COMUNIDADE SURDA: A IMPORTÂNCIA DA INSERÇÃO DA LÍBRAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA
 
COMUNIDADE SURDA: A IMPORTÂNCIA DA INSERÇÃO DA LÍBRAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA
 


Genivaldo Oliveira Santos Filho

Rozilda Ramos dos Santos Oliveira

RESUMO: A importância da língua de sinais é o tema de pesquisa deste artigo. Sabe-se que os profissionais em qualquer área, famílias, amigos e outros interessados podem incluir-se nesta comunidade. Participar dessa comunidade não é só ter direito à acessibilidade, mas verdadeiramente ser contribuintes neste universo que é atribuído aos surdos. Determinou-se para o estudo a pesquisa qualitativa, do tipo bibliográfico, baseado em teóricos a exemplo de: SKILAR, (1997), SÁ, (2002), FELIPE, (2007). Objetivou-se que os surdos através dessa comunidade, não só conseguem, mas também lutam pelos seus direitos, pois é importante lembrar que a inclusão existe e a comunidade surda deve ser incluída nela. A comunidade surda é inserida em várias áreas, pois os surdos estão ocupando os espaços. Neste contexto objetivou-se também que todos conheçam para que possam integrar-se a essa comunidade, com isso deixarão de serem minorias e será um todo. A comunidade esta dividida em vários setores, mas neste artigo mostramos os três principais: familiar, escolar e social, por isso reflete-se sobre a importância da língua de sinais para a comunidade surda.

 PALAVRAS-CHAVES:  Comunidade surda, inclusão, acessibilidade.

 

 INTRODUÇÃO

 Ao refletirmos sobre o tema, podemos destacar duas palavras representativas, uma é “importância” e a outra é “comunidade”. Segundo FERREIRA, (2001, p.376) a palavra importância refere-se a algo “que tem importância, que merece consideração, apreço, necessário, o que é essencial ou mais interessa”. O mesmo autor diz também que a palavra comunidade é “qualidade de comum, o corpo social: sociedade, grupo de pessoas submetidas a uma regra religiosa, local por elas habitada”. (2001, p. 175).

Com essas definições seguiremos a explanar sobre esse tema, também, atualmente, não podemos esquecer a inclusão, pois nesse contexto de inclusão podemos incluir a filosofia do bilinguismo, que poderá ser bom ou ruim para educação dos surdos, pois dependendo de como for preparado, auxiliará no desenvolvimento pleno dos surdos em relação às habilidades e competências para uma boa educação.

A luta pela igualdade vem sendo foco para diversas discussões, no entanto para começamos a explicar qual a importância da língua de sinais para a comunidade surda refletiu-se sobre a educação dos surdos.

 

Muitos surdos foram excluídos somente porque não falavam o que mostra que, para os ouvintes, o problema maior não era a surdez propriamente dita, mas sim a falta da fala. Daquela época até hoje, ainda muitos ouvintes confundem a habilidade de falar com voz com a inteligência desta pessoa, embora a palavra “fala” esteja etimologicamente ligada ao verbo/pensamento/ação e não no simples fato de emitir sons articulados. (FELIPE, 2007, p. 130)

 

Os surdos não podem lutar só, mas agregando-se a todos, alcançaram resultados espetaculares. O uso da língua de sinais para os surdos é primordial, é através dela que poderá alcançar o pleno desenvolvimento mental, social e individual.

 

O que é importante frisar é que a estruturação linguístico-cognitiva veiculada por uma língua natural, só é possível ocorrer de forma natural para surdos se for por meio de uma língua espacial-visual. Essa estrutura é justamente, em termos linguísticos, aquilo que permite o que Paulo Freire chamou de “Leitura de mundo”, que segundo ele, antecede a leitura da palavra. Se não houver uma leitura de mundo, não haverá compreensão e produção de texto. Sem um apoio de uma língua materna, não haverá estruturação linguístico-cognitiva acima mencionada. Para surdo, o Português falado dificilmente será sua língua materna naturalmente adquirida. (RINALDI, 1997, p.156)

 

Algumas pessoas por desinformação pensam que a língua de sinais é composta por gestos ou mímica que tem como finalidade a interpretação da língua oral. Porém os pesquisadores linguistas atribuíram a Libras o status de língua por entenderem que esta apresenta características semelhantes às outras línguas, como as diferenças regionais, sócio-culturais e sua própria estrutura gramatical bem elaborada. Por exemplo, o que denominamos na língua oral como “palavra”, ou item lexical, em LIBRAS é denominado de “sinal”. Como toda língua, a LIBRAS também não é estática. Acontecem mudanças, como aumento de vocabulário ou mudança de algum sinal, quando a comunidade que o utiliza assim concorda em fazê-lo.

