A questão que se propõe é demasiado interessante. Afinal, trata-se de um confronto entre duas visões complementares, e, simultaneamente, adversas: a História como saber aos olhos dos antigos gregos, dentre os quais Aristóteles (384 a.C.-322 a.C), e a mesma vista sob uma perspectiva mais ampla, de acordo com as lições posteriores de grandes mestres da filosofia e ciência das Idades Moderna e Contemporânea, mais de dois mil anos após. De início, em relação à Antiguidade, começemos com o próprio Aristóteles. Nascido em Estagira, para ele a inteligibilidade da História se dava pelo fato de que apenas o geral, o fixo e o necessário poderiam ser objetos do conhecimento historicista, não havendo uma ciência própria do contingente. Por esta razão, a História seria mais pobre do que a própria poesia, vez que esta última narra o que poderia acontecer, de acordo com a criatividade do poeta, estando limitada apenas pela verossimilhança e necessidade do relato em questão. Há de se concordar com Aristóteles quando compara a História à poesia. A princípio, porque a História, desde que se firmou como gênero literário, com Heródoto de Halicarnasso (485 a.C.-425 a.C.), consubstanciou-se numa ciência dotada de comprovação científica, que dependia mais da observação (opsis) do que de relatos testemunhais - embora estes últimos não fossem desprezíveis se, observados com razão crítica pelo historiador e conforme a coerência do entrevistado, tinham como referência um passado até então recente, dado o máximo lapso temporal biológico de uma vida humana. Desta forma, o passado distante e não registrado seria objeto da poesia, apoiada em narrativas mitológicas e não comprovadas de um tempo outrora esquecido. Portanto, a História viria a ser limitada por provas factuais, materializadas nos registros escritos e críveis, em substituição às antigas tradições orais, sendo epistemologicamente mais pobre que a poesia. O que não significa que seja menos importante, já que, quanto mais se exige de uma determinada ciência, mais ela possui credibilidade se provados os seus respectivos fatos, especialmente quando tais narrativas dizem respeito a feitos particulares e extraordinários, como o caso em tela - mas que, não obstante, são os componentes do todo que moldou o mundo como ele foi, é e será - e demorem gerações para sua aceitação de forma definitiva e ortodoxa. Assim, mesmo concordando com Aristóteles e Fernando Catroga acerca da maior carência epistemológica da História se comparada à poesia, discordamos que esta fosse algo mais 3 sério, pois a ciência, com o passar do tempo, suprime o mito. A História e a poesia estariam, para nós, no mesmo patamar de importância. Apesar disso, e de, em nossa concepção, não possuir caráter superior à História, a antiga poesia mediterrânea pode levar-nos ao verdadeiro propósito de seus autores, num modo muito peculiar de narração acerca de acontecimentos imemoriais, eis que o próprio Heródoto de Halicarnasso, ao que consta, com ela não definitivamente rompeu. Os poetas da Antiguidade narravam, obviamente, acontecimentos preteritamente distantes, não como ocorriam, mas como um apanágio da concepção mítica do eterno retorno, pois, para eles, “os ritmos da vida poderiam vir a repetir-se” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”), visto que a História seria bela a pragmática. Isso significa que, em sua concepção - especialmente com Platão (428-427 a.C.- 348-347 a.C.) no Timeu - o tempo natural, dentro de uma perspectiva universal, possuía a característica da eternidade e da imutabilidade. Então, o que lhes chamava à atenção era o fato de que o que importava seria a “finalidade perseguida por aquilo que devém. O fim seria, portanto, a meta a que os entes particulares aspirariam, consumando-a num ciclo finito, indefinidamente repetido e repetível, sempre diferente e sempre igual” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”). O próprio Aristóteles afirmou que “o tempo parece ser o movimento da esfera, porque este movimento é o que mede os outros movimentos e mede também o tempo...e também o tempo parece ser uma espécie de círculo...pelo que dizer que as coisas geradas constituem um círculo, é dizer que há um círculo de tempo” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”). Em tal raciocínio sobre a imortalidade, Aristóteles também incluiu os seres humanos naquele “ciclo finito, indefinidamente repetido e repetível” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”). O fim seria, numa lógica de inversão, o início e a razão de tudo. Tal raciocínio foi ratificado séculos mais tarde, com a introdução do cristianismo na Europa e a consequente submissão da intelectualidade continental à autoridade eclesial e pontifícia. O historicismo passou a ser exercido como uma profissão de fé, que não seguia a lógica própria de Heródoto de Halicarnasso, mas de cega crença aos ditames do papa e das escrituras (que, no sentido greco-romano, também podem ser consideradas poesias, visto se referirem a acontecimentos que confirmariam o raciocínio aristotélico 4 exposto no parágrafo anterior - de que o fim seria a razão de tudo -, como a suposta afirmação de Cristo, que teria dito “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim”). No regime moderno, passou a ocorrer o sucessivo descrédito da poesia em prol da História, embora aquela não tenha perdido seu belo e carismático conteúdo. As revoluções políticas e científicas do século XVIII foram o embrião do Iluminismo, movimento intelectual que, naquela centúria e na seguinte, sobreporia a razão e a ciência em detrimento do obscurantismo do pensamento único medieval, como forma de contínuo progresso da humanidade. Vinha, por isso, a ter uma interpretação menos mecanicista e teísta da natureza. Natureza esta de que o homem faz parte, mas da qual pode, ao menos em parte, se apartar ao possuir o dom da racionalidade e do livre arbítrio, construindo a sua própria História, ainda que sujeito ao acaso fortuito. E a construção desta História, imortalizada na forma de escritos e monumentos que sempre procuraram evitar o perecimento das magníficas e extraordinárias obras dos poucos mortais que a protagonizaram, alocando-as num todo coerente e de movimento retilíneo, explicador do mundo como ele é e poderá vir a ser, é inerente à própria natureza humana e a razão de ser da própria História. Vemos, destarte e principalmente a partir das temáticas iluministas, a necessidade que os seres humanos possuem de, estudando empiricamente o seu passado, como então o fizera Heródoto de Halicarnasso, ter certa previsibilidade acerca do futuro. Nota-se, paralelamente ao otimismo para com a ciência e com os ideais políticos de grandes filósofos e cientistas, a insegurança coletiva do mundo ocidental frente a uma, mesmo que não total, renegação do deus cristão, razão pela qual o movimento da História, tachado de retilíneo por muitos daqueles, e dos atuais teóricos, passa a achar-me mergulhado “num tempo cíclico ou eterno, próprio da natureza e do género”, isto é, “os ritmos da vida poderiam vir a repetir-se” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”). Conclui-se assim que, por meio da necessidade de segurança em relação ao futuro individual e coletivo, e, portanto, de confiáveis modelos de previsão (como, por exemplo, hoje em dia ocorre com os modelos econômicos), ratifica-se, desde o início do Iluminismo e até a atualidade, a teoria aristotélica acerca da ciclicidade do tempo, não mais em forma de poesia, mas diante da própria História em si, com os fatos e fundamentos empíricos que lhe são exigidos. 5 A História, portanto, continua a ser mestra da vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”