A TROVA POPULAR OU QUADRINHA
 
A TROVA POPULAR OU QUADRINHA
 


A TROVA POPULAR OU QUADRINHAS ? ANOTAÇÕES PARA ESTUDO.

Por: José Luiz Pena pereira

1. CIRCULAÇÃO:
Observei que atualmente as quadrinhas circulam por escrito em cadernos de mocinhas adolescentes, mas não é usual entre os rapazes. Mesmo as pessoas mais velhas têm dificuldades em lembrar-se de quadrinhas ouvidas na juventude.
Para as adolescentes, copiar quadrinhas em cadernos faz parte de um ritual mágico inconsciente para atrair o amor, manter, fazer acontecer. Como já descreve Ernst Fischer: "um resíduo mágico na arte não pode ser inteiramente eliminado, de vez que sem este resíduo provindo de sua natureza original a arte deixa de ser arte." (p 20).
Também encontrei quadrinhas escritas em locais públicos, como esta que estava num coreto:
"Se entre duas pedras
pode nascer uma flor,
porque entre dois amigos
não pode nascer o amor".

Esta outra foi encontrada num cemitério, na sepultura de uma criança:
"Nascendo foste esperança
vivendo, felicidade
subindo ao céu em criança
ficaste sendo saudade"..


A quadra é muito comum nas letras de melodias populares como carimbó e brega. Neste caso faz parte de um conjunto maior:

"Este rio é minha rua
minha e tua, mururé,
piso no peito da lua,
deito no chão da maré" (Paulo André e Ruy Barata).

Muitas quadrinhas são aprendidas na escola ou copiadas de livros didáticos.
Embora já tenha sido assumida por instituições como escola e sistema educacional, pois circula em livros didáticos, também pela religião, as quadrinhas ainda mantém em certo grau de subversão, porque nela circulam obscenidades, baixo calão, e todo tipo de conteúdos proibidos pra "menores". Podemos incluir nessa categoria até mesmo as que tratam de amor e relações de namoro, quando consideramos que estão em cadernos de adolescentes na faixa de 11 a 15 anos, circulando, portanto, clandestinamente, longe das vistas dos adultos.

2. MEMÓRIA:
Os mais velhos lembram que as quadrinhas faziam parte de brincadeiras de roda. Entrar na roda e dizer um verso (quadrinha), quem não soubesse ou não se lembrasse de um saia da brincadeira. Raimundo Pinto Alves, 62 anos, lembrou que, ainda no início da década de 70, quando morava no Rio Jacarezinho, era costume declamar quadrinhas em bailes dançantes. Segundo ele, quando a banda (chamava-se "jazz"), formada por instrumentos de sopro, tocava a música "Desfeiteira" era a ocasião em que se formava uma roda no salão, quando a música era subitamente interrompida, alguém entrava na roda e declamava uma quadrinha, ou, como se dizia, "jogava um verso" dedicado a outra pessoa.
Silva Neto especula que a origem da trova está ligada à tradição poética árabe que depois deu origem a cantiga dos trovadores provençais. Sugere que a trova ou quadrinha nasceu com a língua portuguesa no século XII.



3. VARIAÇÕES:
As quadrinhas sofrem variações em decorrência de sua circulação, alguns exemplos foram coletados:

Queria escrever seu nome
como sei escrever na areia
que escrevia seu nome
no sangue da minha veia.
(rio Mapuá)

Queria escrever na água,
queria escrever na areia,
queria escrever seu nome
no sangue da minha veia.
(rio Ituquara)

4. FORMA:
As quadrinhas coletadas muitas vezes não obedecem às regras de construção da trova erudita, ou alteram trovas tradicionais acrescentando palavras, omitindo ou modificando. "O motivo estético também tem sua importância, mas trata-se aqui de uma estética popular, que precisa ser objetivamente encarada como ela é, e não de acordo com teorias preconcebidas" (AMARAL, Amadeu. Tradições populares. S. Paulo, Ed. Fac-similar de ed. de 1948).(In: AYALA, 1995).

Semana tem sete dias
só cinco tem sobrenome
meu caderno tem quarenta folhas ( 9 sílabas)
todas elas tem seu nome.

Quando te vi (4 sílabas)
queria te conhecer (6 sílabas)
agora que te conheço (7 sílabas)
não consigo te esquecer. (7 sílabas)




5. CONTEÚDO:
Quanto ao tema fizemos a seguinte classificação, levando sempre em conta que, geralmente, a quadrinha é "falada" para alguém, isto é, dedicada, direcionada a uma pessoa. Esta característica normalmente é marcada pela presença de pronome possessivo (teu, seu), pessoal (2ª pessoa) ou de tratamento. As quadrinhas que não apresentam essa dedicatória estão relacionadas com reflexões filosóficas ou tiradas de humor.
a) Trovas de Amor ? declaração de amor a uma pessoa, marcada pela presença de pronome de 2ª pessoa, de tratamento (você) ou possessivos:

Quando estou longe de você
meu pensamento é sem fim
só dá vontade de gritar:
? Meu amor volta pra mim.