 

Apenas o domínio de uma língua adquirida em sua totalidade e fluência permite ao ser humano a captação dos signos, a produção de novos signos, da combinação entre signos e novos sentidos para os signos em jogo, não apenas no processo de comunicação como no processo cognitivo. Admitir tais recursos instrumentais em uma criança surda privada de língua de sinais, como sua primeira língua, e apenas aprendiz da língua portuguesa equivale a desconhecer os caminhos básicos da aquisição de uma língua e, consequentemente, privá-la de seu direito a ter à disposição os caminhos naturais a seu desenvolvimento. (FERNANDEZ, 2005, p. 19)

 

 

1. A COMPOSIÇÃO DA COMUNIDADE SURDA

 

Após abordar-se o que é comunidade, é importante saber o que é comunidade surda. O que é comunidade surda? Como é a formação da comunidade surda? Qual objetivo da comunidade surda? São perguntas que nos leva a reflexões, pois em todos os lugares existe sempre uma comunidade como: comunidade evangélica, comunidade católicas, comunidade do Orkut e outros.

Quando pronunciamos estas palavras comunidade surda, concluímos que essa comunidade é só para surdos, isso é verdade? E existe uma comunidade surda? Isso muitas pessoas confundem-se ou mesmo não possuem pleno conhecimento sobre eles ou mesmo são incluídos nas minorias lingüísticas.

Agora perguntamos a comunidade surda é só dos ouvintes usuários da LIBRAS ou a maioria é ouvinte ou maioria é surda? Para pertencemos ou estarmos inseridos em alguma comunidade precisamos ter algo em comum, o que será este algo em comum?

Podemos afirma que a LIBRAS é o elemento de intercambio entre as pessoas ouvintes e os surdos. Como diz SÁ:

 

Não há como negar que o uso da Língua de Sinais é um dos principais elementos aglutinantes das comunidades surdas, sendo assim, um dos elementos importantíssimos nos processos de desenvolvimento da identidade surda/de surdo e nos de identificação dos surdos entre si. (2000, p.106)

 

QUADRO diz que “a Libras é a língua de sinais que se constituiu naturalmente na comunidade surda brasileira (2009, p. 11)”. O Surdo, como usuário natural da língua, deve estar presente na comunidade, escola, universidades para que todos possam identificar-se positivamente e desenvolver a utilização da língua de sinais da forma mais natural possível. A mesma autora também diz que “As festas, os jogos, os campeonatos, as sedes organizadas por surdos são formas de interação social e linguística, garantiram a formação da comunidade surda brasileira com uma língua própria. (2009, p. 11)”

É através dessa comunidade que surge um grupo de pessoas que mora em uma localização particular, compartilha as metas comuns de seus membros e, de vários modos, trabalha para alcançar estas metas. Portanto, em uma Comunidade Surda pode ter também ouvintes e surdos que não são culturalmente Surdos.

Uma língua que foi criada e é utilizada por uma comunidade específica de usuários, que é transmitida de geração em geração, e que muda – tanto estrutural como funcionalmente – com o passar do tempo. Ora, qualquer língua pode ser considerada como tal, independente da modalidade que utiliza. (SÁ, 2000, p. 108).

Participam também dessas comunidades, pessoas ouvintes que executam projetos de assistência social ou religiosa, ou são intérpretes, ou são familiares, pais de surdos ou conjugues, ou ainda amigos e professores que participam continuamente em questões pertencentes à comunidade, por isso estão sempre nas comunidades, como membros.

Às vezes, os filhos dos surdos, que são ouvintes, participam destas comunidades desde a infância, o que verdadeiramente proporcionam o domínio da Libras, como primeira língua. Esses ouvintes, às vezes, tornam-se intérpretes: primeiro para os próprios pais, depois para própria comunidade surda.

