Diferenças E Desigualdades Nas Escolas
 
Diferenças E Desigualdades Nas Escolas
 


E DESIGUALDADE NAS ESCOLAS: UMA QUESTÃO PARA A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL

EDWANIA BRBOSA MONTEIRO

Especialização em Planejamento e

Gestão do Ensino Aprendizagem

[email protected]

Resumo:Todas as identidades e diferenças são produzidas culturalmente, no ambiente escolar estas diferenças são utilizadas para discriminar, humilhar, inferiorizar. A educação intercultural surge no intuito de discutir e propor uma nova forma de educação. Num espaço escolar, diversas pessoas trazem suas contribuições históricas e culturais negociando suas identidades e diferenças. Utilizar esse espaço como um ambiente de reflexão e compreensão das relações entre os diferentes é muito complexo. A educação intercultural pode nos fornecer diretrizes para a construção de um sujeito negociador, contribuindo para a construção de uma sociedade não racista e discriminadora.

O presente artigo tem como objetivo refletir sobre a escola enquanto um espaço permeado pela diversidade cultural e nesse espaço, as repercussões desse cruzamento de culturas e as possibilidades de se desenvolver uma prática pedagógica visando entender e atender as diferentes necessidades a partir de uma perspectiva intercultural.

EDUCAÇÃO INTERCULTURAL

Com a globalização da economia, da tecnologia e da comunicação tem-se um aumento de interferências e conflitos entre grupos sociais de diferentes culturas, diante desses problemas, muitos são os desafios no campo dos estudos culturais, diferentes iniciativas e movimentos vêm desenvolvendo propostas de educação para a paz, para os direitos humanos, para a ecologia, para os valores etc.

A educação intercultural vem discutindo e propondo uma nova forma de educação, nos remete a problematizar as diferentes relações que os grupos humanos estabelecem, considerando dimensões como gênero, raça, crença entre outras, estas relações se dão tanto na sociedade como na educação.

Não há fundamento, nem argumento que justifiquem a idéia de que algumas identidades são normais, outras anormais. O que ocorre é que as relações sociais de poder produziram e continuam produzindo assimetrias, hierarquias, discriminações. Essas relações não são fixas, e podem ser desconstruídas e de certa forma essa é uma proposta da educação intercultural.

Historicamente a escola era vista como instrumento de homogeneização e formação de sujeitos conscientes, centrados e autônomos com as mesmas características. As escolas num universo intercultural passam a ser vistas como um lugar onde aprendermos a conviver com as diferenças, sem discriminar, hierarquizar, sem classificar grupos como superiores e inferiores, nesse contexto o indivíduo é levado a compreender o espaço da sala de aula como um espaço de relação contribuindo para o reconhecimento da flexibilidade dos fenômenos humanos e culturais.

No ambiente DIFERENÇA escolar encontramos diferentes culturas e diferentes identidades que dependendo das relações de poder podem adquirir novos significados, levando à processos de discriminação, exclusão, inferiorização.Mas a escola pode também ser um outro espaço (intercultural), um espaço para combater estes processos.

Considerar e refletir sobre o processo de construção de identidade não é fácil, ao lembrarmos do discurso do colonizador sobre identidade/diferença, essa complexidade aumenta, segundo Bhabha (2005): "O objetivo do discurso colonial é apresentar o colonizado como uma população de tipos degenerados com base na origem racial de modo a justificar a conquista e estabelecer sistema de administração e instrução".

Ao tratar das interfaces entre culturas diversas, Canclini alerta sobre dois conceitos que costumam se confundir: diferença e desigualdade. Apesar de estarem, na maioria das vezes, intrinsecamente relacionados, a desigualdade se manifesta como desigualdade sócio-econômica enquanto a diferença transparece nas práticas culturais (Canclini, 2003).

Trazendo esta discussão para a realidade brasileira no caso por exemplo da migração nordestina para os grandes centros urbanos do centro-sul do país. Este forte fluxo migratório possibilitou a constituição de um grupo social que tinha em comum sua origem e uma identidade cultural própria, diferente da cultura urbana do centro-sul.

Apesar da utilização desta mão de obra abundante, com baixa qualificação técnica e consequentemente barata, ter sido um dos motores do desenvolvimento acelerado desta região, o grupo de migrantes nordestinos foi tratado de forma desigual e preconceituosa pelas forças hegemônicas destas cidades. Neste caso brasileiro identificamos a utilização da diferença cultural para esconder a questão de fundo que é a desigualdade social.

Outro exemplo ainda mais evidente é a questão da inserção dos afro-descendentes na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. Este grupo étnico de forte identidade cultural porém historicamente privado de cidadania e direitos humanos foi, desde sua chegada ao país, um dos maiores contribuintes ao desenvolvimento do mesmo. No entanto este mesmo grupo, exatamente por sua origem tanto histórica quanto geográfica e sua identificação étnico-cultural diversa dos grupos dominantes nacionais, continua excluído e marginalizado após mais de cem anos de abolição, com resultados sociais desastrosos como analfabetismo, desemprego e violência.

Analisando estas duas interfaces culturais conflituosas, acreditamos que a escola é de fundamental importância, visto que, ela pode desenvolver em seus alunos, esta capacidade de análise e reflexão crítica. Para isso, a escola deve ser compreendida como integrante do processo de formação do cidadão e da sociedade e não apenas, como uma mera reprodutora de conhecimentos, mas como uma produtora de conhecimentos comprometida socialmente.

Em nossa realidade, o que observamos muitas vezes, é uma escola que ainda não sabe qual o caminho a seguir, o que ensinar e qual projeto cultural e social será desenvolvido. Nesse contexto, é de fundamental importância nas discussões e práticas educacionais a ampliação das questões culturais, onde percebemos um forte componente de intervenção e transformação de situações características em nossa sociedade, tais como: a injustiça social, a exclusão, racismo, entre outras.

BIBLIOGRAFIA

BHABHA, Homi K. O Local da Cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.

CANCLINI, Nestor. Culturas híbridas: esratégias para entrar e sair da modernidade. São aulo: USP, 2003

HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, UFMG, 2004

FORQUIN, J. C. Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

FREIRE, P. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

Intercultura e Educação. Revista Brasileira de Educação, nº 23, maio/ago, p. 16-35, 2003.

 
Avalie este artigo:
(3 de 5)
12 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Talvez você goste destes artigos também