O augusto:

Data: 09.09.08. Horário: 09:00h.  Tinha acabado de chegar na Delegacia Regional de Joinville e logo que acessei o piso superior e passei em frente a recepção avisteio Delegado Dirceu Silveira conversando com alguém. Procurei passar rápido para não ser notado e, em seguida fiz uma “careta” para a recepcionista com aqueles seus olhos expressivos dando a nítida impressão que queria ser invisível.

A seguir, tracei uma trajetória sem obstáculos eme tranquei na salinha da “Corregedoria” na companhia da policial Patrícia Angélica. E, assim, as audiências que estavam agendadas para aquela manhã se iniciaram em ritmo frenético. Passados uns vinte minutos Dirceu Silveira apareceu na salinha para me cumprimentar não só para dar o ar da sua graça, possivelmente avisado pela sua doce secretária, mas também como se quisesse dizer nas entrelinhas que ali era ele o dono do pedaço e que nenhum dos seus pares poderia estar no prédio sem o seu conhecimento (ou consentimento). Dirceu Silveira trajava um terno a caráter, de maneira bem apessoado e sorridente. Aquela sua expressão augusta mais parecia um misto de agrado e ao mesmo tempo de impor como superior e uma forma de externar poder. Interrompi a audiência e disse:

- “Passei ali pela teu gabinete mas tu estavas atendendo alguém, então não quis atrapalhar...”.

Dirceu Silveira apenas sorriu e me deu um aperto de mão. Aproveitei para comentar que no intervalo da audiência daria uma chegada até seu gabinete para o seu já tradicional cafezinho.

Por volta das onze horas aproximadamente me dirigi até o gabinete de Dirceu Silveira, antes perguntei reservadamente para a recepcionista se foi ela que disse para o “DRP” que eu estava na área e veio a confirmação meio que timidamente, mas que deixava claro que eram ordens superiores, ou seja, o “chefe” queria ficar informado de tudo, inclusive a respeito de determinadas pessoas que frequentam o prédio. Na sequência acessei o gabinete de Dirceu Silveira e fui me acomodando numa das cadeira a sua frente. O assunto que tomou conta das nossas atenções foram a respeito das esperanças que a Presidenta da “Adpesc” andavaintrojetando na mente dos Delegados. Dirceu Silveira interveio para relatar:

- “Meu Deus, como é que pode essa mulher ficar falando essas coisas, não dá né Felipe, eles pensam que a gente é bobo, sei lá. Imagina, um Delegado desses novos aqui ganha líquido três mil e poucos reais por mês, uma vergonha...”.

Interrompi, lembrando da conversa com o Delegado Rodrigo Coronha, para provocar:

- “Pois é, mas a Sonêa andou espalhando por aí que no mês de outubro os Delegados iriam  sorrir, seria só alegria, tu visses?”

Dirceu Silveira olhou na minha direção, rodopiou na sua cadeira giratória, e foi dizendo:

- “Que nada, não tem nada, é tudo conversa...”.

Interrompi:

- “Ah, mas Dirceu, acho que nós temos que ser otimistas, não é? Nós temos que espalhar isso para os quatro cantos, temos que dizer que confiamos plenamente nas promessas da nossa presidenta...”.

Dirceu intercedeu com aquele seu sorriso picante:

- “Ah, tá bom, entendi, nós vamos para a Assembleia da ‘Adpesc’ e fazer de conta que acreditamos nessas promessas? Felipe a situação está quase insuportável, os Delegados novos estão ganhando líquido três mil e novecentos reais, isso é uma vergonha, eu já disse: ‘neguinho, o que tu estais fazendo aqui? Faz concurso e cai fora...’. Bom, na semana passada eu estava numa solenidade lá na Academia da Polícia Civil em Florianópolis e encontrei o ‘Neves’ (Delegado e esposo da Delegada SonêaPresidente da ‘Adpesc’) e fui perguntando para ele se era verdade que no mês de outubro os Delegados vão estar com o sorriso lá nas alturas.  O ‘Neves’ me olhou sério, fez uma cara, e foi dizendo que não era verdade, que não tinha nada de concreto, que era tudo mentira, não havia promessa alguma de melhoria salarial para os Delegados. Eu sei que a Sonéia estava lá no sul do Estado fazendo Assembleia Itinerante,  recebeu um telefonema do ‘Neves’ e foi logo mudando o discurso...”.

Interrompi:

- “Mas tu visses a nota da ‘Adpesc’ no ‘site’, não? Ela convocou o pessoal para o encontro dos Delegados lá em Balneário Camboriú, disse que vai ser um encontro histórico, para não ser esquecido durante muito tempo. Tu lesses isso no ‘site’ , lesses Dirceu?”

