Mulheres no Mercado de Trabalho de TI

Rafael Sampaio Tavares

Faculdade Paraíso do Ceará (FAPCE)
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Resumo: A participação feminina no mercado de trabalho, principalmente no setor de informática e TI (tecnologia da informação), era considerável no início da história destes, com Ada Byron no século XIX (projeto do primeiro computador de uso geral junto com Babbage), Grace Hopper (criadora do primeiro compilador) e as programadoras do ENIAC (primeiro computador eletrônico) em meados do século XX. As mulheres sempre tiveram facilidade de acesso aos projetos científicos, mas isso mudou no século XX, com a formalização da ciência e a necessidade de preparo acadêmico. A participação feminina nos avanços científicos foi dificultada, principalmente por causa de problemas sociais, como preconceito e machismo. Desde a década de 90 as mulheres começaram a ganhar força novamente no mercado de TI, e esse crescimento é uma tendência no século XXI.

Palavras-Chave: Mulher. Tecnologia da Informação. Ciência. Mercado de Trabalho.

Introdução

As mulheres vêm conquistando cada vez mais seu espaço no mercado de trabalho e na sociedade em geral. Uma das explicações para esse fenômeno é a valorização do conhecimento e da técnica científica na união com a produção industrial a partir de meados do século XX e após a segunda guerra mundial, período esse que ficou conhecido como a terceira revolução industrial. Com essa certa democratização de oportunidade no mercado de trabalho as mulheres, e as minorias em geral, vêm se firmando cada vez mais inclusive em áreas de domínio masculino, como é o caso do meio tecnológico.
    Mesmo com essa mudança na gestão organizacional que vem acontecendo nessas últimas décadas, a sociedade ainda não tem um preparo cultural e intelectual para acompanhar essas mudanças. Por mais que as mulheres venham conseguindo exercer cargos elevados em grandes empresas, ainda existe uma persistência a pensamentos arcaicos e preconceito, adquiridos de forma cultural e educacional, já que na própria escola as meninas, a partir da sétima série, são desestimuladas em matérias que necessitam de cálculos, enquanto os meninos são superestimados. E não adianta pensar-se em tentar solucionar problemas na ciência enquanto a não resolvermos os mesmos problemas na sociedade.
    Assim, esse artigo tem como objetivo debater acerca da reduzida participação feminina no mercado de trabalho, principalmente nos setores tecnológicos, e apresentar suas causas, além de comparar historicamente estatísticas nos anos 90 e 2000. É esperado chegar-se a uma conclusão sobre os motivos que fizeram as mulheres serem afastadas da ciência.
    Por essas razões os levantamentos de dados referentes às mulheres ao mercado de trabalho são de suma importância para que possamos realizar metas e objetivos para tentar diminuir ou até mesmo extinguir qualquer tipo de discriminação e, assim melhorar o meio comercial, cultural e social referente ao comportamento da sociedade perante as mulheres e as minorias em geral, analisando o comportamento futuro dessa mudança que está acontecendo na gestão organizacional da nossa sociedade.
Na primeira seção do texto iremos falar sobre problemas enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho e barreiras culturais a serem derrubadas. Na segunda seção do texto iremos discutir sobre o mercado atual, uma breve contextualização e a evolução da participação feminina neste mercado.

