1 O PAPEL DA FILOSOFIA E DO FILOSOFO EM ANGOLA1 Filipe Miguel Mário Cahungo2 Primeiro gostaria de agradecer à Organização Ondjango Filosófico pelo prestigioso convite, de estar aqui a falar para vós e estar convosco. Entretanto, o desafio maior é mesmo de saber que entre o auditório estão presentes antigos professores, estudantes e antigos colegas, mas apesar disto, penso estar em altura, pois, com eles aprendi que o verdadeiro discípulo “é aquele que supera os ensinamentos do mestre”. Ao comemorarmos este dia espero que seja, um dia para debatermos ideias e para reafirmar o verdadeiro valor da filosofia. Pois, a UNESCO indicou em 2002 a celebração internacional do Dia da Filosofia na terceira quinta-feira do mês de Novembro. Ao indicar este dia a UNESCO pretende promover a importância da reflexão filosófica e destacar o valor da filosofia para as nossas vidas quotidianas. A filosofia sempre foi e é condicionada pelo seu tempo, pois, ela não é abstracção de um mundo invisível e utópico 3 , sendo assim, ela está e deve comprometer-se com o seu tempo, estando a altura de dar alternativas de pensar, pois o homem é ele mesmo e as suas circunstâncias tal como afirma Ortega y Gasset “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Quanto ao papel da Filosofia em Angola, é de pensar que ela poderá desempenhar o papel de dar possibilidades que ultrapassam o agora e o nunca, ou como os latinos preferiam dizer o hic et nunc. Por tanto, ela nos ajudará a repensar o nosso modus operandi através de possibilidades de agir. A filosofia deve em Angola dialogar com todos o que for necessário, sem nunca excluir alguns nesta grande viagem, que é a construção da historicidade filosófica angolana. No âmbito económico, a filosofia poderá apelar ao empresário a redireccionar 1 Texto a ser apresentado na 3.ª semana de Novembro de 2018, no Anfiteatro do Instituto Superior Dom Bosco alusivo ao dia Mundial da Filosofia. 2 Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Angola, cahungogfilipeg@outlook.com 3 Por utópico, compreendo que seja o irrealizável. 2 o seu ideal económico, para o ideal humano, pois, o filósofo deve apelar a elite económica a voltar o seu projecto económico para a moçambicanidade 4 , nós acrescentamos angolanidade que precisa de uma atenção muito especial. E consequentemente, a compreensão que se tem de homem e da própria angolanidade, o que nos faz sermos angolanos e porque somos angolanos e em que consiste o ser angolano, porque “não é possível compreender o passado sem a sua multidimensionalidade, que envolve o económico, o social, as mentalidades, a demografia, o político5 . Se no período colonial a filosofia esteve simplesmente ao serviço do opressor, no âmbito local nada se fazia, ou seja não havia reflexão filosófica clara, com a independência a filosofia voltou-se para a construção do homem novo; este homem novo era ao ideal Marxista. A Filosofia mais uma vez ficou presa a ideologias, de uma elite, portanto, para ser filósofo era preciso ser um militante. A pouca filosofia que não esteve revestida de ideais marxistas era a dos Seminários, mas que esteve simplesmente destinada aos que estivessem nos Seminários, era uma filosofia de orientação escolástica que se afirmava como crítica à Filosofia marxista. Com este breve passeio a uma possível história da filosofia angolana; que a meu ver é uma Filosofia que tem como substrato a Reconstrução do homem angolano, ou seja, a sua essencialidade está voltada para a Reconstrução do Homem novo 6 . compreendemos que tanto aos militantes como ao clero não se ensinava a filosofar, senão uma preparação que terminava com o sacerdote para clero e como dever revolucionário para o militante. Mas é de admitir que a produção filosófica na região lusófona nunca esteve tão presente, ou não acompanhou os grandes temas da filosofia africana, por isso esse ligeiro atraso, tal como nos confirma o filósofo Matumona “na região lusófona, pouco se tem escrito (…) por motivos de vária ordem, entre os quais a 4 José Castiano, Filósofo moçambicano, aquando de uma entrevista na MOZ ÁFRICA: https://www.youtube.com/watch? V=zmdTuyxWNn0. 