INTERTEXTUALIDADE: AS MÚLTIPLAS VOZES NA CANÇÃO DO EXÍLIO
 
INTERTEXTUALIDADE: AS MÚLTIPLAS VOZES NA CANÇÃO DO EXÍLIO
 


FACULDADE INTERNACIONAL DE CURITIBA







MARTA APARECIDA BENATTI SCALON, 590795








AS AULAS DE COMPREENSÃO E PRODUÇÃO DE TEXTOS EM LÍNGUA PORTUGUESA E ESTRANGEIRA E ESTUDOS LITERARIOS E CULTURAIS EM SALA DE AULA: INTERTEXTUALIDADE: AS MÚLTIPLAS VOZES NA CANÇÃO DO EXÍLIO











MOGI GUAÇU ? SP
2010
INTERTEXTUALIDADE: AS MÚLTIPLAS VOZES NA CANÇÃO DO EXÍLIO






Marta Aparecida Benatti Scalon - 590795








Produção do conhecimento metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Estrangeira ? Oferta Agosto de 2010 do Curso de Pós-Graduação da Universidade Facinter orientado pela Professora Ivonete Haiduke.












MOGI GUAÇU - SP
2010
1. INTRODUÇÃO
A relação entre o texto que lemos, com algum já conhecido, é chamado pelos teóricos de intertextualidade, ou seja, um texto nos leva a outros textos (Kristeva, 1969, Perrone Moisés, l978, Walty, l996, Savioli e Fiorim, 1998).
Esta consideração nos leva a concordar com Walty ao afirmar que a
intertextualidade:
"É uma dessas chaves que nos permitem penetrar no texto, à medida que faz dialogar um texto com outros textos, da mesma época ou de épocas diferentes, de um mesmo espaço ou de espaços diferentes. Assim, a leitura não perde seu caráter dinâmico, mantendo-se um processo em que texto, intertexto e contexto não se isolam." (WALTY, 1996, p. 30)

Na concepção bakhtiniana de linguagem, todo discurso, por meio de várias direções ou em seu caminho até o objeto, encontra-se com outros discursos e participa com eles de uma interação viva e intensa. É, pois um fenômeno inerente a qualquer e todo discurso. (BAKHTIN, 1988, p.88).
A relação existente entre esses vários textos nos chama a investigação da origem e de com que finalidade os autores utilizaram-se deste texto-base para escrever o seu próprio.
A paródia e a paráfrase são recursos da intertextualidade e que muitas vezes são utilizadas como um recurso pelos autores para criticar as visões tradicionalistas de uma obra, por exemplo, a poesia parnasiana e a poesia romântica. (FARACO & MOURA, 1998, p. 262-263).
O trabalho em questão busca mostrar qual a relação das diversas vozes no poema "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias e a intertextualidade entre vários autores de tempos, séculos e escolas literárias diferentes. Levando em conta a importância da intertextualidade na leitura, interpretação, apreensão e produção textual. O trabalho a seguir visa à capacitação dos educadores e posteriormente a difusão de tal tema dentro de salas de aulas por todo o país instruindo educandos na produção textual.
A pesquisa aqui apresentada é bibliográfica, apresentando sugestões, informações e orientações para nós educadores de Língua Portuguesa e Estrangeira.

2. DESENVOLVIMENTO
A intertextualidade tem sido usada através dos tempos por muitos autores, estudada e abordada por muitos estudiosos. Um dos grandes temas dentro da literatura podemos dizer que é o "exílio". No período Romântico ? tanto português quanto brasileiro ? o enfoque neste tema foi muito grande, podemos dizer que seu maior ícone é a "Canção o Exílio" de Gonçalves Dias que foi composto em 1843 e publicado em 1846, e foi um grande alvo de intertextualidade. (VAZ, A. E. A.,2003, p. 255-257)