1 A problemática da mulher no mercado de trabalho

As mulheres, por mais importantes que foram pra história da computação, nunca foram destaque, e, desde antes de existir o primeiro computador, elas sofriam para participar de produções científicas, pois a área sempre foi considerada masculina. Tendo também em vista que os avanços tecnológicos da área de computação sempre foram mais ligados aos produtos do que aos criadores em si, dificulta mais ainda para mulheres terem modelos femininas como cientistas da área, e até hoje isso é um problema.
Atualmente é comum escutar que as mulheres vêm conquistando seu espaço em diversas áreas da sociedade, e podemos dizer que as mulheres estão reconquistando seu espaço no meio acadêmico, já que por volta dos séculos XVII e XVIII não existiam diversas normas rígidas para a prática e o estudo de várias áreas da ciência. Alguns cientistas faziam suas experiências e análises na sua própria casa, e desta maneira as mulheres participavam de forma direta nos resultados das pesquisas que ali eram feitas, pois elas eram auxiliares dos pesquisadores daquela época, papéis estes que eram normalmente atribuído a tarefas que exigiam mais atenção e cuidado, como manusear instrumentos e substâncias e fazer contas matemáticas. Porém, a partir do século XIX, com a formalização da ciência, as pesquisas e as experiências científicas passaram a ter como obrigação um preparo acadêmico, levando, assim, a ciência para dentro das universidades, e criando duas esferas: a esfera acadêmica que foi atribuída à ciência e aos homens e a esfera familiar que foi atribuída às mulheres, afastando-as do mundo científico (TOSI, 1998). De acordo com Lubar (1998), quando os primeiros computadores começaram a ser utilizados parecia óbvio que esta seria uma área feminina, uma vez que as mulheres tradicionalmente realizavam atividade de “computar”, realização de cálculos para os cientistas. Por essa razão podemos dizer que as mulheres estão apenas reconquistando seu espaço na informática, já que os computadores são considerados ainda, como na antiguidade com o ábaco (considerado o primeiro computador da história), uma máquina de calcular e auxiliar os cientistas de outras áreas.
O método científico desvaloriza características tidas como femininas, como "subjetividade, cooperação, sentimento e empatia" (SCHIEBINGER, 2001). Segundo Schiebinger, nos séculos XVII e XVIII "não estava bem claro nesse período que as mulheres deveriam ser excluídas da ciência". Já Tosi aponta que "habilidade manual, destreza, sentido de observação, inteligência, imaginação e capacidade de trabalho" eram características femininas bem aproveitadas neste período. Franchon (2005) afirma que as estruturas de dominação, como a Igreja, a Família, a Escola e o Estado, são importantes para a manutenção da visão androcêntrica do mundo, mas que no século XX essa situação começou a mudar, com a conquista de direitos iguais para as mulheres e o aumento da participação destas nas universidades.
Schwartz et al. (2006) também cita as mulheres que foram pioneiras e muito importantes para a história da informática: Ada Byron, considerada primeira mulher programadora da história (trabalhou junto com Babbage, que é conhecido por ter sido o projetista do primeiro computador de uso geral); Grace Hopper, criadora do primeiro compilador e uma das primeiras linguagens de programação, além de ser responsável pelos famosos termos “bug”e “debug”; e as programadoras do primeiro computador eletrônico do mundo, o ENIAC, que são Kathleen (Kay) McNulty Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Fraces Synder Holberton, Marlyn Wescoff Melzer, Fraces Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum.

1.1 Barreiras culturais a serem derrubadas

    Para que as mulheres possam reconquistar seu espaço na área da informática e no meio científico em geral, é necessário quebrar várias barreiras culturais que existem na sociedade, como, por exemplo, de ter a imagem de cientista como um ser solitário, antissocial e que não tem práticas familiares, afastando dessa maneira as mulheres, já que

Ser mulher e ser cientista representam para muitas delas não a complexidade natural de uma vida plena de realizações [como para os homens, mas] a frustração por não poder realizar plenamente suas ambições profissionais, ou não ter possibilidade de realizar aquilo que a sociedade espera de todas as mulheres, quer elas desejam quer não, a maternidade (SOUZA, 2003).