5 LUEMBA, José, A África e a Profecia Auto-Realizável: A dimensão psicológica da crise do homem negro-africano, Paris: Les impiqués éditeur, 2017, p. 61. 6 Este projecto filosófico, encontramo-lo nas obras dos filósofos Imbamba, Uma Nova cultura para homens e mulheres do terceiro Milénio à luz de baptista Mondin, e do então já falecido filósofo Muanamosi, através das suas duas obras: Filosofia africana da Reconstrução e Teologia africana da Reconstrução. 3 falta de alma crítica e de apoio financeiro, a dependência intelectual e cultura em relação a Lisboa” 7 . Apesar desses obstáculos, já é notória uma tradição filosófica na lusofonia; onde a escola moçambicana está em vantagem com maior produção. Embora o debate seja recente, começando com a publicação da obra do filósofo moçambicano Severino Ngoenha em 1992, depois seguiram-se os trabalhos de José Castiano, Ergimino Mucale. Em Angola as obras de Muanamosi Matumona, de Manuel Imbamba, e outros trabalhos que vão surgindo timidamente; em Guiné- Bissau temos como representante Filomeno Lopes8 Perante este ponto de partida controverso e obscuro, a Filosofia centrar-se-á na redefinição do Homem novo, não mais o proletariado, nem o sacerdote como se ensinou nos tempos indos, sim um homem pleno, que esteja em altura de ser sujeito da sua história, capaz de compreender o seu ponto de partida, o ponto do qual se encontra, para posteriormente compreender-se como possibilidade aberta ao futuro. Assim sendo, o filósofo é chamado a ser o sonhador que parte do presente para oferecer alternativas aos homens e mulheres do seu tempo. Invocando sempre o valor de uma consciência histórica, e a cidadania participativa. Assumindo o que lhe pertence, tal como o filósofo moçambicano Severino Ngoenha afirma, “o filósofo é um cidadão que, entretanto, inconformado com o espírito adverso ao diálogo, apela ao diálogo”, entretanto, a filosofia e o filósofo nos ajudarão a tomarmos consciência da nossa história, pois, “a nossa história- a história africana- é uma história construída na base de uma negação: a negação da nossa humanidade, a negação da nossa identidade, e negação da nossa história própria e da nossa qualidade de seres históricos, a negação da nossa existência” 9 A filosofia em Angola, deve caminhar em direcção ao seu destino, criando a possibilidade de ser pensada como projecto, e continuidade histórica, ou seja, ela deve ajudar-nos a pensarmos a nossa situação- no-mundo; que é uma situação de ruptura, que precisa ser reconstruida. Por isso a consciência do que somos, o que fomos e do que 7 MATUMONA, Muanamosi, Filosofia Africana, na linha do tempo: Implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma Ciência Moderna, Lisboa: Esfera do Caos, 2011, p. 174. 8 De referir que estes são os autores que penso serem os que protagonismos gozam, pois, admito que está classificação não seja unanime entre os pesquisadores. 9 LUEMBA, José, op. cit., p. 157-158. 4 provavelmente poderemos a vir ser constitui o foco da nossa história, por ser assim, torna-se urgente repensar a nossa historicidade porque a história é o lugar, por excelência, do desenrolar do sentido do estar-no-mundo do homem10 A filosofia, poderá ser a ponte do qual os homens e mulheres que se encontram divididos entre o passado “Cultura” e a modernidade “presente”, poderão passar. Tratase de um diálogo que haverá entre o nosso passado, para a reconstrução da nossa consciência histórica, e com o presente, não trata-se de uma ruptura, mas de uma reconciliação entre as duas realidades históricas. Porque o passado continua vivo em nós através do presente que ao mesmo tempo nos lança para o futuro. Se por um lado o passado é como uma coisa que nos puxa para traz, o futuro nos lança para frente. É por esta razão, que se deve fazer um esforço profundo de crítica do nosso passado, que está profundamente marcado pela exploração colonial e o presente que não é algo totalmente diferente daquilo que foi o passado, se no passado foi o colono a determinar a concepção de homem angolano, hoje é a economia e a militância partidária que determinam aquilo que somos. É a nossa historicidade está profundamente em crises, no nosso caso, mal superamos a crise existencial que acarretamos do período colonial, tão cedo conhecemos outra, causada pela guerra fratricida, onde impos a cultura da guerra, da violência física e da concepção Unidimensional da realidade, ou seja, só há um modo de existir que é ser Pro ou Contra, instalando-se o caos. Vivendose a concepção pessimista de Thomas Hobbes “ Homo Homini Lupos”. Perante este estado de coisas apelo que “ (…) Uma qualquer filosofia tem de manter o seu espirito científico, ao mesmo tempo que deve estar pronta a deixar a academia e as prateleiras das bibliotecas para entrar na vida das pessoas e responder às suas preocupações concretas” 11. Perante este apelo, ela deve falar do que se passa com as pessoas, falar de HIV sida, da Malária, do Desemprego, das ditaduras, das injustiças, mas tudo isso, deve ser feito de forma filosófica, ou seja, o filósofo ao falar sobre estes assuntos não deve faze-lo como sociólogo, nem tampouco como um psicólogo, mas deve revestir-se de categorias tipicamente filosóficas, porem, (…) Não pode, contudo, olhar simplesmente para o lado, esperando que sejam outras as ciências que conduzam o continente a este nível. 10LUEMBA, José, op. cit., p. 61. 11 MAKUMBA, Maurice, Introdução Filosofia Africana: Passado e Presente, Prior Velho: Paulinas, 2013, p. 41. 5 A pobreza, a doença, a fome e a iliteracia constituem ainda uma realidade no continente africano (…) É necessário que o desenvolvimento e a emancipação autênticos encontrem fundamentos sólidos, e é tarefa da Filosofia proporcionar tais fundamentos (…) eles será confrontado com a realidade do progresso científico e tecnológico12 O papel da Filosofia, numa sociedade que se torna cada vez mais industrializada e dependente da tecnologia, nunca pode ser suficientemente sublinhado. “A filosofia africana contemporânea; “de modo particular angolana” encontra-se no cerne da formação e transformação cultural processo em que é chamada a oferecer uma orientação. Todo e qualquer devem ser dirigidos em função do bem da pessoa humana, bem que deve basear-se numa interpretação autêntica dessa pessoa” 13 A filosofia “ (…) deve evidenciar-se como uma autêntica consciência no contexto da exaltação do desenvolvimento, para que a sociedade possa ser defendida de posições extremas, como as do cientismo e do tradicionalismo. Uma resistência míope ao progresso científico não é do interesse da África. Uma promoção indiscriminada dos valores tradicionais, sem qualquer atenção à sua relevância para África “de modo particular Angola” uma contemporânea, não serve de muita inspiração para um povo que tem extrema necessidade de desenvolvimento a todos os níveis” 14 Pois, a “Angola” (uma África) “tem hoje necessidade de uma filosofia ou filosofias de que possam ajudar a ‘estabelecer a existência de valores supremos que devem formar a meta ideal da vida humana e da educação’, e oferecer uma voz de comando na forma como lidar com os assuntos prementes do continente” 15 Num mundo onde a técnica e a concorrência livre acabam por ser o critério de decisões e veracidade dos factos, “é preciso entendermos que a técnica e o mercado não emitem juízos de valor (…) ”16 Portanto, A escolha do que deve ser e do que não deve ser não é função da técnica, mas das próprias sociedades, das quais os filósofos devem ser autênticos porta-vozes. À filosofia cabe portanto a tarefa de dizer o 12 Ibidem, p. 129. 13MAKUMBA, Maurice, op . cit, p. 129. 14 Ibidem, p. 129. 15 WERNER, Jaeger, Paideia: The Ideals of Greek Culture, vol. III- The Conflict of Cultural Ideals in the Age of Plato, Oxford, Oxford University Press, 1986, p. vii. 16 NGOENHA, Severino, Das Independências às Liberdades, Prior Velho: Paulinas, 2012, p. 188. 