Há também pessoas também ouvintes que são intérpretes ou não, mas especialmente, são os pais de surdos que participam ativamente em questões da luta pela inclusão e permanecem sempre nas comunidades surdas, tornando-se um dos membros também.

 

1. 1. Características da comunidade surda

 

A principal característica da comunidade surda é que ela é composta por um grupo de pessoas que vivem num determinado local, compartilham objetivos comuns aos dos seus membros, e trabalham no sentido de alcançarem esses objetivos. Uma comunidade surda pode incluir pessoas que não são elas próprias surdas, mas que apóiam os objetivos da comunidade e trabalham em conjunto com as pessoas surdas para os alcançarem.

Os surdos possuem características peculiares que diferenciam a comunidade surda, e assim podemos destacar através do convívio ou até mesmo integrar-se nessa comunidade que são denominadas na seguinte forma:

Segundo FELIPE (2007) os surdos por não se comunicarem com as pessoas ouvintes decidem relacionarem-se com pessoas surdas, talvez pela própria identidade e domínio da língua de sinais. Às vezes, a maneira como a sociedade cria piadas, demonstra a incompreensão da surdez.

Outra característica predominante que agora aparece nos textos teatrais, que o teatro já começa a abordar, são questões de relacionamento, educação e visão de mundo, própria do universo do Surdo, considerando que a apresentação é feita em LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais – é que no enunciado são relatadas vivências que dá forma do cotidiano deles (surdos).

Por possuírem um mundo diferente, através da identidade e cultura os surdos possuem uma língua de visual-gestual, por isso com poucos sinais conseguem comunicarem-se através do olhar e expressão facial e corporal e também os Surdos sempre evita tocar outro surdo por trás para evitar o acanhamento de um susto, a menos que, por brincadeira.

Conforme FELIPE, 2007 diz:

O surdo tem um modo próprio de olhar o mundo onde as pessoas são expressões faciais e corporais. Como fala com as mãos, evita usá-las desnecessariamente e quando as usam, possui uma agilidade e leveza que podem se transformar em poesia. (p. 197)

 

A Comunidade Surda não é um "lugar" aonde pessoas surdas e ouvintes teem problemas de comunicação e marcam um local para conversação, mas um ponto de articulação cultural, política e de lazer, pois cada vez mais, os Surdos têm lutado por seus direitos e de cidadania. Como diz TRINDADE, (2003) “especificamente, não existe a chamada “cultura inútil”, absolutamente tudo é útil e deve ser considerado. (p. 184)”.

Há interferência de grupos religiosos em muitas destas comunidades, às vezes, representadas por pessoas ouvintes com domínio da LIBRAS ou de outra língua de sinais estrangeira ou regional, que trazem de suas viagens de evangelização. Nestes casos, favorece-se uma utilização de estrangeirismos, ou seja, uso de sinais diferentes dos utilizados em outras comunidades brasileiras. FELIPE em 1984 foi uma das pesquisadoras desses casos. Pesquisou sobre a Comunidade Surda do Recife. Em 1991 pesquisou-se e fez-se um estudo sobre as comunidades surdas do Rio de Janeiro.

A diferença da comunidade surda e outras comunidades, é que distingue-se por ter uma língua própria - a língua de sinais - e, por isso, esta se dá numa modalidade espaço-visual, indicada num olhar de mundo totalmente diferente da modalidade oral-auditiva. Com isso, apresenta costumes, história, cultura e estrutura social próprias, que a distinguem e a caracterizam das demais comunidades.

Os Surdos, que freqüentam esses espaços de Surdos, convivem com duas comunidades e cultura: a dos surdos e a dos ouvintes, e precisam utilizar fuás línguas; a LIBRAS e a língua portuguesa. Portanto, numa perspectiva sócio-lingüística e antropológica, uma Comunidade Surda não é um “lugar” onde pessoas deficientes, que têm problemas de comunicação se encontram, mas um ponto de articulação política e social porque, cada vez mais, os Surdos se organizam nesses espaços enquanto minoria lingüística que lutam por seus direitos lingüísticos e de cidadania, impondo-se não pela deficiência, mas pela diferença. (FELIPE, 2007, p. 197)

 

Para ser membro da Comunidade Surda, o individuo precisa ter: assimilação e integração com o mundo surdo; incremento de normas e valores partilhados; participação continua nas ações e atividades da própria comunidade, de forma a existir um claro conhecimento de que pertence a comunidade; divide experiências comuns ou diferentes ao longo do desenvolvimento do individuo.