Outro exemplo de barreira cultural que precisa ser quebrada é a que algumas mulheres passaram a ser, de certa forma, obrigadas pela sociedade a não entender de tecnologia e nem procurar sobre o assunto, já que se trata de um “assunto masculino”. Sulamita Garcia (2004) diz que “algumas pessoas acreditam que mulheres têm uma predisposição genética para não gostarem de computador. Isso é reforçado pelas mães, secretárias e namoradas que repetem, com orgulho, que não entendem nada e odeiam computadores”.
Essas barreiras e estereótipos são frutos da sociedade que, desde a infância, até por coisas bem simples como brincadeiras e jogos, vão ‘ensinando’ as mulheres a serem donas de casa, por meio de brincadeiras de interação social ou até mesmo brincar de boneca. Já as brincadeiras masculinas são encorajadoras da independência, da resolução de problemas e da experiência prática, o que, com o passar dos anos, fez o homem ter uma significativa afinidade com o mundo técnico-científico e com seus instrumentos e habilidades básicas.
O que acontece, porém, é que em determinados cargos as mulheres têm um desempenho muito superior ao dos homens, principalmente em atividades que precisem de contato com clientes e/ou muitas pessoas, comprovando que os estereótipos sociais influenciam por demais a execução do trabalho. Todavia, homens são mais bem remunerados e para as mulheres é mais difícil ter cargos de destaque e responsabilidades. São fatos que ainda hão de se modificar por meio da reeducação da sociedade.

2 A mulher no mercado atual

    Na década de 1970, a crise do petróleo afetou a economia brasileira, o que propiciou, entre os anos 80 e 90, um maior desenvolvimento da inclusão das mulheres no mercado de trabalho. Essas transformações, em âmbito global, tanto acadêmica quanto social, culminam no que alguns historiadores chamam de ‘pós-modernidade’, onde a informática e a comunicação exercem papéis protagonistas na disseminação de ideias que evidenciam o pensamento racionalista, logo, de inclusão. No caso brasileiro, as mulheres foram uma alternativa para os empresários que queria pagar menos para cada funcionário e devido à queda na renda familiar básica, foi a solução das famílias para melhorar as condições financeiras (FRANCHON, 2005).
O número de mulheres que seguem carreiras científicas aumentou nas últimas décadas, mas elas ainda são minoria nas ciências exatas e engenharias, e essa divisão ocorre tanto em países desenvolvidos quanto subdesenvolvidos (TABAK, 2002). Confirmando esse fato, Schwartz fez uma pesquisa que mostrou que, em 2005, cerca de apenas 30% dos alunos de pós-graduação nos cursos de Ciência e Engenharia da Computação no Brasil eram mulheres, e na graduação, entre 5 e 10%. A autora também fala que na Tailândia havia um projeto para ensino de informática nas escolas federais, e havia mais mulheres que homens, mostrando que a falta de incentivo ajuda a afastar mulheres da área.
Franchon afirma que as mulheres estão cada vez mais conseguindo cargos elevados dentro de organizações, o que exige conhecimento e domínio da tecnologia, e que tornam-as detentoras do poder da informação. Um dos fatores que favorece a entrada de mulheres no mundo da informática é que o trabalho está se tornando mais intelectual, e as atividades repetitivas estão ficando para as máquinas. A autora revela que pesquisas mostram que, na área de comunicação, onde os profissionais utilizam as tecnologias em conjunto com planos estratégicos e ficam atentos às inovações, mulheres são a maioria entre os estudantes e produtores de livros e artigos.
Apesar de tudo, como Rapkiewicz (1997) afirma,

Existem certas características que viraram praticamente clichês: as mulheres ganham menos, têm mais dificuldade de acesso a postos de chefia e responsabilidade, trabalham em setores da economia menos valorizados, ocupam os postos de trabalho que demandam menos qualificação.

Assim sendo, dentre as principais funções no mercado de trabalho da informática (sendo elas cinco, genericamente: analista de sistemas, programador, operador, digitador e preparador de dados), o que existe é um relativo domínio masculino nas atividades melhor remuneradas como analistas de sistemas, programação e cargos de operação de nível mais elevado. As atividades básicas da informática são feminizadas e também são as menos remuneradas.