6 que uma dada sociedade quer verdadeiramente, para orientar a técnica na escolha dos meios para realizar os fins definidos. Para que a futurologia enquanto ciência seja possível, ela necessita do trabalho preliminar da filosofia17 A situação actual, que deixa à técnica e ao mercado o poder de guiar toda uma sociedade de maneira cega e quase fatalista, não pode melhorar, senão na condição de deixar espaço a uma filosofia que se ocupa das finalidades, dos valores, do deve ser no sentido radical. Como afirma Ngoenha, “esta dimensão deverá começar por ultrapassar a perspectiva de tipo positivista, que é simplesmente capaz de tomar em consideração os factos, as leis e os métodos, fazendo uma crítica radical à mentalidade cientista e reducionista, que é a base de tal filosofia” 18 Se para Ngoenha, nos serviremos da filosofia para soubermos escolher e posicionarmo-nos criticamente perante a cultura tecnicista e suas consequências, para Vittorio Hösle, “a importância da filosofia é especialmente óbvia se nós reflectirmos nos pressupostos normativos das ciências e das humanidades; proposições normativas são, de fato, nem analíticas e tampouco empíricas, e portanto só a filosofia pode esperar lidar com elas de forma racional” 19 Portanto, para a filosofia poder contribuir efectivamente na sociedade angolana teremos que escavar e encontrar os indícios da reflexão filosófica em Angola e a urgente produção filosófica da história, ou seja, colocar o homem e sua produção no tempo e no espaço, como diz Vittorio Hösle “ (…) me parece que, sem reflexões em filosofia da história, a maioria das investigações morais e políticas permanecem abstractas e, frequentemente, infrutíferas. Devemos saber a essência teórica de problemas aos quais nos dirigimos sob um ponto de vista ético; e a essência das culturas não pode ser apreendida sem conhecimento de sua história” 20. A filosofia cabe, porém, a tarefa de tomar um posicionamento crítico e real da situação angolana, alertar que estamos em novos tempos e que os desafios são outros; diferente daqueles a quando de luta de libertação de África, porque “ (…) ainda hoje, quando se faz referência à reflexão africana, pensa-se logo em correntes filosóficas e 17 Ibidem, p. 188. 18 NGOENHA, Severino, Op. Cit.p. 188-189. 19Vittorio Hösle, O terceiro mundo como um problema filosófico, Trad. Gabriel Almeida Assumpção Griot – Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia – Brasil, v.8, n.2, Dezembro/2013/www.ufrb.edu.br/griot, p. 40. 20 Ibidem, p. 241. 7 movimentos culturais e políticos africanos com alcance filosófico do século passado, casos da negritude, do panafricanismo, do mobutismo”21. A África, de modo particular Angola, enfrenta desafios totalmente diferentes, embora ela esteja marcada profundamente pela colonização, e pela guerra fratricida, é importante pensar que os desafios são outros, Quando já se vive numa África moderna, “de modo particular Angola” uma cuja filosofia deve ser também moderna, superando a filosofia popular que sustentava, apenas o papel e o lugar dos mitos, dos provérbios, usos e dos costumes, e de outros valores tradicionais que estruturavam a identidade negro-africano. Actualmente, o perfil e as tarefas principais da reflexão moderna africana são outros: recuperar tudo o que foi destruído, em todos os sentidos, para reconstruir o continente, ou erguer uma África completamente nova. Daí, a razão de advogar para a África, “de modo particular Angola” uma Filosofia da Reconstrução: um pensamento e um instrumento válido, credível, capaz de inspirar o homem africano a assumir o processo da reconstrução do continente que preciso de uma reabilitação total: do próprio africano e das estruturas do continente 22 Por esta razão, a mais alta Instituição de Estudos africanos a Codesria faz um apelo em 1998 “ (…) percebe-se haver, entre os cientistas sociais africanos, uma forte pressão para que as ciências sociais africanas tenham um valor utilitário, de modo a servir de instrumento à engenharia social e à transformação das sociedades”23. E o prestigioso historiador costa marfinense Joseph Ki-Zerbo proclama a responsabilidade social dos intelectuais africanos. Defendendo que “a comunidade académica deve responder às necessidades da sociedade e estar nas posições dianteiras da identificação e reflexão de problemas da sociedade, com o objectivo de sugerir vias e modos de busca de soluções”24. 21 MATUMONA, Muanamosi, Filosofia Africana, na linha do tempo: Implicações epistemológicas pedagógicas e práticas de uma Ciência Moderna, Lisboa: Esfera do Caos, 2011, p. 174. 22 Ibidem, p. 174. 23 CODESRIA. Editorial. Codesria Bulletin. Dakar, Senegal. n. 2, 1998. 24 Ki-Zebo, J. Revendiquer les libertés académiques, mais surtout les produire et les organizer. In: Diouf, M; Mandani, M. 1998, p. 31-41.