Queria escrever na água
como escrevo na areia;
queria escrever seu nome
no sangue da minha veia.


b) Trovas de Confidência - equivalente à cantiga de amigo, aqui a trova é dirigida a um confidente e trata de sentimentos, confissões, etc Narrada em terceira pessoa.

Uma rolinha me disse
outra mandou me dizer
que no fim dessa semana
meu amor vinha me ver.

Eu amo um rapaz moreno
que muito me faz sofrer
o seu nome é segredo
que ninguém pode saber.

c) Trovas de Homenagem ? dirigida ou "oferecida" a alguém com o intuito de prestar homenagem, vassalagem, elogio, etc.

Nesse dia mamãezinha
venho com muita emoção
dar-te um beijo e um abraço
em sinal de gratidão.

d) Trovas de Desaforo - dirigida a um desafeto, adversário ou concorrente com a intenção de desqualificar ou menosprezar. Pronome aparece na 2ª pessoa.
Tiririca me cortou
um grande golpe me deu
vai dançando pavulagem
com o amor que não é teu.

Pros lados da Barra Funda
pras bandas do Itaquaquara,
teve um concurso de bunda
e tu ganhaste com a cara.


e) Trovas Sacra ? dirigida a uma divindade.

Bem direi do Senhor
ao longo da minha vida,
seu nome representa pra mim
mas do que a própria vida.

f) Trovas de Humor - ironiza situações do cotidiano. Não é dirigida a alguém em particular. Narrada na terceira pessoa.


O beijo dado na boca
é um pecado horroroso.
Meu Deus, pra que fizeste
um pecado tão gostoso?

g) Trovas de Reflexão - emiti um conceito ou opinião sobre o sentido da vida, sentimentos, valores morais e éticos.

A rosa faz o perfume
o perfume faz o amor
o amor faz o ciúme
e o ciúme faz a dor.

Passarinho do telhado
quando chove não se molha
onde tem rapaz solteiro
pra casado não se olha.

6. REGIONALISMO:
As marcas que atestam algum tipo de regionalização da quadrinha estão no vocabulário. Palavras como acapu, açaí, buçu, jirau (no sentido de assoalho de casa), mucura, jacundá, Curumu, pavulagem etc. São nomes relacionados a flora, fauna, topônimo e outros relativos ao dialeto regional.

Mandei fazer uma casa
de madeira de acapu
para morar com um jovem
queira Deus não seja tu.


Atrás da casa de ________
tem um cacho de açaí parau
quero falar com teu irmão
debaixo do jirau.

Sai daí seu fede fede
seu catinga de mucura
quando em vida tu já fede
que dirá na sepultura.

Tiririca me cortou,
grande golpe me doeu,
tá com tanta pavulagem
com o amor que não é teu.


7. CONSIDERAÇÕES GERAIS:
A literatura oral é o DNA da cultura, através dela podemos investigar a formação da identidade, visões de mundo, crenças e valores de uma coletividade. Também podemos esclarecer influências de outras culturas, sincretismos e costumes sociais, cujas marcas vão sendo registradas nessas narrativas. Mesmo quando deixam de circular oralmente, como é o caso das quadrinhas, elas ainda continuam valendo como marcas culturais. pois continuam presentes como valor estético coletivo.

Breves, 2003


7. BIBLIOGRFIA:
ZUNTHOR, Paul. Introdução a poesia oral. (Tradução de Jerusa Pires Ferreira). S. Paulo; HUCITEC: EDUC, 1997.

LIRA, Mariza. Estudos do folclore luso-brasileiro

AYALA, Marcos; IGNEZ, Maria & AYALA, Novais. Cultura popular no Brasil, perspectiva de análise. São Paulo; Ática, 1995.

WANKE, Eno Teodoro. O trovismo. (Históriad o primeiro movimento poético-literário genuinamente brasileiro). Rio de Janeiro; Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1978.

FISCHER, Ernst. A necessidade da arte - uma interpretação marxistal. (trad. De Leandro Konder) - 1ª ed. de 1959 por Verlad Der Kunst - traduzida da edição inglesa de 1963 pela Penguin Books em tradução de Anna Bostock. - Rio de Janeiro; Zahar, 1967.


FREYER, Hans. Teoria da época atual. (trad. De F. Guimaràes). Rio de Janeiro; Zahar, 1965. (original: Deutsche Verlags-Anstalt, de Stuttgart, Alemanha, 1955).

 
Avalie este artigo:
4 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Jose Luiz Pena Pereira
Talvez você goste destes artigos também
Sobre este autor(a)
Formado em Letras-Língua Portuguesa e com especialização em Estudos Culturais da Amazônia pela UFPA.
Membro desde novembro de 2010
Facebook
Informativo Webartigos.com
Receba novidades do webartigos.com em seu
e-mail. Cadastre-se abaixo:
Nome:
E-mail: