Os gêneros literários empregado na obra O Uruguai de Basílio da Gama
 
Os gêneros literários empregado na obra O Uruguai de Basílio da Gama
 


               Os gêneros literários empregado na obra O Uruguai de Basílio da Gama

 

            A “correta” classificação do genro literários da obra Uruguai costuma provocar divergências entre os estudiosos da literatura. Mesmo sendo considerado um poema épico, percebe-se nele nítidos trações dos gêneros dramático e lírico (até porque um só gênero predomina em uma obra, mas “não existe gênero puro”, pois as características de cada um podem ser notadas nos outros), com qualidades como o heróico, o caricatural, o didático e o laudatório. Da mesma forma, a pluralidade de estilos se evidencia no texto que carrega as marcas do Neoclassicismo, mas também apresenta aspectos que antecipam o Romantismo. Dessa imprecisão e, dessa mescla de gêneros, originava-se boa parte do atrativo que O Uruguai mantém até a sua atualidade.

Gênero Épico

            O Uruguai contém os elementos essenciais do formalismo épico: proposição, inovação, dedicatória, narração, falas de personagens, retrospecção e maravilhoso. Formalmente diferencia-se, porém, de um modelo acabado de epopéia, por conter apenas cinco segmentos em oposição aos tradicionais dez segmentos de um poema épico, pela ausência de esquematismo rítmico e falta de recurso à mitologia com seus personagens sobre-humanos (deuses, monstros, etc). Quanto ao sentido do poema, o espírito da poesia épica está completamente ausente.

            Apesar de O Uruguai trabalhar um fato histórico, característica ideológica do gênero épico, falta o distanciamento temporal necessário entre o autor e o assunto tratado, o qual era um acontecimento recente, portanto, imune ao clima de idealização requerido pelo gênero.

            Na epopéia, o herói-protagonista lidera e conduz toda a ação, sobressaindo-se por sua bravura, altivez e estatura moral. Em O Uruguai, percebe-se a indecisão do autor em atribuir perfil heróico e ora ao Capitão Português, ora aos índios Cacambo e Sepé.

Gênero Dramático

            A sequência das ações de O Uruguai se aproxima das grandes tragédias Shakespeareanas. A história de amor de Cacambo e Lindóia e o final trágico reservado aos dois amantes lembram o clássico “Romeu e Julieta” e em especial a beleza da cena da morte de Lindóia se assemelha à de Julieta, ambas buscando o suicídio ao saberem da morte do bem amado. A obra de Basílio da Gama ainda se assemelha às tragédias inglesas pelos troços cômicos, pela atuação de personagens ridículos, e das tragédias francesas pela forte conotação política. Deve-se atentar, ainda, para a divisão do poema em cinco partes, própria das tragédias, e para a relativa desobediência de Basílio às unidades dramáticas, presentes nas tragédias desde os gregos.

            O objetivo dramático é sensibilizar o leitor (nesta obra) para que este reflita e desperte sobre o que lhe foi exposto.

Gênero Lírico

            Considerando-se que o lirismo se caracteriza pela subjetividade e pela emoção, opondo-se, portanto ao distanciamento e à objetividade na narração dos fatos de que se valem as epopéias tradicionais, então é lícito afirmar que O Uruguai é, primeiramente, lírico.

            O sentimento amoroso, tema lírico por excelência, aparece em O Uruguai na história de Cacambo e Lindóia. Diversas emoções como: ira, dor, desespero, indignação, horror e compaixão provocam ao leitor da obra, através da voz do narrador e da fala dos personagens, ou seja, o autor desperta o lado emocional, através da exaltação dos sentimentos. Outros recursos líricos são utilizados por Basílio da Gama ao longo de quase todo o poema, como as metáforas e alegorias, o hipérbato e as apóstrofes.

Análise – Os personagens

            Gomes Freire de Andrade – General português líder da campanha. Não comete ações propriamente heróicas, muito menos guerreiras; executa ordens, mas não comanda o desenrolar dos acontecimentos. Seu comportamento contrasta com a bravura dos índios que não temendo a morte buscam desarmados a presença do General o qual: “não podia marchar por um deserto. O nosso general, sem que chegassem. As condições que há muito tempo espera”.

            Cacambo – chefe indígena que aparece como grande líder, com estatura moral e bravura de herói, que morre assassinado por envenenamento. Foi sensato ao tentar humildemente evitar a guerra a demonstra valentia enfrentando desarmado o General. “Eu desarmado e só buscar –te venho, tanto espero de ti. E enquanto as armas dão lugar à razão, senhor, vejamos se pode salvar a vida e o sangue de tantos desgraçados”.

