O catolicismo acompanhou de perto o caminhar da humanidade. Sua importância não se localiza apenas nas fronteiras da fé e nem no rico simbolismo sagrado. Indo para além dos ritos sacros e das liturgias, a Igreja cristã, dos monastérios às dioceses, nos legou uma grande contribuição cultural e social jesuítica no processo de colonização, no desenvolvimento de capitanias, na literatura de informação e num detalhado conjunto de escritos que nos permitem compreender os contextos históricos. Diante disso, o artigo pretende destacar a importância dos apontamentos católicos para a formação do Piauí, assim como tenta sublinhar as contribuições de padres que também ajudaram de forma decisiva no processo de desbravamentos dos chamados sertões de dentro.

1. O LEGADO CATÓLICO

Cristianismo. Sagrado. Mosteiros. Jesuítas e padres. Este conjunto de nomes são próximos e familiares. Talvez diferem no uso dos conceitos, mas todos fazem parte da mesma arquitetura, do mesmo corpo e do mesmo conjunto embrionário, que é a Igreja Católica. Pensar a cristandade e o cristianismo (existe uma diferença entre os dois) é refletir sobre uma constelação de eventos, acontecimentos e fatos que, na curta, média ou longa duração, rastejam até os nossos dias, dando continuidade aos mais diversos aspectos das sociedades. A Igreja – e não falo apenas da instituição eclesiástica, mas toda a dinâmica clerical que orna o catolicismo – explica, dentro de certos limites, os mais diversos âmbitos do corpo social, cultural e político. Explicações livres do jugo dogmático? Talvez nem tanto. Provavelmente nada nos séculos de São Luís ou de Henrique VIII (não quereremos demonizar os medievais e modernos, e, menos ainda, cair nos precipícios dos anacronismos). O que se sabe, no entanto, é que para além de qualquer preconceito, a Igreja foi responsável por um intenso legado cultural, principalmente no que diz respeito aos escritos. Seja nos mosteiros (com o intensivo e penosos copiar dos monges) ou nas hagiografias, cartas, ofícios, sermões, bulas, etc., os religiosos das mais diversas ordens nos permitiram saber algumas coisas, alguns contextos. A época de fabricação dos seus escritos, o momento em que suas penas contornaram longos pergaminhos e epístolas, denunciaram jogos políticos intensos e disputas de poderes acirrados; aspergiram até nas formas de percepção do tempo e dos espaços. Outro legado importante é a participação do corpo eclesiástico nos lugares onde se estabeleceram. Alguns dirão que esses lugares foram palco para aculturação, outros para a dedicação e educação. O que se sabe é que por onde as batinas e escapulários passaram, os processos históricos foram registrados e percebidos – seja por meio do ofício religioso, das missões, catequeses ou da implantação de dioceses e bispados. Pensando nisso, decidimos elaborar a importância dos padres católicos, bem como a colaboração dos jesuítas nas fazendas, para a construção e para as percepções sobre o Piauí. Tendo em vista que não foram apenas bandeirantes portugueses que contribuíram de forma decisiva para o que hoje se conhece como o Estado do Piauí – e com isso queremos discutir os processos de desbravamentos, sem ofuscar, de maneira alguma, o legado do índio e do negro – alocaremos nossa pesquisa no aporte dos eclesiásticos, passando pelas suas entradas e sua expulsão em 1759. No entanto, percebemos que seria de profunda importância entender um pouco a dinâmica da Igreja e alguns de seus desfechos, numa tentativa de melhor compreensão e detalhamento dos acontecimentos, antes mesmo de nos atermos à história regional. Abramos, então, as janelas históricas. [...]