 

2. LUTA E DESAFIOS DA COMUNIDADE SURDA

 

 

2. 1. Comunidade surda: O conhecimento da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais

 

O reconhecimento da LIBRAS como primeira língua da comunidade de surdos está amparada pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. IA Lei foi criada devido à luta pela conquista de direitos dos surdos em espaços de cidadania a exemplo de: escola, sociedade, igreja e outros que os levem a adquirir independência.

A inclusão leva a reconhecer a importância da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS no âmbito escolar. A conquista da disciplina nas Universidades e Faculdades mediante Lei N° 10.436 e regulamentada no Decreto N° 5. 626 tem sido uma grande conquista.

Destacamos que a comunidade surda remete à idealização de projetos e sistemas para serem usados em ambientes de ensino e de aprendizagem. Como observamos na Televisão existe programa já focando os surdos utilizando os intérpretes de Libras, não só na televisão, mas também em ambiente públicos e escolas.

Conforme SKLIAR (1997, p. 141):

 

A língua de sinais constitui o elemento identificatório dos surdos, e o fato de constituir-se em comunidade significa que compartilham e conhecem os usos e normas de uso da mesma língua, já que interagem cotidianamente em um processo comunicativo eficaz e eficiente. Isto é, desenvolveram as competências linguísticas e comunicativa - e cognitiva - por meio do uso da língua de sinais própria de cada comunidade de surdos.

 

 

2. 2. Comunidade surda: minoria linguística

 

A minoria linguística formada por comunidades surdas no Brasil, na qualidade de minoria lingüística, reivindicam o reconhecimento oficial da língua brasileira de sinais – LIBRAS -  como um direito.

Alguns fatos são adicionados nesse contexto que é a minoria linguística são: a não comunicação entre surdos e ouvintes, pois os ouvintes não são fluentes a língua de sinais e os surdos não são fluentes a língua portuguesa, seja oral ou escrita; O desconhecimento da língua de sinais por ouvintes que a consideram inútil e não a socializam como meio de comunicação;

Na própria sociedade, na qual os surdos vivem, não se consideram a língua de sinais, provocando estranhamento, falhas na comunicação nas famílias e entre profissionais e surdos. É necessário que a família e a escola considerem a importância da LIBRAS como meio de acesso às informações existentes, permitindo-se que haja a interação entre as comunidades surdas e ouvintes;

Apesar de a Língua Portuguesa ser a língua oficial do Brasil e a segunda língua – L2 - dos surdos, elas (língua brasileira de sinais e a língua portuguesa) permitem ao surdo interagir e participar na sociedade como cidadão;

 

Os direitos humanos linguísticos:

a) Todos os seres humanos têm direito de identificarem-se com uma língua materna(s) e de serem aceitos e respeitados por isso.

b) Todos têm o direito de aprender a língua materna(s) completamente, nas suas formas oral (quando fisiologicamente possível) e escrita (pressupondo que a minoria linguística seja educada na sua língua materna).

c) Todos têm o direito de usar sua língua materna em todas as situações oficiais (inclusive na escola);

d) Qualquer mudança que ocorra na língua materna deve ser voluntária e nunca imposta. (QUADRO, 2009 p. 10-11)

 

Em todo o território nacional, esse processo foi iniciado e já oferece resultados significativos, por isso há necessidade de se criarem mecanismos de divulgação, aquisição e aprendizagem da língua brasileira de sinais. A comunidade acadêmica começa a se interessar pela língua de sinais, ao iniciarem a profissão no mercado de trabalho encontraram o surdo o que fazerem? Por isso é importante divulgar a língua de sinais. O surdo tem uma língua e um país que não a reconhece.

