ABORDAGENS SOBRE A CRIANÇA E SEU DESENVOLVIMENTO: A RELAÇÃO ENTRE O BIOLÓGICO E O SOCIAL E O PA...
 
ABORDAGENS SOBRE A CRIANÇA E SEU DESENVOLVIMENTO: A RELAÇÃO ENTRE O BIOLÓGICO E O SOCIAL E O PAPEL DA EDUCAÇÃO
 


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA




GILIANE BONFIM PEREIRA










ABORDAGENS SOBRE A CRIANÇA E SEU DESENVOLVIMENTO: A RELAÇÃO ENTRE O BIOLÓGICO E O SOCIAL E O PAPEL DA EDUCAÇÃO





















GOIÂNIA ? GO
2010
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA



GILIANE BONFIM PEREIRA











ABORDAGENS SOBRE A CRIANÇA E SEU DESENVOLVIMENTO: A RELAÇÃO ENTRE O BIOLÓGICO E O SOCIAL E O PAPEL DA EDUCAÇÃO




Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciado em Pedagogia, sob a orientação da Profª Dr.ª Sandra Valéria Limonta.












GOIÂNIA ? GO
2010

GILIANE BONFIM PEREIRA




ABORDAGENS SOBRE A CRIANÇA E SEU DESENVOLVIMENTO: A RELAÇÃO ENTRE O BIOLÓGICO E O SOCIAL E O PAPEL DA EDUCAÇÃO






Aprovada em ___ de________________de______





BANCA EXAMINADORA




_____________________________
Profª Drª Sandra Valéria Limonta
Faculdade de Educação - UFG

_____________________________
Profª Drª Ivone Garcia Barbosa
Faculdade de Educação - UFG









GOIÂNIA ? GO
2010
DEDICATÓRIA
































Dedico aos meus pais, Ailton José Pereira e Ildenice Santos do Bonfim Pereira, pela força, coragem e confiança para me formar a pessoa que sou hoje.







AGRADECIMENTOS









Agradeço a Deus por todas as vitórias alcançadas.
Aos meus pais pelo apoio de sempre, amor, paciência e pela oportunidade que me deram para fazer um curso superior. Serei eternamente grata.
Aos meus irmãos Kácio e Luziane, que mesmo distantes, de alguma forma me apoiaram.
Ao meu namorado Fares Eduarth de Souza Guimarães pela compreensão, apoio, paciência, companheirismo e presença nos momentos que mais precisei.
Às amizades verdadeiras que construí durante toda essa etapa da minha vida acadêmica: Deise Divina, Mariana Mendes, Michelly Garcia, Miriã Rodrigues, Raísse Luppmann.
Às amigas Ailane Milard e Jaciane Chaves pelos longos momentos de conversa, que de alguma forma contribuíram para a formação da pessoa que sou hoje.
À toda minha família pela força e compreensão durante essa etapa de grande importância para minha vida.
À equipe do Ciar, que me ofereceu oportunidades e meios para o meu crescimento intelectual e profissional.
À todos os professores pela contribuição para a minha formação, em especial à professora Sandra Valéria Limonta, pelas orientações e dedicação para a construção desse trabalho.
Agradeço a todos que contribuíram direta ou indiretamente para que eu chegasse até aqui.


































"Cada indivíduo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não basta para viver em sociedade. É lhe preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana."
(LEONTIEV, 2004)




RESUMO:

O estudo proposto refere-se a uma abordagem sócio-cultural do desenvolvimento infantil, no sentido da trazer uma compreensão de como as relações sociais e a cultura influenciam e interferem no processo de desenvolvimento e no comportamento das crianças. Partindo de uma pesquisa bibliográfica, o estudo foi desenvolvido e analisado com o objetivo de trazer uma contribuição para que os educadores se tornem mediadores do conhecimento para seus alunos. A criança não é um ser passivo que recebe tudo pronto do meio social. Mas também não nasce com sua estrutura mental pronta. São nas trocas de relações entre o biológico e o social que ela desenvolve seu pensamento, adquire linguagem, constrói suas próprias opiniões e se desenvolve cognitiva e socialmente. Esse meio em que ela está inserida também irá refletir no seu comportamento, modo de ser e agir. Assim, o trabalho do educador é facilitar o processo de socialização para fazer dos espaços de Educação Infantil um espaço formador de conhecimentos e aprendizagens. Somente as características biológicas de uma criança não são suficientes para que seu desenvolvimento intelectual aconteça. É certo que o biológico e o social não estão dissociados, e são com as interações com o grupo social e com a cultura que o indivíduo governa o seu comportamento e desenvolve o seu pensamento e, consequentemente, constrói aprendizagens.

Palavras-chave: Criança, desenvolvimento, meio social, interação, educador.
























ABSTRACT:

The proposed study refers to a socio-cultural approach to child development, in terms of bringing an understanding of how social relations and culture influence and interfere in the process of development and behavior of children. From a literature search, the study was developed and analyzed in order to bring a contribution for educators to become facilitators of knowledge to their students. The child is not being passive, a blank slate ready to receive the social environment. But also not born with mental structure ready. Are in trade relations between biological and social factors that they develop their thinking, language acquires, constructs his own opinions and develop cognitively and socially. This means that it is embedded will also reflect on their behavior, way of being and acting. Thus, the work of the educator is to facilitate the socialization process to make the spaces of a space kindergarten teacher knowledge and learning. Only the biological characteristics of a child are not sufficient for their intellectual development happens. It is true that biological and social factors are not separated, and are interactions with the social group and culture that governs individual behavior and develop their thinking and thus builds learning.

Keywords: Child development, social environment, interaction, educator.
























SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................10

CAPÍTULO I
1. AS PERSPECTIVAS BIOLÓGICA E SOCIAL DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA ...........................................................................................................12
1.1 ? Desenvolvimento Físico ............................................................................14
1.2 ? Desenvolvimento Cognitivo .......................................................................17
1.3 ? Desenvolvimento Psicossocial ..................................................................19

CAPÍTULO II
2. A INFLUÊNCIA DO MEIO SOCIAL E CULTURAL NO DESENVOLVIMENTO DOS ASPECTOS COGNITIVOS E NO COMPORTAMENTO INFANTIL ...................24
2.1 ? Desenvolvimento do pensamento e da linguagem ...................................26
2.2 - A influência da sociedade e da cultura na formação da personalidade e no comportamento da criança ................................................................................30

CAPÍTULO III
3. A IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO E MEDIAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA ........................................................................37

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...............................................................................47

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................50












INTRODUÇÃO:

O presente trabalho de conclusão de curso tem como tema central o social e o cultural no processo de desenvolvimento da criança, que se expressa no título "Abordagens sobre a criança e seu desenvolvimento: a relação entre o biológico e o social e o papel da educação". Partimos de uma concepção sócio-cultural para a compreensão do processo de desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos, considerando este como um processo mediado por sujeitos com quem ela interage e pelos meios da qual faz parte, trazendo a compreensão de que o ser humano é um ser que se desenvolve biológica e socialmente ao mesmo tempo. Temos como problema principal de investigação: como o meio social e cultural influencia no desenvolvimento, aprendizagem e formação da personalidade da criança?
O objetivo geral da pesquisa é compreender de que forma o meio sócio-cultural influencia nesse processo, que contribuições traz para a construção do conhecimento da criança, bem como destacar o papel do educador e dos espaços de Educação Infantil.
No primeiro capítulo, apresenta-se a partir das contribuições teóricas, como ocorre o desenvolvimento humano de uma maneira geral, em todos os aspectos (físicos, cognitivos e psicossociais) destacando as influências do meio social nesse processo. No segundo capítulo discutimos mais detalhadamente os aspectos cognitivos, como o pensamento e a linguagem, a partir dos quais buscou-se compreender as diferentes formas de comportamentos e personalidade das crianças de acordo com o meio em que vivem. Finalmente, o terceiro capítulo traz uma compreensão dessa concepção para os educadores, que deve considerar a criança como um ser completo, se tornando um mediador entre ela e o conhecimento no seu desenvolvimento e aprendizagem e fazendo dos espaços de Educação Infantil meios sociais em que aprendizagem ocorra a partir das interações.
A escolha pelo tema veio, primeiramente, por um interesse pessoal antigo pela área da Psicologia e da concepção vigotskiana do desenvolvimento infantil. O interesse em pesquisar sobre como o meio influencia no processo de desenvolvimento da criança é justamente por acreditar que tudo que somos hoje não é determinado apenas pela ordem biológica, pela maturação do cérebro, mas é construído nas relações sociais. A infância, sendo a fase inicial do contato com o meio e com outros sujeitos, se torna de grande importância como objeto de estudo.
Essa concepção de desenvolvimento foi fundamentada teoricamente em Vigotski (2000 - 2003), que trabalha a ideia do desenvolvimento como um processo sócio-histórico-dialético e a questão da interação e mediação. Ademais, tomamos como influência a obra de Wallon (1986), trazendo a relação entre o biológico e o social e a questão da afetividade infantil. Bee (2003) e Palalia, Olds e Feldman (2009), por sua vez, trazem a compreensão do desenvolvimento dos aspectos físicos, cognitivos, psicológicos, sociais e formação da personalidade da criança, destacando a influência da sociedade e da cultura. Também utilizamos de outros autores que defendem a mesma concepção.
Para a realização desse trabalho escolhemos como metodologia a pesquisa bibliográfica, que tem como principal característica o estudo aprofundado e a análise crítica de produções realizadas em torno de determinada temática ou área de conhecimento. Na leitura crítica, é feita uma análise da teoria, não aceitando as ideias como uma verdade pronta e acabada. A pesquisa bibliográfica deve gerar indagações e questionamentos para serem explorados; não é uma simples exposição das ideias dos autores, mas um aprofundamento crítico, construído a partir da capacidade reflexiva do pesquisador.
Esperamos que o estudo realizado possa proporcionar aos educadores uma melhor compreensão do desenvolvimento infantil como algo em constante transformação; superando, assim, a ideia de criança como um ser passivo, que só se desenvolve mediante o que lhe é oferecido pela ordem biológica da espécie, ou que se submete às imposições do meio. Pode-se conceber a criança, então, como um ser interativo, que se desenvolve a partir do que aprende, também agindo sobre os outros, podendo modificar suas atitudes e maneiras de pensar o mundo.
Consideramos que esse tema também é de grande importância para educadores, pois os espaços de Educação Infantil é o primeiro contato das crianças com um meio social diferente do de sua família; assim, o educador deverá considerar todos os aspectos que influenciam no seu desenvolvimento e proporcionar situações que promovam ainda mais a sua aprendizagem.


