O Delegado Gentil e seu universo:

Data: 25.09.08. Horário: 14:20h.  Havia recebido o recado da policial Patrícia Angélica avisando que tinha uma ligação na sua sala e que era da Delegada Marilisa querendo conversar comigo, mas que era um assunto particular. Fiz uma careta e pedi que dissesse a ela que eu ligaria logo em seguida, pois estava ocupado. Patrícia Angélica repassou o recado.

Por volta das dezesseis horas e quinze minutos liguei para a Delegacia da Mulher e conversei com uma policial que me avisou que Marilisa estava na repartição, porém fazendo um atendimento. Pedi que retransmitisse um recado avisando que o “Felipe” havia ligado.

Às 16:30h o Delegado Gentil João Ramos veio até minha sala pedir dez reais para ajudar a comprar um presente para o Delegado Feijó que estava de aniversário. Olhei para Gentil e argumentei  que não teria problema algum e ele  deixou minha sala alertando em tom de gozação:

- “Olha, Felipe, não te esquece, a festa é às dezessete horas lá embaixo...”.

Respondi:

- “Pode deixar que estarei lá”.

Depois que Gentil partiu fiquei pensando: “Bom, pelo menos o Gentil tem esse predicativo do sujeito...”. Lembrei a época do Delegado Hilton Vieira na direção do órgão correcional, depois, mais remotamente, da gestão de Jorge Xavier à frente da direção da Polícia Civil... Na sequência passou  um filme daquele célebre encontro no gabinete do Delegado Regional de Itajaí (Sílvio Gomes Filho), justamente quando estava pedindo apoio ao nosso projeto da “indenização aposentatória”. Nessa ocasião o Delegado Gentil ao se aproximar e tomar conhecimento das minhas idéias passou a discursar que  nosso projeto não daria em nada e, ainda, de forma ácida, começou a criticar o governo. Aliás, nosso opositor passou a verberar que muitas outras coisas bem mais importantes tinham que ser feitas, que era uma vergonha a nossa situação institucional...  Pensei: “Esse seria o grande projeto de Gentil? Recolher dez reais de cada um no prédio da Corregedoria para comprar uma lembrancinha de aniversário para um dos homens fortes da Secretaria da Segurança Pública, nada mais nada menos que o Corregedor-Geral e Delegado Especial Ricardo Feijó que transitava livremente pelos canais superiores, respirava poder, como era bom estar próximo de quem tem poder...”. . Depois, pensei mais um pouco: “Esse Gentil é mesmo um cara de pau...”. Por último me veio a lembrança Jorge Xavier e fiquei curioso por encontrá-lo para perguntar  qual teria sido a tão decantada grande traição de Gentil na época em comandou a Polícia Civil já que Gentil foi um dos seus principais assessores? Será que Gentil realmente aprontou mais uma das suas...?” Ninguém poderia negar que Gentil sabia como ninguém ser habilidoso, simpático e passei a acreditar  piamente que a história dele se fazer de esquecido poderia ser tudo uma grande encenação. Na verdade Gentil poderia ser um grande esperto que via tudo, mas se fazia de  tolo para conviver animadamente com seus pares de casaca.  Uma das jogadas de Gentil era  transitar no meio da patuléia policial e se fazer de querido, sempre com propostas de festas, encontros...

O universo do Investigador “Zico”:

Outra estratégia  era as suas investidas filantrópicas, como arranjar roupas a título de doação para o policial “Zico” (bastante necessitado), e nisso tinha relevância o fato de ser membro da maçonaria, o que lhe emprestava respeito, poder reverencial ... E por que fazia isso? Bom, “Zico” tinha  vários dons: era falastrão, crítico (do governo, do sistema, dos superiores e colegas, da instituição...), ranzinza, metido, amargo, formava opinião no baixo clero policial, circulava  em vários extratos classista, possuía contatos políticos (prova disso era que trabalhou na campanha do Delegado Ricardo Thomé a Deputado Federal, ajudou o Delegado Mário Martins nas suas eleições também à Câmara Federal e  segundo comentários estaria  trabalhando para o candidato a Prefeito da Capital César Souza Junior (Partido Democratas), além disso tudo era homem de informação... “Zico” tinha o perfil  para quem gostava de aplicar a doutrina de Maquiavel, usar  meios de dominação classista, disseminar informações ambíguas, ser instrumento para cartadas, jogadas, arranjos, alianças..., e tudo isso poderia ser bem ao gosto do Delegado Gentil”. Se perguntasse a “Zico” o que ele acharia desses comentários certamente que sua resposta seria esta: “Doutor, quem sou eu? Não sou ninguém, sou um ‘f.’...”. Era sempre assim, no fundo ele reconhecia a sua condição..., a começar, como vítima do sistema.