 

 

3. COMUNIDADE SURDA: A IMPORTÂNCIA DA LÍNGUA DE SINAIS

 

Ser surdo é saber que pode falar com as mãos e aprender uma língua oral-auditiva através dessa é conviver com pessoas que, em um universo de barulhos, deparam-se com pessoas que estão percebendo o mundo, principalmente pela visão, e isso faz com que eles sejam diferentes e não necessariamente deficientes. (FELIPE, 2007, p. 110)

 

3. 1. A importância da língua de sinais: a comunidade surda no âmbito familiar

 

Dentre as várias modificações e questionamentos que a família tem experimentado, mediante as discussões contemporâneas e tendo a educação dos filhos como alvo, a importância da LIBRAS e a diferença se apresentam em destaque diante das afirmações e reconstruções que a família vem sofrendo em possuir um membro da família surdo.

Nesse contexto a família depois que diagnosticada a surdez do filho, começa a frequentar associações de surdos para poderem aprender melhor a língua de sinais e também para introduzir o filho nessa comunidade. Com isso a família esta integrada na comunidade surda, pois através das associações é que são descobertas novas formas de lidar com o preconceito.

A APADA-SE - Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos de Sergipe – tem sido uma das Associações com os principais objetivos acolher as famílias, Trabalha-se a LIBRAS, a língua brasileira de sinais, pois existe curso próprio para as mães e também outros cursos que acolhem as mães na espera dos filhos ao retorno para casa.

As comunidades surdas, muitas vezes, encontram-se alheias às realidades da atividade, por não serem atendidos de acordo com suas necessidades e não terem efetivados seus direitos à informação, a inclusão social, e consequentemente, à prática do ensino, mas continuam unidos com familiares a lutarem por uma boa educação.

Assim, essa comunidade tem mostrado que não aceita mais ser tratada como inferior ou atrasada. Os surdos têm se unido e com isso formado lideranças que estão enaltecendo a história dos surdos na construção de um povo forte, com interesses compartilhados e, sobretudo, com uma identidade própria que busca o direito de ser respeitada.

Excluir a língua e as emoções da comunidade surda é mostrar que a inclusão às vezes está embasada em muitos preconceitos relativos à comunidade surda. O estereótipo da comunidade surda começa dentro da própria família, que não quer a surdez daquela criança e a encaminha para uma escola, para que ela seja incluída junto de crianças ouvintes. Segundo BOTELHO (2002, p. 26):

 

O estigma e o preconceito fazem parte do nosso mundo mental e atitudinal, tendo em vista que pertencemos a categorias - mulheres, negros, analfabetos, políticos, professores, judeus, velhos, repetentes na escola, pós-graduados, estrangeiros, desempregados - que são recebidas com pouca ou muita ressalva por um grupo determinado. Não importa a qual grupo pertençamos, mas sim a qual queremos pertencer, e é direito de cada indivíduo escolher o lugar na sociedade a que melhor se adapte.

 

Mas ser um surdo não é o mesmo que dizer “esta seja Surda e que faça parte de uma Cultura e de uma Comunidade Surda”, porque a maioria dos surdos, que tem de pais ouvintes, muitos destes não têm oportunidade de aprender a Libras e não freqüentam as Associações ou outros espaços de Surdos, que são as Comunidades Surdas.

Segundo Parolin (2005, p. 39.) “a grande arte da família é manter-se família”, por isso a família deve dar “a escolha” para os membros surdos, com isso eles adquiriam identidade e cultura própria.

 

3. 2. A importância da língua de sinais: a comunidade surda no âmbito escolar

 

O ensino inclusivo é a prática da inclusão de todos – independentemente de seu talento, deficiência, origem sócio-econômica ou origem cultural – em escolas e salas de aula provedoras, onde todas as necessidades dos alunos são satisfeitas. (STAINBACK, 1999, p.21).

 

Nem todos fazem parte da comunidade surda, pois na escola, faculdade e universidade, alguns colegas tem preconceitos ou, às vezes, eles não aprendem a língua de sinais, outros aprendem pouco. Professores que dizem serem participante desta comunidade, às vezes, não conhecem a língua de sinais ou fingem saberem, na realidade não sabem de nada, ou deixa a responsabilidade para os tradutores/intérpretes de LIBRAS.