CAPÍTULO I:

AS PERSPECTIVAS BIOLÓGICA E SOCIAL DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

O campo do desenvolvimento humano é o estudo dos processos que envolvem o crescimento físico e o desenvolvimento psicológico que todos os homens passam desde o momento da concepção. Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), o campo de estudo de desenvolvimento humano evoluiu a partir do final do século XIX e início do século XX, quando os cientistas do desenvolvimento perceberam a necessidade de compreender como o ser humano se desenvolve, considerando as características biológicas e as características psicológicas e culturais.
O estudo do desenvolvimento humano é algo muito amplo, que envolve várias áreas, dentre elas: psicologia, psiquiatria, sociologia, antropologia, genética (estudo das características herdadas), educação, história, filosofia e medicina. Os cientistas do desenvolvimento questionam porque todas as pessoas se desenvolvem biologicamente de uma determinada maneira e, entretanto, se tornam indivíduos diferentes ao longo do tempo, em suas características comportamentais, psíquicas, afetivas, cognitivas e sociais.
No conceito geral sobre desenvolvimento humano, existem várias perspectivas teóricas que o influenciam e tentam explicá-lo que são: de ordem ambientalista, que propõe que a criança nasce como uma "tábula rasa" e que se desenvolve a partir do que recebe do meio; a maturacionista ou inatista, que determina que o homem é um ser completo desde o momento do nascimento; e a abordagem sócio-interacionista, segundo a qual o desenvolvimento humano se constrói a partir da interação entre o desenvolvimento biológico do indivíduo com o meio, a partir das trocas sociais e culturais, ou seja, em um contexto de múltiplas variáveis, sejam elas biológicas, cognitivas, afetivas ou sociais, em que os contextos, como a família, a vizinhança e a cultura também influenciam no desenvolvimento.
Pode-se considerar que o desenvolvimento ocorre sob a influência dos fatores como hereditariedade (características herdadas dos pais biológicos) e o ambiente (influências externas) operando juntos. O desenvolvimento também é influenciado pelo contexto histórico, ou seja, a época, o tempo e o lugar em que as pessoas vivem afetam nos seus modos de vida.
Por acreditar que o desenvolvimento não ocorre apenas em uma determinada fase da vida, mas continua ao longo da vida, os cientistas investigam o desenvolvimento em todas essas perspectivas e com todas essas influências.
Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), os cientistas compreendem o desenvolvimento humano como a junção entre os domínios físico, cognitivo e psicossocial e fazem a distinção entre eles. O desenvolvimento físico diz respeito às características e mudanças físicas, como crescimento do corpo e do cérebro, desenvolvimento sensório e motor, dos sentidos e mudanças hormonais. O desenvolvimento cognitivo abrange as capacidades mentais como pensamento, atenção, memória, linguagem, percepção, raciocínio e criatividade. O que constitui o desenvolvimento psicossocial são as mudanças e estabilidade nas emoções, na personalidade e nos relacionamentos sociais.
O desenvolvimento humano é o resultado do desenvolvimento dessas três dimensões juntas, não acontecendo isoladamente umas da outras. O desenvolvimento físico afeta o desenvolvimento cognitivo e psicossocial, e assim também com os outros.
Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), Charles Darwin acreditava que os seres humanos seriam melhor compreendidos, tanto como espécie como indivíduos estudando seu desenvolvimento inicial, compreendendo os primeiros anos de sua infância.
Mesmo antes de nascer, o ser humano passa por várias mudanças e processos de desenvolvimento. O estudo do desenvolvimento humano, principalmente na fase infantil proporciona a compreensão das mudanças que ocorrem nessa fase, possibilitando identificar os fatores que irão influenciar no comportamento e procura compreender as mudanças emocionais, cognitivas e psíquicas no decorrer da vida.
Nos seus estudos, Vigotski (2000) afirma que não há a necessidade de buscar uma teoria do desenvolvimento infantil, mas é necessário recorrer à infância como uma forma de explicar o desenvolvimento humano no geral, defendendo que a fase da infância é o centro da pré-história do desenvolvimento.
Como o foco dessa pesquisa é o processo de desenvolvimento infantil, há que se considerar cada um dos aspectos (físico, cognitivo e psicossocial) do desenvolvimento para sua compreensão. Assim, o estudo focalizará o desenvolvimento da criança de zero a seis anos de idade, pois sendo a infância uma das fases que ainda não se compreende muito bem e ainda ser objeto de pesquisa para os pesquisadores do desenvolvimento se torna necessário compreender o que ocorre nos seus primeiros anos, pois é esse momento que o ser humano dá início ao processo de desenvolvimento que ocorrerá ao longo da vida.

1.1 ? Desenvolvimento físico
Nos três primeiros anos de vida o desenvolvimento físico ocorre de forma bastante rápida. Um recém-nascido tem em média 50 cm e pesa aproximadamente 3,4 Kg. O crescimento físico do cérebro ocorre mesmo antes do nascimento e possibilita o avanço no desenvolvimento cognitivo e psicossocial. O crescimento do corpo ocorre simultaneamente com a mudança do seu formato e suas proporções. As mudanças hormonais também desempenham um papel significativo em todas as etapas do desenvolvimento físico, governam o crescimento e as mudanças biológicas de várias maneiras.
O choro, função básica do bebê, assinala uma necessidade, que pode ser fome, sono ou dor. Outra característica comum nos bebês (e até em adultos) é o comportamento reflexo, ou seja, uma reação inata, uma resposta natural a algum acontecimento; por exemplo, piscar por causa de uma luz brilhante.
Os principais reflexos levantados pelas pesquisas sobre desenvolvimento infantil são reflexos de sugar e engolir, considerados adaptativos para a vida do bebê, o reflexo de rotação (a virada automática da cabeça em direção a algum toque), o reflexo de susto, o reflexo de preensão (reação de agarrar o dedo do adulto), dentre vários outros. A existência dos reflexos nos bebês mostra a presença de mecanismos naturais que podem ser informativos para os adultos (os pais) e são como ponto de partida para outras habilidades físicas.
Durante o primeiro ano, as necessidades de alimentação e sono do bebê mudam muito rápido. Essa mudança pode estar ligada às próprias necessidades da criança ou ao hábito ou rotina dirigidos pelos pais da criança.
Os primeiros marcos do desenvolvimento motor da criança são atos como sorrir, balbuciar, engatinhar. No decorrer do tempo, à medida que as capacidades físicas se desenvolvem, a criança já é capaz de saltar, correr, andar de bicicleta. Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), muitos pesquisadores do desenvolvimento consideram o desenvolvimento motor como um processo contínuo entre o bebê e o ambiente.
Dessa ótica, é possível afirmar que "as características físicas do bebê e sua posição em determinado ambiente oferecem oportunidades e limites que influenciam se e como a meta pode ser atingida" (PAPALIA, OLDS e FELDMAN, 2009, p. 180). Assim, os bebês desenvolvem suas habilidades motoras a partir do envolvimento do seu desenvolvimento físico com as possibilidades oferecidas pelo meio em que se encontram. Segundo Wallon (apud FONSECA, 2008), há que se considerar que quando uma criança adquire a posição bípede ou começa a andar, começa uma conquista do mundo interior e do mundo exterior, de grande importância para a evolução da personalidade da criança.
Os sentidos também se desenvolvem rapidamente nos primeiros meses de vida. O olfato e o paladar começam a se constituir ainda no útero, quando a gestante se alimenta e os sabores e odores são transmitidas para feto. Também a audição se desenvolve rapidamente; um bebê consegue distinguir a voz da mãe da de outras pessoas. O tato se desenvolve rápido, pois nos primeiros meses de vida, o sistema sensório é mais aguçado e a criança gosta de experimentar, sentir coisas diferentes. A visão é o sentido que demora um pouco mais para desenvolver. Até aproximadamente os dois primeiros meses a visão periférica é estreita e os olhos do bebê ainda são sensíveis a luz.
Uma criança considerada normal pode começar a andar entre 9 e 15 meses de vida. Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), o desenvolvimento dessa habilidade pode estar voltado a determinados costumes da sociedade: "Algumas culturas estimulam ativamente o desenvolvimento precoce de habilidades motoras" (p.181). Desse modo, algumas crianças podem começar a andar mais cedo ou mais tarde.
Em torno dos três anos ocorrem mudanças no desenvolvimento muscular e esquelético, a forma do corpo é mais delgada e comprida. As mudanças são coordenadas pelo amadurecimento do cérebro e promovem o desenvolvimento de muitas habilidades motoras. No período entre três e seis anos, a criança avança no desenvolvimento sensório e motor, permitindo maior coordenação, tornando possível, por exemplo, saltar e correr com mais facilidade e rapidez.
Segundo Pino (2005) é através do desenvolvimento sensorial e motor que a criança interage com o meio e começa a se constituir como ser cultural. A habilidade de se movimentar ou simplesmente, o movimento, tem um significado muito maior do que um simples deslocamento, mas é uma expressão corporal de relação e interação com o mundo exterior (FONSECA, 2008).
Por meio dessa evolução motora, a conquista do espaço se torna uma experiência muito importante para a criança. Nos primeiros meses de vida o movimento está relacionado aos estados de bem-estar ou mal-estar do bebê, se tornando uma expressão que prepara a criança para o estabelecimento de vínculos sociais e o adulto, ao interpretar os movimentos da criança que ainda não sabe falar, estabelece com ela uma relação de comunicação.
Mesmo com poucos meses de vida, o desenvolvimento motor da criança permite uma maior coordenação entre olho, mãos e pequenos músculos, com o movimento de preensão. Nessa mesma época, em que se desenvolvem as habilidades com as mãos, a criança começa a distinguir a preferência no uso de uma delas.
A partir dos dois anos, há um maior desenvolvimento das habilidades motoras refinadas, que abrange atos como, por exemplo, amarrar o cadarço do sapato ou abotoar uma camisa. O contato com a pré-escola nessa faixa etária podem influenciar no desenvolvimento artístico, na produção de desenhos, que, anteriormente eram só rabiscos, passam a ser representações de objetos reais, cada vez mais desenvolvidos.
Segundo Bee (2003), a maturação exerce grande influência, mas não explica sozinha o desenvolvimento físico da criança. Embora o ritmo varie de uma criança para a outra, a sequência é a mesma, ou seja, não existe um gene biológico que faça a criança caminhar, entretanto, essa é uma habilidade que todo ser humano considerado "normal" pode desenvolver.
No que se refere ao crescimento e forma do corpo a hereditariedade desempenha um papel mais significativo. Pesquisas recentes indicam que a prática em exercícios de movimentos, o estímulo e o reforço podem ajudar nas habilidades como sentar, andar, ou seja, as experiências e as práticas que o meio e que o outro proporcionam não fará, por exemplo, uma criança de poucos meses a andar, mas facilitam o desenvolvimento dos músculos e do movimento para tal habilidade ser construída e adquirida no seu tempo "certo".

1.2 ? Desenvolvimento cognitivo
O desenvolvimento cognitivo abrange as capacidades mentais como pensamento, atenção, memória, raciocínio, linguagem, percepção e criatividade. Os aspectos cognitivos também estão diretamente ligados aos aspectos afetivos. O ponto de partida de todo processo de desenvolvimento cognitivo se dá a partir do envolvimento dos esquemas sensórios-motores (olhar, escutar, sugar, agarrar) baseados nas experiências com outros sujeitos nos meios sociais e culturais.
Crianças recém-nascidas aprendem de acordo com o que veem, ouvem, cheiram, degustam e tocam. Nesse processo, a maturação é fundamental. Podemos perceber como um bebê desenvolve sua inteligência observando e avaliando o que eles conseguem fazer. Algumas experiências foram realizadas pelos pesquisadores para medir a inteligência de um bebê (PAPALIA, OLDS e FELDMAN, 2009).
Mesmo fornecendo dados precisos sobre o desenvolvimento infantil, esses recursos apresentam pouco valor para se compreender características futuras da inteligência de um ser humano, pois o desenvolvimento cognitivo também está diretamente ligado às influências ambientais e culturais. A inteligência se constitui a partir do desenvolvimento de todos os processos que envolvem a atividade cognitiva em constante interação com as experiências sociais e culturais, ou seja, a inteligência também se constitui socialmente, não somente biologicamente.
Desde muito cedo, com poucos meses de vida, a criança já desenvolveu a percepção visual, tem capacidade de fazer distinções e, portanto, ter uma preferência visual. Por exemplo, um bebê prefere mamar olhando para uma boneca de pano do que para outro brinquedo qualquer, que, se colocado no lugar da boneca há um estranhamento e ela pára de mamar. Um bebê também já é capaz de reconhecer objetos, acompanhando-os com os olhos, seu comportamento é governado pela informação visual.
O desenvolvimento da memória e da capacidade de atenção se expande a partir dos três anos, quando o reconhecimento e a recordação (de imagens, de fatos, de pessoas) também aumentam. A capacidade das crianças retomarem as lembranças é influenciada pelo modo como os adultos perguntam a elas sobre os fatos passados. Entre os três e seis anos, a criança tem facilidade de memorização; usa a técnica de decorar quando precisam lembrar de algo e já tem muita facilidade em aprender coisas novas, como imitar gestos, repetir o que o outro fala. Com poucos meses, a criança também tem capacidade de lembrança e está ligada a um contexto específico de uma recordação a alguma experiência que já ocorreu.
Para compreender o desenvolvimento do pensamento, foi realizada uma pesquisa pelos cientistas do desenvolvimento que revelava que crianças começavam a pensar e raciocinar desde os três meses e meio de vida (PAPALIA, OLDS e FELDMAN, 2009).
Essa pesquisa mostrava que bebês de três meses e meio a cinco meses compreendem a permanência de um determinado objeto e reconhecem um novo estímulo como algo surpreendente, ou seja, já tem a capacidade de pensar sobre o que vê no mundo a sua volta. Mais tarde, a eficiência do pensamento da criança acontece à medida que ela aprende novas estratégias ou lembram informações para a solução de algum problema a partir das experiências vividas.
O desenvolvimento da linguagem começa a ocorrer desde o primeiro dia de vida com a fala pré-lingüística, como o choro, o balbucio, o reconhecimento dos sons. Nesse momento, o papel do adulto é indispensável no desenvolvimento da criança, pois ele terá de interpretar e dar significado a esses sinais da linguagem. Wallon (apud FONSECA, 2008) analisa os gestos e movimentos das crianças como expressões, uma linguagem não verbal. Antes de adquirir a linguagem falada, os gestos são a forma de comunicação da criança. Já a fala, que expressa verbalmente um significado, se inicia quando a criança diz sua primeira palavra, em torno dos dez aos quatorze meses.
Nesse período a criança já compreende muitas palavras, mas não consegue falar todas, o que ocorrerá paulatinamente. Não só a maturação cerebral exerce grande influência no desenvolvimento da linguagem, mas também a interação social, a influência da família. Conversar, ler em voz alta para a criança desde cedo ajuda no crescimento de seu vocabulário e no domínio da linguagem.
A partir dos três anos, aumenta significativamente o vocabulário da criança, juntamente com a gramática e a sintaxe; ela consegue assimilar o significado de uma nova palavra ao ouvi-la poucas vezes, percebe quando duas palavras diferentes se referem a um mesmo objeto.
Assim como algumas capacidades cognitivas, a linguagem também está relacionada com o desenvolvimento biológico. À medida que as capacidades biológicas da fala se desenvolvem, as crianças adquirem a linguagem a partir do que aprendem com outros sujeitos nos meios sociais. Aspectos mais específicos como pronúncia ou desenvolvimento gramatical também podem ser influenciados pelas variações do ambiente linguístico da criança.
A capacidade de percepção do mundo e das coisas a sua volta se desenvolve nos primeiros meses conforme o cérebro se desenvolve. Mas as experiências específicas são necessárias para a criança aprender padrões fundamentais. Se uma criança é privada de situações que permitam a ela o contato com experiências que possam desenvolver sua percepção do mundo e das coisas, possivelmente será mais lento o seu processo de desenvolvimento perceptual.
A percepção dos objetos entre os dois ou três anos e sua descoberta a partir da manipulação torna possível a organização das primeiras representações mentais da criança (FONSECA, 2008). A criança passa a conhecer os objetos não só quando age sobre eles corporalmente, tátil e cinestesicamente, mas também aprende com a prática do outro, ou seja, a relação da criança com os objetos em constante interação com outros sujeitos passa a ser não apenas uma ação de execução ou manipulação, mas uma fonte de estímulos para a atividade mental e passa a encontrar para cada objeto o seu significado.

1.3 ? Desenvolvimento psicossocial
Os aspectos psicossociais também estão relacionados às emoções e suas mudanças decorrentes principalmente de fatores sociais. Os primeiros sinais dos sentimentos dos bebês são passos importantes no seu desenvolvimento. Eles demonstram claramente quando estão tristes ou alegres. Chorar, sorrir, expressões faciais, o movimento são alguns dos primeiros sinais de emoções.
Como os bebês dependem dos adultos para satisfazer suas necessidades básicas, compreender as emoções do bebê como uma função comunicativa é de fundamental importância para o seu desenvolvimento. Algumas pesquisas sugerem que regiões distintas do cérebro, mas em interação, podem ser responsáveis pelos diferentes estados emocionais. Vários estudos também apoiam o papel da maturação neurológica no desenvolvimento emocional. (PAPALIA, OLDS e FELDMAN, 2009).
O choro, mesmo sendo uma característica decorrente de estados de desconforto fisiológico, principalmente nos primeiros meses de vida, adquire um valor de expressão e, posteriormente, as frequências do choro mudam e vão adquirindo um valor que demonstram as emoções e sentimentos da criança, por exemplo, chorar pela ausência da mãe.
O olhar da criança não se constitui apenas na visão como função biológica. Como os olhos têm a função de captar estímulos visuais, esses são levados ao cérebro onde se processam as imagens visuais que possibilitam a percepção que cada indivíduo tem do mundo em sua volta. Mesmo a visão sendo uma função natural do homem, através dela a criança observa e percebe o mundo, bem como revela sua expressão e comunicação. Perceber está além da função de ver, é uma função cultural e, portanto, construída a partir das experiências de cada um no mundo.

Portanto, a visão é uma função natural, que por isso mesmo, não constitui um "diferencial" da espécie homo sapiens, como não o constituem quase todas as outras funções antes de se tornarem simbólicas. Nada, a não ser a experiência histórica do homem poderia atestar no nascimento do bebê humano o papel que o "olhar", não propriamente a visão, está destinado a desempenhar na sua história pessoal, como forma singular de expressão e de comunicação (PINO, 2005, p. 211).

O sorriso também se constitui uma expressão de sentimento da criança que revela satisfação, alegria. Segundo Pino (2005), o sorriso é a primeira manifestação intencional do comportamento da criança, é a primeira descoberta do outro, que se torna essencial para a sua existência.
O movimento, segundo Wallon (PINO, 2005), se configura numa atividade que proporciona o desenvolvimento tanto físico como psicossocial e estabelece relações entre o movimento, a afetividade e o pensamento. Através do movimento a criança também demonstra o que sente, pois aparecem como descargas de energias, relacionados a estados de bem-estar ou mal-estar. Assim, o movimento também se torna expressão.
Seja com poucos meses ou durante toda a infância, os relacionamentos socais das crianças são proporcionados pelo contato que tem, principalmente com outras crianças nas atividades de brincar. Para todos os domínios do desenvolvimento, o brincar contribui e estimula no aprimoramento dos sentidos, na coordenação, domínio de habilidades e experimentam novas emoções. A partir das brincadeiras, dos jogos, do faz-de-conta as crianças se descobrem, expõem suas emoções e aprendem a se relacionarem com o outro.
Segundo Wallon (apud FONSECA, 2008, p. 27) "(...) as emoções são ao mesmo tempo, condutas motoras e condutas sociais nas primeiras modalidades de adaptação". As emoções expressas pelas crianças são fatores de organização, de comunicação e expressão de sentimentos para os adultos. Crianças com mais de três anos já são capazes de falar sobre seus sentimentos e expressar com mais clareza suas emoções. Nesse período já se pode distinguir o temperamento das crianças que é o modo de como fazem algo ou como expressam.
Vários fatores de ordem social e cultural podem influenciar o desenvolvimento psicossocial da criança desde os primeiros meses de vida, como características e condições da sua família, quais os costumes e hábitos dessa família, o envolvimento do pai e da mãe no cuidado e educação dos filhos. Assim como fala Jairo Werner:

Nas camadas populares, por exemplo, podemos encontrar características de socialização de estilo mais comunitário e de menos paparico. Diferentemente, nas classes médias, mais próximas do modelo burguês da família nuclear, o estilo é mais individualista e a criança, em geral, é mais superprotegida. Esses estilos diferentes vão se refletir, desde muito cedo, na postura da criança em relação ao mundo e a si própria (WERNER, 2010, p. 2).

Estes aspectos sociais, entretanto, não podem ser considerados como uma regra geral, pois nem sempre encontram-se essas características nas camadas populares ou classes médias
O apego e a confiança, segundo Bee (2003), são alguns dos sentimentos mais comuns no primeiro ano de vida da criança, principalmente do bebê com a mãe. Os comportamentos de apego são expostos a partir do momento em que o indivíduo precisa de cuidados, proteção, conforto. Como os bebês necessitam desse cuidado que os pais proporcionam, eles se sentem apegados a eles até o momento em que essa necessidade vai diminuindo. Em torno dos três anos, a medida que amadurecem física, cognitiva e psicossocialmente, as crianças buscam autonomia e independência dos adultos aos quais estão apegados, ou seja, os pais.
Diferente do desenvolvimento físico, que está mais ligado aos aspectos biológicos, o desenvolvimento cognitivo e psicossocial depende mais da sociedade e da cultura que a criança está inserida. Algumas crianças internalizam os padrões da sociedade e da cultura com mais facilidade que outras e isso está aliado ao temperamento, às mudanças nas emoções, à capacidade de aprendizagem e à facilidade de cada uma de se relacionar socialmente. O comportamento diferenciado de cada criança também pode estar ligado às condições sociais da família da criança.
Se o meio em que a criança vive adota certos hábitos e essa criança for viver em um meio que possui hábitos diferentes, seu comportamento e suas relações sociais com esse meio poderão ser diferentes, pois conviverá com costumes aos quais não estava habituada. Isso acontece porque desde cedo a criança necessita dos cuidados e orientações do adulto para o seu desenvolvimento. A partir do momento em que os pais ou a sociedade em que a criança está inserida adota certos hábitos, a criança pode se apropriar desses hábitos e ser influenciada a adotá-los, compreendendo que ela não é um ser vazio; ela pode ou não aprender certos padrões de comportamentos porque ela não é formada apenas pelo meio.
Deve-se considerar que cada criança tem suas características próprias e que o mesmo meio pode ter efeitos bem diferentes em cada uma, dependendo dessas características que ela traz para essa interação (BEE, 2003). A personalidade e as características próprias da criança não são determinadas só pelos padrões genéticos e biológicos. "A criança nasce com certas tendências comportamentais, mas o resultado depende das transações entre as suas características iniciais e as respostas do meio" (BEE, 2003, p. 299).
A partir da compreensão de como ocorre o desenvolvimento das crianças nos aspectos físico, cognitivo e psicossocial, é necessário considerar que não acontecem dissociados um do outro, ainda que os três aspectos tenham sido explicitados separadamente para uma compreensão mais detalhada de cada um. Assim, percebe-se a amplitude do tema e a importância dessa fase, desde o nascimento até por volta dos seis anos, período em que acontecem mudanças significativas e que posteriormente influenciarão a vida futura do indivíduo.
Fazendo uma análise e reflexão do estudo do processo de desenvolvimento explicitado por Papalia, Olds e Feldman (2009), Bee (2003), Fonseca (2008) e Pino (2005), pode-se considerar que a cultura e a sociedade em que a criança se encontra tem grande influência em seu processo de desenvolvimento. O meio cultural e social possibilita à criança se tornar não um ser passivo, mas um ser interativo, que aprende e adquire conhecimentos a partir das trocas de relações com esse meio e com os sujeitos. Segundo Rabello e Passos (2002, p. 5),

(...) não é suficiente ter todo o aparato biológico da espécie para realizar uma tarefa se o indivíduo não participa de ambientes e práticas específicas que propiciem esta aprendizagem. Não podemos pensar que a criança vai se desenvolver com o tempo, pois esta não tem, por si só, instrumentos para percorrer sozinha o caminho do desenvolvimento, que dependerá de suas aprendizagens mediante as experiências a que foi exposta.

Apenas as características biológicas de um ser humano agindo independentemente não são suficientes para que esse sujeito se desenvolva cognitiva, emocional e socialmente. É preciso compreender o desenvolvimento numa relação indissociável entre o biológico e o social. Para Wallon (apud FONSECA, 2008, p. 15), "(...) não há oposição entre o desenvolvimento psicobiológico e as condições sociais que o justificam e motivam", ou seja, o desenvolvimento biológico e o desenvolvimento social (a incorporação da experiência social e cultural) são condições um do outro.
Partindo dessa concepção, no segundo capítulo, serão abordados os aspectos cognitivos e psicossociais do desenvolvimento da criança, bem como o desenvolvimento do pensamento e da linguagem, buscando compreender o processo de desenvolvimento infantil como algo em constante transformação, podendo constituir formas de comportamentos diferentes em cada uma, de acordo com o meio e a cultura em que esta se encontra.



CAPÍTULO II

A INFLUÊNCIA DO MEIO SOCIAL E CULTURAL NO DESENVOLVIMENTO DOS ASPECTOS COGNITIVOS E NO COMPORTAMENTO INFANTIL

Muitos são os fatores que influenciam no processo de desenvolvimento de qualquer ser humano, assim, é necessário recorrer à história do desenvolvimento e da infância e a partir daí analisar como a sociedade tem visto a criança para, então, compreender aspectos do seu comportamento, considerando o desenvolvimento do pensamento e da linguagem como fatores principais no desenvolvimento da personalidade e mudanças comportamentais infantis.
Sabe-se que em diferentes contextos históricos e sociais, a maneira como a criança é vista ou tratada vai gerar nela um determinado comportamento, diferente do de outras crianças de contextos históricos e sociais diferentes. Na sociedade medieval, por exemplo, as crianças eram vistas como "adulto em miniatura", seus modos de se vestir eram como adultos, o papel da família e da escola no seu processo de desenvolvimento era diferente do que é hoje e isso, consequentemente, gerava um tipo de comportamento bastante diferente das crianças de hoje.
Philippe Ariès (2006) descreve como a criança era representada em pinturas e retratos dos séculos XII ao XVI e percebe-se que a infância era vista como uma fase desconhecida ou mal representada. A criança muito pequena não fazia parte do universo do mundo de seres humanos. Os sinais do desenvolvimento da infância só começaram a se tornar significativos a partir do fim do século XVI (ARIÉS, 2006), quando estudiosos começaram a perceber "avanços" na linguagem e pensamento da criança.
O meio familiar era considerado o principal contato da criança com o outro e onde desenvolvia sua capacidade de aprendizagem. Até o século XVI, havia uma indiferença da escola pela formação infantil e a mesma não exercia o papel de formação social e moral da criança, ou seja, a escola da época medieval não era destinada às crianças. Pode-se considerar que tanto o pensamento como a linguagem da criança eram desenvolvidas mais lentamente porque o seu conhecimento estava limitado somente ao meio familiar, apesar de esse exercer grande importância, porém, não sozinho, mas em interação com a cultura e a sociedade.
Ariès (2006) destaca que entre os séculos XVI e XVIII ocorreram grandes transformações históricas, sociais e culturais e a infância passou a ter diferentes conceitos no imaginário do adulto. À família cabia a preocupação com a educação dos filhos, considerando-os como frutos da possibilidade da ascensão social. Ou seja, os adultos acreditavam que a melhor forma para o desenvolvimento e a formação de seus filhos era através da imposição de regras, gerando nas crianças comportamentos "maduros", como se fossem adultos, sendo elas, ao mesmo tempo vistas como sujeitos passivos e sem autonomia.
Já no século XIX, com as mudanças nas relações sociais, a criança passa a ter um papel central na sociedade e é considerado como um ser com características próprias em suas ideias e interesses. A infância, como um período específico da vida pela qual todos os serem humanos passam, pode ser considerada a fase em que acontecem as mudanças mais significativas, por isso, a forma como o adulto interfere no seu desenvolvimento é de grande importância, não só no meio familiar, como também na escola e na sociedade.
A concepção de infância hoje é bastante diferente de séculos atrás. É algo construído historicamente. Assim, deve-se considerar a criança em todos os seus aspectos. A maneira como a criança é vista atualmente é destacado no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (2000), que afirma que durante o processo de desenvolvimento, aprendizagem e construção de conhecimentos, a criança se utiliza das mais variadas linguagens e exercem o seu pensamento como forma de expressão.
A partir disso, para compreender o comportamento infantil, deve-se considerar que sempre esteve relacionado com o desenvolvimento do pensamento e da linguagem da criança e exerce grande importância no desenvolvimento tanto biológico como nas relações sociais. Dessa forma, a interação com o outro e com o meio se torna essencial para a construção da identidade da criança, bem como no desenvolvimento de suas capacidades cognitivas.
O pensamento e a linguagem, segundo Vigotski (2000), não podem ser estudados separadamente, mas fazer o estudo do desenvolvimento, do funcionamento e da estrutura de cada uma dessas unidades, considerando que pensamento e fala estão inter-relacionados. "As formas mais elevadas da comunicação humana somente são possíveis porque o pensamento do homem reflete uma realidade conceitualizada" (VIGOTSKI, 2000, p. 7 e 8), ou seja, a fala só existe porque o homem tem a capacidade de pensar sobre a realidade e ele só pensa porque interage e usa a linguagem como comunicação com o outro e com o meio externo.

2.1 ? Desenvolvimento do pensamento e da linguagem
O pensamento e a linguagem são funções do desenvolvimento cognitivo, ou seja, estão ligados às capacidades mentais. À medida que a criança, com suas características pessoais, desenvolve sua personalidade e adquire formas de comportamento a determinadas situações, o desenvolvimento do pensamento e da linguagem também será influenciado. A linguagem e o pensamento também interferem no desenvolvimento psicossocial, ou seja, estão relacionados aos sentimentos e emoções da criança consigo mesma e nos seus relacionamentos com os outros.
Segundo Bee (2003), para compreender como ocorre o processo do pensamento na criança é preciso entender as mudanças na forma e na estrutura de seu pensamento. Entende-se por pensamento não um armazenamento de informações a serem memorizadas, mas a capacidade que a criança tem de desenvolver o conhecimento que tem do mundo, formular hipóteses, criar conceitos, através da atenção, percepção, memória e inteligência.
No desenvolvimento do pensamento, a maturação neurológica é um fator que exerce grande importância segundo Papalia, Olds e Feldman (2009). Porém, o contexto cultural influencia as primeiras interações da criança com as pessoas ao seu redor, promovendo uma maior competência cognitiva. O adulto proporciona à criança situações que estimulam o seu pensamento, atenção e memória.
A criança começa a pensar e perceber o mundo desde poucos meses de vida. Mas por volta dos três anos de idade, começa a perceber e pensar o mundo de uma forma mais sofisticada, ou seja, o mundo se torna mais organizado à medida que compreende a identidade das coisas e das pessoas, tem uma noção de espaço, consegue responder determinadas perguntas, tem a capacidade de lidar com situações em que já consegue estabelecer determinadas diferenças.
O pensamento infantil deve ser estudado a partir do que as crianças têm e não do que lhes falta. Uma característica geral do pensamento infantil, segundo Vigotski (2000) é o egocentrismo, ou seja, crianças em idade pré-escolar têm um pensamento rígido, capturado pelas aparências e preso à sua própria perspectiva. Mas isso não quer dizer que a criança está sendo egoísta; ela apenas pensa ou supõe que todos veem o mundo como ela o vê. (BEE, 2003). Esse egocentrismo é visto como algo positivo no desenvolvimento do pensamento e da linguagem, pois é através do pensamento para si que a criança internaliza conceitos e conhecimentos.
Quando uma criança em idade pré-escolar está desenvolvendo alguma atividade como, por exemplo, pintando um desenho, ela fala sozinha, de acordo com o que está pensando em fazer, como se estivesse "pensando em voz alta". Com o passar do tempo, com a criança já um pouco mais velha, essa fala egocêntrica se transforma em fala interior, ou seja, pensa para si própria.
Para Vigotski (2000), essa fala não se configura como egocêntrica, mas a denomina como fala privada, que ajuda as crianças a integrar a linguagem ao pensamento e desempenha uma função muito importante na transição entre a fala social inicial e a fala interior, como uma transição para a internalização do controle do comportamento de origem social (PAPALIA, OLDS e FELDMAN, 2009).
Entende-se por linguagem uma forma de comunicação através de palavras ou gestos que representam um determinado significado e sentido. Antes da primeira palavra, ocorre a fase pré-linguística, que é o momento em que a criança usa gestos, o choro, o balbucio, o sorriso para expressar para outras pessoas o que está sentindo.
O desenvolvimento da linguagem ilustra a interação de todos os aspectos. À medida que as estruturas físicas necessárias para produzir os sons amadurecem e que as conexões neurais necessárias para associar som e significado estão ativadas, a interação social com os adultos introduz os bebês à natureza comunicativa da fala. (PAPALIA, OLDS E FELDMAN, 2009, p. 213).