O pós de uma  “Balada Efigênica:

Por volta das  dezesseis horas e vinte minutos o telefone do meu gabinete tocou e já desconfiava que só poderia ser a doce  Marilisa, e era!. Com a voz determinada e bem diferente das outras vezes, talvez como resquícios da nossa “balada efigênica“ que mudou nossas vias,  ela deu as boas novas:

- “Oi meu querido, tudo bem?” 

Sim, só poderia ser Marilisa com sua nova roupagem. Respondi que estava tudo certo e comentei:

- “Ah, recebi o teu recado. Liguei, não te deram o recado?”

Marilisa respondeu:

- “Quando que tu ligasses? Faz tempo?”

Respondi:

- “É faz uma hora mais ou menos”.

Marilisa interrompeu:

- “Ah, sim, eu estava circulando. Eu estava atendendo. Mas olha só, quem esteve aqui na Delegacia foi a advogada Hydee, ela queria saber se as procurações já vieram, porque o fórum fecha a partir de dezembro e aí tu visses?”

Interrompi:

- “Sim, eu sei. É que ainda não ficaram prontas. Quando as procurações ficarem prontas eu te repasso, pode deixar”.

O conjunto da obra:

Marilisa ainda tentou falar mais alguma coisa, no entanto, como estava querendo passar firmeza, segurança, determinação... resolvi colaborar com aquela sua maneira de encarar o “conjunto da obra”. As procurações que Marilisa se referiu era de um favor que estava fazendo para uma família necessitada de São Francisco do Sul e era para resgatar um dinheiro de menores relativo a venda de um imóvel vinculado a um inventário, quando ainda os mesmos eram menores. 

A festa de aniversário do Delegado Feijó (Corregedor-Geral da Segurança Pública):

Por volta das  dezessete horas fui avisado que iria começar a festa de aniversário do Delegado Ricardo Feijó, Corregedor-Geral de Segurança Pública no andar térreo (cozinha do prédio). Esperei alguns instantes e logo que percebi que  o Corregedor Nilton Andrade da sala ao lado já havia descido  resolvi perguntar para  Patrícia Angélica se ela não participaria da festa e ela que  costumava não perder uma festa de aniversário, meio que arredia, respondeu:

- “Não, doutor, eu não vou...”.

Resolvi então descer  e logo que cheguei na entrada da cozinha avistei a Escrivã Margarete Jansen e a Escrevente Graziela junto à porta de acesso. Na parte interna distingui o Delegado Adriano Luz e mais que uma dezena de policiais se batendo naquele pequeno espaço. Resolvi dar meia volta e retornei para minha sala imediatamente, sendo que no curto trajeto pensei: “Melhor assim, não pela pessoa do Feijó, mas até que uma pessoa ‘esperta’, durante todo o governo Luiz Henrique, tem conseguido se dar  muitíssimo bem, comendo caviar, arrotando na cara do pessoal de baixo... Além disso, é um dos grandes responsáveis pelos desastres que passou a instituição durante o governo do PMDB, pois sempre respirou o poder no mais alto nível, chegou a estimular os Peritos Criminalísticos a se emanciparem da Polícia Civil, também, nada fez contra o fim da Corregedoria-Geral da Polícia Civil, sem contar sua omissão diante da caótica  situação salarial dos policiais, nenhum projeto para melhorar os serviços correcionais... Mas, o lamentável disso tudo é como o poder corrompe, e o poder absoluta mais ainda. Como é que tanta gente foi prestigiar o seu aniversário, todos comendo bolos, externando sorrisos, super  agradáveis, solícitos, empenhados, comprometidos...”.