 

A escola sempre será um espaço de encontro surdo, pois, além de ser ela a primeira instituição onde muitos têm a chance de conviver e de se auto identificarem com outros surdos, é também um espaço de convivência acima de qualquer suspeita. Ninguém duvida das “coisas boas” que devem ser aprendidas na escola, mas muitos podem duvidar do que é feito e aprendido em um espaço não-escolarizado de encontros surdos (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 96).

 

Partindo do princípio de “igualdade de oportunidade” e “educação para todos” é claro que deve-se ampliar as oportunidades educacionais para todos em que está inserido o acesso e permanência à escolarização aos alunos surdos. Se existe esse direito a comunidade continua lutando pelos princípios, como mães de surdos participam das reuniões pedagógicas para organizar o projetos da escola, não é só terem um bom projeto, mas todos que querem e fazem parte da comunidade estejam ligados com o propósito de igualdade.

O que a comunidade surda deve estimular é que todos compreendam “como se organizam os saberes e o conhecimento dentro do espaço para se ter uma educação de qualidade” (Silva, 2001, p.21) para os surdos em igualdade com os ouvintes.

Como diz SKILAR, a escola é:

 

Um território de investigação educacional e de proposições políticas que, através de um conjunto de concepções lingüísticas, culturais, comunitárias e de identidades, definem uma particular aproximação – e não uma apropriação – com os conhecimentos e com os discursos sobre a surdez e sobre o mundo dos surdos. (1998, p.29).

 

A escola é um espaço de diferenças, ainda que observe uma intenção em “normatizar” todos educando, abstraindo as diferenças, mas os professores têm a responsabilidade de administrar as diferenças de experiências e valores dos alunos, a fim de estimular a aprendizagem e assim podemos afirmar “formando cidadãos”. Mas, com os estudantes diferentes, essa diversidade ganhou outras extensões, porque contém o risco de ignorar suas especificidades (alunos surdos) a ponto de excluí-los das trocas educacionais.

Embora as escolas permaneçam sendo um dos lugares onde a aproximação dos surdos aconteça sem gerar grandes oposições sociais e familiares, ela persiste possuindo um serviço diferente daquela que poderíamos atribuir a uma associação de surdos. Uma comunidade surda organizada dentro dos limites escolares necessita ser capaz não só de proferir e de fortalecer a diferença surda e as muitas formas dela representar-se, como também de gerar a necessidade do surdo guiar-se de acordo com princípios surdos não-pedagogizados e não escolarizados.

O espaço para encontros com surdos tem sido Shopping, terminal (ônibus), mas quando fala que vem possibilitando a aproximação entre os surdos tem sido preponderantemente o escolar, por causa dos tradutores/intérpretes de Libras. Como a escola é o território que possibilita, antes de qualquer coisa, a aproximação e a convivência – isto é, um local inventado para que todos que o freqüentam saiam com marcas profundas no modo de ser e de estar no mundo –, a comunidade surda, quando constituída dentro da escola, também é fortemente marcada por ela. O espaço, o tempo e as disciplinas escolares acabam fazendo parte das condições que definem o que estamos denominando, marcadores culturais surdos.

 

A escola foi inventada tendo entre seus propósitos formar sujeitos organizados, disciplinados, cristãos e subservientes. Ela empenhou-se e empenha-se até hoje em formar corpos dóceis e úteis dentro de uma ordem preestabelecida para as relações. (LOPES, 2004, p. 39).

 

A comunidade surda escolar precisa modificar a realidade atual da inclusão escolar na análise dos pontos críticos proponhamos ações coletivas para a sua execução, assim como políticas públicas que atendam as necessidades dos “portadores de necessidades especiais”. É fundamental que a inclusão envolva a todos, principalmente a comunidade surda escolar no processo educativo. Cabe aos que compõe a gestão diretiva sempre projetarem diálogos, a troca de saberes em suas diversidades, proporcionar experiências significativas para a formação integral, consequentemente, educando os surdos.

A inclusão deve fazer parte de uma proposta diferente e envolver os educadores, a família e a comunidade surda para estarem embasados na filosofia do bilingüismo, que proporciona a todos, igualdade e respeito às diferenças.