A linguagem, nos primeiros anos da criança surge como um meio de comunicação entre ela e as pessoas em seu ambiente. A linguagem surge desde os primeiros dias de vida, como o choro, o balbucio. Porém, esses sinais de comunicação e até mesmo suas primeiras palavras, segundo Vigotski (2000), não tem nenhuma relação com o desenvolvimento do pensamento. "(...) Essas manifestações geralmente têm sido consideradas uma forma de comportamento predominantemente emocional" (VIGOTSKI, 2000, p. 52).
Somente mais tarde, a linguagem organiza o pensamento da criança, tornando-se uma função mental interna (VIGOTSKI, 2003). Somente quando a criança começa a falar as primeiras palavras e conhecem o seu sentido, aprendem como utilizar a linguagem para se comunicar (pedir, contar histórias, conversar, responder, etc), relacionando-a com o seu pensamento.
William Stern (apud VIGOTSKI, 2000) acredita que a interpretação das primeiras palavras da criança é a base para a compreensão da teoria do desenvolvimento da linguagem infantil. Quando uma criança por volta de um a dois anos diz uma palavra apontando para um determinado objeto, ela não está apenas mostrando o objeto, mas está comunicando a outra pessoa que quer pegá-lo. Isso se nota a partir de todo o comportamento e ações da criança naquele momento.
A fala inicial da criança não é uma fala imatura. Se uma criança não consegue falar sobre algo que viu, não significa que ela não compreendeu, mas que ela não consegue ainda sequenciar as palavras suficientes da ação. Isso porque o vocabulário da criança não é tão amplo. A partir das vivências e diálogos e à medida que as características biológicas também se desenvolvem, a fala se tornará, cada vez mais organizada.
Segundo Papalia, Olds e Feldman (2009), as capacidades biológicas não são suficientes para que uma criança desenvolva a linguagem. A aquisição e utilização da linguagem ocorrem a partir do entrelaçamento da maturação cerebral com as influências externas, pois a linguagem, em si mesma, é uma ato social. O contato com os pais, outros adultos e crianças mais velhas favorecem à criança, desde tenra idade a progredir sua linguagem, através de diálogos e reforço.
Para Vigotski (2000), a fala mais primitiva da criança é essencialmente social. À medida que a capacidade biológica da fala se desenvolve, tudo que ela aprende a falar é porque ouve, vê e vivencia situações as quais aprende e desenvolve a linguagem, até mesmo quando a criança está sozinha e estimula seu pensamento através da fala egocêntrica. "A fala egocêntrica emerge quando a criança transfere formas sociais e cooperativas de comportamento para a esfera das funções psíquicas interiores e pessoais" (VIGOTSKI, 2000, p.23). Para que a fala egocêntrica se desenvolva em fala interior são necessários os fatores externos.
Primeiramente, a criança internaliza determinado conceito, que aprende com outras pessoas em seu meio social, depois pensa em voz alta, conversa consigo mesmo e, posteriormente, se converte em fala interior, em pensamento organizado internamente.
A fala interior não se configura como uma fala verbal, mas uma fala para si mesmo, é uma atividade intelectual que determina os motivos da fala e o pensamento expresso em palavras.
Assim, o desenvolvimento da linguagem - inter-relacionada com o pensamento - ocorre em etapas: primeiro, a fala social, depois, egocêntrica e então, fala interior. Ou seja, o desenvolvimento do pensamento e da linguagem não vai do individual para o social, mas do social para o individual.
A linguagem não se configura só como um meio de comunicação, mas além de facilitar a manipulação de objetos e organizar o pensamento, também controla o comportamento da própria criança, através da fala interior. Assim como as relações da criança com as pessoas e seu meio desenvolvem a fala interior e o pensamento reflexivo, essas interações também propiciam o desenvolvimento do comportamento da criança.
Há uma grande influência do meio no desenvolvimento do pensamento e da linguagem de cada criança. "O fato de a fala ser mais egocêntrica ou mais social depende não só da idade da criança, mas também das condições que a cercam" (VIGOTSKI, 2000, p. 28). Dessa forma, a inserção da criança no meio social e cultural a proporciona o desenvolvimento da linguagem e do pensamento.
Dessa forma, se a criança convive em um meio familiar em que as pessoas não conversam muito com ela, possivelmente essa criança terá menos oportunidade de desenvolver a linguagem socialmente.

O crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pensamento, isto é, da linguagem (...) O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais do pensamento e da fala (VIGOTSKI, 2000, p.63).

A partir da compreensão de alguns conceitos sobre o pensamento e linguagem, é importante compreender também como os seus processos de desenvolvimento irão influenciar, desde cedo, na personalidade do indivíduo. Para compreender as formas do comportamento humano, segundo Vigotski (2000), deve-se considerar todos os meios pelos quais o homem aprende a organizar e dirigir seu comportamento, que são os aspectos cognitivos do desenvolvimento, principalmente o pensamento e a linguagem.

2.2 ? A influência da sociedade e da cultura na formação da personalidade e no comportamento da criança
Existem vários fatores que também podem provocar mudanças no desenvolvimento da personalidade da criança. A situação econômica e social da família pode ou não interferir nos aspectos cognitivos e psicológicos, porém, esse desenvolvimento depende muito das características que tanto a criança como o meio trazem; quanto mais o ambiente for rico de possibilidades de aprendizagens, melhor será o desenvolvimento posterior.
Segundo Vigotski (2003), a história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento de duas linhas: de um lado, os processos elementares, que são de ordem biológica e de outro, as funções psicológicas superiores, de origem sócio-cultural.
Dentre processos de ordem biológica, estão os aspectos naturais do comportamento, por exemplo, os reflexos. O temperamento, ou seja, um aspecto da personalidade do indivíduo, ligado à forma de comportamento é definido por Bee (2003) como uma característica de ordem biológica, que trata de diferenças individuais que constituem as emoções e os aspectos principais das quais se desenvolve posteriormente a personalidade da criança. As formas de comportamentos humanos se dão por um processo que é interno, porém, influenciado pela cultura.
Alguns estudos defendem a ideia de que o comportamento de cada criança é geneticamente determinado, ou seja, que os padrões característicos e as qualidades temperamentais da personalidade são inatos. Porém, se assim fosse, as pessoas não mudariam no decorrer da vida ou teriam comportamentos iguais a qualquer situação. As formas de comportamentos podem ser aprendidas de acordo com as experiências de cada um no mundo. O meio social e cultural desempenha um papel fundamental na formação da personalidade e nas mudanças de comportamento no decorrer da vida de qualquer ser humano.
As características da personalidade e comportamento das crianças interagem com o meio a qual esta se encontra, de forma que esse meio pode modificar ou reforçar comportamentos próprios. Por exemplo, a intensidade com que os pais dão carinho seus filhos pode desenvolver na criança comportamentos mais afetivos, de apego ou comportamentos mais frios, de distanciamento.
É no meio social amplo (que envolve ambiente físico, familiar, escolar, social e cultural) que a criança estabelece relações com as pessoas e garante a sua formação como sujeito interativo.
Muitos comportamentos são aprendidos e podem ser modificados de acordo com a situação e o meio em que a criança se encontra. Uma criança pode ser sorridente tanto em casa como na escola porque é estimulada por outras pessoas a ter comportamentos assim em ambos os meios. Outra criança pode ser sorridente em casa, mas muito séria na escola porque as situações e as pessoas com quem se relacionam na escola não lhe proporcionam desenvolver certos comportamentos. Cada criança constrói conhecimentos e formas de comportamentos a partir das suas próprias necessidades nas interações que estabelece com outras pessoas e com os meios sociais em que se encontra presente.
Assim, a criança pode nascer com determinadas características temperamentais, mas existem possibilidades de mudanças no seu comportamento de acordo com as variações sociais e/ou culturais.
Segundo Bee (2003), para compreender os aspectos relacionados ao comportamento e ao desenvolvimento da personalidade da criança, deve-se estudar não só a criança como um ser isolado, mas todo o sistema social da qual faz parte, considerando os aspectos micro, que envolve meio familiar e escolar e os aspectos macro, envolvendo a sociedade e a cultura mais ampla em que vive.
Desde os primeiros dias de vida, a maneira como a mãe cuida do bebê no momento da amamentação gera na criança comportamentos diferenciados. Mahler, Pine e Bergman (2002) relatam experiências de observações em que comparam o comportamento de mães durante a amamentação. Uma delas permanecia bastante carinhosa, com seu rosto na direção do rosto do bebê e sorrindo para ele. Percebia-se que o comportamento do bebê expressava satisfação e prazer. Uma outra mãe preferia dar mamadeira pro seu filho ao invés de amamentá-lo no seio. Ela se mantinha um pouco fria com relação ao filho, não olhava nos olhos dele e, assim, o bebê se comportava de uma forma inquieta, pois tinha carência de um cuidado materno mais profundo.
Pode-se considerar que em ambos os casos, se as mães continuarem por muito tempo, desenvolvendo esses comportamentos com seus filhos, irão afetá-los emocionalmente no futuro.
Nos primeiros meses de vida, os pais são os principais responsáveis a estimular a criança a adotar comportamentos futuros positivos. A maneira e a intensidade de carinho que os pais dão para seus filhos provocam comportamentos de apego em ambos os lados e que podem durar por muito tempo. Por volta dos dois ou três anos, há um desligamento físico da criança com mãe, à medida que não depende tanto da mesma nas suas necessidades básicas. Mas não um desligamento sentimental. Crianças muito novas também podem ter comportamentos de estranhamento em relação a pessoas desconhecidas a ela.
Segundo Mahler, Pine e Bergman (2002), a partir do sexto mês, o bebê passa a ter comportamentos de reconhecimento da mãe. Nessa idade, percebe-se como a criança observa mais a mãe, toca o seu rosto e se comporta de maneira diferente quando alguém, que não seja a mãe a põe no colo. A interação da mãe com a criança desde os primeiros meses de vida são muito importantes para o desenvolvimento da personalidade da criança.
Situações que geram ciúmes, como por exemplo, o nascimento de um irmão, pode desenvolver na criança comportamentos diferenciados (cair e se machucar de propósito, chorar mais, etc) (MAHLER, PINE E BERGMAN, 2002). Isso acontece porque a ele, até então era o "centro das atenções" e a mãe a tratava de uma maneira que após o nascimento de outro filho não pode mais. Então, a criança passa a fazer de tudo para chamar a atenção e tentar o "seu lugar" de volta.
Cabe aos pais, então, lidar com essa situação, educar e agir com seu filho de forma que ele não se torne futuramente agressivo, pois quanto mais ocorram traumas para a criança ou situações desagradáveis e quanto menos favoráveis sejam as experiências que passa nos primeiros anos de vida, maior será a tendência de, posteriormente, a criança passar por dificuldades na formação de personalidade e atitudes negativas de comportamento.
Crianças de famílias cujos pais são mais apoiadores, cuidadosos e carinhosos tendem menos a apresentar comportamentos agressivos. Crianças que vivem em família que impõe regras consistentes tendem a ser mais competentes e seguras de si mesmas. Quando, desde cedo, os pais exigem mais das crianças, incentivando-as a ter comportamentos positivos, demonstrando confiança, elas têm auto-estima mais elevada, apresentam mais responsabilidade e generosidade em relação aos outros (BEE, 2003).
Deve-se considerar também que a influência dos pais sobre os filhos não funciona como uma regra, pois então todos os seus filhos teriam características iguais. Cada criança tem uma capacidade de aprendizagem diferente. A maneira que os pais educam seus filhos pode ser igual, mas o que um compreende de uma maneira é diferente para o outro, depende muito do desenvolvimento do pensamento e das capacidades cognitivas de cada um; isso justifica porque irmãos de uma mesma família se tornam muito diferentes.
Um outro importante aspecto destacado por Mahler, Pine e Bergman (2002), é que o primeiro grande passo para a formação da identidade do ser humano se inicia no momento em que o mesmo adquire a habilidade da posição ereta ou de andar. A partir desse momento, em que também ocorre o desenvolvimento da linguagem, ocorre a descoberta do mundo para a criança. Seus comportamentos são de mais independência e começam a estabelecer relações com as pessoas e o mundo a sua volta.
O conhecimento que a criança tem do mundo e a formação do autoconceito também influencia no seu comportamento, por exemplo:

Uma criança que acredita que não sabe fazer contas de dividir comportar-se-á na sala de aula de modo muito diferente daquela criança cujo autoconceito inclui a ideia: "Sou boa em matemática". Se ela acreditar ser menos competente talvez nem experimente fazer os problemas de divisão baseada na teoria de que: "Se eu não tentar, não vou fracassar" (BEE, 2003, p. 334).

Assim, dependendo do desenvolvimento do pensamento da criança e conhecimentos sobre determinados assuntos, irá gerar nela sentimentos de segurança ou insegurança em algumas situações. Isso depende também do meio social na qual ocorre tal fato, pois talvez em um lugar a criança se sinta mais a vontade e sem medo de errar do que em outros, que pode provocar-lhe vergonha ou timidez em desenvolver algum conhecimento ainda não apreendido por completo.
Quanto aos relacionamentos sociais, as crianças podem ter diversos tipos de comportamentos. Muitas formas de se comportar podem estar ligadas às maneiras de pensar. Bee (2003) denomina "comportamento moral" a capacidade que a criança tem de estabelecer relação entre sua capacidade de pensamento com a sua maneira de agir.
É certo que existe uma ligação entre pensamento e comportamento, por isso, dependendo da maneira como a criança pensa o mundo e da sua capacidade de raciocínio, pode-se saber que atitudes ela pode ter em uma situação real. À medida que a criança (até mesmo o adulto) pensa sobre determinado conceito e tem uma opinião a respeito, suas atitudes e comportamentos podem ser influenciados de acordo com o seu pensamento sobre tal assunto.
Até mesmo nas brincadeiras, no jogo de faz-de-conta, o comportamento de uma criança pode ser o mesmo que em situações reais. Um exemplo citado por Bee (2003) relata que duas irmãs resolvem brincar de "irmãs". Suas maneiras de agir no momento da brincadeira são os verdadeiros comportamentos de irmãs que elas acreditam ter na vida real. Em situações cotidianas, esse comportamento não é percebido por elas, mas levando para a brincadeira elas sabem corretamente qual o comportamento que duas irmãs devem ter uma com a outra.
Não é só no meio familiar que a criança desenvolve sua personalidade e adquire diferentes formas de comportamento. Deve-se considerar as relações da criança em todos os meios da qual faz parte e a influência da cultura mais ampla. É no contexto de variadas relações que permite à criança a aquisição de novas propriedades da personalidade, diferentes maneiras de agir e novas aprendizagens, em que a realidade social e cultural a qual se encontra é a fonte do seu desenvolvimento, que possibilita que o social se transforme em individual.
Segundo Vigotski (apud TEIXEIRA, 2008, p. 2), "passamos a ser nós mesmos através de outros; essa regra não se refere unicamente à personalidade em seu conjunto, mas a toda a história de cada função isolada". Ou seja, as características e atitudes que desde criança o ser humano constrói, estão impregnadas nas trocas com o outro. Até mesmo o que temos de mais individual não é dado biologicamente, mas é construído a partir das relações sociais dentro de uma determinada cultura, entendendo-se por cultura um complexo padrão de comportamentos, crenças, valores, manifestações, compartilhados em diversos grupos sociais. Assim, fazem parte do meio cultural a família, a vizinhança, a escola, a sociedade em geral.
Em cada cultura, com seus costumes, valores e sujeitos, a influência sobre o comportamento infantil exerce grande importância. Mas deve-se considerar que não só a cultura age sobre a criança, mas a criança com suas capacidades físicas cognitivas, emocionais e psicológicas tem suas características próprias e conhecimento de mundo, também agindo sobre a cultura.
Em diferentes meios, os comportamentos e aprendizagens são construídos pela criança, não são coisas determinadas, sobrepostas a ela. A partir da interação entre as pessoas e o meio, em situações cotidianas sua aprendizagem não se dá espontaneamente, mas a aprendizagem é um processo contínuo, em constante transformação.
Enquanto o único contato da criança é a família, seus modos de agir, pode-se dizer, são mais "limitados". Quando a criança entra em contato com outras crianças, em espaços onde acontecem a Educação Infantil orientada por profissionais, é que ela pode conhecer diferentes costumes e culturas. Nesses espaços, muitos comportamentos e ações realizadas pelas crianças são frutos do ambiente cultural em que vivem. Assim, o papel do educador é buscar entender as diferenças de cada uma e fazer com que elas se respeitem.
É no meio educacional que as crianças também aprendem diferentes formas de comportamentos positivos e aprendizagens significativas. O educador deve possuir conhecimentos para exercer influência positiva sobre a cultura de cada criança, de uma maneira saudável e educativa.
Porém, qualquer meio cultural sozinho, não explica as transformações que ocorrem no ser humano. O social age sobre o biológico e vice-versa. O desenvolvimento da criança não pára no momento em que suas características biológicas se desenvolvem, mas é a partir da sua inserção no meio social que o indivíduo se constitui em um ser biológico e social ao mesmo tempo. Segundo Vigotski (2000), o homem biológico transforma-se em social por meio de processos de interações e internalizações de comportamentos e aprendizagens desenvolvidos socialmente e culturalmente. Assim, todas as características físicas de uma criança e suas ações têm um significado ao se relacionar com o mundo exterior.
As reações inatas do desenvolvimento da criança só se tornam significativas se forem consideradas em constante relação com a experiência histórica e social de cada uma. É a partir desse conhecimento, embasado na teoria sócio-interacionista de Vigotski que o homem é considerado como ser biológico, histórico e social, desde a infância, daí a compreensão de como as características humanas se formam e se transformam através de processos de interação e mediação.
Uma criança que possui todo o aparato biológico da espécie humana não se constituirá como sujeito de cultura se não estiver inserida num meio social mediador que lhe proporcione aprendizagens.
Pode-se concluir então, que a relação entre o biológico e social é muito forte e necessária no processo de desenvolvimento da criança, pois, dentre vários outros aspectos, "o comportamento infantil não resulta apenas das forças ambientais, mas sim da luta dialética entre a criança (conceito que inclui os aspectos biológicos) e o seu mundo físico e sócio-material-cultural" (BARBOSA, 1997, p. 43).
Assim compreendido, deve-se considerar o desenvolvimento da criança com todos esses aspectos e, principalmente para o educador de crianças de 0 a 6 anos de idade, considerar os espaços de Educação Infantil como um espaço social e de cultura, em que a criança desenvolva todas as suas capacidades em todas as dimensões (física, cognitiva e psicossocial).














CAPÍTULO III

A IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO E MEDIAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA

Compreendidos vários aspectos e fatores que influenciam o processo de desenvolvimento da criança, seu comportamento e formação da personalidade, aspectos que são de fundamental importância para o educador, deve-se considerar que, para a criança de 0 a 6 anos, o ambiente educacional é um meio privilegiado e fundamental em que ela se desenvolve cognitiva e socialmente. São nos espaços de Educação Infantil que crianças que pertencem a meios sociais e culturais diferentes se encontram. Cada uma dessas crianças tem uma personalidade diferente uma das outras e assumem comportamentos que também são diferentes. Nesse espaço, o professor deve considerar as características de cada criança e fazer dele um espaço de descobertas e aprendizagens, intervindo como mediador.
Para compreender o papel do professor de Educação Infantil no processo de construção de conhecimento, desenvolvimento e aprendizagem das crianças, é necessário, primeiramente, entender qual o papel do professor de uma maneira geral.
O professor, na década de 1990 era um trabalhador pouco valorizado e considerado um dos principais responsáveis pelos problemas educacionais. Seu papel era basicamente a formação e a preparação do sujeito para estudos posteriores ou para o mercado de trabalho, o que se percebe ainda hoje. Nessa ótica, o aluno é visto como um sujeito passivo. Assim, na perspectiva que tratamos, do desenvolvimento como um processo de interações e da criança como um ser biológico e social, o professor passa a exercer um papel significativo, que vai além dessa função, tendo um papel fundamental no processo de aprendizagem e desenvolvimento, considerando o aluno um sujeito de cultura, com características próprias, intervindo como um mediador para a aquisição de novos conhecimentos.
Assim, na Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, essencial para a criança, o educador passa a ser reconhecido como um profissional, à medida que os espaços de Educação Infantil (creches e pré-escolas) também passam a ser reconhecidos como espaços educativos (BONETTI, 2010).
Esse professor de Educação Infantil deve ter conhecimentos e atitudes que considerem a criança como um ser biológico e social ao mesmo tempo, ou seja, considerar que o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores como o pensamento e a inteligência não decorre apenas de uma evolução linear das funções biológicas, mas são construídas por meio da aquisição de experiências sociais e culturais (CAVALCANTI, 2005).
A partir desse conhecimento, o professor de Educação Infantil segundo Bonetti (2010) assume diferentes funções, dentre elas: garantir à criança o direito de aprender e de se desenvolver, através de situações cotidianas, em que a partir da manipulação de objetos e relações com os colegas, a criança constrói conhecimentos através das experiências ampliadas; trabalhar com a diversidade, em que o educador considera a diversidade cultural de cada criança, em suas capacidades criativas e expressivas; ser articulador entre o espaço de Educação Infantil e a família e comunidade, construindo vínculos afetivos; produzir conhecimento, através da sua prática pedagógica; articular o cuidar, o brincar e o educar.
Nessa perspectiva do desenvolvimento como um processo social, a relação entre o cuidar, o brincar e o educar é construída a partir de processos de internalização e mediação, ou seja, essas atividades também são sociais, pois a criança também aprende através das experiências vividas e proporcionadas pelos educadores nos espaços de Educação Infantil.
Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (2000), a integração cuidar ? brincar ? educar é um avanço significativo na educação. Sendo o educar o fator essencial para o desenvolvimento integral da criança, ao cuidar (no momento do banho, na troca de fraldas, na alimentação) e ao brincar há todo um processo educativo nessas ações.
Porém, o RCNEI não deve servir como uma base para ser seguida, pois há uma certa contradição em suas concepções. É uma proposta que se mostra aberta e flexível, porém, não considera muito a diversidade cultural das crianças. Ao mesmo tempo em que reconhece a função do brincar ligada ao cuidar e ao educar e recorre à brincadeira como função educativa, critica o modo de uso do brincar. Também não trabalha bem a relação espaço de Educação Infantil e família.
O professor de Educação Infantil não pode trabalhar com essas atividades (cuidar, brincar e educar) separadamente, pois estaria forçando uma concepção conteudista. Mesmo no trabalho com crianças de 0 a 3 anos, o educador deve construir um vínculo afetivo e social, compreendendo a importância dos cuidados com a higiene, saúde e alimentação, não apenas como uma necessidade biológica da criança, mas construindo uma relação desse cuidado com a sua educação, podendo também trabalhar o cuidar com a brincadeira.
Dessa forma, o educador se relaciona com a criança não só a partir da intervenção e da mediação, mas também da interação, da troca de experiências. Ao cuidar, o educador não dá apenas cuidado físico, mas ao interpretar seus sentimentos e expressões, insere a criança no mundo social e cultural.
Quando se trata de crianças de 4 a 6 anos "o cuidar significa ensiná-las a se auto-cuidar, sendo o auto-cuidado tratado como um requisito para a conquista da autonomia" (BONETTI, 2010, p. 11). Ou seja, o professor de Educação Infantil, ao trabalhar o cuidar, relacionando-o com o brincar e o educar, intervém de forma a proporcionar à criança seu autoconhecimento, pois o cuidar compreende tanto aspectos físicos quanto afetivos e cognitivos (pensar, planejar, refletir).
Na Educação Infantil, o brincar é uma função necessária e fundamental, considerando o lúdico, o faz-de-conta linguagens constitutivas da criança. Através da brincadeira, da imitação, a criança se relaciona com outras crianças, proporcionando a aprendizagem através das interações.
Tanto o cuidar, como o brincar e o educar são atividades da Educação Infantil que devem ter sempre uma intencionalidade. Não adianta o educador apenas ter saberes, uma boa formação profissional e proporcionar meios e recursos para o cuidado ou para a brincadeira, mas ele deve ter o conhecimento de que todas as suas atividades devem ter uma intenção, um objetivo a ser alcançado: o aprendizado e o desenvolvimento das crianças, pois todas as ações realizadas com a criança são essencialmente educativas.
A mediação do professor de Educação Infantil se dá, então, a partir de todo um processo de relações com o meio sócio-cultural, pela prática partilhada com as crianças. Suas capacidades cognitivas se desenvolverão a partir dessas relações, que também são mediadas por objetos e signos. Os signos são representações que podem ser palavras, números, cores, imagens, que serve tanto para indicar um objeto como para representá-lo (CAVALCANTI, 2005).
O educador, ao proporcionar para a criança momentos e atividades para a manipulação de objetos, possibilita que essa faça descobertas e possa assimilar os tipos de tarefas a enfrentar e os tipos de instrumentos (materiais ou simbólicos) que deve dispor para realizar tais tarefas (BARBOSA, 1997). São nessas tarefas, nas relações da criança com objetos, com pessoas e com o meio social que desde cedo o sujeito desenvolve seu processo de aprendizagem e constrói sua história como um ser social. Essa manipulação de objetos pela criança para o conhecimento do mundo só será possível e significativa se estiver na convivência com outros homens (no caso da Educação Infantil, com o educador, com outras crianças, com a diversidade cultural).
É importante ressaltar que o desenvolvimento da criança, nessa concepção se dá com base nas relações sociais interpessoais, internalizando processos, primeiramente sociais para depois se tornarem em individuais. Porém, deve-se ter uma compreensão de que não há passividade da criança nesse processo, pois da mesma maneira que o educador transforma a criança para garantir o seu aprendizado, a criança também transforma o educador, com as características e conhecimentos que cada uma traz. Ambos não são sujeitos nem ativos, nem passivos, mas interativos.
Cavalcanti (2005) ressalta a ideia de que nos espaços de Educação Infantil as práticas educativas possibilitam à criança o aprendizado mais do que em qualquer outro meio social.
Segundo Vigotski (2000), o meio social é como uma alavanca para o processo de desenvolvimento e aprendizagem, afirmando que o desenvolvimento psicológico depende da aprendizagem, a partir não só da internalização de conceitos mas das experiências e interações, "que são promovidos pela aprendizagem social, principalmente aquela planejada no meio escolar" (RABELLO e PASSOS, 2010, p. 5).
Assim, pode-se considerar que os processos de desenvolvimento e aprendizagem caminham juntos, mas não em paralelo. O aprendizado precede o desenvolvimento, pois é a partir do que a criança aprende no meio social e em contato com o outro que possibilitará o seu desenvolvimento nos vários aspectos.
Segundo Wallon (1986), o meio educacional para crianças de 0 a 6 anos (creches e pré-escolas) é indispensável para o desenvolvimento, por ser um meio mais rico, livre, diversificado e oferecer à criança a oportunidade de conviver com outras crianças e outros adultos com conhecimentos "diferentes" de seus pais ou outros membros de sua família.

O grupo infantil é indispensável à criança não somente para a sua aprendizagem social, mas também para o desenvolvimento da tomada de consciência de sua própria personalidade. A confrontação com os companheiros permite-lhe constatar que é uma entre as outras crianças e que, ao mesmo tempo é igual e diferente delas (WALLON, 1986, p. 25).

Desse modo, não só o meio é importante como também os sujeitos que dele fazem parte. O contato e as relações com os outros proporcionam à criança diversas aprendizagens e descobertas. Existem também situações que geram conflitos, porém, o educador intervém de maneira positiva para a organização da vida social educativa.
Considerando que o meio social fornece ao indivíduo instrumentos e condições para sua ação, é justamente no meio escolar que o educador, utilizando conhecimentos e métodos pedagógicos, deve guiar e proporcionar à criança para que a mesma tire o máximo de proveito dos recursos para o seu aprendizado.
O desenvolvimento e o aprendizado, apesar de estarem inter-relacionados, segundo Koffka (apud VIGOTSKI, 2000), há uma certa interdependência entre eles; considera que "a maturação de um órgão depende do seu funcionamento, que se aperfeiçoa por meio da aprendizagem e da prática" (VIGOTSKI, 2000, p. 119). Desse modo, a aprendizagem tem um papel significativo, principalmente no processo educacional, em que se formam novas estruturas e se aperfeiçoam antigas.
O desenvolvimento e a aprendizagem constituem um mesmo processo que não ocorre espontaneamente. Depende da interação com o meio e com outros sujeitos, desde o momento do nascimento. É a partir dessas relações da criança com adultos e outras crianças que ela aprende a assimilar conceitos e realizar tarefas.
Essas relações ocorrem em qualquer meio social, mas são mais significativas nos espaços de Educação Infantil pois o educador tem uma intenção: planeja, sistematiza, organiza atividades com a finalidade de desenvolver o conhecimento. Ao propor uma atividade educativa para a criança, o educador estará interferindo nas formas de organização do seu pensamento, possibilitando a ampliação do seu conhecimento já formulado e a construção de novos (BARBOSA, 1997).
Dessa forma, os resultados da aprendizagem se manifestam em modificações na atividade externa e interna da criança, nas suas relações com o meio físico e social e consigo mesma.
Para Vigotski (apud CAVALVANTI, 2005, p.194), a prática que ocorrem nesses espaços "(...) não pode ser identificada como desenvolvimento, mas sua realização eficaz resulta no desenvolvimento intelectual do aluno, ou seja, o bom ensino é aquele que adianta os processos de desenvolvimento".
Assim, o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (VIGOTSKI, 2000) pode explicar melhor o papel das interações sociais nos processos de desenvolvimento e aprendizagem.
A Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) é a distância entre o Nível de Desenvolvimento Real (NDR) e o Nível de Desenvolvimento Potencial (NDP), sendo o primeiro, o nível de conhecimentos que a criança já possui, através de solução de problemas e atividades que consegue realizar sozinha; e o segundo se refere a conhecimentos e capacidades ainda em construção, através de solução de problemas realizados com ajuda de adultos ou crianças mais experientes. A Zona de Desenvolvimento Proximal não é um caminho de um nível para o outro, mas um espaço de interações em movimentos e mudanças. É justamente nessa "distância" que a aprendizagem irá ocorrer.
É a partir do desenvolvimento de habilidades "parciais", com ajuda de sujeitos mais capacitados, intervindo como mediadores, que essas habilidades se transformam em "totais" (RABELLO e PASSOS, 2010). Ou seja, o que uma criança faz hoje com ajuda de outras pessoas, posteriormente conseguirá fazer sozinha. O que é potencial hoje, amanhã pode ser real. São as aprendizagens que ocorrem na Zona de Desenvolvimento Proximal que favorecem ainda mais o desenvolvimento da criança.



Dizendo isso de outra forma, quando a criança apenas dispõe de seus próprios recursos cognitivos, só trabalha com instrumentos materiais e/ou simbólicos dos quais já conseguiu se apropriar no decurso de seu desenvolvimento. Ao tentar resolver certo problema ou tarefa, ela fica limitada, nem sempre conseguindo efetivá-los de forma adequada ao que foi solicitado. Nesse caso, ao invés de apenas rotulá-la de "incapaz" ou "criança com problema de aprendizagem", seria prudente que analisássemos a natureza das exigências da tarefa, comparando seus resultados com outros que poderia obter caso contasse com a ajuda de outros colegas, de adultos, de livros ou materiais, de outros problemas auxiliares, etc. (BARBOSA, 1997, p. 50).