Canção do Exílio
"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias
Antônio Gonçalves Dias se orgulhava de ter no sangue as três raças formadoras do povo brasileiro (branca, indígena e negra), ele nasceu no Maranhão em 10 de agosto de 1823. Em 1840 foi para Portugal cursar Direito na Faculdade de Coimbra. Ali, entrou em contato com os principais escritores da primeira fase do Romantismo Português,(MOISÉS, 1974, p.122), além de autores como Johann Wolfgang Von Goethe e Lord Byron que o inspiraram na criação de poemas e obras.
Gonçalves Dias utilizou parte do poema de Goethe como epígrafe da Canção do Exílio, o poema "Uma canção de Mignon", onde Goethe expressa o amor de forma mais sublime.
Conheces a região onde florescem os limoeiros?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem? Nesse lugar
eu desejava estar.
(Tradução de Manuel Bandeira)
Os poetas europeus já estavam em contato com o movimento Romancista e isso fascinou os olhos de Gonçalves Dias e fez despertar no poeta o grande amor e a maneira Romântica de escrever, sempre com exagero. Em 1843, inspirado na saudade da pátria, escreveu "Canção do Exílio". Assim, vários autores valeram-se de dados básicos da canção de Gonçalves Dias para também idolatrar o Brasil ou, em oposição, mostrar as qualidades de Portugal frente às belezas brasileiras.
A Canção do Exílio foi amplamente recriada e parodiada, principalmente pelos poetas modernistas; os brasileiros parodiaram a canção em idolatria ao brasil, a mulher amada ou até mesmo à países diferentes como Portugal, mas todos representando o exílio, a saudade de algo ou alguém. Dois dos versos da canção de Gonçalves Dias estão citados no Hino Nacional Brasileiro ("Nossos bosques têm mais vida,/Nossa vida, mais amores.").
Estas são algumas das inúmeras releituras e citações que o poema de Gonçalves Dias recebeu, a partir do Modernismo, pelas mãos de diversos poetas brasileiros:
Europa, França e Bahia - Carlos Drummond de Andrade
Canto de Regresso à Pátria - Oswald de Andrade
Canção do Expedicionário - Guilherme de Almeida
Canção de Exílio Facilitada - José Paulo Pais
Lisboa: Aventuras - José Paulo Pais
Terra das Palmeiras - Taiguara
Nova Canção do Exílio - Ferreira Goulart
Vejamos o diálogo intertextual com o referido poema de algumas outras obras segundo Rebello (2010):
Na mesma época em Gonçalves Dias criou A canção do Exílio, Casimiro de Abreu também escreveu uma "canção do exílio", como citado acima:
Eu nasci além dos mares:
os meus lares,
Meus amores ficam lá!
- Onde canta nos retiros
seus suspiros,
Suspiros de sabiá!
(...)
Em outro poema, Casimiro de Abreu usa como epígrafe os dois primeiros versos do poema de Gonçalves Dias:
Minha Terra
Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá
Todos cantam sua terra,
também vou cantar a minha
Nas débeis cordas da lira
hei de fazê-la rainha;
(...)
E, no Modernismo, com um tom de crítica, assim escreve Murilo Mendes a sua Canção do exílio:
Minha terra tem macieiras da Califórnia,
onde cantam gaturamos de Veneza.
(...)
Ai quem me dera comer uma carambola de verdade
e ver um sabiá com certidão de idade.
Drummond também escreve a sua Nova canção do exílio, que é dedicada a Josué Montello:
Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
(...)
Só na noite,
seria feliz;
um sabiá,
na palmeira, longe.
(...)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
o fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
O poeta Mário Quintana escreve também a sua canção, mas com um olhar bem crítico e irônico:
Minha terra não tem palmeiras...
Em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.
(...)
Mais recentemente, por volta dos anos 70, Cacaso, satirizando a ditadura, escreve:
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
Nesse poema, além da referência ao texto de Gonçalves Dias, encontramos também referências a outros textos: ao texto bíblico do milagre que Jesus transforma a água em vinho, juntamente com uma alusão irônica ao chamado, na época, "milagre brasileiro", e, ainda, à letra da música "Tico-tico no fubá" de Zequinha de Abreu ( REBELLO, 2010)
Em oposição aos cantos brasileiros, dois autores portugueses ? José Antônio da Rocha Galo e Francisco Guilherme Pinto Monteiro, ambos residentes no Sul do Rio Grande do Sul ? publicam seus poemas idolatrando Portugal e repetem o título de Casimiro de Abreu: "Minha terra".
Usando os versos iniciais de Casimiro como epígrafe, Rocha Galo pública
seu poema no jornal Eco do Sul em 1874, preocupando-se principalmente em mostrar que, apesar das diferenças, as naturezas tanto de Portugal como do
Brasil são grandiosas.
A semelhança em todos os textos citados é a idealização ? em grau maior
ou menor da terra natal por um eu - lírico que se encontra exilado, demonstrando
a oposição entre o presente numa terra "estrangeira" e o passado glorioso na
terra natal, em um tom nacionalista predominante durante a escola romântica e
grande parte do século XIX. (VAZ, A. E. A., 2003, p. 255- 257)
Esse nacionalismo caracterizou-se principalmente pela descrição da cor
local, "ou seja, a reprodução fiel e pitoresca dos aspectos característicos de um
país, uma região, uma época etc., [que] constitui um dos recursos mais vulgarizados na arte romântica". ( AGUIAR E SILVA, 1976. p. 483)
A Canção do Exílio tornou-se um dos grandes ícones da literatura romântica brasileira pelo nacionalismo característico do período romântico no Brasil, além disso, o amor expresso pelo país foi usado por vários outros autores posteriores idolatrando terras ou mulheres amadas.
A intertextualidade é característica em várias obras, relacionadas à Canção do Exílio, estas obras são de imensa utilidade e importância para estudos culturais e literários dentro de salas de aulas. Cabe ao educador utilizar de forma interessante e atraente aos olhos dos alunos, pois, quando bem utilizada dentro da sala de aula à intertextualidade é uma ferramenta surpreendente, pode levar o aluno a um universo novo onde varias fronteiras podem se abrir. Quando aberto os olhos do aluno para esse novo mundo inúmeras ideias e ferramentas podem surgir. Como no poema de Gonçalves Dias onde o tema exílio e o amor a pátria demonstrado por ele são parodiados e parafraseados por vários autores durante os muitos anos que seguiram após sua publicação e até nas escolas quando se fala em amor a pátria muitos alunos lembram e tomam o texto como modelo ou utilizam-se da intertextualidade para homenagear ou criticar nosso país como do poema Outra Canção do Exílio de Eduardo Alves da Costa:

Minha terra tem Palmeiras,
Corinthians e outros times
De copas exuberantes
Que ocultam muitos crimes.
As aves que aqui revoam
São corvos do nunca mais,
A povoar nossa noite
Com duros olhos de açoite
Que os anos esquecem jamais.
Em cismar sozinho, ao relento,
Sob um céu poluído, sem estrelas,
Nenhum prazer encontro eu cá;
Porque me lembro do tempo
Em que livre na campina
Pulsava meu coração, voava,
Como livre sabiá; ciscando
Nas capoeiras, cantando
Nos matagais, onde hoje a morte
Tem mais flores, , nossa vida
Mais terrores, noturnos,
De mil suores fatais.
[...]

Neste poema o autor de tempos modernos não quer exuberar a beleza do Brasil, mas chamar a atenção para os problemas encontrados hoje nestas terras. De qualquer modo este tema e a intertextualidade possuem varias vozes o que nos remete a certeza de que Gonçalves Dias ainda hoje apresenta muitos seguidores dando inúmeras vozes ao seu poema.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intertextuallidade e a Canção do Exilio estão de mãos dadas pelos caminhos que seguem, desde de 1843 após sua composição, até os dias atuais como vimos na obra de Eduardo Alves da Costa o poema continua servindo de inspiração para muitos autores.
A exuberância do Brasil que era vista com tanto amor e intusiasmo por Gonçalves Dias hoje é vista como motivo de protesto e criticas pois quando o povo olha ao redor e se depara com tanta desigualdade o grito de resposta não é mais o mesmo que dois séculos atrás.
Todo texto é escrito a partir da leitura e absorção de outros textos. Seguindo os passos de Bakhtin, Kristeva (1974, p. 64) afirma que: "Todo texto se constrói como mosaico de citações e é absorção e transformação de outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade se instala a intertextualidade e a linguagem poética se lê, pelo menos como dupla".
Dessa forma cabe a nós concordar e afirmar que o poema de Gonçalves Dias durante o passar dos anos foi muito observado e absorvido, tanto pelos poetas de escolas literárias diferentes como pelos leitores que a partir de sua leitura desenvolvem sentimentos que influenciam a criação de textos que expressam diferentes sentimentos, desde a admiração quanto a critica a vários temas relacionados ao país. Assim como afirma Vaz (2003):
"Dessa forma, fica evidente que os sujeitos líricos dos poemas analisados formam um leque intertextual em relação ao poema "Canção do exílio", e que ? apesar das diferentes origens de seus autores ? todos mantêm o mesmo ponto de vista: defender a terra natal durante seu "exílio" em terra estrangeira de um ponto de vista extremamente idealizador do espaço e do tempo passados."

O poema de Gonçalves Dias expressa com extrema eficiência o que ao passar dos anos foi transportado por pontos de vista completamente diferentes, dando vozes inimagináveis a criação de 1843.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR E SILVA, V. M. Teoria da literatura. São Paulo: Martins, 1976. p. 483.

FIORIN, José Luís, SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 2. ed. São Paulo: Ática, 1998.

DANTAS, A. R. Relação intertextual: A paródia entre Canção do Exílio de Gonçalves Dias e Canto de Regresso à Pátria de Oswald de Andrade. Web artigos, 2010. Disponível em: http://www.webartigosos.com. Acesso em: 16 de setembro de 2010.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética. São Paulo: Hucitec, 1988.
FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto. Literatura Brasileira. 15 ed. rev. ampl. São Paulo: Ática, 1998.

GARRET, apud ZILBERMAN, R. De sabiás e rouxinóis: o dialógo Brasil-Portugal na nascente historiográfica da literatura brasileira. Portuguese Literary & Cultural Studies, Massachusetts, n. 1, p. 38, Fall 1998.

KRISTEVA, Julia. Recherches pour une sémanalyse. Paris: Seuil, 1969.

KRISTEVA, Julia. Introdução a semanálise. Trad. Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974. (Debates semiótica)

MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

PERRONE, Leila Moisés. Texto, crítica, escritura. São Paulo: Ática, 1978.
(Ensaios, 45)

REBELLO, I. S. O discurso poético: Metáfora e Intertextualidade. PCRJ, 2010. Disponível em : http://www.filologia.org.br/ixcnlf/11/12.htm. Acesso em : 16 de setembro de 2010.

VAZ, A. E. A. Portugal no Sul do Brasil: Intertextos da Canção do Exílio. Revista Letras, Curitiba, n. 59, p. 225-237, jan./jun. 2003. Editora UFPR

WALTY, Ivete Lara Camargo. Diálogo entre textos. Intermédio. Vol. 11 ? Ceale Formato, 1996.
 
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