Literatura do mundo bíblico: A escrita

Pretendemos tecer alguns comentários a respeito da literatura do mundo bíblico. Entretanto, e antes de tudo, precisamos esclarecer o que é isso que se nos apresenta como tema. Faz-se necessário, entender que estamos falando de uma produção referente a um período e dentro de um espaço determinados. Também se faz necessário entender que dentro desse tempo-espaço foi produzida uma vasta literatura que ultrapassa os limites dos escritos bíblicos e incorpora outras produções tanto dos judeus de outros povos da região. Por esse motivo, antes e além do tema central, se impõe a necessidade de se comparar a literatura bíblica e extrabíblica. Deve-se ressaltar que neste universo desenvolveram-se vários gêneros literários dentre os quais inúmeros deles foram incorporados entre os escritos bíblicos.

Uma das primeiras informações da qual devemos nos apropriar, para entender a literatura do mundo bíblico, é justamente o processo da produção e o significado da escrita. Sem ela não haveria nem a literatura nem o mundo bíblico, visto que estes existem a partir do pré suposto da escrita. Bíblia e literatura existem porque antes desenvolveu-se a comunicação escrita. E esta se tornou tão importante para a humanidade que se tornou “objeto de necessidade de domínio mundial”, afirma Gomes (2007).

O processo de comunicação que chamamos de escrita pode ser visto como uma das mais importantes criações do ser humano. Mas, também, não deixa de ser uma das marcas definidoras da sociedade humana: criada a partir de exigências econômicas, sociais e culturais e resultante, justamente, da capacidade que o homem desenvolveu para resolver problemas. Ao longo do desenvolvimento e do amadurecimento da sociedade humana, a escrita foi desenvolvida como elemento integrante de um processo de amadurecimento cultural. E, por extensão, promotora de novos saberes, na medida em que permite registrar os saberes já consagrados.

Trata-se de algo tão importante e decisivo para a sociedade humana que vários povos antigos consideravam a escrita como uma dádiva divina. A esse respeito afirma Queiroz (2005):

Os povos antigos tinham tal consideração e respeito pela escrita que a sua invenção foi atribuída às divindades ou aos heróis lendários. Os antigos egípcios atribuíam-na alternadamente a Tot e Ísis; os babilônios, a Nebo, filho de Marduk, que era o deus do destino; os gregos, a Hermes e a outros deuses do Olimpo. Uma antiga tradição judaica considerava Moisés o criador da escrita hebraica. E muitos outros povos, incluindo os chineses, os indianos e os habitantes pré- colombianos do México e da América Central, também acreditavam na origem divina da escrita.

Criada e desenvolvida para satisfazer diferentes exigências (econômicas, sociais e culturais) a escrita nasce da necessidade de comunicar para além da fala e preservar a fala quando esta já se calou. Isso implica dizer que a escrita tem uma dimensão de memória, pois preserva a comunicação na medida em que a registra materialmente impedindo o seu esquecimento, da mesma forma que na Grécia antiga a deusa Mnemosyne, preservava a criação dos poetas e outros artistas (Queiroz, 2005). Ou, de acordo com M. Chauí (2000), na ausência do texto escrito o artista e o historiador dependem da memoria, para “voltar ao passado”. Porém o registro da memória – a escrita – tem o

poder de conferir imortalidade aos mortais, pois quando o artista ou o historiador registram em suas obras a fisionomia, os gestos, os atos, os feitos e as palavras de um humano, este nunca será esquecido e, por isso, tornando-se memorável, não morrerá jamais. (CHAUÍ, 2000, 159)

Além disso a escrita é a materialização da fala ou o registro material da fala. A fala é uma comunicação sonora e instantânea. Entretanto, essa comunicação cessa tão logo a última sílaba da frase falada seja dita. Depois da fala, portanto, vem o silêncio. Daí a importância da escrita que é uma comunicação ou uma fala perene. O texto escrito mais do que transcendência é a transfiguração da fala. A fala imaterial se materializa no texto para que o discurso seja preservado.