Veio a confirmação e eu adicionei:

- “Pois é, então o que ela quis dizer com isso?”

Depois mudamos de astral e o assunto passou a ser o “Delegado José Antônio Peixoto” e Dirceu Silveira foi lamentando os fatos ocorridos envolvendo esse personagem, chegando a relatar certas histórias envolvendo o colega que foi seu adjunto na Delegacia-Geral e o ;Cônsul Marroquino”. Dirceu Silveira foi relatando:

- “Felipe ele já era amigo desse Cônsul há uns quinze anos, sempre falava dele. Eu sei que uma vez esse Cônsul deu de presente para o Peixoto um relógio de ouro bonito. Ele veio com o relógio no pulso... Depois o Peixoto veio dizer que tinha perdido o relógio, imagina, eu acho que ele vendeu. Bom, agora ele está lá em Blumenau internado numa clínica psiquiátrica, eu não esperava isso dele...”.

Interrompi:

- “Eu sim! Era bem possível”.

 Dirceu Silveira pareceu curioso enquanto continuei a conversa:

- “Bom, eu acho que foi na tua época, houve a compra de um monte de ‘noteboocks’ na Secretaria da Segurança Pública e muitos computadores vieram para a Polícia Civil. Pois bem, certas pessoas disseram que o Peixoto havia se apropriado de umas máquinas e deu para a ‘namorada’, para outras pessoas, não sei se é verdade...”.

Dirceu Silveira fez uma cara de quem deveria saber de alguma coisa, mas preferiu a técnica de ficar com as orelhas de pé e falar o mínimo possível, até em razão da ligação entre ambos. Aliás, Dirceu  Silveiraera uma pessoa bastante habilidosa, pois essa história de me querer bem perto dos seus olhos parecia que funcionava não só pela proximidade, mas para saber das “boas novas”. Conversamos também sobre as denúncias contra o Delegado Ivan Brandt de São Francisco do Syul, flagrado usando a viatura policial caracterizada em Joinville, dando carona para uma mulher no centro da cidade. Dirceu Silveira saiu em defesa do Delegado Ivan, pois o mesmo sempre foi muito dedicado aos serviços, possuía mais de trinta anos de serviços, então qual seria o motivo para essa marcação da imprensa. Argumentei que o grande problema era que o “Grupo RBS” do pedaço em termos de formar opinião, acima deles só Deus?

O Corregedor Nilton Andrade entra em cena (o caso “Peixoto”):

Por volta das quinze horas e seis minutos já estava na Corregedoria da Polícia Civil (Florianópolis) e o Corregedor Nilton Andrade veio até minha sala para conversar sobre o envolvendo o Delegado Peixoto. Nilton Andrade acabou fazendo um relato do que ocorreu:

- “... Na semana passada eu estive na Polinter e o Peixoto estava lá com um fone de ouvido ouvindo conversas, provavelmente sobre investigações. Eu conversei com ele e pude perceber que ele conversava comigo, mas estava grudado no fone de ouvido. De vez enquanto ele colocava o fone de ouvido para ouvir conversas e era sobre o caso do Cônsul... Imagina, nessa hora o pessoal veio me pressionar para requerer a prisão preventiva dele, mas eu não aceitei. O Ilson (Silva, Diretor da Deic) me ligou cobrando essa medida. Ele queria que eu pedisse de qualquer jeito a preventiva...”.

Interrompi:

- “Ah, mas não dá, né? Nós não podemos esquecer o que o Peixoto fez de bom para a instituição nesses trinta e tantos anos de serviço, não é?”

Nilton me interrompeu:

- “Claro, mas não foi só o Ilson que veio me pressionar. O Dirceu lá de Joinville também disse que era para ‘ferrar’ com o Peixoto, então tu vê, Felipe, não é só o Ilson, tem mais gente que entende diferente, que tem que arrombar com ele, mas eu não concordo com isso...”.

Interrompi:

- “Bom, o Ilson é uma boa pessoa, mas nessas coisas ele é muito radical, bastante difícil de lidar, chega a ser implacável com os colegas. Eu acho que tu estais certo, Nilton, nós não podemos esquecer tudo de bom que o Peixoto fez, afinal, foram mais de trinta anos de serviço. Depois, isso que aconteceu com ele tem que ser melhor esclarecido...”.

Nilton Andrade relatou que Peixoto se encontrava numa clínica em Blumenau provavelmente por recomendação de seu advogado. Argumentei que tinha visto o nome do Thomé no jornal e achei que era coisa dele internar o Peixoto, e se foi isso seria uma boa sacada, justamente numa hora em que tem colegas implacáveis,  era preciso reconhecer que o Peixoto fez muita coisa boa e que pode ter tido problemas de saúde, distúrbios mentais...”.