            Lindóia – índia, esposa de Cacambo, é a personificação da beleza, da fidelidade e do amor eterno. Após a morte de Cacambo ela se suicida com a picada de uma cobra. “Cansada de viver, tinha escolhido para morrer a mísera Lindóia...”

            Balda – padre jesuíta caricaturizado, representa o papel de vilão, astucioso e perverso que no desejo que Lindóia se casasse com seu filho, envenena seu esposo Cacambo. “Por meio de um licor desconhecido que lhe deu compassivo o santo padre”.

            Sepé – outro chefe indígena que, com sua impulsividade, precipita a guerra. É morto pelo governador covardemente. “No corpo desarmado estrago horrendo...quis três vezes levantar-se do chão: caiu três vezes... morto o grande Sapé, já não resistem as tímidas esquadras”.

            Tatu – Guaçu – Valente guerreiro indígena. “Tatu – Guaçu mais forte na desgraça já banhado em seu sangue pretendia por seus braços ele só pôr termo à guerra”.

            Caitutu – índio guerreiro destemido forte que buscava defender seu povo, irmão de Lindóia que tenta salvá-la da morte, mas chega tarde demais. “Caitutu de outra parte altivo e forte o punha o peito à fúria do inimigo, e servia de muro à gente”.

            Tanajura – espécie de bisavó da índia Lindóia, vidente indígena com poderes de prever o futuro; é queimada viva, presa na sua choupana. “Mas a enrugada Tanajura, que era prudente e experimentada... e lia pela história do futuro...”

A obra

            Apesar de apresentar a divisão tradicional em Proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo, O Uruguai quebra essa estrutura ao iniciar o poema.

            O poema é curto, pois consta de apenas cinco cantos sem divisão em estrofes, compondo-se de versos decassílabos, de acentuação variada e sem rima (versos brancos). De estilo simples, a obra traz a descrição sincera dos elementos da natureza, de cenários paradisíacos, como na cena da morte de Lindóia provando sua íntima ligação com a escola árcade.

            No primeiro dos cinco cantos apresenta-se a “Proposição”, o herói português Gomes Freire, na sua conquista a território do antigo Uruguai; a “Invocação” à musa inspiradora; a “Dedicatória” do poema a Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal; inicia-se a “Narração”, apresentando o herói quando se prepara para enfrentar os índios; a enumeração da “Galeria dos Heróis” que acompanham Gomes Freire; a descrição do “Banquete” de confraternização dos capitães, durante o qual se dá a “Narração do Herói” que conta episódios da campanha anterior, de 1754, quando as tropas aliadas espanholas e portuguesas não conseguiram desalojar as povoações indígenas, devido às enchentes do rio Uruguai.

            Neste primeiro canto, pode-se observar a narração de um fato, o que realmente dá a idéia de obra épica, porém nota-se aqui a ausência de rimas e recursos mitológicos necessários às obras épicas. E ainda o uso de recursos líricos como personificação:

“Dura inda nos vales, o rouco som da irada artilharia”.

            No segundo canto inicia-se a narrativa da guerra. Após dias de marcha, ao se aproximar do local de combate, se apresentam a Andrade os chefes indígenas Cacambo e Sepé, na tentativa de convencê-lo a desistir da guerra, porém, não havendo acordo, inicia-se a batalha travada entre índios e conquistadores; os brancos (espanhóis e portugueses).

            No segundo canto continua-se a narração de um fato histórico, contudo observa-se ao longo de todo o canto a forma como são narradas a violência dos brancos e a morte dos índios fazendo com que o leitor seja sensibilizado, oq eu é uma característica do gênero dramático. Ao longo de todo este canto apresenta-se também o uso de recursos líricos, como por exemplo, os hipérbatos. “...Debalde está diante e anima os seus o rápido Cacambo. Deixa Tatu – Guaçu por onde passa rios de sangue...”

            O canto terceiro nos mostra o chefe Cacambo tendo um sonho com Sepé o qual lhe diz para se vingar dos brancos ateando fogo em seu acampamento. A pós realizar o que lhe pede Sepé, Cacambo volta para sua aldeia onde o Jesuíta Balda manda prendê-lo e o envenena. Paralelo a isso, a feiticeira Tanajura faz com que Lindóia tenha visões com a cidade de Lisboa que foi destruída em 1755 e depois reconstruída.

            Observa-se neste terceiro canto que a narração da morte de Cacambo causado por Balda, padre Jesuíta em quem este confiava, vem a sensibilizar o leitor por este morto injustamente por alguém maquiavélico, esta característica, a sensibilização do leitor é característica de obras dramáticas.