A escrita é a contrapartida gráfica do discurso, é a fixação da linguagem falada numa forma permanente ou semipermanente. Por meio da escrita, a linguagem pode transcender as condições ordinárias de tempo e lugar (Queiroz, 2005)

Outra característica da escrita é que ela pode comunicar não só a fala articulada mas o pensamento não dito. A escrita tem o poder de dar forma e materialidade ao pensamento. Possuindo a capacidade de escrita o comunicador não tem necessidade da fala: pode dizer o que deseja, sem articular a fala; a escrita pode ser vista como a fala de quem deseja falar em silêncio ou uma “voz silenciosa”. O pensamento silencioso, materializado na escrita, preserva-se no texto a ser lido e, dessa forma, o leitor pode ter acesso ao pensamento ou a pedaços do pensamento de quem escreveu.

Não sabemos ao certo quando nem onde começou essa aventura da comunicação. As poucas informações a que temos acesso nos indicam que os rudimentos da escrita podem ser associados aos desenhos rupestres produzidos pelos povos antigos. Mas os símbolos, considerados precursores do nosso atual alfabeto, desenvolveram-se a partir dos símbolos cuneiformes e dos hieroglifos, produzidos na antiga Mesopotâmia e Egito. Daí a profunda relação entre o surgimento da escrita e a literatura do mundo bíblico.

Referências e leituras complementares

ALVES, Alexandre; OLIVEIRA, Letícia F. Conexões com a história. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2016

BÍBLIA comigo: disponível em: https://www.capuchinhos.org/biblia2/biblia-comigo acesso em 25/11/2017.

CAGLIARI, Luiz Carlos. A Origem do Alfabeto. Disponível em: https://dalete.com.br/saber/origem.pdf acesso em 26/12/1017

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. S. Paulo: Ática, 2000.

CARNEIRO, Neri de P. O Nascimento da História ou o processo humano. In: www.webartigos.com. Publicado em 25 de Janeiro de 2010. Disponível em: https://www.webartigos.com/artigos/o-nascimento-da-historia-ou-o-processo-humano/31570#ixzz4zqXSiVCy. Acesso em 29/11/2017

ENUMA-ELISH: O Épico Da Criação. Tradução L.W. King. Disponível em: https://docplayer.com.br/37012145-Enuma-elish-o-epico-da-criacao-l-w-king-tradutor.html . Acesso em 15/07/2013

EPOPEIA DE GILGAMESH - Tradução de Carlos Daudt de Oliveira. Disponível em: https://geha.paginas.ufsc.br/files/2017/04/A-Epop%C3%A9ia-de-Gilgamesh.-Tradu%C3%A7%C3%A3o-de-Carlos-Daudt-de-Oliveira.-Martins-fontes-2011.-ISBN-85-336-1389-X.pdf. Acesso em 02/09/2017

GIOVANI, Mário Curtis História da Antiguidade Oriental. 5 ed. Petrópolis: Vozes. 1981

GOMES, Eduardo de Castro. A escrita na História da humanidade . In. Dialógica, Revista Eletrônica da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas. vol.1 n.3. 2007. Disponível em: https://dialogica.ufam.edu.br/dialogican3.htm. Acesso em: 16/11/2017

QUEIROZ, Rita de C. R. de. A informação escrita: do manuscrito ao texto virtual. in. Laboratório de Interação Mediada por Computador - UFRGS. Portal da escrita coletiva - links. 2005. Disponível em: https://www.ufrgs.br/limc/escritacoletiva. Acesso em 16/11/2017

SANTIAGO, Emerson. Crescente Fértil. In: infoescola.com. Diponível em: https://www.infoescola.com/geografia/crescente-fertil/ acesso em: 30/ 11/ 2017

Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação; filósofo, teólogo, historiador.

Rolim de Moura – RO