 

3. 3. A importância da língua de sinais: a comunidade surda no âmbito social

 

A comunicação é um fato que predominam a língua, no caso da comunidade surda é a língua de sinais. É através da língua que trocamos idéias relacionamo-nos um com outro, a partir disso quebramos barreiras e solidificamos a inclusão.

Nessa perspectiva, pode-se apreender uma atitude Surda, ou seja, as pessoas Surdas não querem ser vistas como Deficientes Auditivos, o que implica uma visão negativa da surdez. A atitude surda está em ser membro de uma comunidade, aceitar e ser aceito como membro desta cultura surda, isso quer dizer ter atitudes: audiológica: ser uma pessoa que não escuta,          ser pessoa política, lutar pelos direitos de cidadania, pelo respeito da sua cultura e aceitação das diferenças; lingüística: usar a língua de sinais como meio mais natural de comunicação; Ser um membro social: estar envolvido com associações de surdos, frequentar escolas especiais, ter família e/ou amigos surdos.

Portanto, falar com as mãos identifica o ser Surdo e aprender uma língua de sinais e através dessa, é conviver com pessoas que, em um universo de barulhos, encontra-se com indivíduos que estão percebendo o mundo, principalmente, pela visão, e isso os torna diferentes e não necessariamente deficientes.

Amaral acentua que:

[...] a dificuldade de ser surdo numa sociedade que teima em generalizar os seus próprios padrões a todos sem o respeito e a atenção devidos à diferença. E a diferença entre um surdo e um ouvinte reside tão só na ausência ou existência do sentido da audição, respectivamente; e desta “pequena” diferença resulta que os que são surdos não ouvem, logo não têm acesso à língua oral; se quisermos especificar melhor acrescentaremos que a língua oral não pode ser a língua natural do surdo profundo porque a privação ou danificação do órgão da audição não lhe permite a sua apreensão. (1993: 27)

 

Quando vamos ao sanitário público encontramos em cima da porta ou colado na porta do sanitário, podemos contatar a presença dos símbolos como WC e acrescentando o desenho da menina ou menino. Isso faz parte da acessibilidade, à qual a comunidade surda vem lutando até a perfeição.

A comunidade organizada funciona em seus diversos setores através das ações resultantes da emancipação dos indivíduos (FALCÃO, 2003, p. 34), nisso a comunidade através de Libras têm se mostrado lutadores pela causa. Os Tradutores/intérpretes de Libras nos programas de televisões, em escolas, associações e em Faculdades ou Universidades atuando nos meios de comunicação mais avançados para os surdos apesar de a maioria dos surdos que residem nos interiores estejam ainda sem conhecimento de Libras, mas já tem um grande avanço. Com esta citação de HALL, 2002, confirmamos que a luta da comunidade surda, vem acontecendo e ao longo dos tempos lutam por identidade própria.

 

A identidade está vinculada também a condições sociais e materiais. Se um grupo é simbolicamente marcado como o inimigo ou como tabu, isso terá efeitos sociais reais porque o grupo será socialmente excluído e terá desvantagens materiais. (p. 14).

 

Quando falamos de âmbito social lembramos-nos do significado de sociedade, como diz “a sociedade é o que é público, é o mundo” (FERNANDES, 1973, p. 97) e podemos afirmar que a sociedade pode ser considerada a justaposição de indivíduos, pois na sociedade sempre existirá mudanças, mudança que influência a relação social.

É necessário que a sociedade compartilhe com a comunidade surda, segundo FERNANDES, (1973), “a comunidade é, pois, uma área de vida social assinalada por certo grau de coesão social (p. 123)”, com isso existem certas bases principais para a comunidade como “são localidade e sentimento de comunidade” (idem, p. 123)

 

4. CONCLUSÃO

 

Concluímos que a LIBRAS é a língua natural das comunidades surda e é adquirida por quaisquer sujeitos, quando estes interagem/dialogam com surdos fluentes em língua de sinais, socializam-se como iguais. Assim, podemos afirmar que a aquisição da língua é um processo criativo. Segundo Svartholm (1997, p.29),

[...] a construção ativa da língua não pode ser ensinada nem praticada. (...) o desenvolvimento de uma primeira língua surge da interação com o entorno e a ação mútua com outros. (...) desenvolve a língua simultaneamente com a obtenção de conhecimento acerca do mundo, a partir da interação ativa com o mesmo; o desenvolvimento social e cognitivo está entrelaçado com o desenvolvimento da linguagem. Não podem separar-se.

 

Neste artigo falamos sobre a formação da comunidade surda, características dela, luta e desafios, e a importância da língua de sinais para a comunidade surda, pois ela é inserida em vários âmbitos como: família, escola e sociedade.

E quando se fala em "comunidade" em termos específicos o que se mostra é também a marca de origem: proximidade, presença de pessoas em relacionamento, seja por frequência espacial, (no trabalho, no bairro, na instituição) ou por laços de propósitos, fé e costumes de vida partilhados. O que une os membros de uma comunidade é, o reconhecimento dessas pessoas e a possibilidade de conferir a sua inclusão. Portanto, não é uma organização social concreta, essas explicações designam, existem vários olhares nas ideais de interação e podem ser encontrados em diferentes situações.

Portanto, é através dessa língua que essa comunidade luta, para que os surdos estejam integrados nesta filosofia – a inclusão – como diz SÁ (2000): “suas formas de agir, de pensar, de comunicar, de sentir, de dizer, têm sido negadas ao longo da história. Impôs-se a eles um modelo que jamais poderiam alcançar: o padrão de ter que ser o que não são(p. 355).

No momento em que oferece aos surdos, condições de edificarem-se nos conhecimentos através de sua língua natural e também na língua oficial do país, proporciona-se a eles, uma Educação Bilíngüe. Para que esta educação corra de uma forma natural e com verdadeiro aproveitamento, faz-se urgente a organização e a interação da Comunidade Surda, atuando abertamente com seus pares surdos e ouvintes.

Sendo assim, podemos também ser usados como agregados na sociedade, ou seja, devemos identificar e participar de algum grupo concreto. O PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais (Língua Estrangeira) – dá ênfase que, no uso da comunicação da comunidade, seja qual for, deve utilizar-se da primeira língua de origem, por exemplo se tiver um índio brasileiro é necessário que a língua indígena seja primeira língua, como diz:

 

A convivência entre comunidades locais e imigrantes ou indígenas pode ser um critério para a inclusão de determinada língua no currículo escolar. Justifica-se pelas relações culturais, afetivas e de parentesco. Por outro lado, em comunidades indígenas e em comunidades de surdos, nas quais a língua materna não é o português, justifica-se o ensino da língua portuguesa como segunda língua. (PCNs, 1998, p. 23)

 

 

SOBRE OS AUTORES

 

Genivaldo Oliveira Santos Filho e Rozilda Ramos dos Santos Oliveira são graduados em Letras/Português pela Universidade Tiradentes, em Aracaju/SE. São pós-graduados em Libras pela Faculdade Pio Décimo e PROLIBRAS, Certificação: Proficiência no Uso e no Ensino da Libras, Categoria: Fluentes em LIBRAS, com nível superior completo. O presente artigo é resultado de uma pesquisa qualitativa do tipo bibliográfica, sob orientação da mestre Maria José de Azevedo Araujo. Visa mostrar a importância da língua de sinais para as comunidades surdas. Contatos: grlibras@hotmail.com e azevedo1956@bol.com.br

 

 

REFERÊNCIAS

 

AMARAL, M.A. Refletindo sobre a Reabilitação de Surdos. Integrar, nº 2, Set. 93. Lisboa: IEFP/SNR (1993).

 

BOTELHO, Paula. Linguagem e Letramento na Educação dos Surdos: ideologias e práticas pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

 

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 120 p.

 

BRASIL. Direito à educação: subsídios para a gestão dos sistemas educacionais: orientações gerais e marcos legais / Organização: Ricardo Lovatto Blattes. – 2. ed . – Brasília: MEC, SEESP, 2006. 343 p.

 

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Sobre este autor(a)
Sou Graduado em Letras/Português pela Universidade Tiradentes - Unit - e Pós-graduado Lato Senso em Libras - Língua Brasileira de Sinais - pela Faculdade Pio Décimo. Proficiência em Libras Tradutor intérprete de Libras do Ensino Médio e Proficiência no Ensino Superior em Professor de Libras
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