Esse conhecimento é fundamental para educadores pois permite a compreensão do processo de desenvolvimento das crianças. No processo educativo, a aprendizagem deve ser vista por uma ótica prospectiva; não se deve focalizar o que a criança aprendeu, mas sim o que está aprendendo. O educador não deve valorizar apenas o Nível de Desenvolvimento Real da criança, mas também o seu Nível de Desenvolvimento Potencial, o que está em processo de construção, que se constituirá, posteriormente, como aprendizagem efetiva.
Porém, dificilmente o educador sozinho transformará as potencialidades da criança em desenvolvimento efetivo. O processo de aprendizagem, os mediadores e as ferramentas devem estar distribuídos em um meio adequado. Os espaços de Educação Infantil devem ser apropriados e estarem capacitados a proporcionar às crianças aprendizagens significativas, através de recursos, materiais didáticos e profissionais com saberes pedagógicos que considerem esses aspectos. O educador não pode ser considerado como o principal responsável pelo sucesso ou fracasso da criança. A mediação do educador se fará então conforme o ambiente em que se relaciona com as crianças.
O educador deve considerar tanto os aspectos que envolvem conhecimentos e aprendizagens como também os aspectos cognitivos e afetivos de cada criança, pois saber lidar com as circunstâncias emocionais das crianças nos espaços de Educação Infantil é uma garantia para um aprendizado significativo e um desenvolvimento positivo. As relações de afetividade dos educadores com as crianças com as quais trabalham devem ser sempre reforçadas, nas constantes interações e trocas de experiências, pois as crianças, principalmente as mais jovens, são muito ligadas aos pais e aos cuidados da família.
Ao entrar na creche podem sentir dificuldade de manter relações de afetividade com outras crianças ou mesmo com o educador, que deverá saber trabalhar isso, pois, segundo Almeida (2005, p. 13), "a criança quando vai para a escola, leva consigo tanto os conhecimentos já construídos, quanto os prelúdios de sua vida afetiva".
Assim como em qualquer outro meio social, nos espaços de Educação Infantil, à medida que a criança se desenvolve, as relações de afetividade entre adulto e crianças podem influenciar positivamente sua aprendizagem, pois o educador, numa relação de afetividade com as crianças medeia o seu processo de construção do conhecimento. Tanto a afetividade como a inteligência são processos que evoluem ao longo do desenvolvimento e são construídos e modificados continuamente.
Por isso, o educador deve reconhecer as necessidades afetivas e cognitivas das crianças e considerar seus diferentes níveis de desenvolvimento, para assim orientar adequadamente a ação educativa (ALMEIDA, 2005).
Desde o início da vida, a criança depende do meio, primeiramente familiar não só para o desenvolvimento das suas necessidades físicas e biológicas, mas também afetiva, social e intelectual. Posteriormente, os espaços de Educação Infantil em interação com a família, a sociedade e a cultura, se torna o meio responsável de oferecer às crianças conhecimentos necessários para realizar suas ações e desenvolvimento de habilidades afetivas e cognitivas, socialmente e individualmente.
Segundo Almeida (2005), o papel do educador e dos espaços de Educação Infantil é compreendido assim, como um papel social, que considera a criança no âmbito de sua dimensão humana, em que tanto aspectos cognitivos quanto afetivos estão presentes e se inter-relacionam em todas as manifestações do conhecimento. Ou seja, como em qualquer meio social educativo, nas creches e pré-escolas a criança está presente como uma pessoa completa, tem seus valores, atitudes e conhecimentos.
O trabalho do educador não é a simples transmissão de conteúdos e práticas de atividades como uma maneira de passar o tempo com as crianças. O seu trabalho como mediador e observador é também considerar os conhecimentos prévios que a criança traz quando entra na creche, no CMEI ou na pré-escola. É fazer com que fatos cotidianos, da cultura de cada uma delas sejam objetos de conhecimentos e interesse.
Por isso, a atuação do educador também se faz como a de um observador, atento à realidade; deve perceber os acontecimentos do mundo que rodeiam a criança, as relações da mesma com sua família, sua cultura, linguagem, forma de agir, sua personalidade. Dessa forma, o educador conhece as necessidades de cada criança, facilitando a sua intervenção para a aprendizagem e desenvolvimento da mesma.
A observação do educador possibilita-o a uma visão sensível e crítica da realidade das crianças para captar os significados que cada uma dá aos conhecimentos adquiridos no meio educacional. Nesse processo, como mediador, o educador deve propiciar a expressão, a comunicação, valores, sentimentos, atitudes de todas as crianças presentes no grupo com o qual trabalha, com o objetivo de proporcionar a interação e o diálogo entre elas.
O que se tem percebido atualmente é uma grande preocupação dos educadores com a escolarização cada vez mais cedo da criança, ou seja, as instituições de Educação Infantil ao invés de serem espaços para a formação de uma criança livre, autônoma e interativa, estão se tornando espaços para a transmissão de conteúdos, imposições de normas e regras a serem seguidas pela criança, transformando-a em um ser passivo.
O educador precisa compreender o processo de desenvolvimento da criança para poder equilibrar os momentos em que deve deixar a criança a ser criança, com os momentos pedagógicos, tendo a compreensão de que cada uma se desenvolve de uma maneira diferente umas das outras. Os espaços de Educação Infantil são espaços para a criança explorar, conhecer e brincar, de forma que tudo o que faz, em interação com o educador e com outras crianças se torna uma aprendizagem significativa porque há sempre uma intencionalidade.
O processo de desenvolvimento e construção do conhecimento não é algo linear, que ocorre em etapas. É um processo dialético, em ações sociais recíprocas em movimentos e transformações.
Assim, o educador, nas instituições de Educação Infantil, não apenas como um profissional, mas como um mediador, numa relação de afetividade, deve reconhecer as necessidades físicas, afetivas, cognitivas e sociais das crianças, sempre considerando que a aprendizagem será mais significativa se o conteúdo de conhecimento fizer parte da realidade da criança e deixando-a livre para se expressar, para errar, utilizar diferentes linguagens, numa relação de socialização e compartilhamento.




























CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O presente trabalho teve como finalidade o estudo e a compreensão da criança (focalizando a criança de 0 a 6 anos) como um ser que é biológico e social ao mesmo tempo. Ou seja, no processo de desenvolvimento do ser humano desde o início da vida, além de mudanças físicas e biológicas, ocorrem também mudanças cognitivas, afetivas e comportamentais, todas influenciadas pela interação social e cultural.
Estudar o processo de desenvolvimento e aprendizagem na infância significa considerar essa fase fundamental e que ocorrem mudanças significativas no indivíduo, que pode levar para toda a vida.
No Capítulo I foram tratados os aspectos gerais do desenvolvimento humano: desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial. Cada um foi explicitado separadamente para uma melhor compreensão, porém deve-se considerar que são aspectos que ocorrem juntos.
O desenvolvimento físico se refere às habilidades físicas e biológicas, desenvolvimento do corpo e do cérebro. O desenvolvimento cognitivo se refere às capacidades de pensamento, como memória, atenção, percepção e linguagem. O desenvolvimento psicossocial está relacionado com as capacidades de relacionamentos sociais, ligados às características psicológicas e emocionais do indivíduo.
Todos esses aspectos foram tratados buscando a compreensão da importância e da influência do meio para o desenvolvimento.
No Capítulo II foram melhor explicitados o desenvolvimento do pensamento e da linguagem, como ocorre o processo de formação da personalidade da criança e características comportamentais, destacando o papel da família, da sociedade e da cultura, como agem e suas formas de intervenção com a criança. Trouxe uma compreensão de como o ambiente influencia nas mudanças de comportamento e destacou o processo de desenvolvimento como algo que ocorre em interação, a partir das trocas com a criança e o meio, considerando a criança não como um ser passivo, mas que pode se transformar e transformar o outro, através das relações sociais.
A partir de todas essas compreensões, o Capítulo III trouxe uma contribuição para se pensar a infância e o desenvolvimento da criança nas suas relações com outras crianças e os espaços de Educação Infantil. Possibilita ao educador uma atuação como mediador, proporcionando à criança situações intencionais para que ocorra o aprendizado.
O processo de desenvolvimento e aprendizagem não é algo que ocorre em sequência. São processos dialéticos, em ações sociais recíprocas, em que nenhum fenômeno é compreendido se estudado isoladamente; são processos em movimentos e mutações.
Sendo a família e os espaços de Educação Infantil os meios sociais em que a criança mais se encontra presente, a contribuição do educador é essencial para a formação da criança, atuando como um mediador.
Não é suficiente para o seu aprendizado e desenvolvimento se a criança age isoladamente. Se o aprendizado ocorre primeiro que o desenvolvimento é porque é um processo aberto, em que o contato e a troca de experiências com o outro é fundamental. E o desenvolvimento só ocorre de acordo com essa aprendizagem.
Por isso a importância da mediação do educador nos espaços de Educação Infantil para promover o aprendizado e, consequentemente, o desenvolvimento das crianças. As funções como pensamento, linguagem, atenção, memória só se desenvolvem a partir das interações da criança com adultos e/ou crianças mais experientes.
O papel do educador para promover o desenvolvimento das crianças deve ser além de um mediador, um observador, pois deve considerar vários aspectos que provocam comportamentos diferentes em cada uma delas, como a situação sócio-econômica, a estrutura da família, a personalidade e a cultura de cada uma. Deve considerar também que cada criança tem suas características próprias e cada uma aprende algo de uma maneira. Portanto, o meio social, juntamente com os sujeitos que dele fazem parte irão proporcionar à criança, pela mediação e interação, meios para que seu desenvolvimento aconteça.
Enfim, a minha experiência com a pesquisa sobre o desenvolvimento infantil como um processo de relações entre o biológico e o social me proporcionou uma visão bem mais ampla de como deve ser o processo educativo. Como educadora, acredito que essa concepção possibilita um avanço significativo para um posicionamento mais maduro sobre o aprendizado infantil. Todo educador deve ter essa compreensão, pois assim sua prática estará voltada para a formação de uma criança completa, com características e atitudes próprias.
No processo educativo, tanto o educador como a criança são sujeitos que desempenham papéis significativos. Não só o educador deve ser visto como figura central, mas a aprendizagem e desenvolvimento da criança dependem não só do que ele ensina. Mas a própria criança, com suas capacidades, a partir das interações sociais proporcionadas pelos mediadores, constrói seu próprio conhecimento. O educador, ao assumir um papel mais experiente, sua função é propiciar uma ambiente rico, prazeroso, saudável de experiências educativa e social para promover o desenvolvimento e a aprendizagem.





















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Revisado por Editor do Webartigos.com


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