2.1 Evolução da participação feminina

A tabela I demonstra a evolução da participação dos gêneros de 1986 a 1997. Nela é mostrada a desproporção dos gêneros, enquanto existe uma diferença considerável nas atividades melhor remuneradas, existe um equilíbrio nas atividades básicas da informática.
Tabela I – Evolução do emprego em TI segundo sexo no Brasil (1986 – 1997)

Ano 1986 1991 1993 1997
Ocupação % Masc % Fem % Masc % Fem % Masc % Fem % Masc % Fem
Analista 78,19

21,81

75,58 24,42 74,06 25,94 72,10 27,90
Programador 74,17 25,83 75,34 24,66 74,69 25,31 73,26 26,74
Operador 81,94 18,06 72,30 27,70 73,81 26,19 73,55 26,45
Operador de Micro - - - - 63,96 36,04 - -
Digitador 53,37 46,63 53,12 46,88 53,42 46,58

51,32

48,68
Perfurador 47,95 52,05 44,33 55,67 43,63 56,37 41,74 58,26
Conferidor 70,65 29,35 62,55 37,45 60,86 39,14 59,27 40,73

Fonte: RAIS e CAGED
    A porcentagem média de mulheres passou de 32,28% para 38,12%, um avanço de quase 6% no total. Nas operações mais básicas, como digitador(a), perfurador(a) e conferidor(a), a média de mulheres passou de 42,67% para 49,22%, e é justamente onde há maior quantidade destas.
No gráfico a seguir torna-se visível o processo de feminização das atividades básicas no setor da informática nos anos entre 1986 e 1997.
Gráfico 2 – Evolução do emprego de operadores no Brasil (1986 – 1997)
Fonte: RAIS e CAGED

Os dados apontam a verídica situação que ainda hoje impera no mercado de trabalho, inclusive no da informática, onde as mulheres se esforçam mais e recebem menos. Os frutos da sociedade machista e estereotipada são trabalhos subvalorizados. Todavia, uma pesquisa mais recente da Fundação Americana de Mulheres de Negócios, estima que cerca de 9,2 milhões delas exerçam tarefas de cargos de liderança atualmente, comprovando a outra teoria que mulheres são ótimas, devido também aos estereótipos da sociedade, em gerência de pessoas e de trabalhos.

Conclusão

O objetivo deste artigo foi debater acerca da reduzida participação feminina nos setores tecnológicos e apresentar suas causas. Foram citados vários motivos para esse fenômeno, como a doutrinação desde criança de que homens devem ser cientistas e mulheres devem cuidar da família, por exemplo. Foram apresentadas também algumas estatísticas comparando historicamente as participações das mulheres nos anos 90 e 2000, mostrando o crescimento dos números e, consequentemente, maior quantidade de mulheres em cargos relacionados à tecnologia. Apesar de tudo, é irrefutável que a participação feminina vem ganhando espaço em todas as vertentes, e na tecnologia não é diferente. Este artigo pretende mostrar ao leitor algumas das dificuldades encontradas pelas mulheres na luta por vagas no mercado de trabalho de TI com o passar do tempo. Procurar soluções para isso é um desafio, pois é uma questão que vai além do mercado de trabalho, englobando a família, o Estado e até a Igreja, além de um pensamento social preconceituoso (de que as mulheres são inferiores) que data de séculos atrás.

Referências Bibliográficas

RAPKIEWICZ, C. E. Informática: domínio masculino? Cadernos Pagu, Campinas, n. 10, p. 169-200, jan. 2012. Disponível em: . Acesso em: 07 nov. 2018.

SCHWARTZ, J.; CASAGRANDE, L. S.; LESZCYNSKI, S. A. C.; CARVALHO, M.G. de. Mulheres na informática: quais foram as pioneiras? Cadernos Pagu, Paraná, n. 27, p. 255-278, 2006. Disponível em: . Acesso em 07 nov. 2018.

FRANCHON, A. M. Mulher e Tecnologia: a assimilação e utilização do mundo digital por executivas de comunicação. Revista Evento Organicom, São Paulo, ano 2, n. 3, 2005.