Nota-se ainda neste canto a presença do sentimento amoroso existente entre Cacambo e Lindóia, o que é por excelência um termo lírico. “...com ditosos laços, a mor os tinha unido; mas apenas os tinha unidos, quando ao som primeiro das trombetas lho arrebentou dos braçoes...”.

            O quarto canto nos mostra a preparação dos índios para o casamento da Baldeta e Lindóia, a qual a vem a se suicidar, deixando se picar por uma cobra (este é considerado o trecho mais belo do poema). Neste momento a tropa dos brancos já está chegando na aldeia e por isso os índios fogem, abandonando-a.

O trecho apresentado como sendo o mais belo do poema, a morte da índia Lindóia é totalmente lírico, pois se caracteriza pela emoção, pelo subjetivismo e ainda pelo sentimento amoroso, existente entre Cacambo e Lindóia e também pela apresentação de muitas emoções. “O alheio crime e a voluntária morte... tanto era bela no seu rosto a morte!”

            Por fim, o quinto e último canto, descreve o templo religiosos e a visão do massacre dos índios. Observa-se neste canto que não se busca narrar um fato histórico, mas sim denegrir a imagem dos Jesuítas, o que é notado no decorrer de toda a obra.

Pode ser notada ainda neste canto a maneira como é apresentado o massacre dos índios, no qual se revela claramente o sentimento daqueles que observam a cena. Tal sentimento é puramente lírico. “Oh céus! Que negro horror. Tinha ficado imperfeita a pintura e envolta em sombras”.

            Após o que já foi observado, deve-se ainda levar em conta a forma como foi dividida a obra, sendo apresentado em cinco partes, o que não é próprio de obras épicas, que devem ser divididas em dez. Além do mais, esta obra apresenta um tema pobre e por isso incapaz de sustentar um poema épico.

Considerações sobre a obra

            Apesar de trabalhar um tema pouco propício e insuficiente para a produção de um poema épico (a luta armada para expulsar Jesuítas e indígenas de suas terras é vista mais como um ato de covardia e injustiça do que como uma ação heróica), Basílio da Gama consegue criar uma obra de fôlego e elegância poética, de grande apelo visual nas suas cenas descritivas, numa colorida paisagem cinematográfica.

            O Uruguai é considerado o melhor poema narrativo do período neoclássico brasileiro, abrigando alguns trações que antecipam o Romantismo. O equilíbrio entre a história e a ficção, a linguagem solta, próxima do coloquial, mas cheia de lirismo em muitas passagens inesquecíveis e o ritmo suave distinguem O Uruguai, entre tantos clássicos de leitura penosa, pelo prazer que ainda pode proporcionar ao leitor contemporâneo.

Conclusão

            Conclui-se, portanto, que embora tenha alterado os dados históricos, o próprio poeta deixa transparecer sua simpatia para com os índios. Na verdade, isto tudo se deu através de seus objetivos na obra: um general português a celebrar e Jesuítas a denegrir. Os índios eram apenas algo que servia de pretexto para concretizar tais propósitos.

            Por ter o autor banhado o poema em um lirismo terno ou heróico, obviamente, obteve-se a louvação do índio, mas, incorporando-se no Cacambo, para expor todos os seus sentimentos e suas emoções, enfim, todo o seu romantismo.

            Nota-se também, ao citar a natureza, que o autor a descreve com um paisagismo romântico, tornando íntima a relação dos sentidos com o mundo.

            Mas ainda percebe-se, na obra, o lirismo expressado através de raiva, dor, piedade, horror, etc., vividas pelos personagens ou pelo narrador, onde a linguagem é voltada para si mesma, mais do que sobre o assunto de que fala.

            Portanto, Basílio da Gama rompe, em O Uruguai, com a tradição do poema épico, abandonando as referências mitológicas e preferindo a temática do “fetichismo indígena”, tornando-se o primeiro porta “indianista”.

Levando-se em consideração que as características desta obra se apresentam  em maior quantidade líricas, o que faz com que esta deixe de ser épica passando assim a ser predominantemente lírica.

            O fato de ser esta obra uma narração de algo que se passou no mundo exterior, não influência em nada em relação ao gênero lírico que este gênero admite este fato.

Referências

GAMA, Basílio da. O Uruguai. Rio de Janeiro: Record, 1998.

TERSARIOL, Alpheu. Literatura e Interpretação de Textos. Erechim: Edelbra.

SOARES, Amora Antônio. História da Literatura Brasileira. 8ª Ed. São Paulo: Saraiva.

 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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