que levam os leitores a refletirem sobre o andar e as evoluções sofridas pelas sociedades, as visões tidas do povo e a sua evolução, e também as inúmeras variações da língua e sua evolução histórica dentro das sociedades.
O poder das reflexões destas obras é visto no modo de como se vê o nacionalismo hoje, quais movimentos de hoje elevam de alguma forma a cultura brasileira vigente. O nacionalismo foi foco de várias outras escolas literárias e muitos outros autores o retrataram tal como ele é, a exaltação da sua terra e de sues valores, porém em Juca Pirama e Macunaíma, nota-se em alto relevo a contemplação de uma forte vertente de defesa do brasileirismo, mesmo que de formas antagônicas.
Releva-se que a cultura e a língua brasileira estão em continua aprimoração e evolução, cabe a sociedade ressaltar o que se tem de mais importante para o povo e nomear quais são seus herois nacionalmente hoje em dia, a incumbência de verificar os novos paradigmas na língua e na cultura brasileira, dá-se dentro dos centros acadêmicos e no âmago dos grupos sociais, que devem preocupar-se em encontrar sua verdadeira face em algo que represente seus ideais como um todo.
Mário de Andrade e seu índio Macunaíma e Gonçalves Dias com Juca Pirama são exemplos de paixão e clareza nacional a cerca da grande riqueza que encontrava-se e encontra-se a linguagem, a cultura e o pensamento do povo brasileiros em suas mais pequenas singularidades.











REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. Rio de Janeiro, 1942.

AMARAL, Emília. Português: novas palavras: literatura, gramática e redação. et al, São Paulo: TTD, 2000.

CEREJA, Willian Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: Linguagens. São Paulo, Atual Editora, 2003, cap. XVI.

GONZAGA, Sergius. Manual de literatura brasileira, mercado aberto. Cap. III. Porto Alegre, 1985.

SARAIVA, Antônio José. Para uma história da cultura em Portugal. 3. ed. Lisboa: Europa ? América, 1972.

SILVA, Vitor Manuel de Aguiar. Teoria da literatura. 1. ed. Brasileira. São Paulo, Martins Fortes, 1976.

TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português de olho no mundo do trabalho: volume único. São Paulo: Scipione, 2004.

TAVARES, Hênio. Teoria literária. 4. ed. Belo Horizonte, Editora Bernardo Álvares, 1969.


 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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